terça-feira, 18 de novembro de 2014

O Negro Rei (6)

Naquele mundo, que pouco fazia sentido. Feito de rapé; de convites disputados para bailes dourados e jantares absurdamente encenados; alguma coisa diferente começava a enervar as pessoas.
Os carrancudos, vestindo roupa escura e que, apesar da feia mascara de antipatia, costumavam ao menos ter compostura; passaram a agir de modo estranho. Da noite para o dia.
As perucas alvíssimas, antes alinhadas e respeitáveis, eram agora frequentemente flagradas retorcidas em algumas cabeças. Os pulsos trêmulos, deixavam respingar o conteúdo das xícaras. E muitas vezes seu conteúdo era esquecido. Os sequilhos ficavam intocados também. E não apenas isso:
Vozes se alteavam frequentemente. Se caminhava rápido e nervosamente pelos corredores, tropeçando nas pontas de tapetes. Suando testas. Reforçando o cuidado sussurrado com o que era dito e com o que era comentado...

-Tu já ouviste sobre o ideário iluminista, jovem Ideribah?
en pasan, meu Rei.
-E o que sabes deles?

Os olhos do jovem emitem uma discreta malícia.
  Mede as palavras sabendo, perfeitamente bem, tratar-se de um tema espinhoso para se debater com um rei.
Estão no gabinete acoplado aos aposentos reais de onde, há pouco, se retirara um dos ministros. Apenas o rei sabia da presença do jovem Ideribah, por trás da colunata de um arquivo nas sombras.
Ideribah suspende a leitura enjoada da genealogia dos nobres do Sacro Império Romano-Germânico. Procura acessar, de memória, o que guardou de um jornal de agitação, que lhe caíra em mãos, em uma expedição pela Noruega. Fala, pausadamente:
-Alguns pensadores de França e mesmo da casa real de tua esposa, apregoam igualdade entre todos os homens. -Nesse ponto suspende a fala, aguardando alguma reação do rei. Este permanece impassível, com ar de diversão no fundo azul-escuro de seus olhos. O jovem decide não aparentar ser covarde e termina a sentença com ar de ferino desprezo: -O mais devotado destes parece chamar-se Locke, meu nobre Senhor.

Frederico contém um sorriso de admiração.
Aquele menino não deveria contar com mais do que 12 ou 13 anos e, mesmo assim, não se deixava distrair como seus filhos que regulavam com ele de idade!
Aquele jovem tinha ímpeto e uma formidável inteligência! O que, por vezes, intrigava os pensamentos reais era; qual encargo daria aquele mancebo, que crescia tão rapidamente em argúcia e em talento?
  Ele desenhava como um anjo e possuía uma notável sensibilidade para a música. Era inigualavelmente belo e, embora meio tímido; causava alvoroço entre as donzelas. Porém, ele era um estranho.
Carregava em sua retinta pele o estigma sarraceno. Mas sobre tudo; algo dolorosamente secreto o consumia. Frederico sabia disso. Algo de que o jovem nunca ousara falar e que, nem mesmo o rei, ousara perguntar.
Mas, esse mistério, lhe acentuava o caráter nobre, dando um tom de autoridade as coisas que dizia; um tom de ritual a seus gestos e de encanto permanente a sua calma presença.
O rei ascende um pito com aroma de café, pisca o olho e fala em seguida:
 
-Locke! Sabes o significado da palavra “loque”?
-Lamento. Não sei se lembro, meu Rei. -Na verdade, o jovem Ideribah sabia; mas não queria se dar ares de sabichão diante do rei.

Deixasse que sua majestade pensasse que podia lhe ensinar alguma coisa!
O rei pareceu satisfeito por isso e sorriu:
-Pois eu te digo: Loque é, nada mais, nada menos, do que “louco”; na fala de Loui, jovem Ideribah! Deu uma longa tragada, que o levou a tossir. -Não te parece curioso?
-Parece bastante “constrangedor” para os seguidores desse, meu Rei. -Concluiu o jovem.
-Certamente o nome não lhe confere a justa homenagem. -O rei sinalizou para que sentasse diante dele, prosseguindo: -Porém, as “ideias” são... eu diria: Criativas.
Ideribah trancou a respiração, refletindo instantes antes de comentar:
-Se permite que eu diga; podem representar um “rastilho”; como costumam dizer os da bombarda, meu Rei.

O rei refletiu nas palavras do jovem, alteando a sobrancelha:
-São ideias de caráter completamente novo, jovem guerreiro. Não totalmente, mas, ainda assim; novo.
Frederico pareceu, de repente, prestes a mergulhar em uma longa trilha de pensamentos.
Ideribah achou importante, naquele momento, incentivar o rei a falar mais:
-Deveis preocupar-vos com elas, meu valoroso Rei?
O rei despertou e subitamente sorriu para além da presença do jovem:
-Por que não perguntamos isso a meu estimado esculápio? Se bem- vindo, lorde Alleph!
Ideribah vira-se na direção da mirada do rei.
Acabava de juntar-se a eles, no gabinete, o primeiro médico real.

O homem de meia idade caminhava firmemente. Com a proximidade, seus movimentos exalaram um perfume de fumos amadeirados.
Tinha um belo porte. Vestia um traje preto, em lã, bastante discreto, mas que não escondia suas linhas vigorosamente atléticas.
Seus cabelos longos e grisalhos, presos em um rabo de cavalo, estavam gotejados por água da chuva.
-Majestade. -O homem faz uma rápida mesura ao rei e curva levemente a cabeça em direção ao jovem. -Lorde Ideribah Ibenholtz Kriger.

A voz era aveludada com um toque de leve cansaço.
Ideribah corresponde à saudação e faz menção de retirar-se, mas é impedido; através de um leve gesto do Rei:
-Alleph Patrício Wittelsbach! Chegou na hora mais perfeita! Fala ao menino guerreiro sobre as “novas ideias”. Aquelas pelas quais tu te apaixonastes ao visitar a terra de meu primo. Não o palácio de Versalhes, certamente. Mas as incomparáveis tavernas de Paris! -O rei e o médico compartilham o riso, diante da menção ao tipo de local apreciadíssimo pelo rei.
Este estica o pé direito sobre um banquinho ornado, dando uma piscadela em direção ao amigo: -Vamos! Diga lá.O que tira o sono de nossa nobreza, meu querido?
Apesar do riso do homem, Ideribah nota-lhe o olhar melancólico, emoldurado pelo rosto grave. A face marcada por uma nítida e longa cicatriz, testemunha seu espírito.
O médico aceita o pito oferecido. Dá nele uma tragada lenta; medita distante e passa, em seguida, um olhar ascético no jovem sentado a seu lado diante do Rei.
Sentencia:
-Não tenho dúvidas de que Lorde Ideribah, com a inteligência que lhe é nata, já tomou conhecimento de tais ideias e conseguiu calcular, por si mesmo, os possíveis resultados, meu Senhor Frederico.

Frederico muda a postura. Agora parece mais sério e interessado, remexendo diante de si papéis com o timbre real:
-E tu acreditas em sérias consequenciais, meu caro?

Alleph percebe o tom de voz levemente tenso do Rei.
Cruza os braços, deixando cair as cinzas do pito no tapete e escapar uma profunda inspiração:
-Agora, com o fenômeno dos tipos móveis, eu diria que as novas ideias “ganham asas” com maior rapidez, meu Senhor. Porém, em minha visão; os que devem temer são os homens injustos. Aqueles que não amam verdadeiramente o vosso povo, majestade. Os barões que maltratam camponeses, além de explorar seu trabalho e sua ignorância.
  O Rei tamborila o mogno. As pupilas levemente aumentadas:
-Muitos de minha corte rangeriam os dentes se te escutassem, meu estimado Alleph!

O médico depõe o pito sobre um dos cinzeiros cristalinos. Olha para o rei com ar de pirraça:
-É o temor pelo desconhecido, meu amado Senhor. Ou talvez; o temor por aquilo que teimam em não ver. O mundo se modifica com o avanço das conquistas e das ideias. É assim como um cometa, meu senhor. Ninguém consegue aplacar.

O Rei compreende perfeitamente o sentido latente das palavras do medico. Mas não as rebate e nem mesmo as questiona. Retoma o assunto por um caminho neutro:
-Somos a realeza. -Frederico ergue-se, dando alguns passos, com as mãos entrelaçadas as costas. Olha por uma das vidraças. -Nossos modos e perfeição devem ser esmerados. Pois o povo deve, além de nos temer, sobretudo, nos amar.
O que deflagrava nas pessoas da nobreza aquela ridícula mania de fazer discursos afetados como aquele, era uma questão irritante para Alleph. O rei se empertiga mais ainda:
-Também sei dos que se aproveitam dessas prerrogativas para impor seus abusos. A frivolidade de minha côrte não se compara à de Loui Sol. Não. Certamente que não! Ainda assim é preciso combater excessos...

Alleph procurou responder na mesma linha de tom de discurso:
-Es um Rei benevolente, majestade. E teu governo tem sido justo. Mas é preciso olhos de águia a todo o momento. Vigiar o ninho.
-Te referes aos nobres todos.
-Muitos pisam os seus servos, meu Rei. Impõem taxas; expropriam safras; se apossam de esposas... matam filhos... maridos. Sequestram e torturam! Há ainda a brutalidade dos burgueses que tomaram as novas terras, flagelando povos inocentes e promovendo o mau da escravidão...

Nesse preciso ponto da conversa o coração de Ideribah contraiu e seu corpo estremeceu completamente.
  Passou a respirar com muita rapidez, apoiando a própria cabeça. Esse episódio durou esparsos segundos e passou totalmente despercebido pelos dois interlocutores.
-O mau da escravidão a que te referes é irrefreável, caro Alleph. Quem cultivaria o açúcar nas novas terras, repletas de mosquitos maléficos e de cobras peçonhentas? Quem extrairia os ricos minérios? Há uma grande demanda pelos minérios, meu caro!

O rosto do médico convulsiona-se e Ideribah percebe sua luta interna para não se exaltar e proferir algo inapropriado.
Ele olha para o médico com desespero. Tem esperança de que se lance um argumento que finalize com tudo. Que demonstre o quanto a escravidão a que são submetidos os de seu povo é sórdida e desumana.
Haverá um modo de parar aqueles navios túmulos? Haveria nas ideias iluministas uma saída que acabasse com aquela máquina de destruição humana?
O Rei prosseguia falando, enquanto o médico suspirava, conseguindo bravamente controlar seu próprio estado:
-De qualquer modo há escravidão na Europa, também, meu Rei. Há escravidão e iniquidade onde se tortura, mutila e mata por conta de religião. Onde é negado o pão aos famintos na penúria do Inverno! Enquanto banquetes apodrecem nos palácios. -Já que Frederico apreciava o tom laudatório, Alleph decidiu que não se daria por rogado: -Tu és um líder importante, Frederico! Podes fazer reformas grandiosas que darão ao mundo a dimensão de tua justiça e fraternidade!
-Falas de impor decretos, Alleph. Isto sim! Meus ministros têm calafrios só de pensar!

Os olhos do médico se iluminam. Sua voz sai quase trêmula, pela força daquilo que diz a seguir:
-Decretos que tua abençoada pena pode assinar e ficar na história como baluartes da Justiça e da defesa do nosso povo! Ninguém ousaria desrespeitar tua vontade.

Naquele ponto, o rei nem sequer piscava, escutando as declarações entusiásticas de Alleph Wittelsbach. A vaidade real frente a elogios era constrangedoramente flagrante.
Aos poucos, com sua fala diplomática educada; porém apaixonada, o médico seduzia o monarca com os ideais de Voltaire, Montesquieu, John Locke.
Ideribah compreendeu, que aquilo se passava há mais tempo.
Frederico se aprofundava em leituras, buscava inteirar-se sobre os debates das escolas de filosofia da França, Alemanha, da Academia Real.
  
Embora o pensamento iluminista rejeitasse qualquer religião, aí incluída a fé cristã, e ele próprio fosse um rei protestante; via nos ideais iluministas um viés piedoso e eminentemente fraterno; condizentes com preceitos cristãos.
Naquele vasto estúdio, o silêncio parecia impor a razão as últimas palavras ditas pelo médico.
Ainda tomado pelo furor, doutor Alleph Wittelsbach, com expressão grave, depõe as mãos, cruzadas sobre seu enxuto abdome; respira profundamente e desabafa, com olhar pesaroso:
-Na vinda para cá, ouvi relato de um episódio repugnante, querido Frederico. Um jovem camponês açoitado brutalmente.
-Isso por quê?
-Porque o filho de seu mestre havia cometido alguma gafe durante a ceia. O jovem servo foi açoitado até desfalecer, majestade.
-Sacre bleu!
-Um menino de pouco mais de oito! -O médico gira a única joia aparente que porta consigo, um anel em esmeralda no dedo médio da mão esquerda. -Como se sabe; não é permitido punir fisicamente o filho de um nobre, portanto há esse tipo de injúria contra os pobres; a fim de expiar a culpa dos filhos dos ricos! Obscenidade, majestade! Maldade! Porque se pudessem punir o filho do nobre, tudo o que dariam era uma meia dúzia de palmadas invés de chibatadas!

Sabia-se que Frederico não interviria nesse tipo de assunto diretamente. Envolvia questões de direito nobiliárquico e a nobreza representava sua base de sustentação política. As leis deveriam ser modificadas; porém esse era o tipo de questão que representaria uma queda de braço desgastante para seu governo. E fatalmente teria desdobramentos.
-É uma prática arcaica da nobreza, caro Alleph. E não me parece justa de modo nenhum. O Cristo dizia que “Aquilo que fazeis ao menor de mim é a mim que o fazes”. Essa conduta é caduca e absurda, sem sombra de dúvida, meu caro.
-Perfeitamente, Frederico. Ouso prever que se esse absurdo de coisas persistir, regressaremos ao período dos Cesares de Roma; quando se crucificavam inocentes!

Ideribah percebe a relação precisa, inserida na inteligente resposta do medico.
Nesse ponto são interrompidos pela presença silenciosa de dois mordomos que se põem a sua volta. Oferecem-lhes torta de vitelo; pastéis adocicados polvilhados com canela; morangos sumurosos; croissant recém-saídos do forno e as mais delicadas tortas de amêndoa, avelã e chocolate.
As preferidas de Frederico.
Entretanto; este busca se contentar com apenas uma pequena fatia.
-O que te povoa os pensamentos, caro Ideribah? -Pergunta o rei, com ar pesaroso. Ideribah suspeita que seja por ter de resistir a tentação de uma nova fatia de torta. -O teu rosto, apesar de tão imberbe, é quase sempre enigmático. Mas gora, no presente, pareces arrebatado...

O jovem, com seu ar de mouro circunspecto, perturbadoramente adulto:
-Me pergunto de que forma um decreto obrigaria as pessoas a ser sensatas, majestade. No caso desse costume de se espancar o filho de um servo para expiar a culpa de um nobre; me parece uma prática que somente a educação teria o poder de modificar.
-Explica.
-Os homens são arraigados a seus costumes. No caso dos mais ricos, acostumaram-se a ideia de submeter os pobres. E, no caso dos pobres; estes aceitam o tratamento; pois aprenderam a temer a reação dos mais ricos!
-E em que ponto tu achas que entra a educação?
-Se, a exemplo dos evangelizadores que levam a palavra, conseguirmos mostrar aos homens que seu valor diante de Deus e diante dos outros homens não é medido por sua origem ou por sua quantia de dinheiro, penso que o entendimento se dará entre eles.
Alleph sorri, quase em triunfo, após ter escutado as palavras do menino:
-Um sistema de ensino, querido Frederico! Um lugar em comum em que tanto pobres, quanto ricos aprendam sobre respeito aos direitos e à dignidade humana! -Bradou o médico emocionado.
Frederico compreende de antemão aonde Alleph pretende chegar.
Conhece de cor o teor de seus pensamentos e projetos.
Conhece seus escritos revolucionários sob o pseudônimo de “Spartacus” nos fascículos subversivos que inundavam a Europa.
Seu próprio medico se convertera à aquela febre do ideário iluminista!
Sabe Deus a força que essas ideias estavam tomando entre os jovens, exatamente naquele momento. Entre os camponeses, entre os soldados rasos... entre os noruegueses...
-Um sistema de ensino, Alleph, meu caro?
-E público, meu Rei!
O rei sorri com leveza. Em sua gaveta já esboçava um decreto que causaria reboliço suficiente:
A extinção da servidão camponesa!
Sacre bleu, se aquilo não seria sarna suficiente! Que diria um sistema de ensino e público!

  

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O Negro Rei (5)

-Tu pareces um bicho do mato. Um gnomo! Será que não aprende a nossa fala? Escuta bem: Ninguém aqui é inimigo teu. Todos querem ser teus comparsas e camaradas. Poder se aproximar de ti. Por que tu os repele desse modo injusto?
A mulher falava e falava e sua papada branca, sob o pescoço, balançava o tempo todo. Esse fenômeno e o fato de ela se atrapalhar toda, tentando correr na tentativa de lhe dar um abraço e não conseguir alcançá-lo, o fez ter um ataque de riso.
A mulher:
-Veja só! Tu aí estas rindo! Até que um dia, soldadinho mouro! Até que um dia!

Viver no âmbito das cozinhas, impregnado de cheiros de temperos e cercado de conversas acaloradas e expansivas, deu ao menino uma dimensão falseada da verdadeira vida, ou pelo menos da vida oficial da corte de Frederico IV.
A política, os acordos, as invejas, as intrigas e a traição; encobertas por protocolos pomposos e exaustivos, não faziam parte de sua realidade. Ainda.
Foi numa tarde inesperada de acontecimentos inesperados, com um susto inesperado que se deu o encontro entre o menino e o rei da Dinamarca e Noruega.

E este dia, para o bem de uns e para o mau de alguns, ficaria gravado para sempre na história dos momentos espetaculares e únicos, como o alinhamento perfeito dos astros e planetas...

Aconteceu certa manhã que um reboliço louco colocou todos em polvorosa. O puro sangue magnífico do Rei, entrou desabalado cozinha a dentro; escoiceando bancadas, tonéis, mesas e todos os utensílios pela frente.
A sela estava vazia e mal encilhada; mas isso não foi percebido por ninguém naquele momento. Todos trataram de se afastar da loucura equina e buscar proteção onde mais lhes conviesse.
-Saladino! Saladino, te contém! Es mesmo um bárbaro como se conta dos de tua terra!- Berrou um homem em trajes de caça, que esbaforido e quase caindo, tentava capturar o animal.

Aquele bicho parecia um ser fantástico. Suas patas mal e mal tocavam o chão. Elevava a cabeça nas alturas, relinchando com uma fúria maravilhosa.
Diante daquele turbilhão de músculos e escoiceio, apenas um pequeno menino. Um menino negro estático e hipnotizado a uma curta distancia, e que de repente começava a entoar uma triste melodia.
Aquele menino era também um ser sobrenatural. Não era desse mundo. Como poderia estar ali? Era belo e inacreditável. De onde emergira aquela criança etíope que só se vira igual em livros de iluminuras? Iluminuras feitas a mão, bordadas com filigranas em ouro; representando homens moradores das áureas pirâmides...

A melodia estranha causava arrepio; frio no estômago. Levava as lágrimas. Tocava a fundo a emoção dos que se achavam invencíveis e insensíveis a sua própria humanidade. Cortava com profundidade e lamúria a alma do homem mais nobre e do mais cafajeste. Inundava todo o ambiente como uma correnteza calma e contínua; um mantra puro que invadia a cabeça, que mexia com a frequência cardiorrespiratória. Fazia recordar sonhos...
O contraste entre os corpos do garoto e do animal era apenas chocante. O pequeno fedelho poderia ser convertido em uma substância amorfa lamentável, em qualquer movimento mais ou menos brusco das patas dianteiras do animal gigantesco diante dele. Mas heis que a respiração de todos os presentes cessou: O cavalo de batalha, antes abduzido pelo espírito de um vendaval, se deixou seduzir pelo encanto mágico daquele pequenino. Resfólegou mais algumas vezes, apenas para demonstrar orgulho e se deixou finalmente tocar, calmamente, pelas mãos finas e jovens que o acariciaram as ventas e a fronte.
-Quem é esse?
A pergunta repentina, aos poucos, foi rompendo o ar estupefacto de todos os presentes. Mas ninguém se resolveu a responder. A pergunta foi proferida novamente:
-Quem é esse mancebo retinto?
Até então os presentes não haviam notado que quem fizera a pergunta era o Rei em pessoa, mas quando finalmente deram por isso, o susto só foi superado, ao escutarem claramente o menino responder e sem titubear: “Eu sou Ide... qualquer coisa!”
-EU SOU IDERIBAH!
O moleque entendia o que era falado e, o mais surpreendente; sabia falar sua língua!
-Coloquem-se todos de joelhos, diante do Rei! -Exigiu o valete que se recuperava de todo aquele susto, pressionando rosto e pescoço com seu lencinho aromático.
Ideribah mantinha-se no centro do recinto; estático e olhando no fundo dos olhos do animal dominado por ele.
Frederico aproximou-se e tomou as rédeas do animal nas mãos.
Fez um ou dois gestos carinhosos no cavalo, beijando sua fronte e falando baixo:
-Saladino, menino astuto! Quem é esse que vem até nós e com tantos dons? Quem é ele? De onde será que veio? -E olhando diretamente para Ideribah: -Possuis um raro talento, guerreiro. Sim um raro talento... Saladino parece gostar de ti. Que tal se me ajudares um pouco com ele?
-Ajudar...
-Podemos começar por revisar esta cela... Não me parece muito segura e acho que ele se irrita com essa presilha...
Ideribah focou pela primeira vez os olhos daquele homem e viu imediatamente que ele era distinto de todos os outros fantasmas que conhecera.
Sua postura era alinhada, os movimentos contidos e seguros. Sua voz tinha uma fluidez agradável e calma. Não precisava elevá-la para que no instante em que começasse a falar, todos a sua volta lhe dessem atenção devotada. Apesar da simplicidade das roupas de couro, percebeu a limpeza extrema das unhas e o quanto eram polidas. Assim como os cascos do animal fúria.
Ideribah não sentiu medo daquele homem, mas um estranho fio de admiração misturada à... inveja.

O convite informal do homem notável para que Ideribah o acompanhasse em sua comitiva, surpreendeu a todos, menos ao menino; que caminhou ao lado do Rei, sem sentir-se intimidado.
Fogos e chamas incandescentes reviraram olhos e fizeram estremecer os alicerces da terra sob os pés dos outros que acompanhavam o desenrolar da cena: O pequeno desconhecido sendo guindado ao status de acompanhante real!
Muitos procuraram se conformar, repetindo para si mesmos, que aquele garoto seria um passa tempo temporário para sua majestade.
Ledo engano.

Com o passar dos dias e das temporadas, o jovem adquiria pequenos; porém, continuados privilégios, junto ao Rei.
Passou a acompanhar nas caçadas, a acompanhar nas visitas à velha mãe do Rei; até mesmo ganhando de presente uma bola de croché, que ela mesma havia urdido. Com o tempo, passou a comer nos aposentos reais e aprendeu com o próprio Rei a manobrar, com segurança, o intrincado jogo de talheres e copos de cristal delicadíssimo. Assistia aos recitais reais, com a presença da jovem rainha; que o olhava com curiosidade, através de seus gigantescos olhos de ébano; apenas sorrindo para ele, as vezes e discretamente.
Acompanhava o setter real nos passeios matinais pelo jardim particular de sua majestade.

Pouco falava. Muito observava. Sabia que era odiado pela maioria daqueles fantasmas velhos e frios, vestidos em roupagem escura e carregando consigo sempre algum documento para assinatura do Rei. Sabia que era vigiado em tempo integral e, apesar de sua pouca experiência, naquele mundo fabricado de cristal, seda, essências aromáticas e espelhos bisotê; sabia que era invejado. Invejado por cada presente aceito e por cada olhar de aprovação que recebia da jovem rainha. Por ser alfabetizado por ela e aprender rapidamente. Por crescer saudavelmente e por se tornar um jovem assombrosamente bonito.


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O Negro Rei 4

Aquele fantasma feio e magricelas sempre se aproximava. Aquilo era insuportável. Seus olhos tinham uma cor enjoada, como cocô de bebê novo.
Sempre vinha com um sorriso boboca e oferecia alguma carne, acompanhada de uma espécie de raiz aferventada.
Aquele idiota soprava um instrumento perfurado, uma imitação pavorosa de um objeto de seu próprio povo. Muitos dos fantasmas gostavam de soprar e percurtir instrumentos, enquanto bebiam daquela água de gosto amargo e forte, além de cantar uns juntos com os outros.

Ele veio, certa vez; quando a noite ia alta. Importunando, chegando-se perto demais, querendo deitar-se junto. Quando aquele demônio fantasma tentou acariciar seu rosto o menino negro mordeu-o fortemente no nariz, até sentir o gosto metálico do sangue entre os próprios dentes.
Isso fez o boboca gritar como um macaco.
Nisso, o outro garoto fantasma, que odiava o menino preto com o olhar, veio para ver o que ocorria. Começou a praguejar e a chorar como uma menina pequena.

Quanta estupidez inútil e sem explicação!
Abraçou o magricelas como se aquilo importasse muito.
Por que um homem choraria pelo ferimento de outro homem? Ele não era mãe daquele ali!

Ambos o olharam com ar de fúria e o menor tentou atingi-lo com um golpe de sua mão fechada. Perdeu a chance e caiu de cara sobre a serpente de metal gigante enferrujada, com a qual prendiam o grande túmulo na água infinita.
O de nariz sangrento veio também e era mais rápido que o outro. Se atracou com o garoto preto, empurrando-o contra a amurada.
O outro garoto, que havia caído, estava agora de pé e tinha uma daquelas facas explosivas na mão, o que assustou o boboca de olhos de cocô.
-Não!
A explosão fez doer muito os ouvidos e fez sentir desnorteio. Sentiu-se cair. Havia sido empurrado pela amurada, caindo na água infinita!
De fato foi o garoto de olhos feios, que colocou o próprio corpo diante do seu e ao ter o peito atingido, ambos perderam o equilíbrio.
Só se recordava de ter engolido imensas quantidades de água salgada e de perder os sentidos.

Sons estranhos e um cheiro forte de maresia o fizeram acordar.
Estava em terra, quase que completamente nu e com o restante de seus estranhos trajes, suspensos em um arbusto. Próximo de onde estava, havia uma fogueira.
Alguém o havia resgatado.
Os gigantes intocáveis! Sua provação estaria terminada, diante dos deuses?
Olhou em volta; não sabia se o sol morria ou se nascia. Aquela maldita confusão permanecia? As estrelas estariam todas trocadas ainda?
Caminhou para o outro lado e chegou até uma elevação. Havia uma escada que dava para um piso que parecia de madeira. Idêntico ao piso do túmulo que tinha de molhar com aquela odiosa vasilha.

-Você acordou!

Teve um sobressalto quando escutou aquela voz áspera e desgastada a seu lado.
Não entendeu as palavras que um fantasma velho, surgido, sabe-se lá de onde, lhe dirigia.
Aquele homem parecia possuir mil idades... Era trêmulo e murcho como, uma folha ressequida. Ele não parecia enxergar, pois seus olhos eram estranhos, como se tivessem derretido.
-Você não fala? É mudo? Bem, eu sou cego... Formamos um a boa dupla, não é criança?
O velho trazia nas mãos um pote, que lhe ofereceu. Haviam lentilhas dentro. Aquele gesto do velho o fez recordar-se do garoto de olhos cor de cocô.
Olhou em torno. Queria poder perguntar ao velho como havia vindo parar ali. Mas não saberia falar aquela língua. Ou até saberia, mas não queria, de modo nenhum, experimentar.
-Louvado seja o Nosso Senhor Jesus Cristo! -Balbuciou o velho.
De quando em vez aqueles fantasmas diziam aquilo... Palavras sem sentido.
O menino comeu as lentilhas com avidez, enquanto olhava para os lados, sem parar. Não queria ser pego desprevenido em alguma armadilha.
Fugir. Só o que pensava era em fugir dali, na melhor oportunidade que tivesse. Mas fugir para onde? Que lugar estranho era aquele?
Suas mãos estavam com as palmas enrugadas e frias. Compreendeu que deveria descansar para se comunicar com os guias sagrados dos sonhos. E a fala monótona e incompreensível do velho, hora tossindo, hora rindo sozinho e assoando o próprio nariz numa zoeira sincopada, acabou lhe servindo como um poderoso sonífero.
  Quando despertou, não viu sinal do velhote. Ele havia desaparecido. Mas o menino estava novamente com suas estranhas roupas colocadas no corpo. Como era possível?
Tratou de caminhar para fora daquele território. Andou cuidadoso, esgueirando-se por locais em que não poderia ser visto.
Num certo ponto avistou um entreposto comercial apinhado de pessoas. Muitos eram parecidos com os fantasmas embonecados cobertos de pedras de todas as cores que visitavam o grande túmulo. Mas ali não havia ninguém de seu povo.
Havia imensa quantidade de caixotes sendo transportados de outros túmulos para a terra. Alguns eram colocados em carroças puxadas por bestas, outros eram abertos e tinham seu conteúdo exposto: Tecidos de trama colorida e brilhante, facas explosivas de diversos tamanhos, coisas e mais coisas, gente e mais gente. Gente feia, barulhenta e falando sem parar.
Olhou para várias direções; animais esquisitos, cantoria, mulheres ou o que fosse aquilo, com a cara pintada. Garrafas rolando, homens se atracando, sangue se espalhando. Guerreiros imponentes, montados em bestas, espancando aquela gente com seus rebenques muito finos e frenéticos.
Prosseguiu esgueirando-se e se mantendo a salvo em pequenas cavernas com cheiro ruim, que ficavam abaixo do local por onde trotavam as pessoas e as carroças.
Viu meia dúzia de famílias fantasma com mães e filhos parados no meio do nada e com as mãos estendidas para homens e mulheres que passavam. Sentiu uma dor funda ao ver aquelas pessoas.

Seu olhar era parecido com o olhar de agonia de seu povo dentro do grande túmulo...
Olhou para o alto e viu a coisa mais inacreditável e estranha de toda a sua vida. Uma torre infinita que se erguia como os gigantes intocáveis que o visitavam em sonhos. Tão altas e espetaculares que chegou a sentir tontura ao olhar para cima. Mas quando o ar ficou mais limpo e transparente, quase chorou ao constatar que aquelas torres estavam por toda a parte. Não apenas compridas e magras, mas também arredondadas, gemuladas, douradas e brancas; de marfim como as presas do maior animal sagrado. E no alto, flâmulas da cor do céu com desenhos cintilantes davam ainda mais encanto aquele mundo tão estranho.
Quando ficou mais escuro, sentiu o estômago apertar de vazio.
Não se atrevera a sair de seu esconderijo para caçar, durante a luz do dia e agora vinha até ele um aroma parecido com o da sopa e da carne, que era servido no grande túmulo.
Num local não muito afastado, fardos e mais fardos eram colocados em carroções, junto à carne salgada e a botelhas da bebida amarga; aquela da qual os fantasmas costumavam gostar...
Aproveitou o descuido de um dos homens, que voltara a outra direção, para buscar mais mantimentos e arrancou um naco da carne. Mastigou raízes e também frutas. Olhou uma das botelhas e com a sede que sentia, devido o sal da carne, virou na própria garganta goles generosos da bebida amarga do conteúdo.
Alguém se aproximava e ele já não tinha tempo de correr de volta para sua caverninha secreta. Sobre os mantimentos da carroça havia uma couraça de animal encobrindo tudo. Pensou rápido. Esgueirou-se por baixo da cobertura, mantendo-se incógnito. Mas quando alguém subiu próximo a seu lado e o veículo começou a se mover, sentiu verdadeiro pânico...