sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

polentinha frita


O enlevo secreto que senti quando te vi sentar com tanto prazer e parcimônia ao degustares a polentinha frita. 
A tua calma fala, o teu casaquinho branco, as unhas pintadinhas esmeradamente de vermelho. 
Falavas da tua casa, de teus costumes, das coisas de que gostavas e me encantastes.

Degustei a água fria com lenta percepção. Tornei a água um prazer, um enlevo secreto. Degustei sua transparência gélida e imaginei quem tu serias. O que te construiu.

A janela absurda invasiva mostra formas, todas elas, do desespero e tu aqui. Com tua voz fraca, com tuas cores diluídas pelo oceano do tempo.
Tu para mim, representas coisas tão próximas de mim. Da vida que tive. Dos momentos diluídos em acido esquecimento.
O enlevo que senti. O enlevo secreto que senti.

o Amor que senti por ti

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O Negro Rei 8



Ideruba, volta ao alojamento na ala masculina do palácio.
Estava frio como nunca, naquele recinto de paredes de pedra com um pé direito de dez metros.
A umidade se fazia presente com suas linhas liquidas marcando as paredes. O ar quente de duas lareiras subia para o teto, formando um suave e invisível colchão de calor. Estendeu seu corpo, prazerosamente cansado, sobre uma manta; completamente incógnito, inserido sob o forro do teto! Ele mesmo é quem removera algumas tábuas, ao acessar o mezanino, seu ponto preferido, para resguardar-se da companhia dos outros.
Trazia consigo aceso um pequeno lampião a querosene e nesse momento dedicava-se a pensar. Pensava na duquesa. Rabiscava com a ponta de seu canivete eróticas representações. Ria-se sozinho da impressão que lhe davam depois de concluídas e ao imaginar o que diriam os outros se, algum dia, pudessem vê-las.
Pouco importava, na verdade.
Aqueles, se fingindo de santos; só o que lhes apetecia era o fazer troça da nobreza velha e encarquilhada às escondidas. De sua senilidade e da vergonhosa incontinência de bexiga; assim como frequentar lupanares, esvaziar botelhas e mais botelhas de vinho ou absinto, sempre acompanhadas de fumos intoxicantes, vindos do lascivo Oriente.
Geração de vadios! Sua inspiração para isso era sem dúvida o próprio Rei Frederico.

Com sua hipocrisia épica; dava discursos em louvores à honra do povo dinamarquês comparada à devassidão da Suécia e Europa! Mas muitos sabiam de seus gostos libertinos; das noitadas desfrutadas nas camas de prostitutas muito bem pagas. O próprio menino testemunhara vários desses compromissos reais.

Desde que se juntara a côrte de Frederico, Iderubah passara a ocupar a ala destinada as crianças.
A principio seu papel era o de um curioso e bonitinho bicho de estimação para as amas e para os fedelhos das mais variadas idades. Junto aos filhos de Frederico, na ala das crianças, haviam filhos de diplomatas em visita ao país, princesas infantes de outros reinos comprometidas em casamento desde tenra idade; parecendo mais em caráter de reféns ou apólices de seguro do que noivas, como costumava debochar a nobreza.
Ele não ousava tocar ou se dirigir a nenhuma daquelas crianças. Mantinha sempre um semblante sério e inexpressivo; o que só aumentava o interesse e a compaixão daqueles que o adivinhavam órfão, desgarrado de uma terra longínqua. Encantados pela beleza de seus olhos gigantes de cílios espessos, não imaginavam o ódio puro que o corroía.
Detestava aquelas bochechas gordas pálidas mastigando mingaus barulhentamente; os narizes diminutos escorrendo ranho; o cheiro das fraldas; a fala manhosa enjoada daquelas velhas babás.
Preferia sim era passar o tempo na companhia dos cães ou no galpão de caça, bisbilhotando artefatos de falcoaria, ganchos e punhais junto ao arsenal. Recebeu preciosas lições de cutelaria e esgrima. Suas mãos viviam calejadas e com cortes que ele nem ligava.
Também aprendeu a encilhar e a montar.
Jurava, secretamente, que um dia fugiria levando o puro sangue mais amado do grande merdão Frederico IV!
Imaginava-se numa colina, com os gigantes intocáveis encobrindo-o e enfrentando, ao lado deles, toda a armada de guerra e soldados de Frederico. Os esperaria com uma espada em punho e com uma garrucha explosiva bem carregada, uma de prata ou daquelas niqueladas do arsenal.
Mataria todos os fantasmas; incendiaria toda a Dinamarca; roubaria uma daquelas Naus e voltaria para a terra de suas mães.
Contaria sua história e seria reverenciado como um valoroso pai.
Ensinaria aos pequenos a nunca se afastar sozinhos quando brincassem de imitar o “jaguar sem medo”. Ensinaria aos pequenos a não pisar a terra fresca recém-remexida, sem olhar antes e muito atentamente para o alto. Ensinaria a prestar atenção e afastar-se do cheiro de fumo estranho misturado a sujeira e suor.
Golpearia todos aqueles fantasmas medonhos que maltrataram meninas e arrancaram os bebês dos braços de suas mães. Nunca mais choraria contra travesseiros mofados, arrebentando o próprio peito para esconder os sons de seus vergonhosos soluços. Nunca mais choraria na vida.
Quando foi considerado grande demais para a ala infantil, passou a ocupar a ala masculina e por bem, teve de se submeter as suas normas rígidas, além de aturar as brincadeiras maldosas dos outros; como a vez em que sua coberta de penas ficou encharcada, ou quando rasgaram todos os seus desenhos.
Não tinha amigos ali; sabia disso. A inveja por sua proximidade com o Rei era notória. Quem ele pensava que era? Um bastardo de pele retinta ter mais privilégios do que os filhos de presbíteros e de militares? Onde já se viu?
E claro que precisava pagar um preço por tal ousadia. 
No início, quando seu corpo ainda era franzino, vivia com inchaços, hematomas e arranhões em regiões do seu corpo que não ficavam à mostra. Ombros, peito, abdome. Seu corpo era um mapa de cicatrizes de mordidas, de chutes, de golpes. Todos recebidos sem que emitisse um único pio. Parecia até que tudo aquilo o fortalecia. Ao menos a sua convicção de que em ninguém deveria confiar e de que algum dia teria sua vingança, apenas recrudescia com aquele tratamento tão especial. Não se amedrontava, pois assistira atrocidades centenas de vezes piores. Sobrevivera e seguiria sobrevivendo. A medida em que crescia, seu corpo adquiria mais músculos e seu contra-ataque tornava-se respeitavelmente duro. Depois de alguns braços torcidos e dentes partidos, seus amigos resolveram deixá-lo sossegado. Nada como um bom dialogo...
Claro que todos já notavam sua proximidade com a duquesa. As fofocas eram o prato preferido na corte; mesmo entre os que se diziam gentis homens e Iderubah era alvo de vigilância, assim como qualquer um que estivesse próximo a Frederico. Como não seria, se a maioria das damas suspirava ao vê-lo passar com seu porte adorável e voltar-se afavelmente, sempre com um comentário atencioso? Desdobrava-se de modo cada vez mais charmoso e seguro, a medida em que adquiria traquejo e autoconfiança.
E sua autoconfiança, além de prestígio, foram aumentados no exato dia em que se interpôs entre Frederico e o ataque de um javali!
A madrugada era estranhamente abafada.
A comitiva do Rei embrenhava-se na densidade da floresta, rastreando incansavelmente o animal por várias horas. Ele surgiu de repente de trás de uma linha de arbustos altos num galope decidido. Frederico havia cometido o erro de desmontar, na intenção de agachar-se e apalpar as pegadas deixadas numa trilha fresca com vestígios de pelos do animal e foi nesse momento que sua guarda esteve desastrosamente vulnerável.
Não fosse a coragem absurda do jovem africano atirando-se de sua montaria com a lança empunhada em direção a goela do bicho, Frederico teria sido feito em pedaços, já que o animal, mesmo trespassado, prosseguia em sua trajetória de ataque sendo detido somente pelo aparato de bloqueio disposto na própria lança.
Em sua fúria sobrenatural, prosseguia guinchando e mastigando a esmo com sua boca descomunal trituradora de ossos.
Tinha por volta de duzentos quilos e uma pelagem azulada que brilhava contra os últimos raios de sol daquela tarde em sincronia com a frequência acelerada de seu resfolegar.
Frederico apresentava um aspecto apático. As roupas e botas enlameadas; caído no solo de pernas abertas, tratou logo de recompôr-se e assumir sua fleuma real típica.
Com agilidade ergueu-se de pé num salto e tratou de aproximar-se do animal moribundo que, por pouco, não o fatiara com suas mandíbulas.
Sua mão tremiam. Examinou cauteloso aquele animal incrível e considerou-o tão temível quanto um leão africano ou até mesmo pior: Recordou-se dos relatos perturbadores na imprensa aquela época sobre a misteriosa e horrenda besta que atemorizava os moradores de Avignon, na França. Circulando os vilarejos e devorando suas vítimas. Famílias inteiras! Desaparecendo de modo sobrenatural. Escapando incólume de todas as armadilhas e tentativas de captura.
Se ao menos os franceses tivessem a seu lado um bravo como Iderubah!
O feito do jovem espalhou-se como rastilho e encantou a corte por meses. Frederico resolveu lhe dar um título de marquês como reconhecimento. Uma substancial fortuna em ouro e prata, advinda do patrimônio pessoal do próprio Frederico. Além de terras e propriedades que passariam para sua jurisdição. Mas antes que se estabelecesse nas terras e assumisse suas obrigações como marquês, foi decidido que deveria estudar Direito Canônico e Tributário na Universidade.
Frederico resolveu torná-lo um presbítero.




terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O Negro Rei (7).

Perfume de alfazema! Ideribah teve a visão de sua vida.
Ela vinha até ele com os cabelos encobertos pelo reflexo da luz do sol e causou em seu peito um calor impossível de explicar.
Duquesa Caroline Elouise Grimaldi.
A mais nova dama de companhia da rainha, possuía olhos de um negror condensado em mistério. Seu sorriso discreto e sua risada agradável provocavam. Davam delícia e sentido à vida.
De um momento para o outro, o jovem passou a gaguejar e a esquecer seus talheres suspensos no ar, sua comida intocada no prato e a ter seus ouvidos surdos a maioria das pessoas.
Ela chegara da França e trazia em sua bagagem, não só o vestuário decotado à moda parisiense, que foi instada a tornar mais discreto, como também uma maneira de lidar com todos, que os fazia ficar quase sem jeito. Embevecidos!
Acompanhava a rainha em seus retiros no campo e em suas longas caminhadas pelos jardins palacianos. Passou a estar presente quando Ideribah recebia lições de sua majestade. Latim, música, Língua inglesa.

Caroline Elouise aproximava-se.
Recitava poemas que saiam de sua delicada boca ritmadamente como conjurações mágicas; sempre acompanhados de um brilho especial em seu olhar.
Seu olhos capturavam o olhar dele, quando a rainha não podia flagrá-la. Damas de companhia da realeza deveriam ter compostura. E Caroline Eloise estava na corte de Frederico representando um protocolo de requinte e boa vontade entre a França e a Dinamarca. Qualquer maledicência, ou fofoca arranharia a imagem do próprio Rei Loui.
Ideribah sentia as orelhas pegar fogo com aqueles flertes. As calças comprimiam...
Caroline Eloise aproximava-se.

Seu perfume invadia os sonhos do jovem de quinze anos.
  Aproximava-se...
Em um recanto de uma das esplanadas, após mais um dos protocolados e longos jantares da corte, Caroline Eloise finalmente chegou-se, surpreendendo o arredio rapaz. O som de sua rouca voz, fez com que o coração dele disparasse frenético:
-Há um personagem marcante na obra de um autor de nome Shakespeare, monsieur Kriger. Faz-me lembrar de ti. Ele é o fascinante e atormentado Othelo.

Ideribah simplesmente paralisou. Sua voz não saia.
Camile Eloise chegou-se mais:
-Tu já conheces? Um general mouro... -Um sorriso insistente perdurou no rosto da duquesa Grimaldi, sem que isso fizesse com que Ideribah movesse um único músculo.

Diante da súbita afazia do menino, ela, delicadamente, continuou:
-Sua Majestade, o Rei Loui apresentou-nos versos dessa peça. Vossa Alteza é um homem afeito à dramaturgia; isso cá entre nós. -Ela sorriu lindamente, com ar de cumplicidade jovial. -De fato; Loui conhece de cor a maioria da obra desse Shakespeare. Chamam-no de “O bardo”. Tão típico dos ingleses... Oh! Pardon... Eu o aborreço monsieur Kriger?

Tudo o que o jovem conseguiu dar como resposta foi:
-Não, não! De modo algum, querida amiga... -E numa pronta e urgente reverência diante da duquesa... -Não... não me queira mal. Sou um terrível mal-educado. Perdão!
Um leve sorriso marcou-se em um canto dos lábios de Caroline Eloise; a qual estava perfeitamente ciente, do efeito que causava em seu interlocutor:
-Será perdoado, se me acompanhar num breve passeio pelo jardim das fontes. É sempre tão agradável....

Sempre sorrindo, ela ofereceu a mão ao encontro do braço de seu nervoso acompanhante.
Ideribah custava a acreditar naquela proximidade e estava fascinado pelo brilho daqueles olhos tão negros. Rios caudalosos de suor deslizavam pelas suas costas.
Sentia uma agudeza no estômago, devido o temor de que aquilo se tratasse de um sonho e, ao mesmo tempo, por sentir uma estranha ânsia em ver-se livre.
Livre de ter de manter conversação num nível condizente com tão versada mulher. De ter de mantê-la entretida com sua pueril e pouco traquejada companhia.
Mas Caroline Eloise era, inegavelmente, adorável.
Mantinha-se falando de assuntos amenos num tom jovial envolvente que, aos poucos, faziam-no sentir-se na companhia de uma inofensiva e delicada corsa.
-Oh, monsieur Kriger. Devo confessar: Sinto tantas saudades do meu pequeno viveiro de pássaros...
-De Paris, cara duquesa?
-Oui.
-Suas majestades não permitiram que os trouxesse consigo?
-Deixei-os sob os cuidados de minhas irmãs. De fato; eu temi pelas vidas dos meus amados emplumados, monsieur Kriger. O frio daqui parece que adoece qualquer espécie mais delicada.
-Perdão. Não se sente bem na Dinamarca?
-Estou em perfeita saúde, pela boa graça. Amo a Dinamarca. É meu segundo lar. Todos são amáveis e suas majestades são meus pais agora. Mas deixei em minha terra pessoas e coisas das quais sinto saudade.
  Eloise sentia saudades da vida em Versailles. Nada na face da terra se comparava a seus extensos jardins ornamentais com suas fontes de genial gosto e engenharia; aos salões magnificamente espelhados em que Loui dava seus bailes históricos; à comida, aos doces; à riqueza esfuziante da corte de Loui!
Versailles era o reino da beleza. O paraíso dos deuses na terra. Loui era o próprio Deus Sol...
A condessa sentiu um aperto no peito. Ter de submeter-se aos protocólos diplomáticos de dois governantes e acabar por enterrar-se naquele desditoso Ice- berg chamado Dinamarca! Talvez jamais voltasse a ver os salões de Versailles!
Ideribah nota-lhe o leve tremor na fala. Volta o olhar para seu rosto. A luz, aquela hora esmaecia, mas campanulas a óleo eram acesas por valetes portando longos bastões incandescentes nas pontas que passavam a clarear a lenta passagem de ambos.
Ele hesitou, porém falou:
-Seus olhos não conseguem de nenhum modo esconder que sofre, querida duquesa.
-Oh. Sou uma boba... Chorar diante de voz é embaraçoso. Perdoe mais uma vez...

Ele, entregando-lhe o próprio lenço:
-Eu devo pedir perdão por fazê-la sentir-se triste, duquesa.
-Oh não, não. Sua presença é uma das coisas boas de estar nesta província, monsieur Kriger. Embora conversemos pouco, gosto quando está por perto. Me sinto muito estimada.
-E faz bem. Faz muito bem. Anseio por ser seu admirador mais devotado.

Levado pelo protocolo, mas sobretudo pelo sentimento que abrasava em seu peito, Ideribah toma-lhe a pequena mão entre as suas e a beija.
O toque acetinado daquela pequena mão envolta por sua fina luva é algo que ele sabe, naquele momento, que não deseja nunca mais deixar de sentir.
Permanecem em silencio e o olhar mantido entre eles, traduz um poderoso átimo de sensualidade, impossível de ser negado.
A diferença de idade entre ele e a duquesa, ela com vinte e um e ela com apenas quinze, parece acentuar a força de atração.
De sua diminuta altura, ela puxa-lhe gentilmente a cabeça até alcançá-lo.
A boca, com o formato perfeito e pequeno, preenchida com sua coloração rubra, aproxima-se dele e o toca no canto dos lábios.
Ele sente, a princípio aturdido, a umidade do toque da língua da duquesa inserindo-se no inicio da fenda de seus lábios; no diminuto espaço entre seu rosto e boca.
-Por favor, monsieur Kriger... meu braço ficará com marcas...
Ele não se dera conta da pressão que sua mão exercia fechada contra o antebraço da duquesa.
Sua voz sai arfante:
-Perdão, minha querida.
-Nesse momento devo voltar, monsieur Krigger. Sua majestade me aguarda com as outras damas para as orações noturnas... nos vemos mais tarde?
-Mais tarde?
-Venha a meus aposentos entre a primeira e a segunda ronda.
Ela tocou-o no rosto e afastou-se dando-lhe um último e significativo olhar.

Madrugadas de prazer. Noites de sussurros, acompanhadas de inesquecíveis lições de ousadia... Ousadia nos toques, nas modalidades de beijos; na variedade de posturas...
Corpos roçando; aromas se misturando.
A pequena e delicada duquesa era experiente e soberana na arte da sedução. Suas pequenas mãos guardavam o segredo de inflamar de desejo o corpo de seu amante, mesmo nas horas do dia em que se quer estava presente junto dele.
A imagem persistente de seus pequenos e redondos seios alucinava fazendo com que
os compromissos do dia, com seus protocolos repetitivos, virassem poeira ao vento.
Os dias fluíam sem ser notados, ante a expectativa ansiosa das madrugadas em brasa, com seus carinhos deliciosos e fascínio mais puro.
E esse era cada vez mais o mesmo tipo de dança perigosa que se coreografava nos aposentos da própria rainha de Dinamarca e Noruega.
Embora o parceiro de dança da rainha não se tratasse do rei!
Frederico, mergulhado em seu gabinete, entre pilhas de extensos mapas traçados na companhia de seus marechais, se preparava mais uma vez para a guerra. Fora as leituras de cunho iluminista com os consequentes debates acalorados, que iam até tarde junto a seus conselheiros; dedicava-se também as suas famosas visitas aos lupanares de Copenhagen.
Sobrava, evidentemente, pouco tempo ou energia para dedicar atenções a sua real esposa que, de qualquer modo, apresentava-se sempre enfastiada de sua companhia, dando desculpas sistemáticas para não ter de aceitá-lo em seus aposentos.
O que nunca, jamais era comentado entre a camareira da rainha e uma ou duas de suas servidoras pessoais mais atentas; é que o médico real, doutor Alleph Witellsbach era quem passara a receber séria devoção da soberana.
O belo doutor comparecia todas as noites, há mais de mês, tomando a trilha de caminhos secretos designados à realeza, em caso de cerco e ingressando com uma cópia de chave dos aposentos que davam direto para a alcova em que se encontrava sua amada.
Imersa nesse afair envolvente com seu apreciado lado plácido hedonista e com todo o seu trabalhoso jogo de disfarçar e prevenir-se de algum indesejado flagrante, a rainha já dava pouco interesse à tarefa de vigiar suas crescidinhas damas de companhia. Desse modo, a vida da duquesa Grimaldi, no quesito “encontros travessos” ficava um pouco mais livre.
Os céus verdadeiramente cairiam se qualquer filete daquilo vazasse pela côrte...
Um reino eminentemente puritano como o da Dinamarca frente a uma Europa fascinada por delírios orientalistas, busca por ideias políticas controversas e entre choques religiosos que levavam à morte e ao campo de batalha centenas de milhares, certamente exigiria o confinamento sob tortura e finalmente o enforcamento de quem maculasse o piedoso pendão daquele reino!
Quando os sinais que poderiam indicar uma gestação em estado inicial se fizeram claros, a jovem rainha teve de se render á repugnante tarefa de atrair seu legítimo cônjuge até o leito. Isso para justificar o que precisasse ser justificado.
Um suplício!
Ter seu corpo despertado pelas delícias do toque e calor de seu amado Alleph, dominado como o de uma novilha no curral; a fez desejar estar morta na ocasião. De uma forma maligna aquela submissão forçada fraturou seu espírito... Porém, nove meses depois, o mais novo herdeiro da casa real nasceu e, para a aprovação de todos, era do sexo masculino. E embora, a medida em que crescesse, cada vez mais desse os ares de seu verdadeiro pai; quando se fazia a rara oportunidade, recebia algum afago desinteressado de Frederico.
O Rei não tinha muita paciência com rebentos recém-nascidos, mesmo com os seus próprios filhos. Tanto legítimos quanto bastardos!
Esperaria, como sempre, que aquele indivíduo se desenvolvesse a ponto de poder avaliar se suas ideias possuíam tino e originalidade e se assim valeria a pena dedicar-lhe sua atenção.

Ai, ai... A vida na côrte mais puritana da Europa! Tudo encenado à perfeição. Exatamente como nas demais...