segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O Negro Rei (5)

-Tu pareces um bicho do mato. Um gnomo! Será que não aprende a nossa fala? Escuta bem: Ninguém aqui é inimigo teu. Todos querem ser teus comparsas e camaradas. Poder se aproximar de ti. Por que tu os repele desse modo injusto?
A mulher falava e falava e sua papada branca, sob o pescoço, balançava o tempo todo. Esse fenômeno e o fato de ela se atrapalhar toda, tentando correr na tentativa de lhe dar um abraço e não conseguir alcançá-lo, o fez ter um ataque de riso.
A mulher:
-Veja só! Tu aí estas rindo! Até que um dia, soldadinho mouro! Até que um dia!

Viver no âmbito das cozinhas, impregnado de cheiros de temperos e cercado de conversas acaloradas e expansivas, deu ao menino uma dimensão falseada da verdadeira vida, ou pelo menos da vida oficial da corte de Frederico IV.
A política, os acordos, as invejas, as intrigas e a traição; encobertas por protocolos pomposos e exaustivos, não faziam parte de sua realidade. Ainda.
Foi numa tarde inesperada de acontecimentos inesperados, com um susto inesperado que se deu o encontro entre o menino e o rei da Dinamarca e Noruega.

E este dia, para o bem de uns e para o mau de alguns, ficaria gravado para sempre na história dos momentos espetaculares e únicos, como o alinhamento perfeito dos astros e planetas...

Aconteceu certa manhã que um reboliço louco colocou todos em polvorosa. O puro sangue magnífico do Rei, entrou desabalado cozinha a dentro; escoiceando bancadas, tonéis, mesas e todos os utensílios pela frente.
A sela estava vazia e mal encilhada; mas isso não foi percebido por ninguém naquele momento. Todos trataram de se afastar da loucura equina e buscar proteção onde mais lhes conviesse.
-Saladino! Saladino, te contém! Es mesmo um bárbaro como se conta dos de tua terra!- Berrou um homem em trajes de caça, que esbaforido e quase caindo, tentava capturar o animal.

Aquele bicho parecia um ser fantástico. Suas patas mal e mal tocavam o chão. Elevava a cabeça nas alturas, relinchando com uma fúria maravilhosa.
Diante daquele turbilhão de músculos e escoiceio, apenas um pequeno menino. Um menino negro estático e hipnotizado a uma curta distancia, e que de repente começava a entoar uma triste melodia.
Aquele menino era também um ser sobrenatural. Não era desse mundo. Como poderia estar ali? Era belo e inacreditável. De onde emergira aquela criança etíope que só se vira igual em livros de iluminuras? Iluminuras feitas a mão, bordadas com filigranas em ouro; representando homens moradores das áureas pirâmides...

A melodia estranha causava arrepio; frio no estômago. Levava as lágrimas. Tocava a fundo a emoção dos que se achavam invencíveis e insensíveis a sua própria humanidade. Cortava com profundidade e lamúria a alma do homem mais nobre e do mais cafajeste. Inundava todo o ambiente como uma correnteza calma e contínua; um mantra puro que invadia a cabeça, que mexia com a frequência cardiorrespiratória. Fazia recordar sonhos...
O contraste entre os corpos do garoto e do animal era apenas chocante. O pequeno fedelho poderia ser convertido em uma substância amorfa lamentável, em qualquer movimento mais ou menos brusco das patas dianteiras do animal gigantesco diante dele. Mas heis que a respiração de todos os presentes cessou: O cavalo de batalha, antes abduzido pelo espírito de um vendaval, se deixou seduzir pelo encanto mágico daquele pequenino. Resfólegou mais algumas vezes, apenas para demonstrar orgulho e se deixou finalmente tocar, calmamente, pelas mãos finas e jovens que o acariciaram as ventas e a fronte.
-Quem é esse?
A pergunta repentina, aos poucos, foi rompendo o ar estupefacto de todos os presentes. Mas ninguém se resolveu a responder. A pergunta foi proferida novamente:
-Quem é esse mancebo retinto?
Até então os presentes não haviam notado que quem fizera a pergunta era o Rei em pessoa, mas quando finalmente deram por isso, o susto só foi superado, ao escutarem claramente o menino responder e sem titubear: “Eu sou Ide... qualquer coisa!”
-EU SOU IDERIBAH!
O moleque entendia o que era falado e, o mais surpreendente; sabia falar sua língua!
-Coloquem-se todos de joelhos, diante do Rei! -Exigiu o valete que se recuperava de todo aquele susto, pressionando rosto e pescoço com seu lencinho aromático.
Ideribah mantinha-se no centro do recinto; estático e olhando no fundo dos olhos do animal dominado por ele.
Frederico aproximou-se e tomou as rédeas do animal nas mãos.
Fez um ou dois gestos carinhosos no cavalo, beijando sua fronte e falando baixo:
-Saladino, menino astuto! Quem é esse que vem até nós e com tantos dons? Quem é ele? De onde será que veio? -E olhando diretamente para Ideribah: -Possuis um raro talento, guerreiro. Sim um raro talento... Saladino parece gostar de ti. Que tal se me ajudares um pouco com ele?
-Ajudar...
-Podemos começar por revisar esta cela... Não me parece muito segura e acho que ele se irrita com essa presilha...
Ideribah focou pela primeira vez os olhos daquele homem e viu imediatamente que ele era distinto de todos os outros fantasmas que conhecera.
Sua postura era alinhada, os movimentos contidos e seguros. Sua voz tinha uma fluidez agradável e calma. Não precisava elevá-la para que no instante em que começasse a falar, todos a sua volta lhe dessem atenção devotada. Apesar da simplicidade das roupas de couro, percebeu a limpeza extrema das unhas e o quanto eram polidas. Assim como os cascos do animal fúria.
Ideribah não sentiu medo daquele homem, mas um estranho fio de admiração misturada à... inveja.

O convite informal do homem notável para que Ideribah o acompanhasse em sua comitiva, surpreendeu a todos, menos ao menino; que caminhou ao lado do Rei, sem sentir-se intimidado.
Fogos e chamas incandescentes reviraram olhos e fizeram estremecer os alicerces da terra sob os pés dos outros que acompanhavam o desenrolar da cena: O pequeno desconhecido sendo guindado ao status de acompanhante real!
Muitos procuraram se conformar, repetindo para si mesmos, que aquele garoto seria um passa tempo temporário para sua majestade.
Ledo engano.

Com o passar dos dias e das temporadas, o jovem adquiria pequenos; porém, continuados privilégios, junto ao Rei.
Passou a acompanhar nas caçadas, a acompanhar nas visitas à velha mãe do Rei; até mesmo ganhando de presente uma bola de croché, que ela mesma havia urdido. Com o tempo, passou a comer nos aposentos reais e aprendeu com o próprio Rei a manobrar, com segurança, o intrincado jogo de talheres e copos de cristal delicadíssimo. Assistia aos recitais reais, com a presença da jovem rainha; que o olhava com curiosidade, através de seus gigantescos olhos de ébano; apenas sorrindo para ele, as vezes e discretamente.
Acompanhava o setter real nos passeios matinais pelo jardim particular de sua majestade.

Pouco falava. Muito observava. Sabia que era odiado pela maioria daqueles fantasmas velhos e frios, vestidos em roupagem escura e carregando consigo sempre algum documento para assinatura do Rei. Sabia que era vigiado em tempo integral e, apesar de sua pouca experiência, naquele mundo fabricado de cristal, seda, essências aromáticas e espelhos bisotê; sabia que era invejado. Invejado por cada presente aceito e por cada olhar de aprovação que recebia da jovem rainha. Por ser alfabetizado por ela e aprender rapidamente. Por crescer saudavelmente e por se tornar um jovem assombrosamente bonito.


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