quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O Negro Rei 4

Aquele fantasma feio e magricelas sempre se aproximava. Aquilo era insuportável. Seus olhos tinham uma cor enjoada, como cocô de bebê novo.
Sempre vinha com um sorriso boboca e oferecia alguma carne, acompanhada de uma espécie de raiz aferventada.
Aquele idiota soprava um instrumento perfurado, uma imitação pavorosa de um objeto de seu próprio povo. Muitos dos fantasmas gostavam de soprar e percurtir instrumentos, enquanto bebiam daquela água de gosto amargo e forte, além de cantar uns juntos com os outros.

Ele veio, certa vez; quando a noite ia alta. Importunando, chegando-se perto demais, querendo deitar-se junto. Quando aquele demônio fantasma tentou acariciar seu rosto o menino negro mordeu-o fortemente no nariz, até sentir o gosto metálico do sangue entre os próprios dentes.
Isso fez o boboca gritar como um macaco.
Nisso, o outro garoto fantasma, que odiava o menino preto com o olhar, veio para ver o que ocorria. Começou a praguejar e a chorar como uma menina pequena.

Quanta estupidez inútil e sem explicação!
Abraçou o magricelas como se aquilo importasse muito.
Por que um homem choraria pelo ferimento de outro homem? Ele não era mãe daquele ali!

Ambos o olharam com ar de fúria e o menor tentou atingi-lo com um golpe de sua mão fechada. Perdeu a chance e caiu de cara sobre a serpente de metal gigante enferrujada, com a qual prendiam o grande túmulo na água infinita.
O de nariz sangrento veio também e era mais rápido que o outro. Se atracou com o garoto preto, empurrando-o contra a amurada.
O outro garoto, que havia caído, estava agora de pé e tinha uma daquelas facas explosivas na mão, o que assustou o boboca de olhos de cocô.
-Não!
A explosão fez doer muito os ouvidos e fez sentir desnorteio. Sentiu-se cair. Havia sido empurrado pela amurada, caindo na água infinita!
De fato foi o garoto de olhos feios, que colocou o próprio corpo diante do seu e ao ter o peito atingido, ambos perderam o equilíbrio.
Só se recordava de ter engolido imensas quantidades de água salgada e de perder os sentidos.

Sons estranhos e um cheiro forte de maresia o fizeram acordar.
Estava em terra, quase que completamente nu e com o restante de seus estranhos trajes, suspensos em um arbusto. Próximo de onde estava, havia uma fogueira.
Alguém o havia resgatado.
Os gigantes intocáveis! Sua provação estaria terminada, diante dos deuses?
Olhou em volta; não sabia se o sol morria ou se nascia. Aquela maldita confusão permanecia? As estrelas estariam todas trocadas ainda?
Caminhou para o outro lado e chegou até uma elevação. Havia uma escada que dava para um piso que parecia de madeira. Idêntico ao piso do túmulo que tinha de molhar com aquela odiosa vasilha.

-Você acordou!

Teve um sobressalto quando escutou aquela voz áspera e desgastada a seu lado.
Não entendeu as palavras que um fantasma velho, surgido, sabe-se lá de onde, lhe dirigia.
Aquele homem parecia possuir mil idades... Era trêmulo e murcho como, uma folha ressequida. Ele não parecia enxergar, pois seus olhos eram estranhos, como se tivessem derretido.
-Você não fala? É mudo? Bem, eu sou cego... Formamos um a boa dupla, não é criança?
O velho trazia nas mãos um pote, que lhe ofereceu. Haviam lentilhas dentro. Aquele gesto do velho o fez recordar-se do garoto de olhos cor de cocô.
Olhou em torno. Queria poder perguntar ao velho como havia vindo parar ali. Mas não saberia falar aquela língua. Ou até saberia, mas não queria, de modo nenhum, experimentar.
-Louvado seja o Nosso Senhor Jesus Cristo! -Balbuciou o velho.
De quando em vez aqueles fantasmas diziam aquilo... Palavras sem sentido.
O menino comeu as lentilhas com avidez, enquanto olhava para os lados, sem parar. Não queria ser pego desprevenido em alguma armadilha.
Fugir. Só o que pensava era em fugir dali, na melhor oportunidade que tivesse. Mas fugir para onde? Que lugar estranho era aquele?
Suas mãos estavam com as palmas enrugadas e frias. Compreendeu que deveria descansar para se comunicar com os guias sagrados dos sonhos. E a fala monótona e incompreensível do velho, hora tossindo, hora rindo sozinho e assoando o próprio nariz numa zoeira sincopada, acabou lhe servindo como um poderoso sonífero.
  Quando despertou, não viu sinal do velhote. Ele havia desaparecido. Mas o menino estava novamente com suas estranhas roupas colocadas no corpo. Como era possível?
Tratou de caminhar para fora daquele território. Andou cuidadoso, esgueirando-se por locais em que não poderia ser visto.
Num certo ponto avistou um entreposto comercial apinhado de pessoas. Muitos eram parecidos com os fantasmas embonecados cobertos de pedras de todas as cores que visitavam o grande túmulo. Mas ali não havia ninguém de seu povo.
Havia imensa quantidade de caixotes sendo transportados de outros túmulos para a terra. Alguns eram colocados em carroças puxadas por bestas, outros eram abertos e tinham seu conteúdo exposto: Tecidos de trama colorida e brilhante, facas explosivas de diversos tamanhos, coisas e mais coisas, gente e mais gente. Gente feia, barulhenta e falando sem parar.
Olhou para várias direções; animais esquisitos, cantoria, mulheres ou o que fosse aquilo, com a cara pintada. Garrafas rolando, homens se atracando, sangue se espalhando. Guerreiros imponentes, montados em bestas, espancando aquela gente com seus rebenques muito finos e frenéticos.
Prosseguiu esgueirando-se e se mantendo a salvo em pequenas cavernas com cheiro ruim, que ficavam abaixo do local por onde trotavam as pessoas e as carroças.
Viu meia dúzia de famílias fantasma com mães e filhos parados no meio do nada e com as mãos estendidas para homens e mulheres que passavam. Sentiu uma dor funda ao ver aquelas pessoas.

Seu olhar era parecido com o olhar de agonia de seu povo dentro do grande túmulo...
Olhou para o alto e viu a coisa mais inacreditável e estranha de toda a sua vida. Uma torre infinita que se erguia como os gigantes intocáveis que o visitavam em sonhos. Tão altas e espetaculares que chegou a sentir tontura ao olhar para cima. Mas quando o ar ficou mais limpo e transparente, quase chorou ao constatar que aquelas torres estavam por toda a parte. Não apenas compridas e magras, mas também arredondadas, gemuladas, douradas e brancas; de marfim como as presas do maior animal sagrado. E no alto, flâmulas da cor do céu com desenhos cintilantes davam ainda mais encanto aquele mundo tão estranho.
Quando ficou mais escuro, sentiu o estômago apertar de vazio.
Não se atrevera a sair de seu esconderijo para caçar, durante a luz do dia e agora vinha até ele um aroma parecido com o da sopa e da carne, que era servido no grande túmulo.
Num local não muito afastado, fardos e mais fardos eram colocados em carroções, junto à carne salgada e a botelhas da bebida amarga; aquela da qual os fantasmas costumavam gostar...
Aproveitou o descuido de um dos homens, que voltara a outra direção, para buscar mais mantimentos e arrancou um naco da carne. Mastigou raízes e também frutas. Olhou uma das botelhas e com a sede que sentia, devido o sal da carne, virou na própria garganta goles generosos da bebida amarga do conteúdo.
Alguém se aproximava e ele já não tinha tempo de correr de volta para sua caverninha secreta. Sobre os mantimentos da carroça havia uma couraça de animal encobrindo tudo. Pensou rápido. Esgueirou-se por baixo da cobertura, mantendo-se incógnito. Mas quando alguém subiu próximo a seu lado e o veículo começou a se mover, sentiu verdadeiro pânico...



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