domingo, 31 de agosto de 2014

O Negro Rei (2)


Copenhague, Dinamarca. Ano de nosso Senhor de 1700.
Naquela madrugada de verão, em um dos palácios do Rei Frederico IV; sua majestade real não acompanhava e nem fazia ideia, do trabalho árduo e da movimentação histérica que tinham inicio dentro das cozinhas palacianas.
Carroças abarrotadas de legumes frescos; vinhas; frutos recém-colhidos e verduras; a mais tenra carne de reses, além de uma quantidade de caça abundante; tarros com litros e mais litros caudalosos de puríssimo leite. Peixes e crustáceos do sabor mais delicado e das mais profusas espécies, chegavam à cozinha real, numa procissão extensa e interminável.
Garrafas do melhor vinho eram retiradas da adega e tinham o pó e suas teias, acumulados de anos, espanados.
Taças e prataria eram meticulosa e cansativamente polidas. Vai e vem de servos atarefados, sem tempo para tagarelice. Todos sabiam que seria dado um grande banquete e que nele estaria presente a candidata à futura esposa do Rei. O que não era uma coisa à toa.

O Rei, em pessoa, havia se dedicado à missão de encontrar uma rainha para si e para seus súditos dos reinos de Dinamarca e Noruega. Seu intento parecia estar satisfatoriamente encaminhado para o êxito; pois a filha de uma das casas mais nobres da realeza inglesa estava inclinada a aceitar o tão aguardado pedido do Rei protestante. O que despertava invejosa atenção e causava contrariedade a países como Espanha e França.
  
A posição política e econômica da Dinamarca, não representava ainda uma ameaça à soberania militar e comercial desses países, mas o fato de aliar-se a seu rival inglês, poderia significar um problema no futuro. Todos sabiam que Frederico era ambicioso e que governava a Dinamarca com temperança, visão muito lúcida de sua época e habilidosa noção de diplomacia. Mantinha a Noruega sob seu domínio, numa temível demonstração de seu alentado desejo de expansão a territórios vizinhos.
A Inglaterra possuía a marinha mais poderosa do mundo.
No tabuleiro das possibilidades nefastas, um herdeiro do trono dinamarquês poderia talvez vir a ser o herdeiro do trono inglês... E tudo talvez dependesse daquele banquete.



A cozinha do palácio, aos poucos, diminui sua turbulência e também o número de intrusos.Todos os itens listados haviam sido conferidos cuidadosamente e fornecedores terminaram de esvaziar os últimos fardos de seus carroções. Aos poucos, o empenho dos que se concentram em seu trabalho de descascar, picar, destrinchar, fatiar e cozinhar, leva o ambiente a um monótono silencio que é quebrado por uma agitação vinda da despensa. Três cães arranham a porta e grunhem sem sossego. Para lá todos acorrem imediatamente:

-Ora, mas o que é isso? Deus do céu... mas é sim um daqueles...
-Como ele veio parar aqui?
-Só Deus sabe... Mas vejam vocês, que está assustado...
-Com essa cara de bode tua!
-Silencio, matracas! É uma criança e está prestes a desmaiar...Tragam-lhe um pouco de água! Menino! Menino...
-Ele vai capotar!

-Afastem-se um pouco. Deem-lhe espaço para respirar... Mas que coisa! Tirem daqui esses cachorros babões!




O menino aparentava ter entre seis ou sete anos de idade. Sua pele extremamente escura era o atestado de sua origem africana. Aquele menino, provavelmente fugira de um dos repugnantes negociantes de escravos, sempre de passagem pelos portos. Com agilidade e pequeno tamanho, conseguira entrar nas cozinhas do palácio, aproveitando-se do tumulto daquela madrugada.
A sorte dele era o clima estar ainda ameno; pois com os parcos andrajos que vestia, era certo que não sobreviveria um único dia ao forte inverno dinamarquês.
Após as medidas mais urgentes, como dar água e alimentar o garoto, formou-se um comitê secreto entre os que o viram primeiro e resgataram, para decidir o que fazer com ele.
Não fora visto por outras pessoas, além do mordomo do guarda caças e de duas cozinheiras; uma delas chefe. Esses os que falavam:
-Veja os pulsos e os tornozelos: Cicatrizes.
-Deve ter sido colocado a ferros.
-Magro, mas não desnutrido.
-Possui todos os dentes.
-Talvez ainda em vias de trocar alguns...
-Penso que o chefe da guarda saberá o que fazer.
-O que? Aquele parvo imbecil!
-Fala baixo! Queres ser açoitada, mulher?
-Ora, pois eu digo que não vamos entregar esse pimpolho a ninguém.
-Estás louca? Podem nos prender...
-Escuta bem uma coisa: Se ninguém vier fazer queixa, não há problema em mantê-lo aqui.
-Mas e se vierem? E se a essa hora estiverem a procura do mancebo?
-Francamente! Esse menino fugiu a noite, a essa altura a embarcação deve estar em alto-mar. Nem devem ter dado pela falta.

-E tu, qual o teu palpite?



-Em verdade não se demoram muito nessas docas. Querem fazer dinheiro. Vender sua “mercadoria” além-mar! Demorar-se significa prejuízo, custa dinheiro manter-se atracado! Pessoalmente, gosto do menino. Tem porte de bom caçador!
-Ele é tão gracioso. Parece uma miniatura de terracota!
-Parece mesmo... com aquele ícone da velha igreja...
-O santo Maurício!
-É esse. Era general de Roma com a pele retinta como a desse daí e foi feito santo.
-Não podemos mais ter imagens de santos...
-É sacrilégio!
-Vejam bem. Acho improvável que seus captores suspeitem que ele esteja na corte do Rei Frederico.
-Ainda acho mais prudente entregá-lo ao comandante! Ele saberá como melhor agir!
-Pois eu digo que pode permanecer na minha cozinha. Há comida suficiente e ele pode arear panelas pequenas, descascar batatas, esfregar o piso... Qualquer trabalho que possa com esse tamanho. Precisamos de braços por aqui!
-Não estou de acordo. Acho sim que devemos informar...
-O comandante da guarda, já sei. Já disse isso. Escuta: Estão atarefados com os preparativos e com o treino da segurança. Se fores falar com ele hoje, com o humor em que está, corres o risco de seres empalado!
-Deus me livre!
-Queres correr esse risco? Então, atenção. O mancebo fica por aqui por um tempo, até que se possa avaliar tudo em melhor critério... Vejam, amigos. Estou com minhas tarefas acumuladas, preciso falar com o confeiteiro e começar a marinar as aves. Hoje esse assunto se encerra. E não quero aqueles sarnosos aqui novamente, guarda caças!
-E o que tens contra meus fieis mastins?

-São uns pulguentos e precisam de um banho! Assim como tu!

-Mulher...
-Acalmem. Todos temos muito trabalho. Deixa a criança repousar na despensa até se recuperar. Quando em vez dou uma olhada.
-Ele vai é fugir de novo.
-Não vai não. É esperto. Sabe que caiu em boas graças.










sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O Negro Rei (1)

Negro. Lábios desenhados. Porte alinhado. Ginga suave, de cadência graciosa, firme e segura.
Pele tão absolutamente negra. A marca antiquíssima de guerreiros e príncipes; núbios e egípcios; cartagineses e etíopes; tuaregues; somalis... deuses desconhecidos... cimitarras... incensos....

-...Por favor... não... meu braço... majestade, por favor...
Crueldade, impiedade... força esmagadora!
-Você percebe quem eu sou, menina?
Beleza suprema e tão ameaçadora... Olhos de fogo negro!
-Sim, meu senhor... Tu es...oh... tu es o maior de todos... não desejei aborrecê-lo, majestade... eu juro...
A respiração é profunda e, embora silenciosa, contém as ventanias e tempestades mais aniquiladoras. A voz dilui-se e é quase inaudível:
-Não aborreceu, menina... mas eu considero importante fazer com que meus súditos lembrem.

-Senhor, perdoe; mas acreditas que a imagem do Rei da Dinamarca deva sempre emitir força?
-Você quer dizer crueldade?
-Não senhor, eu não quis...
-O que uma criança como você pode saber? Responda!
-Eu... Não sei, senhor! Por favor, perdoe minha ousadia, meu amado Rei...
-Sim. Eu sou o seu amado Rei. Eu não sou ternura. Eu não sou a brisa cálida. Eu não sou placidez! Eu sou o fio gélido da espada lancinante, eu sou o brilho ferino do olho do Jaguar, eu sou o calafrio do mais sombrio pesadelo, eu sou a verdade implacável e única. Eu sou o cerne de uma nação, menina!
-Sim, meu senhor e meu Rei...
O hálito é levemente etílico. O corpo negro, perfeito e majestoso, depois de toda a tensa cena, acaba por deixar-se relaxar sobre veludo carmim; num contraste de cores e composição absolutamente maravilhosos.
Ali, naquele suntuoso recinto, centralizado na câmara, acessível apenas a poucas pessoas em todo o país; em todo o seu poder e silêncio, repousava Frederico V. O negro Monarca da DINAMARCA e NORUEGA.



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Oceano

Assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão
Dava prá ver o tempo ruir.

Cadê você, cadê você, que solidão?
Esquecerá de mim?

E enfim, de tudo que há na terra
Não há nada em lugar nenhum,
Que vá crescer sem você chegar.

Longe de ti tudo parou
Ninguém sabe o que eu sofri.

Amar é um deserto e seus temores
Vida que vai na sela dessas dores
Não sabe voltar, me dá teu calor.

Vem me fazer feliz, porque eu te amo.
Você deságua em mim e eu oceano...
E esqueço que amar, é quase uma dor...
Só sei viver se for por você.

by Caetano Velozo.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Meu Amor

Uma cavidade no peito. Uma dor que toma conta. 

Agonia funda. 

Ele... Ele sentiu muito pior do que sinto nesse momento. 

Ele implorou por mim num lamento inaudível, ele murmurou  meu nome, sem nem saber como pronunciá-lo.
Ele me queria a seu lado. Queria que eu o tirasse dali. Daquela prisão de dor...

Meu amor...


purpurina

Dança sozinha, as estrelas rodando. 

Flutua com as pontas dos pés, mal tocando no chão. 

Bêbada de aspirações; iludida pelo brilho fascinante feito de diamantes que ela mesma plantou no horizonte estilhaçado. 

Fecha os olhos e canta, canta sozinha, medrosa de que possa acordar os cães de guarda de olhos faiscantes como diamantes que viu no horizonte escancarado.

 Louca flamejante se hipnotiza sozinha dia a dia para exorcizar o medo dos rochedos que esperam nas sombras pela hora de estilhaçar suas asas vagabundas feitas de purpurina.



terça-feira, 19 de agosto de 2014

amando

Querido, como gosto de ti!

Como gosto de falar contigo, sentir tua proximidade.

Me comovo com tua beleza.

Queria poder te mostrar o Oceano, as planícies, os lugares e as canções de que sou feita.
Queria te presentear com o melhor de mim.

Não me esquece nunca na tua vida.

Guarda um espaço de cálido afeto em teu coração prá mim.

Tenho certeza que te amo, menino. 
Porque só agora fiquei viva.



sábado, 9 de agosto de 2014

Coração à deriva.

Encontra meu coração desprotegido e se aproxima de mim. 

Me cativa com um sorriso fabuloso e com a sua voz de fascínio. 

Me acerca e se achega devagar. 

Se aconchega em mim como se eu te pertencesse, como se me conhecesse há muito tempo. 

De onde surge essa mágica? 

O que me fez começar a gostar tanto de ti?

Meu coração quer que eu seja novamente criança, só por tua causa. Quer me levar por caminhos que nunca percorri. 

Me fazer  deitar ao teu lado. 

Sonhar os teus sonhos. 

Nadar sobre a seda turquesa, completamente nua.




Lembra de mim...







Lembra de mim!

Lembra de mim

Dos beijos que escrevi

Nos muros a giz

Os mais bonitos

Continuam por lá

Documentando Que alguém foi feliz...

Lembra de mim!

Nós dois nas ruas

Provocando os casais

Amando mais

Do que o amor é capaz

Perto daqui

Há tempos atrás...

Lembra de mim!

A gente sempre

Se casava ao luar

Depois jogava

Os nossos corpos no mar

Tão naufragados

E exaustos de amar...

Lembra de mim!

Se existe um pouco

De prazer em sofrer

Querer te ver

Talvez eu fosse capaz

Perto daqui

Ou tarde demais...

Lembra de mim!...

Lembra de mim!

A gente sempre

Se casava ao luar

Depois jogava

Os nossos corpos no mar

Tão naufragados

E exaustos de amar...

Lembra de mim!

Se existe um pouco

De prazer em sofrer

Querer te ver

Talvez eu fosse capaz

Perto daqui

Ou tarde demais...

Lembra de mim!

by Ivan Lins




quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Tênue

Percebendo o tempo. 
Escutando a voz da chuva.

Entendendo sinais apagados. 
Capturando a anulação da fúria.

Jejuando camadas de injúria.

Eclipsando fornalhas mortas. 

Desconfigurando cristais de gelo. 
Batendo à tua porta.


Desvanesce

A mágica está acontecendo agora, 
nesse momento. 

O depois? 
Não existe. 
Não pesa. 
Não tem densidade.

O que não sei, guardo encerrado.

Ele? Não. 
Eu.
Beleza? Sim. 
Vazia.
Encontro?
 Não sei se quero.

Relações? Algumas dão certo. 
Simples assim.



quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Te Quero

Meu corpo entendeu que quer mais daquele abraço lindo. 

Minha alma criança descobriu que QUER SER para sempre tua alma criança.
 Para o que der e tiver que ser... 

Quero te chamar e te ouvir me chamar de teu amor... 

Quero ser elo de ouro fundamental de toda a tua minha vida.


Monólogo do Abandono em Si.



Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria... que "tudo" aquilo se perdesse...
Eu não queria que ele fosse embora... Eu não queria depender apenas de lembranças!
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria... ter que  depender da saudade...
Mas ele foi.

Tava tudo calmo, tranquilo!  Eu chegando em casa, depois do trabalho, meu amigo me ligando e insistindo, pra nossa noite sagrada... de jogatina - A gente jogava UNO nos sábados.
Mas dessa vez, eu quase não fui... Era tarde. Queria relaxar... dormir!! Mas alguma coisa me chamava...uma outra coisa, uma energia. Sei lá, eu fui...
De tão cansado, me perdi no meio do caminho. Mas acabei chegando. Entrei. Cumprimentei o pessoal e fui roubado por um par de olhos verdes...que eram uma espécie calmaria pros meus pensamentos... fiquei meio transtornado, por toda aquela tranquilidade! Eram olhos que me diziam muitas coisas, coisas que eu não decifrava... Era  um cara que eu não conhecia. Mas logo saquei que tava acompanhado. Foi um banho de água fria... Mas, mantive a calma de sempre. Observava todos como se meus olhos fossem uma câmera de cinema, captando todos os detalhes.
Começamos os trabalhos... Jogamos por umas 2 horas entre uma taça de vinho ou outra. Até que não aguentei: Precisava sair, fumar um pouco. E foi o que eu fiz.
Voltamos para a jogatina. Dança das cadeiras e tal  ele... senta do meu lado!
Eu saquei que eu já estava perdido. Eu não respirava, tremia... tava muito a fim dele!
 A gente recomeçou a partida e eu só perdia. Parei, respirei fundo e senti o perfume dele. Fiquei meio bobo... Meio que perdi o controle. Precisava tocar nele. E daí resolvi fazer massagem no seu ombro., mas começou a dar muito na cara,né? Então, com a outra mão, comecei a massagear o ombro de outro amigo. Mas eu tava ligado no cara de olhos verdes. Aquela era a pele mais linda que já toquei.
Fui fumar de novo e dessa vez, ele me acompanhou...
Conversamos de quase tudo: profissão, gostos, comida. A gente tinha muita coisa parecida.
- Tu tá com aquele cara lá de camisa branca?- perguntei. E ele respondeu: -Não.
Disse que eram só amigos. Tive no céu por um instante  e voltei. daí ele perguntou: - Tu tá  com o Wagner? Respondi rápido: - Não, ele é meu grande amigo...
Sorrisos. Voltamos pro jogo. Não só de cartas, mas também de olhares cheios de significado!
Ficamos assim por mais um tempo e outro cigarro já começava, e os papos giraram a respeito de outros relacionamentos...
Meus amigos começaram a querer sair, eu não queria ir para casa, porque imaginava que talvez ele tivesse a fim de ficar comigo e pra mim a noite já tinha sido dada por encerrada. Falei que não  queria sair e  ele também disse que não. O Wagner insistiu, fez uma certa chantagem emocional e eu não resisti. Falei: - Tá legal, pessoal.Também vou! Nessa hora aqueles olhos verdes cruzaram com os meus e saímos todos...
Ficamos um do lado do outro. Viramos grandes amigos em uma noite- risos- falamos de tudo.
Apareceu um boyzinho pentelho e começou a se insinuar pra aquele homem lindo que eu queria prá mim. Fiquei irritado mas pensei que eramos apenas bons novos amigos. O que ele queria comigo?
Nada com certeza. Fui fumar. Ascendi um e fumei todo sem falar nada. Voltei para a pista caladão. Vi uma troca de olhares que eles tiveram!
Ele foi fumar. Depois voltou. E o piá ainda continuou em cima. Falei provocando: - Vai lá! É só levar, ele tá na tua...Ele riu ( o sorriso mais lindo que eu já vi.) Me convidou para tomar tequila. Recusei, com a seguinte desculpa: - Se eu beber, vou fazer besteira! Ele retrucou, dizendo: - Faça!
Quando ele falou que ia beber, eu disse foda-se e fui atrás! bebemos uma dose de tequila e voltamos para a pista. Olhei pra ele e falei: -Eu disse que ia fazer besteira, e ele retrucou:
 -Então faça! E aconteceu o beijo mais lindo do mundo!
 Nunca pensei que algo assim pudesse acontecer. Sempre achei ridículo aquele papo de sininhos e o mundo parando enquanto rola um beijo. Mas foi o que aconteceu. Parecia que eu tinha saído do meu corpo e tudo parou. Era só  ele e eu. A gente não se soltou mais...
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria que tudo aquilo se perdesse.
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria depender apenas de lembranças.
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria depender da saudade...
Nos encontramos no dia seguinte e sempre que podíamos e assim seguiu... nunca vou esquecer o dia em que ele parou para conversar com um conhecido e  pegou minha mão segurando forte e não permitindo que eu soltasse. Eu era dele e ele, ele era meu. E ele queria mostrar isso pro mundo. Foi por causa desse tipo de coisa que me apaixonei por ele...
A nossa primeira noite juntos foi...foi...
Ele tocou meu rosto com delicadeza, cheio de carinho...um carinho que eu nunca tinha conhecido nessa vida. Ele me amou com um jeito tão louco e verdadeiro que me fez, na hora, querer ficar com ele pelo resto da vida. Eu soube que ele era meu amor...

Ele tocou meu rosto com tanta delicadeza...ele me disse cada coisa linda e isso foi assim, toda vez que a gente ficava junto...foi intenso...ninguém entendia o que tava acontecendo...nossos amigos curtiram mas achavam que as coisas tavam indo muito rápido...diziam isso prá mim e diziam isso prá ele...Só que ele sempre tinha a resposta perfeita: o que tava rolando entre a gente era forte demais prá obedecer convenções de tempo, de prazos, de explicações...eu e ele não tinhamos medo,era isso...eu e ele não tínhamos medo de nos envolver e de mostrar pro mundo o que a gente tava sentindo um pelo outro...yes!
Todo mundo quer se preservar, todo mundo tem orgulho, todo mundo perde tempo guardando os sentimentos, perdem tempo em não curtir o amor...eu também era desses...antes de conhecer ele...aquela coragem dele, aquela entrega toda eu nunca tinha visto em ninguém...e depois eu soube que era o remédio que eu tava presisando prá acordar prá vida, prá saborear os momentos, prá aprender a descomplicar, prá aprender a abrir meu coração...prá me libertar das encucações bestas...Ai! Prá viver prá valer...isso é tão essencial.é o maior prêmio por estar vivo.
A gente parecia criança quando se encontrava, parecia até que a gente se conhecia desde sempre...isso era incrível, único...Meu Deus...
Ele me deu de presente uma foto emoldurada de nós dois juntos. eu tava com uma cara tão engraçada...tinha acabado de acordar na nossa cama, mas ele, como sempre, tava lindo...Nunca pensei que ele fosse ampliar e emoldurar aquela foto...ela tinha tanto da nossa intimidade...
As vezes eu a olho por horas...ela diz tanta , mas tanta coisa de nós dois: dos nossos toques, dos nossos abraços intermináveis, dos nossos beijos que só de lembrar me arrepiam..ai...
Não sei como, mas a gente virou um casalsinho careta, ficavámos vendo um monte de filmes e preparando receitinhas da vovó, recebíamos os amigos em casa, trocávamos mensagens, bilhetinhos bobos, mas cheios de carinho...isso era tão..mas tão bom...sinto falta disso...Deus, como eu sinto falta...
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria que tudo aquilo se perdesse.
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria depender apenas de lembranças.
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria depender da saudade...
E isso agora tá acontecendo...é um vazio que machuca, é um vazio sem forma, sem cor, me dá desespero, é uma dor...é uma dor...eu te amo, eu te amo...eu te amo...será que falei bem alto? Será que dizendo isso consigo fazer o mundo parar de girar? Será que eu consigo voltar o tempo... porque se eu não conseguir, o que vai ser? O que vai ser?
Eu não queria que ele fosse embora, eu quero que ele volte! Volta prá mim...volta!
Me leva então! Vem me buscar! Me leva contigo, meu amor...meu amor...
Meu corpo te quer, e queima o tempo todo...cada vez que penso em ti, cada vez que pronuncio teu nome...
Todo mundo que encontro da nossa turma, me pergunta por ti...a gente era um só...sempre juntos, sempre se buscando, sempre se encontrando e aos poucos parece que a gente foi ficando parecido, nas palavras, nas manias e até no jeito de caminhar...
Sabe o teu lado da nossa cama?Ainda é só teu...e continua vazio. Não tenho coragem de permitir que alguém deite na nossa cama, que profane nossas lembranças das noites e dias lindos, só nossos...só meus e teus. Que profane tudo o que tu ainda representa, que desmanche qualquer ruguinha da fronha do teu travesseiro...não, nunca, não vou deixar...
Meu corpo te quer, e queima...isso dói, mas ao mesmo tempo é bom...Sabe? Tenho medo de acabar desenvolvendo um prazer no sofrimento...mas aos poucos parece que alguma coisa me chama prá nossa casa, e os compromissos, as festas, os amigos, acabam sendo tão pouco, perto de nossas memórias. Comparados ao prazer de respirar o perfume, a sobra do  teu perfume na fronha do teu travesseiro...meu amor...
E tu foi e eu fiquei...mas eu não queria, eu não queria...Eu não queria que tu fosse embora...
O importante depois de tudo, -parece brinadeira...o importante depois disso tudo é pesar o valor de tudo que aconteceu, e que ainda tá acontecendo, e reconhecer o quanto eu mudei. Parece que faz tanto tempo, parece que não me reconheço quando penso nos outros caras, nas outras histórias...tudo tão sem mágica, sem fascínio, sem o verde dos teus olhos...o verde dos teus olhos que me trouxe  serenidade....parece que abriu uma lente nova na minha percepção do mundo, das coisas e das pessoas...as coisas criaram poesia...eu tou machucado? Não sei...mas tou  tão melhor como pessoa...tou tão mais desperto prá coisas que antes não significavam nada...que bobo isso, e ao mesmo tempo tão importante...como eu tou bobo...e  isso é bom.
Agora parece que quando eu ando pelas ruas é como se eu pertencesse a alguém...e eu pertenço, nè? Pertenço de verdade...por mais que tu esteja longe, eu te pertenço...isso é bom? Não sei...mas é o que eu sou agora...Tenho uma marca, uma resignificação, um sentido...ai, eu tou bobo mesmo!
Eu chego na nossa casa  e começo a sonhar direto, a rever tudo de novo...faço um monte de promessas, digo que vou parar de fumar, que vou voltar a correr, que vou organizar meu roupeiro direito como tu sempre dizia...mas daí o dia já passou, mais um dia passou e eu fiquei sonhando contigo, amor...ficando horas no banho, chorando com os filmes de amor da  Aldrey  e cantando as músicas da Barbara Streissend...lembra como tu amava ela e eu reclamava que achava super cafona? Pois é...comprei até um LP antigo do Allan Parson´s..." Don´t think sorry is easily say...dont try turn tables instead"...até aprendi a letra, sei que tu curte mas prometo que não vou cantar, palavra...
Aquele menino ligou outra vez, de vez em quando ele tenta se infiltrar na minha vida, pensa que ninguém resiste aquela beleza vazia...poxa só de pensar nele me dá um cansaço...como é que eu conseguia viver cercado por pessoas como ele? a última festa, a última moda, a última droga, o papinho de sempre, as fofocas de sempre, a frivolídade...o sexo automático e ensaiado de sempre? Não. Não quero nunca mais voltarpra aquele mundo!
Hoje é nosso aniversário, amor...Quero fazer alguma coisa legal prá comemorar a gente, sei lá...acho que vou cortar o cabelo um pouco, mas só um pouquinho...da última vez a gente viajou,lembra? Tinha aquela turma de atores que foram todo o tempo fazendo algazarra...e quando souberam do nosso aniversário, nos homenagearam cantando aquela música linda do Caetano e eu até chorei... fiseram na hora e me deram uma grinalda de papeizinhos coloridos...gente maluca...adorei aquele dia! Nunca vou poder esquecer...
Decidi que vou fazer um painel com as nossas fotos...mas não quero nada com pinta de altar, Deuas me defenda...penso numa coisa que pegasse um lance virtual...sei lá, nem sei do que tou falando...aquele haxixe marroquino era o ó.
Santo Expedito! Essa casa tá uma zona!
Se você chega de repente sem aviso vai ter um tréco...Se amanhã não chover vou abrir tudo e passar um pano nessas vidraças...
Meu deus! Não. Aquilo ali é uma teia? Ai, preciso urgente de um martini...
Se a mãe visse isso já ia dizer " Guri relaxado, olha no que que tu te transformou! Anda deixando até copo na pia!
Me transformei num guri solteiro, mãe...pelo menos é o que tá começando a parecer e não tá me agradando muito não... começa a dar um certo medo... Que droga isso, meu...que droga...eu não queria, não queria ficar assim dependente da saudade...eu não quero que tudo aquilo...aquilo tudo se perca, pô!
Eu quero é que tu fique comigo. Quero te fazer cafuné, sair prá pedalar junto no fim de semana, ficar fazendo planos prá nossa vida, comprinhas prá nossa casa.
Puta merda! Quase não acordei. Que horas são? Meu Deus, o banco já fechou...  Era só o que faltava. Deixei passar o prazo de pagar a prestação do carro! A mãe vai me matar...
A geladeira tá vazia de novo... o aquário ... Não!  Esqueci de dar a ração do Carambola! Não... não, querido fala comigo! Fala comigo, Carambola! Não faz isso... me perdoa... não me deixa também...
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria... que "tudo" se perdesse...
Eu não queria... Eu não queria depender!
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria... ter que  depender da saudade...

Thiago Rieth e Angela Kerber.




Cronos

Do nascer ao morrer do dia empenhada em sua procura. 

Busca tola; afoita. No anseio por uma imagem, por um sinal só dele. 

Ah! Suspiro, abandonada, através da noite. 

O corpo reluta, mas se entrega ao toque vulgar; arremedo de êxtase. 

Sem a verdadeira troca...

 Sem a plenitude da pele, do cheiro, da armadilha faceira de seus olhos negros...


terça-feira, 5 de agosto de 2014

Sublime

A beleza dele machuca, arrebata, enlouquece, tira o sono...

É feitiço! Só pode! 

É mandinga bem feita, cozida e perfumada em panela de barro. 

É mulatice irresistível, com sorriso de verão dengoso... 

É a perfeição mais cadenciada. 

É sinfonia divina que arde e respira...






Tanatus

O que dói e que dói por demais.
É que não. Não pertenço ao amor.
Não. Ele não sabe de mim.
Sei. E muito bem sei; não anseia por mim. 

O que dói e que dói demais é sorrir e sorrir e ruir.
É saber que não. Não faço falta ao amor.
Não. Ele não busca por  mim.

Sei. E muito bem sei; ele nem lembra de mim.




Menino Encanto.

Nesse momento, tentando me resguardar do amor. Tentando me esconder dele.

Ele sente meu cheiro, me rastreia, me identifica e me marca com seu olhar de armadilha. 

Ele desconcerta.  É lindo e é sim canalha; eu sei...

A beleza dele machuca. 

Me capturou em um abraço repentino e desejei o calor de seu corpo. Foi como uma ferroada doce que atravessou o meu coração. 
Só que isso, não estava no roteiro... Não estava não.


Menino Boboh.

Ele é um boboh.

Ele é um garotoh.

Ele é meu desejo secretoh. Fugaz...


Ele se move e é lindo...

Ele fala e me encanta...

Eu estremeço quando o vejo sorrindo...

Ele é lindoh.
Ele é lindoh.
Ele é lindoh.