sexta-feira, 8 de maio de 2015

O Negro Rei 8



Ideruba, volta ao alojamento na ala masculina do palácio.
Estava frio como nunca, naquele recinto de paredes de pedra com um pé direito de dez metros.
A umidade se fazia presente com suas linhas liquidas marcando as paredes. O ar quente de duas lareiras subia para o teto, formando um suave e invisível colchão de calor. Estendeu seu corpo, prazerosamente cansado, sobre uma manta; completamente incógnito, inserido sob o forro do teto! Ele mesmo é quem removera algumas tábuas, ao acessar o mezanino, seu ponto preferido, para resguardar-se da companhia dos outros.
Trazia consigo aceso um pequeno lampião a querosene e nesse momento dedicava-se a pensar. Pensava na duquesa. Rabiscava com a ponta de seu canivete eróticas representações. Ria-se sozinho da impressão que lhe davam depois de concluídas e ao imaginar o que diriam os outros se, algum dia, pudessem vê-las.
Pouco importava, na verdade.
Aqueles, se fingindo de santos; só o que lhes apetecia era o fazer troça da nobreza velha e encarquilhada às escondidas. De sua senilidade e da vergonhosa incontinência de bexiga; assim como frequentar lupanares, esvaziar botelhas e mais botelhas de vinho ou absinto, sempre acompanhadas de fumos intoxicantes, vindos do lascivo Oriente.
Geração de vadios! Sua inspiração para isso era sem dúvida o próprio Rei Frederico.

Com sua hipocrisia épica; dava discursos em louvores à honra do povo dinamarquês comparada à devassidão da Suécia e Europa! Mas muitos sabiam de seus gostos libertinos; das noitadas desfrutadas nas camas de prostitutas muito bem pagas. O próprio menino testemunhara vários desses compromissos reais.

Desde que se juntara a côrte de Frederico, Iderubah passara a ocupar a ala destinada as crianças.
A principio seu papel era o de um curioso e bonitinho bicho de estimação para as amas e para os fedelhos das mais variadas idades. Junto aos filhos de Frederico, na ala das crianças, haviam filhos de diplomatas em visita ao país, princesas infantes de outros reinos comprometidas em casamento desde tenra idade; parecendo mais em caráter de reféns ou apólices de seguro do que noivas, como costumava debochar a nobreza.
Ele não ousava tocar ou se dirigir a nenhuma daquelas crianças. Mantinha sempre um semblante sério e inexpressivo; o que só aumentava o interesse e a compaixão daqueles que o adivinhavam órfão, desgarrado de uma terra longínqua. Encantados pela beleza de seus olhos gigantes de cílios espessos, não imaginavam o ódio puro que o corroía.
Detestava aquelas bochechas gordas pálidas mastigando mingaus barulhentamente; os narizes diminutos escorrendo ranho; o cheiro das fraldas; a fala manhosa enjoada daquelas velhas babás.
Preferia sim era passar o tempo na companhia dos cães ou no galpão de caça, bisbilhotando artefatos de falcoaria, ganchos e punhais junto ao arsenal. Recebeu preciosas lições de cutelaria e esgrima. Suas mãos viviam calejadas e com cortes que ele nem ligava.
Também aprendeu a encilhar e a montar.
Jurava, secretamente, que um dia fugiria levando o puro sangue mais amado do grande merdão Frederico IV!
Imaginava-se numa colina, com os gigantes intocáveis encobrindo-o e enfrentando, ao lado deles, toda a armada de guerra e soldados de Frederico. Os esperaria com uma espada em punho e com uma garrucha explosiva bem carregada, uma de prata ou daquelas niqueladas do arsenal.
Mataria todos os fantasmas; incendiaria toda a Dinamarca; roubaria uma daquelas Naus e voltaria para a terra de suas mães.
Contaria sua história e seria reverenciado como um valoroso pai.
Ensinaria aos pequenos a nunca se afastar sozinhos quando brincassem de imitar o “jaguar sem medo”. Ensinaria aos pequenos a não pisar a terra fresca recém-remexida, sem olhar antes e muito atentamente para o alto. Ensinaria a prestar atenção e afastar-se do cheiro de fumo estranho misturado a sujeira e suor.
Golpearia todos aqueles fantasmas medonhos que maltrataram meninas e arrancaram os bebês dos braços de suas mães. Nunca mais choraria contra travesseiros mofados, arrebentando o próprio peito para esconder os sons de seus vergonhosos soluços. Nunca mais choraria na vida.
Quando foi considerado grande demais para a ala infantil, passou a ocupar a ala masculina e por bem, teve de se submeter as suas normas rígidas, além de aturar as brincadeiras maldosas dos outros; como a vez em que sua coberta de penas ficou encharcada, ou quando rasgaram todos os seus desenhos.
Não tinha amigos ali; sabia disso. A inveja por sua proximidade com o Rei era notória. Quem ele pensava que era? Um bastardo de pele retinta ter mais privilégios do que os filhos de presbíteros e de militares? Onde já se viu?
E claro que precisava pagar um preço por tal ousadia. 
No início, quando seu corpo ainda era franzino, vivia com inchaços, hematomas e arranhões em regiões do seu corpo que não ficavam à mostra. Ombros, peito, abdome. Seu corpo era um mapa de cicatrizes de mordidas, de chutes, de golpes. Todos recebidos sem que emitisse um único pio. Parecia até que tudo aquilo o fortalecia. Ao menos a sua convicção de que em ninguém deveria confiar e de que algum dia teria sua vingança, apenas recrudescia com aquele tratamento tão especial. Não se amedrontava, pois assistira atrocidades centenas de vezes piores. Sobrevivera e seguiria sobrevivendo. A medida em que crescia, seu corpo adquiria mais músculos e seu contra-ataque tornava-se respeitavelmente duro. Depois de alguns braços torcidos e dentes partidos, seus amigos resolveram deixá-lo sossegado. Nada como um bom dialogo...
Claro que todos já notavam sua proximidade com a duquesa. As fofocas eram o prato preferido na corte; mesmo entre os que se diziam gentis homens e Iderubah era alvo de vigilância, assim como qualquer um que estivesse próximo a Frederico. Como não seria, se a maioria das damas suspirava ao vê-lo passar com seu porte adorável e voltar-se afavelmente, sempre com um comentário atencioso? Desdobrava-se de modo cada vez mais charmoso e seguro, a medida em que adquiria traquejo e autoconfiança.
E sua autoconfiança, além de prestígio, foram aumentados no exato dia em que se interpôs entre Frederico e o ataque de um javali!
A madrugada era estranhamente abafada.
A comitiva do Rei embrenhava-se na densidade da floresta, rastreando incansavelmente o animal por várias horas. Ele surgiu de repente de trás de uma linha de arbustos altos num galope decidido. Frederico havia cometido o erro de desmontar, na intenção de agachar-se e apalpar as pegadas deixadas numa trilha fresca com vestígios de pelos do animal e foi nesse momento que sua guarda esteve desastrosamente vulnerável.
Não fosse a coragem absurda do jovem africano atirando-se de sua montaria com a lança empunhada em direção a goela do bicho, Frederico teria sido feito em pedaços, já que o animal, mesmo trespassado, prosseguia em sua trajetória de ataque sendo detido somente pelo aparato de bloqueio disposto na própria lança.
Em sua fúria sobrenatural, prosseguia guinchando e mastigando a esmo com sua boca descomunal trituradora de ossos.
Tinha por volta de duzentos quilos e uma pelagem azulada que brilhava contra os últimos raios de sol daquela tarde em sincronia com a frequência acelerada de seu resfolegar.
Frederico apresentava um aspecto apático. As roupas e botas enlameadas; caído no solo de pernas abertas, tratou logo de recompôr-se e assumir sua fleuma real típica.
Com agilidade ergueu-se de pé num salto e tratou de aproximar-se do animal moribundo que, por pouco, não o fatiara com suas mandíbulas.
Sua mão tremiam. Examinou cauteloso aquele animal incrível e considerou-o tão temível quanto um leão africano ou até mesmo pior: Recordou-se dos relatos perturbadores na imprensa aquela época sobre a misteriosa e horrenda besta que atemorizava os moradores de Avignon, na França. Circulando os vilarejos e devorando suas vítimas. Famílias inteiras! Desaparecendo de modo sobrenatural. Escapando incólume de todas as armadilhas e tentativas de captura.
Se ao menos os franceses tivessem a seu lado um bravo como Iderubah!
O feito do jovem espalhou-se como rastilho e encantou a corte por meses. Frederico resolveu lhe dar um título de marquês como reconhecimento. Uma substancial fortuna em ouro e prata, advinda do patrimônio pessoal do próprio Frederico. Além de terras e propriedades que passariam para sua jurisdição. Mas antes que se estabelecesse nas terras e assumisse suas obrigações como marquês, foi decidido que deveria estudar Direito Canônico e Tributário na Universidade.
Frederico resolveu torná-lo um presbítero.




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