terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O Negro Rei (7).

Perfume de alfazema! Ideribah teve a visão de sua vida.
Ela vinha até ele com os cabelos encobertos pelo reflexo da luz do sol e causou em seu peito um calor impossível de explicar.
Duquesa Caroline Elouise Grimaldi.
A mais nova dama de companhia da rainha, possuía olhos de um negror condensado em mistério. Seu sorriso discreto e sua risada agradável provocavam. Davam delícia e sentido à vida.
De um momento para o outro, o jovem passou a gaguejar e a esquecer seus talheres suspensos no ar, sua comida intocada no prato e a ter seus ouvidos surdos a maioria das pessoas.
Ela chegara da França e trazia em sua bagagem, não só o vestuário decotado à moda parisiense, que foi instada a tornar mais discreto, como também uma maneira de lidar com todos, que os fazia ficar quase sem jeito. Embevecidos!
Acompanhava a rainha em seus retiros no campo e em suas longas caminhadas pelos jardins palacianos. Passou a estar presente quando Ideribah recebia lições de sua majestade. Latim, música, Língua inglesa.

Caroline Elouise aproximava-se.
Recitava poemas que saiam de sua delicada boca ritmadamente como conjurações mágicas; sempre acompanhados de um brilho especial em seu olhar.
Seu olhos capturavam o olhar dele, quando a rainha não podia flagrá-la. Damas de companhia da realeza deveriam ter compostura. E Caroline Eloise estava na corte de Frederico representando um protocolo de requinte e boa vontade entre a França e a Dinamarca. Qualquer maledicência, ou fofoca arranharia a imagem do próprio Rei Loui.
Ideribah sentia as orelhas pegar fogo com aqueles flertes. As calças comprimiam...
Caroline Eloise aproximava-se.

Seu perfume invadia os sonhos do jovem de quinze anos.
  Aproximava-se...
Em um recanto de uma das esplanadas, após mais um dos protocolados e longos jantares da corte, Caroline Eloise finalmente chegou-se, surpreendendo o arredio rapaz. O som de sua rouca voz, fez com que o coração dele disparasse frenético:
-Há um personagem marcante na obra de um autor de nome Shakespeare, monsieur Kriger. Faz-me lembrar de ti. Ele é o fascinante e atormentado Othelo.

Ideribah simplesmente paralisou. Sua voz não saia.
Camile Eloise chegou-se mais:
-Tu já conheces? Um general mouro... -Um sorriso insistente perdurou no rosto da duquesa Grimaldi, sem que isso fizesse com que Ideribah movesse um único músculo.

Diante da súbita afazia do menino, ela, delicadamente, continuou:
-Sua Majestade, o Rei Loui apresentou-nos versos dessa peça. Vossa Alteza é um homem afeito à dramaturgia; isso cá entre nós. -Ela sorriu lindamente, com ar de cumplicidade jovial. -De fato; Loui conhece de cor a maioria da obra desse Shakespeare. Chamam-no de “O bardo”. Tão típico dos ingleses... Oh! Pardon... Eu o aborreço monsieur Kriger?

Tudo o que o jovem conseguiu dar como resposta foi:
-Não, não! De modo algum, querida amiga... -E numa pronta e urgente reverência diante da duquesa... -Não... não me queira mal. Sou um terrível mal-educado. Perdão!
Um leve sorriso marcou-se em um canto dos lábios de Caroline Eloise; a qual estava perfeitamente ciente, do efeito que causava em seu interlocutor:
-Será perdoado, se me acompanhar num breve passeio pelo jardim das fontes. É sempre tão agradável....

Sempre sorrindo, ela ofereceu a mão ao encontro do braço de seu nervoso acompanhante.
Ideribah custava a acreditar naquela proximidade e estava fascinado pelo brilho daqueles olhos tão negros. Rios caudalosos de suor deslizavam pelas suas costas.
Sentia uma agudeza no estômago, devido o temor de que aquilo se tratasse de um sonho e, ao mesmo tempo, por sentir uma estranha ânsia em ver-se livre.
Livre de ter de manter conversação num nível condizente com tão versada mulher. De ter de mantê-la entretida com sua pueril e pouco traquejada companhia.
Mas Caroline Eloise era, inegavelmente, adorável.
Mantinha-se falando de assuntos amenos num tom jovial envolvente que, aos poucos, faziam-no sentir-se na companhia de uma inofensiva e delicada corsa.
-Oh, monsieur Kriger. Devo confessar: Sinto tantas saudades do meu pequeno viveiro de pássaros...
-De Paris, cara duquesa?
-Oui.
-Suas majestades não permitiram que os trouxesse consigo?
-Deixei-os sob os cuidados de minhas irmãs. De fato; eu temi pelas vidas dos meus amados emplumados, monsieur Kriger. O frio daqui parece que adoece qualquer espécie mais delicada.
-Perdão. Não se sente bem na Dinamarca?
-Estou em perfeita saúde, pela boa graça. Amo a Dinamarca. É meu segundo lar. Todos são amáveis e suas majestades são meus pais agora. Mas deixei em minha terra pessoas e coisas das quais sinto saudade.
  Eloise sentia saudades da vida em Versailles. Nada na face da terra se comparava a seus extensos jardins ornamentais com suas fontes de genial gosto e engenharia; aos salões magnificamente espelhados em que Loui dava seus bailes históricos; à comida, aos doces; à riqueza esfuziante da corte de Loui!
Versailles era o reino da beleza. O paraíso dos deuses na terra. Loui era o próprio Deus Sol...
A condessa sentiu um aperto no peito. Ter de submeter-se aos protocólos diplomáticos de dois governantes e acabar por enterrar-se naquele desditoso Ice- berg chamado Dinamarca! Talvez jamais voltasse a ver os salões de Versailles!
Ideribah nota-lhe o leve tremor na fala. Volta o olhar para seu rosto. A luz, aquela hora esmaecia, mas campanulas a óleo eram acesas por valetes portando longos bastões incandescentes nas pontas que passavam a clarear a lenta passagem de ambos.
Ele hesitou, porém falou:
-Seus olhos não conseguem de nenhum modo esconder que sofre, querida duquesa.
-Oh. Sou uma boba... Chorar diante de voz é embaraçoso. Perdoe mais uma vez...

Ele, entregando-lhe o próprio lenço:
-Eu devo pedir perdão por fazê-la sentir-se triste, duquesa.
-Oh não, não. Sua presença é uma das coisas boas de estar nesta província, monsieur Kriger. Embora conversemos pouco, gosto quando está por perto. Me sinto muito estimada.
-E faz bem. Faz muito bem. Anseio por ser seu admirador mais devotado.

Levado pelo protocolo, mas sobretudo pelo sentimento que abrasava em seu peito, Ideribah toma-lhe a pequena mão entre as suas e a beija.
O toque acetinado daquela pequena mão envolta por sua fina luva é algo que ele sabe, naquele momento, que não deseja nunca mais deixar de sentir.
Permanecem em silencio e o olhar mantido entre eles, traduz um poderoso átimo de sensualidade, impossível de ser negado.
A diferença de idade entre ele e a duquesa, ela com vinte e um e ela com apenas quinze, parece acentuar a força de atração.
De sua diminuta altura, ela puxa-lhe gentilmente a cabeça até alcançá-lo.
A boca, com o formato perfeito e pequeno, preenchida com sua coloração rubra, aproxima-se dele e o toca no canto dos lábios.
Ele sente, a princípio aturdido, a umidade do toque da língua da duquesa inserindo-se no inicio da fenda de seus lábios; no diminuto espaço entre seu rosto e boca.
-Por favor, monsieur Kriger... meu braço ficará com marcas...
Ele não se dera conta da pressão que sua mão exercia fechada contra o antebraço da duquesa.
Sua voz sai arfante:
-Perdão, minha querida.
-Nesse momento devo voltar, monsieur Krigger. Sua majestade me aguarda com as outras damas para as orações noturnas... nos vemos mais tarde?
-Mais tarde?
-Venha a meus aposentos entre a primeira e a segunda ronda.
Ela tocou-o no rosto e afastou-se dando-lhe um último e significativo olhar.

Madrugadas de prazer. Noites de sussurros, acompanhadas de inesquecíveis lições de ousadia... Ousadia nos toques, nas modalidades de beijos; na variedade de posturas...
Corpos roçando; aromas se misturando.
A pequena e delicada duquesa era experiente e soberana na arte da sedução. Suas pequenas mãos guardavam o segredo de inflamar de desejo o corpo de seu amante, mesmo nas horas do dia em que se quer estava presente junto dele.
A imagem persistente de seus pequenos e redondos seios alucinava fazendo com que
os compromissos do dia, com seus protocolos repetitivos, virassem poeira ao vento.
Os dias fluíam sem ser notados, ante a expectativa ansiosa das madrugadas em brasa, com seus carinhos deliciosos e fascínio mais puro.
E esse era cada vez mais o mesmo tipo de dança perigosa que se coreografava nos aposentos da própria rainha de Dinamarca e Noruega.
Embora o parceiro de dança da rainha não se tratasse do rei!
Frederico, mergulhado em seu gabinete, entre pilhas de extensos mapas traçados na companhia de seus marechais, se preparava mais uma vez para a guerra. Fora as leituras de cunho iluminista com os consequentes debates acalorados, que iam até tarde junto a seus conselheiros; dedicava-se também as suas famosas visitas aos lupanares de Copenhagen.
Sobrava, evidentemente, pouco tempo ou energia para dedicar atenções a sua real esposa que, de qualquer modo, apresentava-se sempre enfastiada de sua companhia, dando desculpas sistemáticas para não ter de aceitá-lo em seus aposentos.
O que nunca, jamais era comentado entre a camareira da rainha e uma ou duas de suas servidoras pessoais mais atentas; é que o médico real, doutor Alleph Witellsbach era quem passara a receber séria devoção da soberana.
O belo doutor comparecia todas as noites, há mais de mês, tomando a trilha de caminhos secretos designados à realeza, em caso de cerco e ingressando com uma cópia de chave dos aposentos que davam direto para a alcova em que se encontrava sua amada.
Imersa nesse afair envolvente com seu apreciado lado plácido hedonista e com todo o seu trabalhoso jogo de disfarçar e prevenir-se de algum indesejado flagrante, a rainha já dava pouco interesse à tarefa de vigiar suas crescidinhas damas de companhia. Desse modo, a vida da duquesa Grimaldi, no quesito “encontros travessos” ficava um pouco mais livre.
Os céus verdadeiramente cairiam se qualquer filete daquilo vazasse pela côrte...
Um reino eminentemente puritano como o da Dinamarca frente a uma Europa fascinada por delírios orientalistas, busca por ideias políticas controversas e entre choques religiosos que levavam à morte e ao campo de batalha centenas de milhares, certamente exigiria o confinamento sob tortura e finalmente o enforcamento de quem maculasse o piedoso pendão daquele reino!
Quando os sinais que poderiam indicar uma gestação em estado inicial se fizeram claros, a jovem rainha teve de se render á repugnante tarefa de atrair seu legítimo cônjuge até o leito. Isso para justificar o que precisasse ser justificado.
Um suplício!
Ter seu corpo despertado pelas delícias do toque e calor de seu amado Alleph, dominado como o de uma novilha no curral; a fez desejar estar morta na ocasião. De uma forma maligna aquela submissão forçada fraturou seu espírito... Porém, nove meses depois, o mais novo herdeiro da casa real nasceu e, para a aprovação de todos, era do sexo masculino. E embora, a medida em que crescesse, cada vez mais desse os ares de seu verdadeiro pai; quando se fazia a rara oportunidade, recebia algum afago desinteressado de Frederico.
O Rei não tinha muita paciência com rebentos recém-nascidos, mesmo com os seus próprios filhos. Tanto legítimos quanto bastardos!
Esperaria, como sempre, que aquele indivíduo se desenvolvesse a ponto de poder avaliar se suas ideias possuíam tino e originalidade e se assim valeria a pena dedicar-lhe sua atenção.

Ai, ai... A vida na côrte mais puritana da Europa! Tudo encenado à perfeição. Exatamente como nas demais...


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