domingo, 31 de agosto de 2014

O Negro Rei (2)


Copenhague, Dinamarca. Ano de nosso Senhor de 1700.
Naquela madrugada de verão, em um dos palácios do Rei Frederico IV; sua majestade real não acompanhava e nem fazia ideia, do trabalho árduo e da movimentação histérica que tinham inicio dentro das cozinhas palacianas.
Carroças abarrotadas de legumes frescos; vinhas; frutos recém-colhidos e verduras; a mais tenra carne de reses, além de uma quantidade de caça abundante; tarros com litros e mais litros caudalosos de puríssimo leite. Peixes e crustáceos do sabor mais delicado e das mais profusas espécies, chegavam à cozinha real, numa procissão extensa e interminável.
Garrafas do melhor vinho eram retiradas da adega e tinham o pó e suas teias, acumulados de anos, espanados.
Taças e prataria eram meticulosa e cansativamente polidas. Vai e vem de servos atarefados, sem tempo para tagarelice. Todos sabiam que seria dado um grande banquete e que nele estaria presente a candidata à futura esposa do Rei. O que não era uma coisa à toa.

O Rei, em pessoa, havia se dedicado à missão de encontrar uma rainha para si e para seus súditos dos reinos de Dinamarca e Noruega. Seu intento parecia estar satisfatoriamente encaminhado para o êxito; pois a filha de uma das casas mais nobres da realeza inglesa estava inclinada a aceitar o tão aguardado pedido do Rei protestante. O que despertava invejosa atenção e causava contrariedade a países como Espanha e França.
  
A posição política e econômica da Dinamarca, não representava ainda uma ameaça à soberania militar e comercial desses países, mas o fato de aliar-se a seu rival inglês, poderia significar um problema no futuro. Todos sabiam que Frederico era ambicioso e que governava a Dinamarca com temperança, visão muito lúcida de sua época e habilidosa noção de diplomacia. Mantinha a Noruega sob seu domínio, numa temível demonstração de seu alentado desejo de expansão a territórios vizinhos.
A Inglaterra possuía a marinha mais poderosa do mundo.
No tabuleiro das possibilidades nefastas, um herdeiro do trono dinamarquês poderia talvez vir a ser o herdeiro do trono inglês... E tudo talvez dependesse daquele banquete.



A cozinha do palácio, aos poucos, diminui sua turbulência e também o número de intrusos.Todos os itens listados haviam sido conferidos cuidadosamente e fornecedores terminaram de esvaziar os últimos fardos de seus carroções. Aos poucos, o empenho dos que se concentram em seu trabalho de descascar, picar, destrinchar, fatiar e cozinhar, leva o ambiente a um monótono silencio que é quebrado por uma agitação vinda da despensa. Três cães arranham a porta e grunhem sem sossego. Para lá todos acorrem imediatamente:

-Ora, mas o que é isso? Deus do céu... mas é sim um daqueles...
-Como ele veio parar aqui?
-Só Deus sabe... Mas vejam vocês, que está assustado...
-Com essa cara de bode tua!
-Silencio, matracas! É uma criança e está prestes a desmaiar...Tragam-lhe um pouco de água! Menino! Menino...
-Ele vai capotar!

-Afastem-se um pouco. Deem-lhe espaço para respirar... Mas que coisa! Tirem daqui esses cachorros babões!




O menino aparentava ter entre seis ou sete anos de idade. Sua pele extremamente escura era o atestado de sua origem africana. Aquele menino, provavelmente fugira de um dos repugnantes negociantes de escravos, sempre de passagem pelos portos. Com agilidade e pequeno tamanho, conseguira entrar nas cozinhas do palácio, aproveitando-se do tumulto daquela madrugada.
A sorte dele era o clima estar ainda ameno; pois com os parcos andrajos que vestia, era certo que não sobreviveria um único dia ao forte inverno dinamarquês.
Após as medidas mais urgentes, como dar água e alimentar o garoto, formou-se um comitê secreto entre os que o viram primeiro e resgataram, para decidir o que fazer com ele.
Não fora visto por outras pessoas, além do mordomo do guarda caças e de duas cozinheiras; uma delas chefe. Esses os que falavam:
-Veja os pulsos e os tornozelos: Cicatrizes.
-Deve ter sido colocado a ferros.
-Magro, mas não desnutrido.
-Possui todos os dentes.
-Talvez ainda em vias de trocar alguns...
-Penso que o chefe da guarda saberá o que fazer.
-O que? Aquele parvo imbecil!
-Fala baixo! Queres ser açoitada, mulher?
-Ora, pois eu digo que não vamos entregar esse pimpolho a ninguém.
-Estás louca? Podem nos prender...
-Escuta bem uma coisa: Se ninguém vier fazer queixa, não há problema em mantê-lo aqui.
-Mas e se vierem? E se a essa hora estiverem a procura do mancebo?
-Francamente! Esse menino fugiu a noite, a essa altura a embarcação deve estar em alto-mar. Nem devem ter dado pela falta.

-E tu, qual o teu palpite?



-Em verdade não se demoram muito nessas docas. Querem fazer dinheiro. Vender sua “mercadoria” além-mar! Demorar-se significa prejuízo, custa dinheiro manter-se atracado! Pessoalmente, gosto do menino. Tem porte de bom caçador!
-Ele é tão gracioso. Parece uma miniatura de terracota!
-Parece mesmo... com aquele ícone da velha igreja...
-O santo Maurício!
-É esse. Era general de Roma com a pele retinta como a desse daí e foi feito santo.
-Não podemos mais ter imagens de santos...
-É sacrilégio!
-Vejam bem. Acho improvável que seus captores suspeitem que ele esteja na corte do Rei Frederico.
-Ainda acho mais prudente entregá-lo ao comandante! Ele saberá como melhor agir!
-Pois eu digo que pode permanecer na minha cozinha. Há comida suficiente e ele pode arear panelas pequenas, descascar batatas, esfregar o piso... Qualquer trabalho que possa com esse tamanho. Precisamos de braços por aqui!
-Não estou de acordo. Acho sim que devemos informar...
-O comandante da guarda, já sei. Já disse isso. Escuta: Estão atarefados com os preparativos e com o treino da segurança. Se fores falar com ele hoje, com o humor em que está, corres o risco de seres empalado!
-Deus me livre!
-Queres correr esse risco? Então, atenção. O mancebo fica por aqui por um tempo, até que se possa avaliar tudo em melhor critério... Vejam, amigos. Estou com minhas tarefas acumuladas, preciso falar com o confeiteiro e começar a marinar as aves. Hoje esse assunto se encerra. E não quero aqueles sarnosos aqui novamente, guarda caças!
-E o que tens contra meus fieis mastins?

-São uns pulguentos e precisam de um banho! Assim como tu!

-Mulher...
-Acalmem. Todos temos muito trabalho. Deixa a criança repousar na despensa até se recuperar. Quando em vez dou uma olhada.
-Ele vai é fugir de novo.
-Não vai não. É esperto. Sabe que caiu em boas graças.










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