terça-feira, 18 de novembro de 2014

O Negro Rei (6)

Naquele mundo, que pouco fazia sentido. Feito de rapé; de convites disputados para bailes dourados e jantares absurdamente encenados; alguma coisa diferente começava a enervar as pessoas.
Os carrancudos, vestindo roupa escura e que, apesar da feia mascara de antipatia, costumavam ao menos ter compostura; passaram a agir de modo estranho. Da noite para o dia.
As perucas alvíssimas, antes alinhadas e respeitáveis, eram agora frequentemente flagradas retorcidas em algumas cabeças. Os pulsos trêmulos, deixavam respingar o conteúdo das xícaras. E muitas vezes seu conteúdo era esquecido. Os sequilhos ficavam intocados também. E não apenas isso:
Vozes se alteavam frequentemente. Se caminhava rápido e nervosamente pelos corredores, tropeçando nas pontas de tapetes. Suando testas. Reforçando o cuidado sussurrado com o que era dito e com o que era comentado...

-Tu já ouviste sobre o ideário iluminista, jovem Ideribah?
en pasan, meu Rei.
-E o que sabes deles?

Os olhos do jovem emitem uma discreta malícia.
  Mede as palavras sabendo, perfeitamente bem, tratar-se de um tema espinhoso para se debater com um rei.
Estão no gabinete acoplado aos aposentos reais de onde, há pouco, se retirara um dos ministros. Apenas o rei sabia da presença do jovem Ideribah, por trás da colunata de um arquivo nas sombras.
Ideribah suspende a leitura enjoada da genealogia dos nobres do Sacro Império Romano-Germânico. Procura acessar, de memória, o que guardou de um jornal de agitação, que lhe caíra em mãos, em uma expedição pela Noruega. Fala, pausadamente:
-Alguns pensadores de França e mesmo da casa real de tua esposa, apregoam igualdade entre todos os homens. -Nesse ponto suspende a fala, aguardando alguma reação do rei. Este permanece impassível, com ar de diversão no fundo azul-escuro de seus olhos. O jovem decide não aparentar ser covarde e termina a sentença com ar de ferino desprezo: -O mais devotado destes parece chamar-se Locke, meu nobre Senhor.

Frederico contém um sorriso de admiração.
Aquele menino não deveria contar com mais do que 12 ou 13 anos e, mesmo assim, não se deixava distrair como seus filhos que regulavam com ele de idade!
Aquele jovem tinha ímpeto e uma formidável inteligência! O que, por vezes, intrigava os pensamentos reais era; qual encargo daria aquele mancebo, que crescia tão rapidamente em argúcia e em talento?
  Ele desenhava como um anjo e possuía uma notável sensibilidade para a música. Era inigualavelmente belo e, embora meio tímido; causava alvoroço entre as donzelas. Porém, ele era um estranho.
Carregava em sua retinta pele o estigma sarraceno. Mas sobre tudo; algo dolorosamente secreto o consumia. Frederico sabia disso. Algo de que o jovem nunca ousara falar e que, nem mesmo o rei, ousara perguntar.
Mas, esse mistério, lhe acentuava o caráter nobre, dando um tom de autoridade as coisas que dizia; um tom de ritual a seus gestos e de encanto permanente a sua calma presença.
O rei ascende um pito com aroma de café, pisca o olho e fala em seguida:
 
-Locke! Sabes o significado da palavra “loque”?
-Lamento. Não sei se lembro, meu Rei. -Na verdade, o jovem Ideribah sabia; mas não queria se dar ares de sabichão diante do rei.

Deixasse que sua majestade pensasse que podia lhe ensinar alguma coisa!
O rei pareceu satisfeito por isso e sorriu:
-Pois eu te digo: Loque é, nada mais, nada menos, do que “louco”; na fala de Loui, jovem Ideribah! Deu uma longa tragada, que o levou a tossir. -Não te parece curioso?
-Parece bastante “constrangedor” para os seguidores desse, meu Rei. -Concluiu o jovem.
-Certamente o nome não lhe confere a justa homenagem. -O rei sinalizou para que sentasse diante dele, prosseguindo: -Porém, as “ideias” são... eu diria: Criativas.
Ideribah trancou a respiração, refletindo instantes antes de comentar:
-Se permite que eu diga; podem representar um “rastilho”; como costumam dizer os da bombarda, meu Rei.

O rei refletiu nas palavras do jovem, alteando a sobrancelha:
-São ideias de caráter completamente novo, jovem guerreiro. Não totalmente, mas, ainda assim; novo.
Frederico pareceu, de repente, prestes a mergulhar em uma longa trilha de pensamentos.
Ideribah achou importante, naquele momento, incentivar o rei a falar mais:
-Deveis preocupar-vos com elas, meu valoroso Rei?
O rei despertou e subitamente sorriu para além da presença do jovem:
-Por que não perguntamos isso a meu estimado esculápio? Se bem- vindo, lorde Alleph!
Ideribah vira-se na direção da mirada do rei.
Acabava de juntar-se a eles, no gabinete, o primeiro médico real.

O homem de meia idade caminhava firmemente. Com a proximidade, seus movimentos exalaram um perfume de fumos amadeirados.
Tinha um belo porte. Vestia um traje preto, em lã, bastante discreto, mas que não escondia suas linhas vigorosamente atléticas.
Seus cabelos longos e grisalhos, presos em um rabo de cavalo, estavam gotejados por água da chuva.
-Majestade. -O homem faz uma rápida mesura ao rei e curva levemente a cabeça em direção ao jovem. -Lorde Ideribah Ibenholtz Kriger.

A voz era aveludada com um toque de leve cansaço.
Ideribah corresponde à saudação e faz menção de retirar-se, mas é impedido; através de um leve gesto do Rei:
-Alleph Patrício Wittelsbach! Chegou na hora mais perfeita! Fala ao menino guerreiro sobre as “novas ideias”. Aquelas pelas quais tu te apaixonastes ao visitar a terra de meu primo. Não o palácio de Versalhes, certamente. Mas as incomparáveis tavernas de Paris! -O rei e o médico compartilham o riso, diante da menção ao tipo de local apreciadíssimo pelo rei.
Este estica o pé direito sobre um banquinho ornado, dando uma piscadela em direção ao amigo: -Vamos! Diga lá.O que tira o sono de nossa nobreza, meu querido?
Apesar do riso do homem, Ideribah nota-lhe o olhar melancólico, emoldurado pelo rosto grave. A face marcada por uma nítida e longa cicatriz, testemunha seu espírito.
O médico aceita o pito oferecido. Dá nele uma tragada lenta; medita distante e passa, em seguida, um olhar ascético no jovem sentado a seu lado diante do Rei.
Sentencia:
-Não tenho dúvidas de que Lorde Ideribah, com a inteligência que lhe é nata, já tomou conhecimento de tais ideias e conseguiu calcular, por si mesmo, os possíveis resultados, meu Senhor Frederico.

Frederico muda a postura. Agora parece mais sério e interessado, remexendo diante de si papéis com o timbre real:
-E tu acreditas em sérias consequenciais, meu caro?

Alleph percebe o tom de voz levemente tenso do Rei.
Cruza os braços, deixando cair as cinzas do pito no tapete e escapar uma profunda inspiração:
-Agora, com o fenômeno dos tipos móveis, eu diria que as novas ideias “ganham asas” com maior rapidez, meu Senhor. Porém, em minha visão; os que devem temer são os homens injustos. Aqueles que não amam verdadeiramente o vosso povo, majestade. Os barões que maltratam camponeses, além de explorar seu trabalho e sua ignorância.
  O Rei tamborila o mogno. As pupilas levemente aumentadas:
-Muitos de minha corte rangeriam os dentes se te escutassem, meu estimado Alleph!

O médico depõe o pito sobre um dos cinzeiros cristalinos. Olha para o rei com ar de pirraça:
-É o temor pelo desconhecido, meu amado Senhor. Ou talvez; o temor por aquilo que teimam em não ver. O mundo se modifica com o avanço das conquistas e das ideias. É assim como um cometa, meu senhor. Ninguém consegue aplacar.

O Rei compreende perfeitamente o sentido latente das palavras do medico. Mas não as rebate e nem mesmo as questiona. Retoma o assunto por um caminho neutro:
-Somos a realeza. -Frederico ergue-se, dando alguns passos, com as mãos entrelaçadas as costas. Olha por uma das vidraças. -Nossos modos e perfeição devem ser esmerados. Pois o povo deve, além de nos temer, sobretudo, nos amar.
O que deflagrava nas pessoas da nobreza aquela ridícula mania de fazer discursos afetados como aquele, era uma questão irritante para Alleph. O rei se empertiga mais ainda:
-Também sei dos que se aproveitam dessas prerrogativas para impor seus abusos. A frivolidade de minha côrte não se compara à de Loui Sol. Não. Certamente que não! Ainda assim é preciso combater excessos...

Alleph procurou responder na mesma linha de tom de discurso:
-Es um Rei benevolente, majestade. E teu governo tem sido justo. Mas é preciso olhos de águia a todo o momento. Vigiar o ninho.
-Te referes aos nobres todos.
-Muitos pisam os seus servos, meu Rei. Impõem taxas; expropriam safras; se apossam de esposas... matam filhos... maridos. Sequestram e torturam! Há ainda a brutalidade dos burgueses que tomaram as novas terras, flagelando povos inocentes e promovendo o mau da escravidão...

Nesse preciso ponto da conversa o coração de Ideribah contraiu e seu corpo estremeceu completamente.
  Passou a respirar com muita rapidez, apoiando a própria cabeça. Esse episódio durou esparsos segundos e passou totalmente despercebido pelos dois interlocutores.
-O mau da escravidão a que te referes é irrefreável, caro Alleph. Quem cultivaria o açúcar nas novas terras, repletas de mosquitos maléficos e de cobras peçonhentas? Quem extrairia os ricos minérios? Há uma grande demanda pelos minérios, meu caro!

O rosto do médico convulsiona-se e Ideribah percebe sua luta interna para não se exaltar e proferir algo inapropriado.
Ele olha para o médico com desespero. Tem esperança de que se lance um argumento que finalize com tudo. Que demonstre o quanto a escravidão a que são submetidos os de seu povo é sórdida e desumana.
Haverá um modo de parar aqueles navios túmulos? Haveria nas ideias iluministas uma saída que acabasse com aquela máquina de destruição humana?
O Rei prosseguia falando, enquanto o médico suspirava, conseguindo bravamente controlar seu próprio estado:
-De qualquer modo há escravidão na Europa, também, meu Rei. Há escravidão e iniquidade onde se tortura, mutila e mata por conta de religião. Onde é negado o pão aos famintos na penúria do Inverno! Enquanto banquetes apodrecem nos palácios. -Já que Frederico apreciava o tom laudatório, Alleph decidiu que não se daria por rogado: -Tu és um líder importante, Frederico! Podes fazer reformas grandiosas que darão ao mundo a dimensão de tua justiça e fraternidade!
-Falas de impor decretos, Alleph. Isto sim! Meus ministros têm calafrios só de pensar!

Os olhos do médico se iluminam. Sua voz sai quase trêmula, pela força daquilo que diz a seguir:
-Decretos que tua abençoada pena pode assinar e ficar na história como baluartes da Justiça e da defesa do nosso povo! Ninguém ousaria desrespeitar tua vontade.

Naquele ponto, o rei nem sequer piscava, escutando as declarações entusiásticas de Alleph Wittelsbach. A vaidade real frente a elogios era constrangedoramente flagrante.
Aos poucos, com sua fala diplomática educada; porém apaixonada, o médico seduzia o monarca com os ideais de Voltaire, Montesquieu, John Locke.
Ideribah compreendeu, que aquilo se passava há mais tempo.
Frederico se aprofundava em leituras, buscava inteirar-se sobre os debates das escolas de filosofia da França, Alemanha, da Academia Real.
  
Embora o pensamento iluminista rejeitasse qualquer religião, aí incluída a fé cristã, e ele próprio fosse um rei protestante; via nos ideais iluministas um viés piedoso e eminentemente fraterno; condizentes com preceitos cristãos.
Naquele vasto estúdio, o silêncio parecia impor a razão as últimas palavras ditas pelo médico.
Ainda tomado pelo furor, doutor Alleph Wittelsbach, com expressão grave, depõe as mãos, cruzadas sobre seu enxuto abdome; respira profundamente e desabafa, com olhar pesaroso:
-Na vinda para cá, ouvi relato de um episódio repugnante, querido Frederico. Um jovem camponês açoitado brutalmente.
-Isso por quê?
-Porque o filho de seu mestre havia cometido alguma gafe durante a ceia. O jovem servo foi açoitado até desfalecer, majestade.
-Sacre bleu!
-Um menino de pouco mais de oito! -O médico gira a única joia aparente que porta consigo, um anel em esmeralda no dedo médio da mão esquerda. -Como se sabe; não é permitido punir fisicamente o filho de um nobre, portanto há esse tipo de injúria contra os pobres; a fim de expiar a culpa dos filhos dos ricos! Obscenidade, majestade! Maldade! Porque se pudessem punir o filho do nobre, tudo o que dariam era uma meia dúzia de palmadas invés de chibatadas!

Sabia-se que Frederico não interviria nesse tipo de assunto diretamente. Envolvia questões de direito nobiliárquico e a nobreza representava sua base de sustentação política. As leis deveriam ser modificadas; porém esse era o tipo de questão que representaria uma queda de braço desgastante para seu governo. E fatalmente teria desdobramentos.
-É uma prática arcaica da nobreza, caro Alleph. E não me parece justa de modo nenhum. O Cristo dizia que “Aquilo que fazeis ao menor de mim é a mim que o fazes”. Essa conduta é caduca e absurda, sem sombra de dúvida, meu caro.
-Perfeitamente, Frederico. Ouso prever que se esse absurdo de coisas persistir, regressaremos ao período dos Cesares de Roma; quando se crucificavam inocentes!

Ideribah percebe a relação precisa, inserida na inteligente resposta do medico.
Nesse ponto são interrompidos pela presença silenciosa de dois mordomos que se põem a sua volta. Oferecem-lhes torta de vitelo; pastéis adocicados polvilhados com canela; morangos sumurosos; croissant recém-saídos do forno e as mais delicadas tortas de amêndoa, avelã e chocolate.
As preferidas de Frederico.
Entretanto; este busca se contentar com apenas uma pequena fatia.
-O que te povoa os pensamentos, caro Ideribah? -Pergunta o rei, com ar pesaroso. Ideribah suspeita que seja por ter de resistir a tentação de uma nova fatia de torta. -O teu rosto, apesar de tão imberbe, é quase sempre enigmático. Mas gora, no presente, pareces arrebatado...

O jovem, com seu ar de mouro circunspecto, perturbadoramente adulto:
-Me pergunto de que forma um decreto obrigaria as pessoas a ser sensatas, majestade. No caso desse costume de se espancar o filho de um servo para expiar a culpa de um nobre; me parece uma prática que somente a educação teria o poder de modificar.
-Explica.
-Os homens são arraigados a seus costumes. No caso dos mais ricos, acostumaram-se a ideia de submeter os pobres. E, no caso dos pobres; estes aceitam o tratamento; pois aprenderam a temer a reação dos mais ricos!
-E em que ponto tu achas que entra a educação?
-Se, a exemplo dos evangelizadores que levam a palavra, conseguirmos mostrar aos homens que seu valor diante de Deus e diante dos outros homens não é medido por sua origem ou por sua quantia de dinheiro, penso que o entendimento se dará entre eles.
Alleph sorri, quase em triunfo, após ter escutado as palavras do menino:
-Um sistema de ensino, querido Frederico! Um lugar em comum em que tanto pobres, quanto ricos aprendam sobre respeito aos direitos e à dignidade humana! -Bradou o médico emocionado.
Frederico compreende de antemão aonde Alleph pretende chegar.
Conhece de cor o teor de seus pensamentos e projetos.
Conhece seus escritos revolucionários sob o pseudônimo de “Spartacus” nos fascículos subversivos que inundavam a Europa.
Seu próprio medico se convertera à aquela febre do ideário iluminista!
Sabe Deus a força que essas ideias estavam tomando entre os jovens, exatamente naquele momento. Entre os camponeses, entre os soldados rasos... entre os noruegueses...
-Um sistema de ensino, Alleph, meu caro?
-E público, meu Rei!
O rei sorri com leveza. Em sua gaveta já esboçava um decreto que causaria reboliço suficiente:
A extinção da servidão camponesa!
Sacre bleu, se aquilo não seria sarna suficiente! Que diria um sistema de ensino e público!

  

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O Negro Rei (5)

-Tu pareces um bicho do mato. Um gnomo! Será que não aprende a nossa fala? Escuta bem: Ninguém aqui é inimigo teu. Todos querem ser teus comparsas e camaradas. Poder se aproximar de ti. Por que tu os repele desse modo injusto?
A mulher falava e falava e sua papada branca, sob o pescoço, balançava o tempo todo. Esse fenômeno e o fato de ela se atrapalhar toda, tentando correr na tentativa de lhe dar um abraço e não conseguir alcançá-lo, o fez ter um ataque de riso.
A mulher:
-Veja só! Tu aí estas rindo! Até que um dia, soldadinho mouro! Até que um dia!

Viver no âmbito das cozinhas, impregnado de cheiros de temperos e cercado de conversas acaloradas e expansivas, deu ao menino uma dimensão falseada da verdadeira vida, ou pelo menos da vida oficial da corte de Frederico IV.
A política, os acordos, as invejas, as intrigas e a traição; encobertas por protocolos pomposos e exaustivos, não faziam parte de sua realidade. Ainda.
Foi numa tarde inesperada de acontecimentos inesperados, com um susto inesperado que se deu o encontro entre o menino e o rei da Dinamarca e Noruega.

E este dia, para o bem de uns e para o mau de alguns, ficaria gravado para sempre na história dos momentos espetaculares e únicos, como o alinhamento perfeito dos astros e planetas...

Aconteceu certa manhã que um reboliço louco colocou todos em polvorosa. O puro sangue magnífico do Rei, entrou desabalado cozinha a dentro; escoiceando bancadas, tonéis, mesas e todos os utensílios pela frente.
A sela estava vazia e mal encilhada; mas isso não foi percebido por ninguém naquele momento. Todos trataram de se afastar da loucura equina e buscar proteção onde mais lhes conviesse.
-Saladino! Saladino, te contém! Es mesmo um bárbaro como se conta dos de tua terra!- Berrou um homem em trajes de caça, que esbaforido e quase caindo, tentava capturar o animal.

Aquele bicho parecia um ser fantástico. Suas patas mal e mal tocavam o chão. Elevava a cabeça nas alturas, relinchando com uma fúria maravilhosa.
Diante daquele turbilhão de músculos e escoiceio, apenas um pequeno menino. Um menino negro estático e hipnotizado a uma curta distancia, e que de repente começava a entoar uma triste melodia.
Aquele menino era também um ser sobrenatural. Não era desse mundo. Como poderia estar ali? Era belo e inacreditável. De onde emergira aquela criança etíope que só se vira igual em livros de iluminuras? Iluminuras feitas a mão, bordadas com filigranas em ouro; representando homens moradores das áureas pirâmides...

A melodia estranha causava arrepio; frio no estômago. Levava as lágrimas. Tocava a fundo a emoção dos que se achavam invencíveis e insensíveis a sua própria humanidade. Cortava com profundidade e lamúria a alma do homem mais nobre e do mais cafajeste. Inundava todo o ambiente como uma correnteza calma e contínua; um mantra puro que invadia a cabeça, que mexia com a frequência cardiorrespiratória. Fazia recordar sonhos...
O contraste entre os corpos do garoto e do animal era apenas chocante. O pequeno fedelho poderia ser convertido em uma substância amorfa lamentável, em qualquer movimento mais ou menos brusco das patas dianteiras do animal gigantesco diante dele. Mas heis que a respiração de todos os presentes cessou: O cavalo de batalha, antes abduzido pelo espírito de um vendaval, se deixou seduzir pelo encanto mágico daquele pequenino. Resfólegou mais algumas vezes, apenas para demonstrar orgulho e se deixou finalmente tocar, calmamente, pelas mãos finas e jovens que o acariciaram as ventas e a fronte.
-Quem é esse?
A pergunta repentina, aos poucos, foi rompendo o ar estupefacto de todos os presentes. Mas ninguém se resolveu a responder. A pergunta foi proferida novamente:
-Quem é esse mancebo retinto?
Até então os presentes não haviam notado que quem fizera a pergunta era o Rei em pessoa, mas quando finalmente deram por isso, o susto só foi superado, ao escutarem claramente o menino responder e sem titubear: “Eu sou Ide... qualquer coisa!”
-EU SOU IDERIBAH!
O moleque entendia o que era falado e, o mais surpreendente; sabia falar sua língua!
-Coloquem-se todos de joelhos, diante do Rei! -Exigiu o valete que se recuperava de todo aquele susto, pressionando rosto e pescoço com seu lencinho aromático.
Ideribah mantinha-se no centro do recinto; estático e olhando no fundo dos olhos do animal dominado por ele.
Frederico aproximou-se e tomou as rédeas do animal nas mãos.
Fez um ou dois gestos carinhosos no cavalo, beijando sua fronte e falando baixo:
-Saladino, menino astuto! Quem é esse que vem até nós e com tantos dons? Quem é ele? De onde será que veio? -E olhando diretamente para Ideribah: -Possuis um raro talento, guerreiro. Sim um raro talento... Saladino parece gostar de ti. Que tal se me ajudares um pouco com ele?
-Ajudar...
-Podemos começar por revisar esta cela... Não me parece muito segura e acho que ele se irrita com essa presilha...
Ideribah focou pela primeira vez os olhos daquele homem e viu imediatamente que ele era distinto de todos os outros fantasmas que conhecera.
Sua postura era alinhada, os movimentos contidos e seguros. Sua voz tinha uma fluidez agradável e calma. Não precisava elevá-la para que no instante em que começasse a falar, todos a sua volta lhe dessem atenção devotada. Apesar da simplicidade das roupas de couro, percebeu a limpeza extrema das unhas e o quanto eram polidas. Assim como os cascos do animal fúria.
Ideribah não sentiu medo daquele homem, mas um estranho fio de admiração misturada à... inveja.

O convite informal do homem notável para que Ideribah o acompanhasse em sua comitiva, surpreendeu a todos, menos ao menino; que caminhou ao lado do Rei, sem sentir-se intimidado.
Fogos e chamas incandescentes reviraram olhos e fizeram estremecer os alicerces da terra sob os pés dos outros que acompanhavam o desenrolar da cena: O pequeno desconhecido sendo guindado ao status de acompanhante real!
Muitos procuraram se conformar, repetindo para si mesmos, que aquele garoto seria um passa tempo temporário para sua majestade.
Ledo engano.

Com o passar dos dias e das temporadas, o jovem adquiria pequenos; porém, continuados privilégios, junto ao Rei.
Passou a acompanhar nas caçadas, a acompanhar nas visitas à velha mãe do Rei; até mesmo ganhando de presente uma bola de croché, que ela mesma havia urdido. Com o tempo, passou a comer nos aposentos reais e aprendeu com o próprio Rei a manobrar, com segurança, o intrincado jogo de talheres e copos de cristal delicadíssimo. Assistia aos recitais reais, com a presença da jovem rainha; que o olhava com curiosidade, através de seus gigantescos olhos de ébano; apenas sorrindo para ele, as vezes e discretamente.
Acompanhava o setter real nos passeios matinais pelo jardim particular de sua majestade.

Pouco falava. Muito observava. Sabia que era odiado pela maioria daqueles fantasmas velhos e frios, vestidos em roupagem escura e carregando consigo sempre algum documento para assinatura do Rei. Sabia que era vigiado em tempo integral e, apesar de sua pouca experiência, naquele mundo fabricado de cristal, seda, essências aromáticas e espelhos bisotê; sabia que era invejado. Invejado por cada presente aceito e por cada olhar de aprovação que recebia da jovem rainha. Por ser alfabetizado por ela e aprender rapidamente. Por crescer saudavelmente e por se tornar um jovem assombrosamente bonito.


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O Negro Rei 4

Aquele fantasma feio e magricelas sempre se aproximava. Aquilo era insuportável. Seus olhos tinham uma cor enjoada, como cocô de bebê novo.
Sempre vinha com um sorriso boboca e oferecia alguma carne, acompanhada de uma espécie de raiz aferventada.
Aquele idiota soprava um instrumento perfurado, uma imitação pavorosa de um objeto de seu próprio povo. Muitos dos fantasmas gostavam de soprar e percurtir instrumentos, enquanto bebiam daquela água de gosto amargo e forte, além de cantar uns juntos com os outros.

Ele veio, certa vez; quando a noite ia alta. Importunando, chegando-se perto demais, querendo deitar-se junto. Quando aquele demônio fantasma tentou acariciar seu rosto o menino negro mordeu-o fortemente no nariz, até sentir o gosto metálico do sangue entre os próprios dentes.
Isso fez o boboca gritar como um macaco.
Nisso, o outro garoto fantasma, que odiava o menino preto com o olhar, veio para ver o que ocorria. Começou a praguejar e a chorar como uma menina pequena.

Quanta estupidez inútil e sem explicação!
Abraçou o magricelas como se aquilo importasse muito.
Por que um homem choraria pelo ferimento de outro homem? Ele não era mãe daquele ali!

Ambos o olharam com ar de fúria e o menor tentou atingi-lo com um golpe de sua mão fechada. Perdeu a chance e caiu de cara sobre a serpente de metal gigante enferrujada, com a qual prendiam o grande túmulo na água infinita.
O de nariz sangrento veio também e era mais rápido que o outro. Se atracou com o garoto preto, empurrando-o contra a amurada.
O outro garoto, que havia caído, estava agora de pé e tinha uma daquelas facas explosivas na mão, o que assustou o boboca de olhos de cocô.
-Não!
A explosão fez doer muito os ouvidos e fez sentir desnorteio. Sentiu-se cair. Havia sido empurrado pela amurada, caindo na água infinita!
De fato foi o garoto de olhos feios, que colocou o próprio corpo diante do seu e ao ter o peito atingido, ambos perderam o equilíbrio.
Só se recordava de ter engolido imensas quantidades de água salgada e de perder os sentidos.

Sons estranhos e um cheiro forte de maresia o fizeram acordar.
Estava em terra, quase que completamente nu e com o restante de seus estranhos trajes, suspensos em um arbusto. Próximo de onde estava, havia uma fogueira.
Alguém o havia resgatado.
Os gigantes intocáveis! Sua provação estaria terminada, diante dos deuses?
Olhou em volta; não sabia se o sol morria ou se nascia. Aquela maldita confusão permanecia? As estrelas estariam todas trocadas ainda?
Caminhou para o outro lado e chegou até uma elevação. Havia uma escada que dava para um piso que parecia de madeira. Idêntico ao piso do túmulo que tinha de molhar com aquela odiosa vasilha.

-Você acordou!

Teve um sobressalto quando escutou aquela voz áspera e desgastada a seu lado.
Não entendeu as palavras que um fantasma velho, surgido, sabe-se lá de onde, lhe dirigia.
Aquele homem parecia possuir mil idades... Era trêmulo e murcho como, uma folha ressequida. Ele não parecia enxergar, pois seus olhos eram estranhos, como se tivessem derretido.
-Você não fala? É mudo? Bem, eu sou cego... Formamos um a boa dupla, não é criança?
O velho trazia nas mãos um pote, que lhe ofereceu. Haviam lentilhas dentro. Aquele gesto do velho o fez recordar-se do garoto de olhos cor de cocô.
Olhou em torno. Queria poder perguntar ao velho como havia vindo parar ali. Mas não saberia falar aquela língua. Ou até saberia, mas não queria, de modo nenhum, experimentar.
-Louvado seja o Nosso Senhor Jesus Cristo! -Balbuciou o velho.
De quando em vez aqueles fantasmas diziam aquilo... Palavras sem sentido.
O menino comeu as lentilhas com avidez, enquanto olhava para os lados, sem parar. Não queria ser pego desprevenido em alguma armadilha.
Fugir. Só o que pensava era em fugir dali, na melhor oportunidade que tivesse. Mas fugir para onde? Que lugar estranho era aquele?
Suas mãos estavam com as palmas enrugadas e frias. Compreendeu que deveria descansar para se comunicar com os guias sagrados dos sonhos. E a fala monótona e incompreensível do velho, hora tossindo, hora rindo sozinho e assoando o próprio nariz numa zoeira sincopada, acabou lhe servindo como um poderoso sonífero.
  Quando despertou, não viu sinal do velhote. Ele havia desaparecido. Mas o menino estava novamente com suas estranhas roupas colocadas no corpo. Como era possível?
Tratou de caminhar para fora daquele território. Andou cuidadoso, esgueirando-se por locais em que não poderia ser visto.
Num certo ponto avistou um entreposto comercial apinhado de pessoas. Muitos eram parecidos com os fantasmas embonecados cobertos de pedras de todas as cores que visitavam o grande túmulo. Mas ali não havia ninguém de seu povo.
Havia imensa quantidade de caixotes sendo transportados de outros túmulos para a terra. Alguns eram colocados em carroças puxadas por bestas, outros eram abertos e tinham seu conteúdo exposto: Tecidos de trama colorida e brilhante, facas explosivas de diversos tamanhos, coisas e mais coisas, gente e mais gente. Gente feia, barulhenta e falando sem parar.
Olhou para várias direções; animais esquisitos, cantoria, mulheres ou o que fosse aquilo, com a cara pintada. Garrafas rolando, homens se atracando, sangue se espalhando. Guerreiros imponentes, montados em bestas, espancando aquela gente com seus rebenques muito finos e frenéticos.
Prosseguiu esgueirando-se e se mantendo a salvo em pequenas cavernas com cheiro ruim, que ficavam abaixo do local por onde trotavam as pessoas e as carroças.
Viu meia dúzia de famílias fantasma com mães e filhos parados no meio do nada e com as mãos estendidas para homens e mulheres que passavam. Sentiu uma dor funda ao ver aquelas pessoas.

Seu olhar era parecido com o olhar de agonia de seu povo dentro do grande túmulo...
Olhou para o alto e viu a coisa mais inacreditável e estranha de toda a sua vida. Uma torre infinita que se erguia como os gigantes intocáveis que o visitavam em sonhos. Tão altas e espetaculares que chegou a sentir tontura ao olhar para cima. Mas quando o ar ficou mais limpo e transparente, quase chorou ao constatar que aquelas torres estavam por toda a parte. Não apenas compridas e magras, mas também arredondadas, gemuladas, douradas e brancas; de marfim como as presas do maior animal sagrado. E no alto, flâmulas da cor do céu com desenhos cintilantes davam ainda mais encanto aquele mundo tão estranho.
Quando ficou mais escuro, sentiu o estômago apertar de vazio.
Não se atrevera a sair de seu esconderijo para caçar, durante a luz do dia e agora vinha até ele um aroma parecido com o da sopa e da carne, que era servido no grande túmulo.
Num local não muito afastado, fardos e mais fardos eram colocados em carroções, junto à carne salgada e a botelhas da bebida amarga; aquela da qual os fantasmas costumavam gostar...
Aproveitou o descuido de um dos homens, que voltara a outra direção, para buscar mais mantimentos e arrancou um naco da carne. Mastigou raízes e também frutas. Olhou uma das botelhas e com a sede que sentia, devido o sal da carne, virou na própria garganta goles generosos da bebida amarga do conteúdo.
Alguém se aproximava e ele já não tinha tempo de correr de volta para sua caverninha secreta. Sobre os mantimentos da carroça havia uma couraça de animal encobrindo tudo. Pensou rápido. Esgueirou-se por baixo da cobertura, mantendo-se incógnito. Mas quando alguém subiu próximo a seu lado e o veículo começou a se mover, sentiu verdadeiro pânico...



quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O Negro Rei (3)

De fato o que ocorreu foi que o tempo se estendia, enquanto o menino se transformava de exótica curiosidade em mais um agregado, praticamente comum como qualquer outro.
Era arredio à aproximação e não emitia um único som em sua fala; nem mesmo chorou ao ferir-se acidentalmente com as brasas de um dos fogões.
Escondeu o ferimento até que cicatrizasse sozinho. Mais uma cicatriz das tantas que havia recebido em seu pequeno corpo imberbe e das quais a maioria desconhecia.

De quanto ódio os homens fantasma são capazes!

 Quanta tortura e morte eram capazes contra crianças e contra meninas.  
Parte do horror que vivera e testemunhara, se apagava no breu de sua memória. Defesa de sua sanidade. O que permanecia era o cheiro de suor humano; contato de corpos trêmulos contra o seu, pequeno e sufocado; sol e noite com os mesmos solavancos que o tonteavam e as palavras murmuradas em falas diferentes que, ele sabia, buscavam pela mágica salvadora dos gigantes intocáveis.
Mas não havia ali, naquela prisão, a raiz azeda e nem a pedra azulada que o grande sábio usava, não havia a canção secreta e nem o leite da mãe do jaguar que faria com que todos dançassem. Não havia como se comunicar com os sagrados gigantes intocáveis...
Ali, naquele sepulcro ruidoso, seu pequeno coração de menino esbordoava seu peito como se quisesse rompê-lo e fazê-lo em pedaços... Ali, os pesadelos que tinha, quando seu corpo extenuado e dolorido desligava-se, se fundiam com a realidade. E isso era tudo o que havia. Estava condenado. Não veria mais suas queridas mães, sabia que nunca mais as abraçaria...
Se aquele suplício serviria para engrandecê-lo diante dos gigantes intocáveis, preferia morrer. Pediria a eles que retomassem dele o sopro e que entregassem suas cinzas a mais velha das mães. Era a ela que pertencia; pois ela era a terra. O princípio de tudo. Queria tornar-se o silêncio das montanhas...

  As falas daqueles monstros! Suas caras feias, fétidas e de dentes podres! Os olhos sem cor! O pavor do látego com que ameaçavam meninas.
Meninas foram maltratadas por aqueles demônios e levadas para não mais voltar. Agora ele sabia; foram lançadas na água infinita! Sem que seus espíritos recebessem os rituais sagrados devidos, que as conduziria para junto dos seus no Orum.
Desespero. Seus antepassados ficariam sem encontrar suas filhas; seus corpos seriam devorados por bestas amaldiçoadas da água infinita. Destino apenas dado a criminosos! E isso por culpa dos imundos homens fantasma...

No dia em que o retiraram do porão da embarcação, seus olhos doeram pelo brilho.
Custou para acostumar-se à claridade e sua cabeça também não parava de doer, enquanto um dos fantasmas, o mais medonho e fedorento de todos, gritava e o derrubava com sopapos.
Sentia o corpo fatigado demais e acreditava que nunca mais conseguiria voltar a andar.
Deram-lhe então uma sopa de gosto forte que, aos poucos, lhe devolveu as forças.
Aquela língua horrível de sons guturais, chiado indecente e feioso, lhe parecia maldita. Uma sujidade espúria dos mundos solitários dos caminhantes sem espírito. Demorou até compreender o que queriam que fizesse.
Por fim, compreendeu que deveria descer um vasilhame até a água infinita e enchê-lo para depois molhar o madeirame em que pisavam. Aquela parecia uma medida importante que devia cumprir várias vezes e a intervalos curtos.
Não saberia contar quantas vezes repetia a tarefa e em alguns momentos tinha a companhia de um jovem que lhe dardejava um olhar de verdadeiro ódio. 
Não sabia, mas o jovem em questão era um grumete, uma espécie de marinheiro aprendiz que tinha tarefas demais a cumprir não conseguindo dar conta de todas elas. A decisão por colocarem um menino escravo par ajudá-lo lhe pareceu humilhante. Queria provar a todos que era bom o suficiente e que não precisava da ajuda de um fracote daqueles. Mas a decisão havia sido tomada. Era de vital importância manter o convés encharcado adequadamente ou o madeirame todo empenaria. Sabia que era sua última chance naquela embarcação...
A princípio pensaram que não sobreviveria; mas até que era forte para seu tamanho. Não falava, mas era atento; prestava atenção aos detalhes e aprendia depressa. Já sabia, em pouquíssimo tempo, dois ou três tipos de nós de marinheiro. Isso, só observando os mais velhos! E o jovem grumete, aflito, sabia serem esses os mais difíceis, além do que, ele próprio, talvez jamais conseguisse aprender a fazer um único decente!
O menino preto estava sim, aos poucos, caindo nas graças da tripulação. Já subia na gávea com segurança e ao avistar algum cardume, descia e lançava uma tarrafa, feita por ele mesmo e capturava  o próprio almoço. O jovem grumete até o flagrou engolindo uma lagartixa! Não passaria fome aquele ali.
As coisas não iam bem mesmo... E pioraram ainda mais, quando o grumete mor, com os olhos mais verdes que o atol mais bonito, passou a olhar com paixão para aquele fedelho retinto! O coração do jovem grumete despedaçava-se cada vez que percebia seu amado aproximar-se do menino, sorrir-lhe e dividir com ele a própria comida!

O menino odiava todos aqueles demônios, mas com o tempo passou a amar o perfume do mar e o movimento da dança da água infinita. Viu que os fantasmas também cantavam e rezavam a seus intocáveis de alguma maneira estranha. E que precisavam comer e defecar como qualquer animal de sua terra. Seu pelos também se soltavam e algumas vezes viu os menores chorando como bebês... Sentiam fome e sede e ainda por cima, pescavam!
Nas sucessivas terras em que atracavam o grande túmulo, dezenas dos de seu povo eram levados. Com os ossos aflorando de suas peles, tropeçando, por vezes caindo, alguns até agonizando e morrendo, eram a imagem mais triste de toda sua vida. Horripilante e dolorosa demais...
Vinham até o grande túmulo fantasmas com rosto pintado e com gemas brilhantes nas mãos e no peito. Mas nenhum tinha alguma pedra azulada como a do sábio e muito menos um manto de pele de jaguar.
Ao garoto não foi permitido se juntar a seu povo na peregrinação para fora e no destino desconhecido que os aguardava. Deram-lhe uma surra, quando correu para se juntar a eles e ele chorou, mas não pela dor do espancamento.
Chorou por ser tão fraco e por não poder matar todos os fantasmas.
Matá-los, arrancar suas cabeças nojentas, cuspir e mijar em cada uma delas! Estripá-los devagar; e fazê-los sangrar de cabeça para baixo e então puxar suas vísceras lentamente e fazendo-os assistir a sua própria evisceração.
Ah! Como seria glorioso encobrir seus narizes e obrigá-los a engolir brasas vivas. Atirar seus filhotes imundos e brancos aos cachorros... Pisotear os que sobrevivessem ao acaso!
Seu ódio era tanto que mal conseguia respirar. Ficou sem comida um dia inteiro e não obedecia aos chutes e nem ao chicote. Mas algo brilhou em sua mente de uma hora para outra. Tinha que sobreviver. Tinha que crescer. Tinha que juntar forças para um dia esmagar e destruir todos aqueles demônios sujos!

Quando as estrelas mudaram de posição, tudo ficou cinza e azulado. Não havia ar cálido, pois ele agora machucava sua pele e fazia os ossos doer.
Seu corpo tremeu de maneira esquisita, como nunca antes. Era devido aquele ar estranho gélido e cinza. Sentiu medo que aquilo pudesse transformá-lo em fantasma também! Então lhe jogaram por cima um capote pesado.
Nunca vira aquilo.
Parecia com a indumentária dos monstros e ele se recusava a colocar; nem sabia como faria.
Aquilo era confuso e não tinha jeito.
Vestiram-no os próprios fantasmas, mas ele não entendeu como o fizeram. Seus braços foram envolvidos por aquelas coisas que eram como cilindros. Eram molengas e davam coceira.
Respirar feria seu peito; pois o ar congelante cortava por dentro e sua respiração saia em lufadas de fumaça trêmula e branca como as mãos os fantasmas.



domingo, 31 de agosto de 2014

O Negro Rei (2)


Copenhague, Dinamarca. Ano de nosso Senhor de 1700.
Naquela madrugada de verão, em um dos palácios do Rei Frederico IV; sua majestade real não acompanhava e nem fazia ideia, do trabalho árduo e da movimentação histérica que tinham inicio dentro das cozinhas palacianas.
Carroças abarrotadas de legumes frescos; vinhas; frutos recém-colhidos e verduras; a mais tenra carne de reses, além de uma quantidade de caça abundante; tarros com litros e mais litros caudalosos de puríssimo leite. Peixes e crustáceos do sabor mais delicado e das mais profusas espécies, chegavam à cozinha real, numa procissão extensa e interminável.
Garrafas do melhor vinho eram retiradas da adega e tinham o pó e suas teias, acumulados de anos, espanados.
Taças e prataria eram meticulosa e cansativamente polidas. Vai e vem de servos atarefados, sem tempo para tagarelice. Todos sabiam que seria dado um grande banquete e que nele estaria presente a candidata à futura esposa do Rei. O que não era uma coisa à toa.

O Rei, em pessoa, havia se dedicado à missão de encontrar uma rainha para si e para seus súditos dos reinos de Dinamarca e Noruega. Seu intento parecia estar satisfatoriamente encaminhado para o êxito; pois a filha de uma das casas mais nobres da realeza inglesa estava inclinada a aceitar o tão aguardado pedido do Rei protestante. O que despertava invejosa atenção e causava contrariedade a países como Espanha e França.
  
A posição política e econômica da Dinamarca, não representava ainda uma ameaça à soberania militar e comercial desses países, mas o fato de aliar-se a seu rival inglês, poderia significar um problema no futuro. Todos sabiam que Frederico era ambicioso e que governava a Dinamarca com temperança, visão muito lúcida de sua época e habilidosa noção de diplomacia. Mantinha a Noruega sob seu domínio, numa temível demonstração de seu alentado desejo de expansão a territórios vizinhos.
A Inglaterra possuía a marinha mais poderosa do mundo.
No tabuleiro das possibilidades nefastas, um herdeiro do trono dinamarquês poderia talvez vir a ser o herdeiro do trono inglês... E tudo talvez dependesse daquele banquete.



A cozinha do palácio, aos poucos, diminui sua turbulência e também o número de intrusos.Todos os itens listados haviam sido conferidos cuidadosamente e fornecedores terminaram de esvaziar os últimos fardos de seus carroções. Aos poucos, o empenho dos que se concentram em seu trabalho de descascar, picar, destrinchar, fatiar e cozinhar, leva o ambiente a um monótono silencio que é quebrado por uma agitação vinda da despensa. Três cães arranham a porta e grunhem sem sossego. Para lá todos acorrem imediatamente:

-Ora, mas o que é isso? Deus do céu... mas é sim um daqueles...
-Como ele veio parar aqui?
-Só Deus sabe... Mas vejam vocês, que está assustado...
-Com essa cara de bode tua!
-Silencio, matracas! É uma criança e está prestes a desmaiar...Tragam-lhe um pouco de água! Menino! Menino...
-Ele vai capotar!

-Afastem-se um pouco. Deem-lhe espaço para respirar... Mas que coisa! Tirem daqui esses cachorros babões!




O menino aparentava ter entre seis ou sete anos de idade. Sua pele extremamente escura era o atestado de sua origem africana. Aquele menino, provavelmente fugira de um dos repugnantes negociantes de escravos, sempre de passagem pelos portos. Com agilidade e pequeno tamanho, conseguira entrar nas cozinhas do palácio, aproveitando-se do tumulto daquela madrugada.
A sorte dele era o clima estar ainda ameno; pois com os parcos andrajos que vestia, era certo que não sobreviveria um único dia ao forte inverno dinamarquês.
Após as medidas mais urgentes, como dar água e alimentar o garoto, formou-se um comitê secreto entre os que o viram primeiro e resgataram, para decidir o que fazer com ele.
Não fora visto por outras pessoas, além do mordomo do guarda caças e de duas cozinheiras; uma delas chefe. Esses os que falavam:
-Veja os pulsos e os tornozelos: Cicatrizes.
-Deve ter sido colocado a ferros.
-Magro, mas não desnutrido.
-Possui todos os dentes.
-Talvez ainda em vias de trocar alguns...
-Penso que o chefe da guarda saberá o que fazer.
-O que? Aquele parvo imbecil!
-Fala baixo! Queres ser açoitada, mulher?
-Ora, pois eu digo que não vamos entregar esse pimpolho a ninguém.
-Estás louca? Podem nos prender...
-Escuta bem uma coisa: Se ninguém vier fazer queixa, não há problema em mantê-lo aqui.
-Mas e se vierem? E se a essa hora estiverem a procura do mancebo?
-Francamente! Esse menino fugiu a noite, a essa altura a embarcação deve estar em alto-mar. Nem devem ter dado pela falta.

-E tu, qual o teu palpite?



-Em verdade não se demoram muito nessas docas. Querem fazer dinheiro. Vender sua “mercadoria” além-mar! Demorar-se significa prejuízo, custa dinheiro manter-se atracado! Pessoalmente, gosto do menino. Tem porte de bom caçador!
-Ele é tão gracioso. Parece uma miniatura de terracota!
-Parece mesmo... com aquele ícone da velha igreja...
-O santo Maurício!
-É esse. Era general de Roma com a pele retinta como a desse daí e foi feito santo.
-Não podemos mais ter imagens de santos...
-É sacrilégio!
-Vejam bem. Acho improvável que seus captores suspeitem que ele esteja na corte do Rei Frederico.
-Ainda acho mais prudente entregá-lo ao comandante! Ele saberá como melhor agir!
-Pois eu digo que pode permanecer na minha cozinha. Há comida suficiente e ele pode arear panelas pequenas, descascar batatas, esfregar o piso... Qualquer trabalho que possa com esse tamanho. Precisamos de braços por aqui!
-Não estou de acordo. Acho sim que devemos informar...
-O comandante da guarda, já sei. Já disse isso. Escuta: Estão atarefados com os preparativos e com o treino da segurança. Se fores falar com ele hoje, com o humor em que está, corres o risco de seres empalado!
-Deus me livre!
-Queres correr esse risco? Então, atenção. O mancebo fica por aqui por um tempo, até que se possa avaliar tudo em melhor critério... Vejam, amigos. Estou com minhas tarefas acumuladas, preciso falar com o confeiteiro e começar a marinar as aves. Hoje esse assunto se encerra. E não quero aqueles sarnosos aqui novamente, guarda caças!
-E o que tens contra meus fieis mastins?

-São uns pulguentos e precisam de um banho! Assim como tu!

-Mulher...
-Acalmem. Todos temos muito trabalho. Deixa a criança repousar na despensa até se recuperar. Quando em vez dou uma olhada.
-Ele vai é fugir de novo.
-Não vai não. É esperto. Sabe que caiu em boas graças.










sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O Negro Rei (1)

Negro. Lábios desenhados. Porte alinhado. Ginga suave, de cadência graciosa, firme e segura.
Pele tão absolutamente negra. A marca antiquíssima de guerreiros e príncipes; núbios e egípcios; cartagineses e etíopes; tuaregues; somalis... deuses desconhecidos... cimitarras... incensos....

-...Por favor... não... meu braço... majestade, por favor...
Crueldade, impiedade... força esmagadora!
-Você percebe quem eu sou, menina?
Beleza suprema e tão ameaçadora... Olhos de fogo negro!
-Sim, meu senhor... Tu es...oh... tu es o maior de todos... não desejei aborrecê-lo, majestade... eu juro...
A respiração é profunda e, embora silenciosa, contém as ventanias e tempestades mais aniquiladoras. A voz dilui-se e é quase inaudível:
-Não aborreceu, menina... mas eu considero importante fazer com que meus súditos lembrem.

-Senhor, perdoe; mas acreditas que a imagem do Rei da Dinamarca deva sempre emitir força?
-Você quer dizer crueldade?
-Não senhor, eu não quis...
-O que uma criança como você pode saber? Responda!
-Eu... Não sei, senhor! Por favor, perdoe minha ousadia, meu amado Rei...
-Sim. Eu sou o seu amado Rei. Eu não sou ternura. Eu não sou a brisa cálida. Eu não sou placidez! Eu sou o fio gélido da espada lancinante, eu sou o brilho ferino do olho do Jaguar, eu sou o calafrio do mais sombrio pesadelo, eu sou a verdade implacável e única. Eu sou o cerne de uma nação, menina!
-Sim, meu senhor e meu Rei...
O hálito é levemente etílico. O corpo negro, perfeito e majestoso, depois de toda a tensa cena, acaba por deixar-se relaxar sobre veludo carmim; num contraste de cores e composição absolutamente maravilhosos.
Ali, naquele suntuoso recinto, centralizado na câmara, acessível apenas a poucas pessoas em todo o país; em todo o seu poder e silêncio, repousava Frederico V. O negro Monarca da DINAMARCA e NORUEGA.



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Oceano

Assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão
Dava prá ver o tempo ruir.

Cadê você, cadê você, que solidão?
Esquecerá de mim?

E enfim, de tudo que há na terra
Não há nada em lugar nenhum,
Que vá crescer sem você chegar.

Longe de ti tudo parou
Ninguém sabe o que eu sofri.

Amar é um deserto e seus temores
Vida que vai na sela dessas dores
Não sabe voltar, me dá teu calor.

Vem me fazer feliz, porque eu te amo.
Você deságua em mim e eu oceano...
E esqueço que amar, é quase uma dor...
Só sei viver se for por você.

by Caetano Velozo.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Meu Amor

Uma cavidade no peito. Uma dor que toma conta. 

Agonia funda. 

Ele... Ele sentiu muito pior do que sinto nesse momento. 

Ele implorou por mim num lamento inaudível, ele murmurou  meu nome, sem nem saber como pronunciá-lo.
Ele me queria a seu lado. Queria que eu o tirasse dali. Daquela prisão de dor...

Meu amor...


purpurina

Dança sozinha, as estrelas rodando. 

Flutua com as pontas dos pés, mal tocando no chão. 

Bêbada de aspirações; iludida pelo brilho fascinante feito de diamantes que ela mesma plantou no horizonte estilhaçado. 

Fecha os olhos e canta, canta sozinha, medrosa de que possa acordar os cães de guarda de olhos faiscantes como diamantes que viu no horizonte escancarado.

 Louca flamejante se hipnotiza sozinha dia a dia para exorcizar o medo dos rochedos que esperam nas sombras pela hora de estilhaçar suas asas vagabundas feitas de purpurina.



terça-feira, 19 de agosto de 2014

amando

Querido, como gosto de ti!

Como gosto de falar contigo, sentir tua proximidade.

Me comovo com tua beleza.

Queria poder te mostrar o Oceano, as planícies, os lugares e as canções de que sou feita.
Queria te presentear com o melhor de mim.

Não me esquece nunca na tua vida.

Guarda um espaço de cálido afeto em teu coração prá mim.

Tenho certeza que te amo, menino. 
Porque só agora fiquei viva.



sábado, 9 de agosto de 2014

Coração à deriva.

Encontra meu coração desprotegido e se aproxima de mim. 

Me cativa com um sorriso fabuloso e com a sua voz de fascínio. 

Me acerca e se achega devagar. 

Se aconchega em mim como se eu te pertencesse, como se me conhecesse há muito tempo. 

De onde surge essa mágica? 

O que me fez começar a gostar tanto de ti?

Meu coração quer que eu seja novamente criança, só por tua causa. Quer me levar por caminhos que nunca percorri. 

Me fazer  deitar ao teu lado. 

Sonhar os teus sonhos. 

Nadar sobre a seda turquesa, completamente nua.




Lembra de mim...







Lembra de mim!

Lembra de mim

Dos beijos que escrevi

Nos muros a giz

Os mais bonitos

Continuam por lá

Documentando Que alguém foi feliz...

Lembra de mim!

Nós dois nas ruas

Provocando os casais

Amando mais

Do que o amor é capaz

Perto daqui

Há tempos atrás...

Lembra de mim!

A gente sempre

Se casava ao luar

Depois jogava

Os nossos corpos no mar

Tão naufragados

E exaustos de amar...

Lembra de mim!

Se existe um pouco

De prazer em sofrer

Querer te ver

Talvez eu fosse capaz

Perto daqui

Ou tarde demais...

Lembra de mim!...

Lembra de mim!

A gente sempre

Se casava ao luar

Depois jogava

Os nossos corpos no mar

Tão naufragados

E exaustos de amar...

Lembra de mim!

Se existe um pouco

De prazer em sofrer

Querer te ver

Talvez eu fosse capaz

Perto daqui

Ou tarde demais...

Lembra de mim!

by Ivan Lins




quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Tênue

Percebendo o tempo. 
Escutando a voz da chuva.

Entendendo sinais apagados. 
Capturando a anulação da fúria.

Jejuando camadas de injúria.

Eclipsando fornalhas mortas. 

Desconfigurando cristais de gelo. 
Batendo à tua porta.


Desvanesce

A mágica está acontecendo agora, 
nesse momento. 

O depois? 
Não existe. 
Não pesa. 
Não tem densidade.

O que não sei, guardo encerrado.

Ele? Não. 
Eu.
Beleza? Sim. 
Vazia.
Encontro?
 Não sei se quero.

Relações? Algumas dão certo. 
Simples assim.



quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Te Quero

Meu corpo entendeu que quer mais daquele abraço lindo. 

Minha alma criança descobriu que QUER SER para sempre tua alma criança.
 Para o que der e tiver que ser... 

Quero te chamar e te ouvir me chamar de teu amor... 

Quero ser elo de ouro fundamental de toda a tua minha vida.


Monólogo do Abandono em Si.



Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria... que "tudo" aquilo se perdesse...
Eu não queria que ele fosse embora... Eu não queria depender apenas de lembranças!
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria... ter que  depender da saudade...
Mas ele foi.

Tava tudo calmo, tranquilo!  Eu chegando em casa, depois do trabalho, meu amigo me ligando e insistindo, pra nossa noite sagrada... de jogatina - A gente jogava UNO nos sábados.
Mas dessa vez, eu quase não fui... Era tarde. Queria relaxar... dormir!! Mas alguma coisa me chamava...uma outra coisa, uma energia. Sei lá, eu fui...
De tão cansado, me perdi no meio do caminho. Mas acabei chegando. Entrei. Cumprimentei o pessoal e fui roubado por um par de olhos verdes...que eram uma espécie calmaria pros meus pensamentos... fiquei meio transtornado, por toda aquela tranquilidade! Eram olhos que me diziam muitas coisas, coisas que eu não decifrava... Era  um cara que eu não conhecia. Mas logo saquei que tava acompanhado. Foi um banho de água fria... Mas, mantive a calma de sempre. Observava todos como se meus olhos fossem uma câmera de cinema, captando todos os detalhes.
Começamos os trabalhos... Jogamos por umas 2 horas entre uma taça de vinho ou outra. Até que não aguentei: Precisava sair, fumar um pouco. E foi o que eu fiz.
Voltamos para a jogatina. Dança das cadeiras e tal  ele... senta do meu lado!
Eu saquei que eu já estava perdido. Eu não respirava, tremia... tava muito a fim dele!
 A gente recomeçou a partida e eu só perdia. Parei, respirei fundo e senti o perfume dele. Fiquei meio bobo... Meio que perdi o controle. Precisava tocar nele. E daí resolvi fazer massagem no seu ombro., mas começou a dar muito na cara,né? Então, com a outra mão, comecei a massagear o ombro de outro amigo. Mas eu tava ligado no cara de olhos verdes. Aquela era a pele mais linda que já toquei.
Fui fumar de novo e dessa vez, ele me acompanhou...
Conversamos de quase tudo: profissão, gostos, comida. A gente tinha muita coisa parecida.
- Tu tá com aquele cara lá de camisa branca?- perguntei. E ele respondeu: -Não.
Disse que eram só amigos. Tive no céu por um instante  e voltei. daí ele perguntou: - Tu tá  com o Wagner? Respondi rápido: - Não, ele é meu grande amigo...
Sorrisos. Voltamos pro jogo. Não só de cartas, mas também de olhares cheios de significado!
Ficamos assim por mais um tempo e outro cigarro já começava, e os papos giraram a respeito de outros relacionamentos...
Meus amigos começaram a querer sair, eu não queria ir para casa, porque imaginava que talvez ele tivesse a fim de ficar comigo e pra mim a noite já tinha sido dada por encerrada. Falei que não  queria sair e  ele também disse que não. O Wagner insistiu, fez uma certa chantagem emocional e eu não resisti. Falei: - Tá legal, pessoal.Também vou! Nessa hora aqueles olhos verdes cruzaram com os meus e saímos todos...
Ficamos um do lado do outro. Viramos grandes amigos em uma noite- risos- falamos de tudo.
Apareceu um boyzinho pentelho e começou a se insinuar pra aquele homem lindo que eu queria prá mim. Fiquei irritado mas pensei que eramos apenas bons novos amigos. O que ele queria comigo?
Nada com certeza. Fui fumar. Ascendi um e fumei todo sem falar nada. Voltei para a pista caladão. Vi uma troca de olhares que eles tiveram!
Ele foi fumar. Depois voltou. E o piá ainda continuou em cima. Falei provocando: - Vai lá! É só levar, ele tá na tua...Ele riu ( o sorriso mais lindo que eu já vi.) Me convidou para tomar tequila. Recusei, com a seguinte desculpa: - Se eu beber, vou fazer besteira! Ele retrucou, dizendo: - Faça!
Quando ele falou que ia beber, eu disse foda-se e fui atrás! bebemos uma dose de tequila e voltamos para a pista. Olhei pra ele e falei: -Eu disse que ia fazer besteira, e ele retrucou:
 -Então faça! E aconteceu o beijo mais lindo do mundo!
 Nunca pensei que algo assim pudesse acontecer. Sempre achei ridículo aquele papo de sininhos e o mundo parando enquanto rola um beijo. Mas foi o que aconteceu. Parecia que eu tinha saído do meu corpo e tudo parou. Era só  ele e eu. A gente não se soltou mais...
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria que tudo aquilo se perdesse.
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria depender apenas de lembranças.
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria depender da saudade...
Nos encontramos no dia seguinte e sempre que podíamos e assim seguiu... nunca vou esquecer o dia em que ele parou para conversar com um conhecido e  pegou minha mão segurando forte e não permitindo que eu soltasse. Eu era dele e ele, ele era meu. E ele queria mostrar isso pro mundo. Foi por causa desse tipo de coisa que me apaixonei por ele...
A nossa primeira noite juntos foi...foi...
Ele tocou meu rosto com delicadeza, cheio de carinho...um carinho que eu nunca tinha conhecido nessa vida. Ele me amou com um jeito tão louco e verdadeiro que me fez, na hora, querer ficar com ele pelo resto da vida. Eu soube que ele era meu amor...

Ele tocou meu rosto com tanta delicadeza...ele me disse cada coisa linda e isso foi assim, toda vez que a gente ficava junto...foi intenso...ninguém entendia o que tava acontecendo...nossos amigos curtiram mas achavam que as coisas tavam indo muito rápido...diziam isso prá mim e diziam isso prá ele...Só que ele sempre tinha a resposta perfeita: o que tava rolando entre a gente era forte demais prá obedecer convenções de tempo, de prazos, de explicações...eu e ele não tinhamos medo,era isso...eu e ele não tínhamos medo de nos envolver e de mostrar pro mundo o que a gente tava sentindo um pelo outro...yes!
Todo mundo quer se preservar, todo mundo tem orgulho, todo mundo perde tempo guardando os sentimentos, perdem tempo em não curtir o amor...eu também era desses...antes de conhecer ele...aquela coragem dele, aquela entrega toda eu nunca tinha visto em ninguém...e depois eu soube que era o remédio que eu tava presisando prá acordar prá vida, prá saborear os momentos, prá aprender a descomplicar, prá aprender a abrir meu coração...prá me libertar das encucações bestas...Ai! Prá viver prá valer...isso é tão essencial.é o maior prêmio por estar vivo.
A gente parecia criança quando se encontrava, parecia até que a gente se conhecia desde sempre...isso era incrível, único...Meu Deus...
Ele me deu de presente uma foto emoldurada de nós dois juntos. eu tava com uma cara tão engraçada...tinha acabado de acordar na nossa cama, mas ele, como sempre, tava lindo...Nunca pensei que ele fosse ampliar e emoldurar aquela foto...ela tinha tanto da nossa intimidade...
As vezes eu a olho por horas...ela diz tanta , mas tanta coisa de nós dois: dos nossos toques, dos nossos abraços intermináveis, dos nossos beijos que só de lembrar me arrepiam..ai...
Não sei como, mas a gente virou um casalsinho careta, ficavámos vendo um monte de filmes e preparando receitinhas da vovó, recebíamos os amigos em casa, trocávamos mensagens, bilhetinhos bobos, mas cheios de carinho...isso era tão..mas tão bom...sinto falta disso...Deus, como eu sinto falta...
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria que tudo aquilo se perdesse.
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria depender apenas de lembranças.
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria depender da saudade...
E isso agora tá acontecendo...é um vazio que machuca, é um vazio sem forma, sem cor, me dá desespero, é uma dor...é uma dor...eu te amo, eu te amo...eu te amo...será que falei bem alto? Será que dizendo isso consigo fazer o mundo parar de girar? Será que eu consigo voltar o tempo... porque se eu não conseguir, o que vai ser? O que vai ser?
Eu não queria que ele fosse embora, eu quero que ele volte! Volta prá mim...volta!
Me leva então! Vem me buscar! Me leva contigo, meu amor...meu amor...
Meu corpo te quer, e queima o tempo todo...cada vez que penso em ti, cada vez que pronuncio teu nome...
Todo mundo que encontro da nossa turma, me pergunta por ti...a gente era um só...sempre juntos, sempre se buscando, sempre se encontrando e aos poucos parece que a gente foi ficando parecido, nas palavras, nas manias e até no jeito de caminhar...
Sabe o teu lado da nossa cama?Ainda é só teu...e continua vazio. Não tenho coragem de permitir que alguém deite na nossa cama, que profane nossas lembranças das noites e dias lindos, só nossos...só meus e teus. Que profane tudo o que tu ainda representa, que desmanche qualquer ruguinha da fronha do teu travesseiro...não, nunca, não vou deixar...
Meu corpo te quer, e queima...isso dói, mas ao mesmo tempo é bom...Sabe? Tenho medo de acabar desenvolvendo um prazer no sofrimento...mas aos poucos parece que alguma coisa me chama prá nossa casa, e os compromissos, as festas, os amigos, acabam sendo tão pouco, perto de nossas memórias. Comparados ao prazer de respirar o perfume, a sobra do  teu perfume na fronha do teu travesseiro...meu amor...
E tu foi e eu fiquei...mas eu não queria, eu não queria...Eu não queria que tu fosse embora...
O importante depois de tudo, -parece brinadeira...o importante depois disso tudo é pesar o valor de tudo que aconteceu, e que ainda tá acontecendo, e reconhecer o quanto eu mudei. Parece que faz tanto tempo, parece que não me reconheço quando penso nos outros caras, nas outras histórias...tudo tão sem mágica, sem fascínio, sem o verde dos teus olhos...o verde dos teus olhos que me trouxe  serenidade....parece que abriu uma lente nova na minha percepção do mundo, das coisas e das pessoas...as coisas criaram poesia...eu tou machucado? Não sei...mas tou  tão melhor como pessoa...tou tão mais desperto prá coisas que antes não significavam nada...que bobo isso, e ao mesmo tempo tão importante...como eu tou bobo...e  isso é bom.
Agora parece que quando eu ando pelas ruas é como se eu pertencesse a alguém...e eu pertenço, nè? Pertenço de verdade...por mais que tu esteja longe, eu te pertenço...isso é bom? Não sei...mas é o que eu sou agora...Tenho uma marca, uma resignificação, um sentido...ai, eu tou bobo mesmo!
Eu chego na nossa casa  e começo a sonhar direto, a rever tudo de novo...faço um monte de promessas, digo que vou parar de fumar, que vou voltar a correr, que vou organizar meu roupeiro direito como tu sempre dizia...mas daí o dia já passou, mais um dia passou e eu fiquei sonhando contigo, amor...ficando horas no banho, chorando com os filmes de amor da  Aldrey  e cantando as músicas da Barbara Streissend...lembra como tu amava ela e eu reclamava que achava super cafona? Pois é...comprei até um LP antigo do Allan Parson´s..." Don´t think sorry is easily say...dont try turn tables instead"...até aprendi a letra, sei que tu curte mas prometo que não vou cantar, palavra...
Aquele menino ligou outra vez, de vez em quando ele tenta se infiltrar na minha vida, pensa que ninguém resiste aquela beleza vazia...poxa só de pensar nele me dá um cansaço...como é que eu conseguia viver cercado por pessoas como ele? a última festa, a última moda, a última droga, o papinho de sempre, as fofocas de sempre, a frivolídade...o sexo automático e ensaiado de sempre? Não. Não quero nunca mais voltarpra aquele mundo!
Hoje é nosso aniversário, amor...Quero fazer alguma coisa legal prá comemorar a gente, sei lá...acho que vou cortar o cabelo um pouco, mas só um pouquinho...da última vez a gente viajou,lembra? Tinha aquela turma de atores que foram todo o tempo fazendo algazarra...e quando souberam do nosso aniversário, nos homenagearam cantando aquela música linda do Caetano e eu até chorei... fiseram na hora e me deram uma grinalda de papeizinhos coloridos...gente maluca...adorei aquele dia! Nunca vou poder esquecer...
Decidi que vou fazer um painel com as nossas fotos...mas não quero nada com pinta de altar, Deuas me defenda...penso numa coisa que pegasse um lance virtual...sei lá, nem sei do que tou falando...aquele haxixe marroquino era o ó.
Santo Expedito! Essa casa tá uma zona!
Se você chega de repente sem aviso vai ter um tréco...Se amanhã não chover vou abrir tudo e passar um pano nessas vidraças...
Meu deus! Não. Aquilo ali é uma teia? Ai, preciso urgente de um martini...
Se a mãe visse isso já ia dizer " Guri relaxado, olha no que que tu te transformou! Anda deixando até copo na pia!
Me transformei num guri solteiro, mãe...pelo menos é o que tá começando a parecer e não tá me agradando muito não... começa a dar um certo medo... Que droga isso, meu...que droga...eu não queria, não queria ficar assim dependente da saudade...eu não quero que tudo aquilo...aquilo tudo se perca, pô!
Eu quero é que tu fique comigo. Quero te fazer cafuné, sair prá pedalar junto no fim de semana, ficar fazendo planos prá nossa vida, comprinhas prá nossa casa.
Puta merda! Quase não acordei. Que horas são? Meu Deus, o banco já fechou...  Era só o que faltava. Deixei passar o prazo de pagar a prestação do carro! A mãe vai me matar...
A geladeira tá vazia de novo... o aquário ... Não!  Esqueci de dar a ração do Carambola! Não... não, querido fala comigo! Fala comigo, Carambola! Não faz isso... me perdoa... não me deixa também...
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria... que "tudo" se perdesse...
Eu não queria... Eu não queria depender!
Eu não queria que ele fosse embora, eu não queria... ter que  depender da saudade...

Thiago Rieth e Angela Kerber.