quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O Negro Rei (3)

De fato o que ocorreu foi que o tempo se estendia, enquanto o menino se transformava de exótica curiosidade em mais um agregado, praticamente comum como qualquer outro.
Era arredio à aproximação e não emitia um único som em sua fala; nem mesmo chorou ao ferir-se acidentalmente com as brasas de um dos fogões.
Escondeu o ferimento até que cicatrizasse sozinho. Mais uma cicatriz das tantas que havia recebido em seu pequeno corpo imberbe e das quais a maioria desconhecia.

De quanto ódio os homens fantasma são capazes!

 Quanta tortura e morte eram capazes contra crianças e contra meninas.  
Parte do horror que vivera e testemunhara, se apagava no breu de sua memória. Defesa de sua sanidade. O que permanecia era o cheiro de suor humano; contato de corpos trêmulos contra o seu, pequeno e sufocado; sol e noite com os mesmos solavancos que o tonteavam e as palavras murmuradas em falas diferentes que, ele sabia, buscavam pela mágica salvadora dos gigantes intocáveis.
Mas não havia ali, naquela prisão, a raiz azeda e nem a pedra azulada que o grande sábio usava, não havia a canção secreta e nem o leite da mãe do jaguar que faria com que todos dançassem. Não havia como se comunicar com os sagrados gigantes intocáveis...
Ali, naquele sepulcro ruidoso, seu pequeno coração de menino esbordoava seu peito como se quisesse rompê-lo e fazê-lo em pedaços... Ali, os pesadelos que tinha, quando seu corpo extenuado e dolorido desligava-se, se fundiam com a realidade. E isso era tudo o que havia. Estava condenado. Não veria mais suas queridas mães, sabia que nunca mais as abraçaria...
Se aquele suplício serviria para engrandecê-lo diante dos gigantes intocáveis, preferia morrer. Pediria a eles que retomassem dele o sopro e que entregassem suas cinzas a mais velha das mães. Era a ela que pertencia; pois ela era a terra. O princípio de tudo. Queria tornar-se o silêncio das montanhas...

  As falas daqueles monstros! Suas caras feias, fétidas e de dentes podres! Os olhos sem cor! O pavor do látego com que ameaçavam meninas.
Meninas foram maltratadas por aqueles demônios e levadas para não mais voltar. Agora ele sabia; foram lançadas na água infinita! Sem que seus espíritos recebessem os rituais sagrados devidos, que as conduziria para junto dos seus no Orum.
Desespero. Seus antepassados ficariam sem encontrar suas filhas; seus corpos seriam devorados por bestas amaldiçoadas da água infinita. Destino apenas dado a criminosos! E isso por culpa dos imundos homens fantasma...

No dia em que o retiraram do porão da embarcação, seus olhos doeram pelo brilho.
Custou para acostumar-se à claridade e sua cabeça também não parava de doer, enquanto um dos fantasmas, o mais medonho e fedorento de todos, gritava e o derrubava com sopapos.
Sentia o corpo fatigado demais e acreditava que nunca mais conseguiria voltar a andar.
Deram-lhe então uma sopa de gosto forte que, aos poucos, lhe devolveu as forças.
Aquela língua horrível de sons guturais, chiado indecente e feioso, lhe parecia maldita. Uma sujidade espúria dos mundos solitários dos caminhantes sem espírito. Demorou até compreender o que queriam que fizesse.
Por fim, compreendeu que deveria descer um vasilhame até a água infinita e enchê-lo para depois molhar o madeirame em que pisavam. Aquela parecia uma medida importante que devia cumprir várias vezes e a intervalos curtos.
Não saberia contar quantas vezes repetia a tarefa e em alguns momentos tinha a companhia de um jovem que lhe dardejava um olhar de verdadeiro ódio. 
Não sabia, mas o jovem em questão era um grumete, uma espécie de marinheiro aprendiz que tinha tarefas demais a cumprir não conseguindo dar conta de todas elas. A decisão por colocarem um menino escravo par ajudá-lo lhe pareceu humilhante. Queria provar a todos que era bom o suficiente e que não precisava da ajuda de um fracote daqueles. Mas a decisão havia sido tomada. Era de vital importância manter o convés encharcado adequadamente ou o madeirame todo empenaria. Sabia que era sua última chance naquela embarcação...
A princípio pensaram que não sobreviveria; mas até que era forte para seu tamanho. Não falava, mas era atento; prestava atenção aos detalhes e aprendia depressa. Já sabia, em pouquíssimo tempo, dois ou três tipos de nós de marinheiro. Isso, só observando os mais velhos! E o jovem grumete, aflito, sabia serem esses os mais difíceis, além do que, ele próprio, talvez jamais conseguisse aprender a fazer um único decente!
O menino preto estava sim, aos poucos, caindo nas graças da tripulação. Já subia na gávea com segurança e ao avistar algum cardume, descia e lançava uma tarrafa, feita por ele mesmo e capturava  o próprio almoço. O jovem grumete até o flagrou engolindo uma lagartixa! Não passaria fome aquele ali.
As coisas não iam bem mesmo... E pioraram ainda mais, quando o grumete mor, com os olhos mais verdes que o atol mais bonito, passou a olhar com paixão para aquele fedelho retinto! O coração do jovem grumete despedaçava-se cada vez que percebia seu amado aproximar-se do menino, sorrir-lhe e dividir com ele a própria comida!

O menino odiava todos aqueles demônios, mas com o tempo passou a amar o perfume do mar e o movimento da dança da água infinita. Viu que os fantasmas também cantavam e rezavam a seus intocáveis de alguma maneira estranha. E que precisavam comer e defecar como qualquer animal de sua terra. Seu pelos também se soltavam e algumas vezes viu os menores chorando como bebês... Sentiam fome e sede e ainda por cima, pescavam!
Nas sucessivas terras em que atracavam o grande túmulo, dezenas dos de seu povo eram levados. Com os ossos aflorando de suas peles, tropeçando, por vezes caindo, alguns até agonizando e morrendo, eram a imagem mais triste de toda sua vida. Horripilante e dolorosa demais...
Vinham até o grande túmulo fantasmas com rosto pintado e com gemas brilhantes nas mãos e no peito. Mas nenhum tinha alguma pedra azulada como a do sábio e muito menos um manto de pele de jaguar.
Ao garoto não foi permitido se juntar a seu povo na peregrinação para fora e no destino desconhecido que os aguardava. Deram-lhe uma surra, quando correu para se juntar a eles e ele chorou, mas não pela dor do espancamento.
Chorou por ser tão fraco e por não poder matar todos os fantasmas.
Matá-los, arrancar suas cabeças nojentas, cuspir e mijar em cada uma delas! Estripá-los devagar; e fazê-los sangrar de cabeça para baixo e então puxar suas vísceras lentamente e fazendo-os assistir a sua própria evisceração.
Ah! Como seria glorioso encobrir seus narizes e obrigá-los a engolir brasas vivas. Atirar seus filhotes imundos e brancos aos cachorros... Pisotear os que sobrevivessem ao acaso!
Seu ódio era tanto que mal conseguia respirar. Ficou sem comida um dia inteiro e não obedecia aos chutes e nem ao chicote. Mas algo brilhou em sua mente de uma hora para outra. Tinha que sobreviver. Tinha que crescer. Tinha que juntar forças para um dia esmagar e destruir todos aqueles demônios sujos!

Quando as estrelas mudaram de posição, tudo ficou cinza e azulado. Não havia ar cálido, pois ele agora machucava sua pele e fazia os ossos doer.
Seu corpo tremeu de maneira esquisita, como nunca antes. Era devido aquele ar estranho gélido e cinza. Sentiu medo que aquilo pudesse transformá-lo em fantasma também! Então lhe jogaram por cima um capote pesado.
Nunca vira aquilo.
Parecia com a indumentária dos monstros e ele se recusava a colocar; nem sabia como faria.
Aquilo era confuso e não tinha jeito.
Vestiram-no os próprios fantasmas, mas ele não entendeu como o fizeram. Seus braços foram envolvidos por aquelas coisas que eram como cilindros. Eram molengas e davam coceira.
Respirar feria seu peito; pois o ar congelante cortava por dentro e sua respiração saia em lufadas de fumaça trêmula e branca como as mãos os fantasmas.