terça-feira, 28 de agosto de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 73


No carro até o trajeto de casa Robert e Claudia não trocaram sequer uma palavra. Claudia estava distante e não dava a impressão de querer dar muitas explicações.
- Claudia, precisaremos conversar... 

Aquela hora, estava já quase amanhecendo. O céu azul escuro da noite da  Escócia adquiria, aos poucos, uma tonalidade maravilhosa entre o prata, o lilás e o dourado, fazendo com que Claudia recordasse, com emoção, a primeira vez em que chegara  aquele país que agora lhe pertencia.
Haviam no céu reflexos luminosos, como se fossem cortinas feitas de chamas e raios...Era a primeira vez, que Claudia via uma Aurora Boreal. Aquilo só poderia ser uma divindade...Lágrimas de veneração correram silenciosas pelo seu rosto.

Arthur pendia a cabeça de sono. Claudia procurava monitorá-lo, olhando para o banco de trás, atenta e com ar levemente preocupado.
Queria providenciar logo uma escolinha para Arthur, pois achava que quanto mais demorassem nisso, mais difícil seria a adaptação do filho aquele universo de seu pai e de seus irmãos. Esse, e a procura por um emprego, que começaria a empreender já no dia seguinte, eram o tipo de preocupação que tomava seu pensamento. Ou pelo menos, o tipo de pensamento com que preferia se ocupar.
A sensação de Claudia, desde que saíram da casa de Carol, era a de que um ciclo se rompia, tudo estava tomando uma direção inesperada.
Robert dirigia mas ele não deixava de espiá-la com o canto dos olhos a todo o momento. Não via a hora de chegar em casa. Queria retomar o assunto, queria retomar o controle das coisas.


-...Emprego, Claudia? Não. Não vejo necessidade disso agora...Arthur precisa de você e você agora é minha mulher, posso te dar tudo o que você precisar.

-Robert, você devia ouvir-se falando...em que época você acha que estamos vivendo, Robert?

- Você está vivendo comigo. Está casada comigo, Claudia! Você tem um filho comigo. E ele precisa ter você por perto.

Claudia pensou se Arthur precisava tê-la por perto para  que Robert pudesse se encontrar a vontade com Carol, ou com quer que fosse .

-Eu não acho que nosso casamento seja uma prisão, Robert. Pelo menos parece que para você ele não é.

Robert flagrou a franca ironia de Claudia. Ela encarou-o firmemente, sem pestanejar. Claudia nunca o enfrentava e ele quase não soube como reagir frente aquele olhar contundente e digno.
Mas retomou a postura segura de sempre.
-Claudia, você estava encontrando-se com Carol. Me diga o que isso significa.


- Não é o que significa mas o que significou...e isso realmente não importa agora. Você escolhe os seus silêncios, e eu escolho os meus...



Claudia virou de costas para ele, apoiando-se e desabando em um dos sofás da gigantesca sala de estar da mansão. Estava exausta. Ao  olhar para a amplidão daquilo tudo, Claudia sentia-se uma formiguinha. Jamais se acostumaria com tanta falta de aconchego. Precisava urgentemente de um gole de café.
Robert sentou-se ao lado dela, ficando em silencio. Aproximou-se, colando seu corpo masculino bem juntinho ao dela. Começou a acariciá-la no rosto. Ela deitou a cabeça em seu peito. Ele apertou-a contra seu corpo e ela sentiu-se bem. Acalmada, protegida.

-Vamos passar o dia de hoje juntos, querida? Vou cancelar minha agenda e tirar uma folga...
Claudia quase havia dormido nos braços dele...Não havia escutado direito. Olhou para ele com os olhos turvados pelo sono.

-O...que?
Robert sorriu e beijou-a suavemente na testa.

Aquela família, apesar da configuração inusitada, conseguiu adaptar-se a uma maneira de convívio, pode-se dizer, harmônico.
Claudia manteve a amizade com Carol, e assistiu a linda aproximação entre Arthur e seus irmãos.
Tinha o amor e a proteção de Robert e ele estava sempre a seu lado.
 Com o passar do tempo, pacientemente, sem gerar conflito, Claudia  conseguiu convencê-lo a deixá-La  voltar a trabalhar. Conseguiu convencê-lo a mudar para uma casa menor, próxima ao mar. Conseguiu convencê-lo a deixá-la usar sozinha o transporte público, quando precisasse ir para a universidade. E conseguiu convencê-lo à expor numa mostra inter municipal, as fotos que ele produzia havia tantos anos.
Ele adorou a experiência, e vendeu vários trabalhos. O dinheiro, doou para obras assistenciais.
Claudia e Robert freqüentaram juntos um curso de fotografia artesanal, o que os aproximou ainda mais. Pois ficavam horas, em meio a taças de vinho, trocando idéias sobre técnicas antigas perdidas, composições de luz, buscando publicações raras sobre expressionismo alemão e diretores esquecidos...assistindo a velhos filmes da Babelsberg. Trocando carícias, fazendo amor...

Murilo veio visitá-los na Escócia e ficou por uma longa temporada. Robert saia com ele para pescar demorando bastante.

Os natais eram todos na bela propriedade de Carol e nessas ocasiões a casa ficava lindamente iluminada, todos se reuniam cantando velhas canções escocesas e com Ewan e Robert treinando, desajeitados, passos de samba.
Dóris, a irmã de Carol ,comparecia nesses encontros e era como se nada no passado tivesse perturbado seu espírito bem humorado e festivo. Contava piadas que encenava comicamente, arrancando gargalhadas de todos os adultos e crianças. Dava baforadas no cachimbo, sua mais recente mania.
Assumira o comando de um posto médico humanitário em Singapura e confidenciava a Carol sobre sua aventuras amorosas, nada recatadas, com um residente singapurense.

Helena tinha um namorado e colocara um piercing.
Robert, indignado, ficava vigilante e com um indisfarçável ciúme da filha; então Claudia tinha um grande trabalho para impedi-lo de ser rude com o rapaz,  tentando convencer Robert a demonstrar amizade e compreensão, pois se Helena temesse o pai, se afastaria, o que seria bem pior.
Robert, contrafeito, acabava se acalmando. Mas mantinha os olhos cravados em Helena. E havia mandado, sem que Claudia e Carol soubessem, Mike Rolland vigiá-la secretamente.

Carol ensinava Arthur a tocar piano e lhe contava histórias sobre antigas lendas celtas. Afagava com suavidade os cachos delicados e loiros do cabelo do menino, cobria-o de beijos e lhe fazia cócegas. Seu amor por ele não cabia no peito de tão vasto e profundo. Robert notava isso comovido e em silencio...Claudia, a seu lado, pressionava sua mão.

Mike Rolland sofreu uma devassa fiscal em suas finanças particulares;  interdição de contas no exterior; processado por sonegação; além de receber uma queixa formalizada por Genebra por cooptação pelo tráfico internacional de armas. Mas seu primo Julio Castellano, também indiciado, isentou o nome de Rolland no interrogatóri,o  assumindo a participação na história. Porém,  não teve o devido cuidado em preservar outros nomes. Acabou executado dentro da prisão.

Certa vez Robert estava numa reunião com o pessoal da direção de arte da emissora e após receber um telefonema , Rolland notou, o rosto dele se transfigurou .
Seu dia não foi mais o mesmo.
Horas mais tarde, Rolland encontrou-o de pé, encostado a parede de um dos velhos camarins da parte antiga do prédio que fora isolado para reformas.

-O que o perturba, hermano Robert?

Robert nada respondeu. Olhou para o rosto do amigo e baixou a cabeça.

- Onde está indo,  hermano?

Rolland seguiu-o de perto.

- Eu vou encontrar com uma pessoa, Casca...

-Ok, não quer dizer que pessoa é, não é mesmo?
Foi o que imaginei...

Mike Rolland não conformou-se quando assistiu o amigo entrando no carro e saindo desabalado do estacionamento da emissora. Havia alguma coisa. Resolveu segui-lo em seu próprio carro.

Robert entrou em um dos restaurantes mais tradicionais da cidade. Aquela hora da tarde haviam poucas pessoas. Caminhou até uma das mesas discretas ao fundo:

-Eu...eu, sinceramente... pensei que você não viesse...mcKennan.

Robert custava em lidar com a emoção aguda que o açoitava ao defrontar-se com aquela pessoa. Não sabia o que pensar. Estava diante de uma lembrança embaçada, de um fantasma corporificado. De um homem.
Noah Greensberg sorriu tremulamente. Não aparentava sinal  de arrogância apenas sorria tremulamente. Robert empacou.

-Sente-se mcKennan...se achar que sou digno de sua companhia...mas como veio até aqui...bem, parece que pelo menos tenho sua atenção...
Aquele era um momento embaraçoso, inusitado e sobretudo irreal. Robert sentia-se como se estivesse em um episódio de Twighlight Zone.
Permanecia sem vontade ou condições normais de falar. Noah proferiu:

-Bem, pelo jeito eu devo em algum momento começar a falar...

De repente uma amargura  raivosa desprendeu-se das lembranças de Robert.  Aquele homem diante dele havia ameaçado a vida de seu filho e de sua mulher. E aquele sentimento adormecido de indignação sob a forma de um fúria surda voltava com toda sua força. Mas o que poderia fazer...surrar aquele velho?
Isso parecia estar além de sua capacidade. Só o que poderia fazer era sentar e ouvi-lo, era apenas isso o que restava fazer.

-Eu subornei, sabe...subornei os capangas de Mike Rolland..fui esperto de certa maneira, fui esperto...

Robert estranhamente achou graça. Lhe pareceu que Noah esperava ser elogiado ou coisa parecida.
O garçom aproximou-se prestativo. Desculpou-se por não ter sido mais diligente. Perguntou se Robert gostaria de olhar a carta de vinhos, mas Robert a recusou pedindo que apenas lhe trouxesse uma cerveja Guinness.
Noah encolhido diante dele parecia uma figura esmaecida, quase transparente. Robert cruzou os braços encostou-se no espaldar e avaliou-o detidamente.

-Que você subornou,  isso está muito claro prá mim nesse momento. Apenas não entendo como teve coragem de me chamar e sobretudo de se mostrar  assim frente a mim e de peito aberto.

O olhar azul de Noah tornou-se intenso; tingido pelas lembranças.

-Eu estou aqui mcKennan e estou diante de você porque acho que é o único lugar em todo o mundo em que devo estar.

Noah, tocou as bordas ornamentadas em ouro de um copo que tinha a sua frente. Suas mãos tinha os dedos gretados.

-Pessoas como eu, mcKennan, são pessoas que o mundo de hoje já não conhece mais. São pessoas devotadas...apaixonadas ao extremo, mas sem no entanto explicitar o amor que sentem...

-Do que está falando?

-Da grandiosidade a que você chegou e que eu consegui para você. Eu consegui porque lhe abri as portas, mcKennan...Porque eu tive a sensibilidade em reconhecer sua estrela, mcKennan...Porque eu pisei naquele lugar esquecido em que você estava...sabe porque, mckennan? Por pura devoção a você, a você e a esse fragmento único que carrega junto com você...

À metade das palavras emitidas naquele  discurso, Robert deixara de prestar atenção, porque aquela ladainha era sua velha conhecida.  Ela lhe pareceu uma canção muito velha, das que costumam dar sono. O garçom serviu-lhe sua Guinness cerimoniosamente, como tinha de ser.
 Robert observava a cor caramelo e a espuma suavemente dourada se formando. Depois desse interlúdio e de  alguns goles parcimoniosos as palavras de Robert fluíram. Interrompeu a cantilena de Noah impondo sua voz metálica vibrante.

- Você achava que eu não sabia do seu amor por mim Noah? Achava que eu não percebia...acha que  eu seria o ator que sou se não escutasse as palavras que não são ditas?

Verteu mais um gole enquanto, assistia a reação de Noah. Retomou, calmamente:

- A vez em que você quase caiu prá trás quando me viu entrar no administrativo do teatro velho...a sua fala trancou, e você não sabia onde colocar as mãos...você tremeu todo quando eu te abracei lembra? Olhava sempre que podia pro do meu negócio , do mesmo jeito disfarçado das garotas quando tão a fim. Pensa que não percebi?

Noah desconcertou-se. Remexeu-se na cadeira.
Robert:

-Sabe, Noah, eu até que poderia ter ficado algumas vezes com você, poderia sim...você até que tinha uma beleza soturna, misteriosa interessante que me agradou. Mas... você me pareceu muito careta com aqueles papos de alma shakespeariana e comida vegetariana, sobrenomes de origem nobre e linhagem de sangue azul... logo me cansei. 
Noah estava estupefato. Seus olhos de diâmetro incomum, pareciam querer saltar. Jamais poderia imaginar que algum dia...

-Você sempre foi um careta, não é Noah? O encontro meu e de Carol com a Claudia, por exemplo, porque você achava que tinha que se meter? Que tinha que vir pregar moral? Quem te chamou, cara? 

Robert passou a elevar a voz, num tom de discurso:

-Se eu me deitava com uma brasileira de sangue ameríndio, negro e português cheirando a selva e a sexo era porque isso fazia parte de algo especial e verdadeiro. 
Algo maior porque envolve a natureza com sua espiritualidade simples, que está em todas as coisas Noah, mas que você como rançoso representante da amargura ressentida de uma Europa cheia de medo, cristianizada, egoísta e preconceituosa até hoje não respeita. 
Sabe, esse  aí de agora é o seu verdadeiro retrato, Noah e o retrato de todos os que pensam como você. Um velho rancoroso ultrapassado acreditando que alguém está ligando para o que tem a dizer.

Robert virou o último gole do copo num só golpe. Arqueou as pernas e levantou-se.
Deu um último olhar para Noah, virou as costas e se pôs em movimento.
O gelo na alma, que Noah experimentou era de um gênero tal que o fez cair num choro incontido.
Debaixo da mesa, em meio as suas pernas segurava um revólver pela coronha. Sua dor maior era por não ter tido a coragem de fazer o disparo que pretendia.

Fim.


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 72





Arthur estava incrivelmente fascinado com aquela casa. Em seu coraçãozinho sentia uma satisfação que queria muito compartilhar com seu pai. Papai parecia tão preocupado, sentado do seu lado naquele sofá gigante parecido com uma nave...mas papai também era gigante...tinha o nariz grande, a barba toda feita de ouro...e dura! Pegava a mão de papai com as duas mãozinhas, mas aos poucos foi se sentindo cansado com o peso dela. Aconchegou-se aos poucos contra o corpo de seu papai, que o abraçou, que nem um leão.

Era muito engraçado que dois passarinhos estivessem voando dentro de casa, e era maravilhoso que pudesse olhar para cima e não ver o teto e sim o céu da cor dos olhos de papai e do Ewan! Olhou para papai, mas ele não estava mais...Resolveu procurá-lo. Desceu do sofá e correu por um corredor redondo que não terminava...mas havia uma porta, e correu para ela. Antes de abri-La, ficou examinando, maravilhado, a quantidade de figuras que nela haviam: Haviam grous, sapos, peixinhos iguais a chuchu e cobrinhas verdes, vermelhas e lilás ao redor de uma lagoa e todos se mexiam! Do alto bem lá do alto, vinha uma cascata barulhenta.

Arthur estendeu a mão para tocar tudo aquilo e sentiu uma brisa morninha, que vinha dali de dentro. Foi espiando cada vez mais de perto e sentiu que seus pesinhos tocavam poças de água que a lagoa formava na margem.

Viu aqueles bichos e viu pequeníssimas borboletas brancas, e elas voaram ao seu redor. O grou bateu as asas e levantou vôo também, dando uma revoada bem acima da sua cabeça. Arthur teve vontade rir, e riu sem parar.
Sentado numa pedra chamou pela mamãe, queria muito que ela visse tudo aquilo. Mas ela não iria gostar de ver que havia molhado os sapatos e iria querer tira-lo dali, então resolveu ficar quieto. Pegou na mãozinha conchinhas de vidro colorido que estavam espalhadas na areia. Decidiu que as daria de presente à mamãe. Colocou-as dentro de uma malinha amarela que achou...mas aquela malinha...era igual a malinha de remédios da tia Juju. Tinha umas fivelas de metal cheias de pontinhos marrom cascudos e umas figurinhas coladas. Sentiu o perfume de tia Juju. Seu coraçãozinho palpitou...ela havia voltado!
Olhou ao redor procurando-a e lá longe, embaixo de uma árvore viu umas pessoas. Uma delas era uma criança que lhe acenou.

Arthur sentiu um afago em seus cabelos. Olhou para cima, para ver quem era, mas a luz do solzinho não deixava...ou parecia que era a pessoa que brilhava! A pessoa feita de brisa pegou-o no colo e carregou-o atravessando as águas da lagoa. Arthur ia sentindo um frio na barriga igual aquele de quando se desce uma ladeira de carro...era tão engraçado.


-Quem é você?
-Sou sua mãe.
-Mas minha mamãe não brilha.
-Sou mãe de tudo, Arthur. Sou mãe de sua mamãe também e da mãe dela...
-Tou com medo. Quero ir embora. Cadê meu papai?
-Lá.
-Onde?
-Está na luz...

Um raio coroou o céu e emitiu uma luz muito forte junto com um zunido. O menino perto da árvore sorriu. Arthur encolheu-se e fechou os olhos, mas aos poucos os foi abrindo, pois deixara de sentir medo. Queria falar com aquele menino. Ele era tão parecido com seu amiguinho que  o abandonou no campinho...
Atirou para ele algumas conchinhas de vidro colorido para que as pegasse mas elas saíram voando, pois viraram passarinhos!

-Arthur! Arthur, vamos pra casa. Vem vou te pegar no colo.
Arthur surpreendeu-se por agora estar nos braços de seu papai. Olhou para cima onde estava o céu? Onde estavam os passarinhos? Começou a perguntar, mas os adultos não o ouviam só falavam sem parar.





quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A ópera de robert mcKennan 71










-Me diga o que esses canalhas tem contra você, Casca!

-Foram umas transações com meu primo Julio, aquele dos estaleiros ... desapareceram umas notas fiscais e isso desencadeou mais investigação...

-Transações que envolvem assuntos de exportação?

-Robert, não é nada comigo...ainda. Mas preciso tirar a limpo esse assunto com o Julio. As coisas complicaram...

-Complicaram?

-Contrabando, hermano, Robert! Estão nos acusando...

-Acusando de que exatamente, Casca?

-...de ter fornecido armas pros Al Shabaab da Somália, hermano!
 O sangue de Robert congelou. Se aquilo tudo fosse verdade, se trataria de colaboração com terrorismo. Mike estava sendo investigado pela Interpol! O silencio, pesado como chumbo, tomou o recinto e a voz de Robert quase não queria sair.
Quando falou, o fez um longo tempo depois. Não quis perguntar se o amigo estava realmente envolvido. Apenas murmurou:
-Mas o seu perfil bancário está , ok. Riu nervosamente: -Trafico de armas é dinheiro demais...eles não podem provar...

-Eles estão no meu pé, e podem encontrar “outras coisas”,  hermano...


Durante todo o jantar, Rolland e a esposa Adelle tentaram aparentar normalidade, mas percebia-se no ar a intranqüilidade daquelas pessoas. Robert e Mike Rolland conversaram um bom tempo a portas fechadas no gabinete e Claudia sentiu-se na obrigação de agradar Adelle que pareceu gostar bastante dela e de Arthur, embora quase não tivesse forças para sorrir.

-Você é mais simpática do que a antiga esposa de Robert , Claudia. 
Não pensei que seria assim.
Após falar, Adelle pareceu ter se arrependido, pois viu que não era mesmo de bom tom aquele tipo de comparação.
Claudia sorriu, mas sentiu melancolia ao lembrar-se de Carol.
-Carol é uma mulher que vive em uma realidade diferente da nossa...

-Sempre achei isso “meio estranho“!

-Mas Carol é assim, Adelle, ela é assim...

-Você parece conhecê-la bem, Claudia.
Durante o trajeto para casa, Robert estava silencioso e com o pensamento longe. Não parecia ter muita energia para palavras. Deixou Claudia e Arthur em casa por volta das dez da noite e disse que precisava sair para pensar um pouco. Claudia estranhou, mas nada disse. Não achava que devesse se meter demais nos assuntos dele, apesar de ele ter percebido, claramente seu ar de ciúme.
Logo depois, Robert e Mike Rolland, encontraram-se em um pub bem popular na down town city. Sentiam-se mais próximos e à vontade fora da formalidade de suas casas.
Tomaram algumas Guinness, falaram sobre as jogadas do Celtics, a temporada de rugby e sobre a preparação dos novos  do time.
Duas garotas louquinhas se aproximaram e acabaram fazendo-lhes companhia. Eles lhes pagaram bebidas e  Robert exercitou seu charme falando bastante e fascinando as duas! Sem revelar a própria identidade, brincou, não muito discretamente, com um mamilo do seio da mais ousada.

Mais tarde, os dois amigos treinaram golpes de boxe em um  saco pendurado no fundo secreto do bar e Robert, dando uma tragada num baseado que circulava por ali, teve que conceder autógrafos, como sempre.
Contou algumas piadas picantes, fazendo o povo do pub adorá-lo, prá variar...
 Quando ele e Rolland começaram a cantar, tiveram a ajuda do coro da turma de beberrões.

Era mais de meia noite e a cantoria se estendeu pela rua afora.
 Em certo momento, Robert flagrou a emoção tomando conta do rosto de seu amigo...
Rezou para que a situação de Mike Rolland não se encaminhasse para  o pior desfecho. Mas já sabia que, ileso, seu amigo não sairia. Haviam muitos pontos não esclarecidos envolvendo sua situação financeira, como era esperado. Mas quanto a ter ligações com tráfico de armas; isso estava fora da esfera da realidade!
Robert teve um mau pressentimento e explodiu:

-Casca, me diga que seu nome está limpo nessa enrascada!

-Às vezes você pode acabar numa teia sem perceber, hermano Robert. Mas isso só faz de você uma vítima.

-Fale direito comigo, Casca. Sou seu irmão...Eles tem alguma coisa contra você?

-Eles tem o meu nome ligado ao do Julio, hermano! E isso é suficiente. Se alguém embarcou alguma coisa dessas lá prá Africa, foi com o consentimento dele, não meu. Eu só ficava nos escritórios. Ele supervisionava tudo pessoalmente, como sempre fez.

-Você confiou demais nele...

-Como não confiar? A mãe dele me tirou da rua e me alimentou quando a minha velha se foi. 
A Escócia surgiu por causa da bolsa do futebol. E isso foi uma sorte, por que lá em Sevilha, uns macacos queriam me finalizar...

Sentados no meio fio de uma calçada, pareciam os dois garotos de antigamente.
Rolland terminou de entornar a garrafa de Guinness. Olhou para Robert pondo a mão em seu ombro.

-Talvez eu saia de circulação, hermano.

-O que isso quer dizer?

-Não estou falando em fugir, não. Não posso deixar Adelle...
Estou “prevendo“, que a armadilha é que vai se fechar...

Robert ficou surpreso com aquelas palavras que denotavam tanta derrota na voz de seu amigo super herói.

-Casca!

-O que?

-Isso é absurdo. Não vai acontecer com você.

-Mas isso iria acabar acontecendo sim. É assim que são as coisas. Sempre foram, hermano Robert.

-Do que está falando?

-Eu vim das sombras. E, mais cedo ou mais tarde, teria que voltar... 


Eram altas horas da madrugada e Robert estava quase chegando em casa, quando seu telefone celular tocou. Era Carol e estava chorando ao telefone:

-Bob, eu não agüento mais... Você precisa me ajudar a lidar...com essa...essa menina! Ela recém chegou em casa!

-...espere um pouco...
Robert deixou a chave do carro cair. Teve de abaixar-se para pega-la e acabou deixando cair a carteira. -O que foi, Carol? Calma...Estou indo prá aí!


***


-...essas brigas de vocês duas estão passando dos limites Carol! E onde Helena está?

-No quarto dela! Ainda bem, por que se eu a ver na minha frente hoje...

-Carol, você nunca foi assim.

-Mas se você escutasse o que ela falou...e o que falou de você!

-Eu não quero ouvir o que ela disse sobre mim!

-Mas Robert! 

- É tudo provocação, Carol! Você sabe disso!

-Mas você sabe o teor...

-Que não sou pai dela e que ela poderia casar comigo...blá, blá, blá...Já ouvi essa bobagem circulando lá por casa.

-Mas você...

-Escute. O que ela quer é agredir você, Carol!

-Mas Por que?

-Você elogia demais o Ewan!

-Mas é meu filho!

-Está vendo? É isso que ela está fazendo: Te jogando na cara que; já que não é sua filha, como você insiste em dizer, machucando-a cada vez que fala isso, ela pode então competir com você! 
Não seja tola de levar isso a sério! Ela é só uma menina! Mas por favor, encerre essa ladainha de que Ewan é uma deidade, um presente precioso sagrado! Isso é vida real! São seres humanos! Você não está recitando um canto nórdico do Valha La!

Caroline sorriu:
-Tem razão.
São meninos e tem defeitos...Ewan resolveu virar militar! Quer defeito maior que esse?
Carol começou a rir daquilo e Robert aos poucos também a acompanhou.

-Imagine só isso...Eu um ator, se é que posso ser chamado assim; você uma lingüista, apaixonada por ritos antigos e danças circulares e nosso filho; um militar! É rir para não chorar...
Carol resolveu e começou a preparar um drink:

-Robert, estou pensando em viajar.

-Viajar...

-Ainda não pensei direito, mas você sabe que sempre amei o Japão...
Gostaria de fazer umas pesquisas sobre matrizes lingüísticas asiáticas.

-E você vai...sozinha...? E aquele seu... “amigo“?

Ela alcançou-lhe o drink. Sorriu ao responder:
-Quanto barulho por nada, Robert!
Robert alertou-se para o formato circular protuberante dos seios de Carol, suavemente encobertos, descendo e subindo conforme a respiração dela. Carol começou a falar, mas Robert prestava atenção na suavidade os lábios dela. Aqueles cabelos tingidos de negro...
Caroline Greensberg vestia um robye lilás preso apenas por uma faixa a sua  delgada cintura. A sombras contra sua pele tinham um efeito dramático à luz indireta de um dos abajures. Um forte perfume de essências herbais impregnava o ambiente.
Seu modo de falar era languido e tranqüilo, sem alteração no timbre de sua voz:
-...e  portanto você não viu nada demais, Bob! Sua cabeça está fantasiando ...e afinal porque eu deveria deixar de receber meus amigos em minha casa? Me diga.
 Robert procurava lutar contra estranha uma espécie de sono...Achava que era devido aquele perfume. Robert impôs um tom forte na voz:
-Quem é aquele ...sujeito, Carol?  
O perfume era tão inexplicavelmente agradável...

-Porque não perguntou isso antes, Bob? É Martin, meu personal trainer! E caso interesse... ele é gay! GAY, Robert! 

-Ele...Gay? Robert notou que começava a suar.

-Sim, Robert. Você sabe o que significa a palavra? 

Carol teve vontade de rir pois a expressão de alívio no rosto de Robert foi flagrante. Instantânea. Os músculos de seu rosto passaram abruptamente da máxima tenção para o relaxamento. De seus olhos azuis, Carol viu dissipar-se a velha conhecida tempestade.
Ela continuou num tom como o que se  costuma usar com crianças:
-Martin vive com um advogado britânico. São casados!

Teve a percepção clara do embaraço que tomou conta de Robert. Ele tentou disfarçar virando de costas e caminhando até  a vidraça da janela do gabinete. Ele imaginou tê-la aberto e respirado o ar frio.
-Eu...eu me preocupei com você, foi isso, Carol. Afinal era um cara estranho...

Como ela adorava vê-lo sem jeito!

-Carol, eu lhe devo desculpas, eu...

-Está tudo bem, Robert.

-Mas eu fui grosso. Me perdoe...

-Mas é seu cartão de visitas, querido! Já estou acostumada.
Carol estava replicando? Aquilo era muito raro... Robert sentiu como se sua própria voz ecoasse distante:
-Carol, quero que me perdoe por aquilo...Eu sinto muita, muita vergonha!

Havia com certeza algum efeito narcotizante naquele perfume...
Robert sentou-se em um dos sofás.
Carol lhe respondeu:
-E eu sinto que foi inesperado e doeu fundo, mas que vai cicatrizar...
Ouviu a voz de Carol. Mas não soube exatamente de que direção vinha.
-Está tudo bem agora, Robert. Se você não levar a mau... Preciso acordar cedo amanhã, Bob.

-Tem razão. Já é tarde...O que é isto? Não consigo levantar...O que você fez, Carol?
 A voz dela agora lhe pareceu mais próxima:
- O que eu fiz foi utilizar um pequeno recurso, caso você se “exaltasse demais“, querido.

-Você me drogou...você e seus artifícios!

-Já vai passar...já vai passar. Está sentindo o coração acelerar um pouco? É isso, já está bem. Veja bem, eu agora irei para o nosso quarto....Você pode pedir a Agnello que abra para você sair. Mas aguarde um pouco. Não se levante bruscamente. Boa noite, Bob...
Carol cometeu o erro de aproximar-se demais. Então Robert a agarrou pelo pulso. Agarrou firmemente fazendo-a cair sobre ele. Impediu-a de levantar com um abraço de puro aço.
-Que tipo de jogo você anda fazendo hein, Carol?
Ela não queria gritar devido a presença de Helena na casa.
Mas não tinha a intenção de gritar de modo nenhum.
-Essa sensação que estou tendo agora, também tem algo a ver com  o efeito de seus incensos?


Ela sorriu fingindo não entender mas adorando a situação:
-Que sensação, Robert?


-Essa!

Robert jogou-a contra as almofadas e acavalado sobre ela, meteu as mãos dentro de seu roupão, afastando-o e expondo o belo corpo nu da mulher diante dele. Sem pensar duas vezes, mergulhou a boca vorazmente de encontro àqueles seios marmóreos.
Achou os lábios dela tão vermelhos e intumescidos que simplesmente não conseguiu parar de beijá-los. A penetração foi bruta, mas Carol gostou. Abriu-se para ele como se fosse a única coisa em sua vida.
-Você me queria! Não queria, Carol? Você me queria! Me diz...

-Eu queria...você...dentro de mim...dentro, dentro...







Aquilo tudo nada teve a ver com eflúvios de substancias desconhecidas.  Aqueles cabelos pintados de negro tinham a culpa. Reascenderam o desejo nele desde a primeira vez.
Enquanto a amava, ele a olhava nos olhos e sua respiração vinha forte, um resfolegar contra o rosto dela. Ele saíra totalmente do controle e a beijava na boca com toda sua intensidade típica. Homem algum se comparava a ele, Carol sabia...
Sabia também que sempre dependeria dele, para o bem ou para o mal!
A barba dele, rala, raspando seu rosto, seu pescoço, desceu ousadamente até seus seios e ela os sentia  arrepiarem-se, então ele os sugou deliciosamente...
Robert inundou-a mais de uma vez.
Depois de tudo, os dois corpos permaneceram nus e entrelaçados numa cumplicidade silenciosa.
Carol não queria falar. Não queria quebrar o momento. Robert dormiu e ela ficou aspirando sonhadoramente o perfume dos cabelos dele, amassando com suavidade o lóbulo de sua orelha como sempre costumava fazer depois de se amarem...
Aos poucos ela também dormiu. Despertou minutos depois.
 Robert estava de costas em pé, e já vestido.
Virou-se para ela. Portava um objeto em sua mão esquerda. Mantinha-o a altura dos olhos.

-O que está fazendo com você, Carol?
Ela custou a compreender do que ele falava. Então ele aproximou o pequeno anel madrepérolas diante dela. As pupilas dos olhos lilás de Carol agigantaram:

- Isso... é meu. Se não se importa...

-ESSE ANEL PERTENCE A CLAUDIA!







Carol por um breve momento não soube o que responder. Sentiu o próprio queixo tremer. Baixou a cabeça. Mas pouco depois encheu-se de coragem:
-Bem. Você se deu conta. Não é tão desatento quanto pensei.
 O rosto de Robert petrificou-se.

-O que significa, Carol?
Carol suspirou indecisa mas viu que  não haviam motivos para não falar o que pensava:
-Significa que Claudia tem a mim como amiga...é isso o que significa. Significa que sou importante. Pelo menos para ela.
 Idêntico a um tigre enjaulado, Robert caminhou de um lado para o outro. Estacou com as mãos à altura dos quadris:

-Não estou entendendo...Você quer dizer que “vocês duas” tem se encontrado?
Carol resolveu então que não esconderia o jogo. Inclinou a cabeça e lançou-lhe um olhar condescendente:

- O que você quer que eu diga, Robert?
A atitude franca e calma dela o tirou do sério:
-Vocês duas...O que as duas fazem? Falam de mim pelas costas?

-Isso não tem nada a ver com você, Robert. Nada. A verdade é que Claudia está desesperada.

-Desesperada? De onde você tirou essa bobagem? Robert estava a ponto de ficar possesso. Não parava de caminhar de um lado a outro do pequeno gabinete. Estava perdendo a paciência em ouvir as explicações de Carol.


 -Ela sente-se exilada, Robert. E não é bobagem! Claudia tem receio de falar certas coisas com você, então...Nossa ligação é forte, Robert. É única. Todos esses seis anos não fizeram a mínima diferença. Não há nada errado nisso.

-Receio de falar comigo? Robert inspirou fundo.-Você é impagável, Carol. Vocês duas...vocês duas estão...

-Não seja deselegante, Robert. Mas entenda...
Robert riu um riso desalentado. Sentou em uma poltrona. A cabeça abaixada. Quando a ergueu novamente para encarar Carol, seus olhos pareciam mais azuis do que nunca. O rosto muito corado. Carol achou, subitamente, ele e Ewan, idênticos!

-Como você espera que eu entenda isso, Caroline?

-Que você entenda do modo como sempre foi; Eu a amei desde a primeira vez em que a vi. Não pude resistir à ela e você também não. 
Ele reagiu. Encarou-a arregalando os olhos. Estava pasmo:
-Você está querendo disputá-la comigo, Carol? 

-Eu não preciso disputá-la com você. Está sendo criança de novo, Robert.

-  Não me chame de criança! As duas estão se aliando contra mim? Claudia aliou-se à você?

-Você fala em aliados, um termo usado na guerra. Pare com isso! Não existe guerra entre nós, Robert. 





Ele foi aproximando-se e a encarou muito de perto para falar:
-Existe. Existe uma guerra e foi você quem deflagrou, Carol! Vocês vieram contra Claudia e contra meu filho! Acha que isso é pouco? Você até mentiu que Claudia queria nos subornar! Lembra-se das acusações mentirosas que você fez? EU LEMBRO.
Carol recuou, sentindo o rosto em chamas. Então Robert aproximou-se mais, apontando o dedo contra o rosto da mulher:

-Eu sei muito bem o que está acontecendo aqui, Carol: Você está se aproveitando do isolamento de Claudia, do sentimento de culpa que ela sempre teve, do fato de estar longe de seu  país, sem amigos, para se aproximar dela e envenená-la contra mim!
É por sua causa que ela anda falando coisas sem nexo! Tem o seu dedo nisso também!
Carol estava acuada contra uma das paredes do gabinete. Foi naquele momento que saiu completamente de si. Desesperou-se e empurrou Robert, desferindo-lhe socos contra o peito e ombros. Mas ele não se moveu. Carol esgotou-se baixando a cabeça. Quando à ergueu foi para olhá-lo diretamente nos olhos:

 - O que eu quero é você de volta, Robert! O que eu quero é você comigo! Eu só posso ser sua. Minha vida se esgota sem a sua, sem o que provém de você! Você sabe o que é o amor, Robert? Você sabe o que eu sinto? Estou enlouquecendo, Robert! Enlouqueço cada vez que finjo não me importar que você saia por aquela porta!

A medida que falava tinha consciência da própria humilhação. Mas agora, daquele ponto em que estava, sabia que não havia como voltar:
-O que eu queria era te dar mais um filho! Era tudo o que eu queria! Tudo porque eu sempre soube que não era a mulher que te faria virar a cabeça...

Ele afastou-se. De costas e depois de algum tempo, simplesmente falou:
- Se afaste de Claudia e se afaste do meu filho. Pare de rondar minha família!
Virou-se então de frente falando de modo implacável:
-Se for preciso dou um jeito pra que você não chegue nem mesmo perto de Ewan!
Carol tornou-se lívida:
-Seu boçal idiota!
Teve ganas de arremessar algum objeto contra ele.

-Pai!
Foram surpreendidos por Helena abrindo a porta e parando à soleira.
-Ouvi vocês! O que está acontecendo?

Robert desconcertou-se. Respondeu num tom mais agressivo do que pretendia:
-Você não deveria entrar sem bater, Helena!

-Mas Claudia está aqui, pai...Está lá embaixo, e... com o Arthur...





Robert desceu as escadas com preocupação e rapidez. Avistou Claudia e Arthur. Porque estavam ali?

-Claudia! Robert estava perplexo. Precipitou-se pegando-a pelo braço. Falou num tom em que apenas ela podia ouvir:
-Vamos prá casa. Você não tem que estar aqui...e ainda por cima trouxe Arthur. Está frio! É madrugada à essa hora!
Claudia não parecia estar com a mínima vontade de obedecer. Encarou-o duramente e respondeu-lhe de maneira seca:
-Seu filho, não queria dormir porque sentia falta de você.
Seu filho sente falta de você e tem medo, muito medo de que alguma coisa aconteça e você desapareça da vida dele; assim como os tios desapareceram.
Seu filho é uma criança que foi exposta a um grande trauma; um trauma muito grande e extenso, Robert.
Espero que você não esqueça isso...espero que você reconsidere suas ausências, pois saiba: Elas são irreparáveis...
Trate seu filho com amor...ou pelo menos finja! Você é bom em atuação! Tente se esforçar um pouco mais!

-Claudia, porque está me dizendo essas barbaridades? Não permito e não lhe dei esse direito!Vamos para casa agora.Você não tem que  vir atrás de mim...

- Não vim. A frieza com que Claudia falava e a segurança em sua voz provocavam Robert.

-O que...

- Vim falar com Carol. Apesar de já saber que você estava aqui.
Desvencilhou-se de Robert, pegando Arthur pela mão. Abaixou-se com dificuldade até ele, apoiando-se, e lhe pediu que ficasse com papai.
Apoiando um dos braços à uma  muleta, Claudia ordenou que Agnelo a ajudasse a subir as escadas. Robert não soube como reagir.
Arthur abraçou-se à ele.
-Mamãe tá braba né, papai?




Claudia encontrou Carol ainda no gabinete. Após entrar, Claudia, bastante arfante, mandou que Agnello saísse, fechasse a porta e a esperasse chamar.
Para Claudia, Carol pareceu abatida, mas mesmo assim resolveu ser direta com ela:

-À partir de agora, as coisas mudam na gestão dessa família,Carol.
Carol estava surpresa com a chegada inesperada dela em seu gabinete e com aquele tom. Claudia não parecia ela. Estava imbuída de uma força diferente. Claudia continuou:
-Minha prioridade é o bem estar de meu filho. Se você e Robert querem dormir juntos, pelo jeito não posso impedir. Mas é bom que o pai de meu filho esteja em casa e cedo. Já está mais do que na hora de parar-mos com nossos joguinhos e assumir-mos nossas vidas de maneira adulta.
O olhar de Claudia para ela era de calma soberania. Carol tentou falar:
-O que você está dizendo...
Claudia apenas apoiou seu corpo com mais segurança à muleta, encarou-a, olhando de baixo para cima, e cresceu de forma extraordinária:
-Estou dizendo que a única coisa que me importa em minha vida é o bem de Arthur. Não preciso mais do seu consolo e quero que você pare de arrumar subterfúgios para se meter na minha vida. Não me chame mais. Cansei de bancar o joguete.
Carol congelou. Claudia sentou-se. Apoiou a cabeça em uma das mãos e olhou Carol diretamente nos olhos. Continuou a falar:
-Sabe, Carol? Eu nunca quis que Robert se separasse de você e casasse comigo. Mas agora já não me culpo por isso. Bem ou mau, esse acabou sendo um meio de eu obter  a cidadania nesse país e poder proteger meu filho.


Carol analisou aquela diminuta mulher diante dela. Aquela era a mulher por quem Robert e ela haviam se encantado anos atrás mas que agora mudara tanto. Nem mais um traço da beleza sedutora, da estultice de menina. Diante de Carol estava uma mulher. Uma com espírito e corpo alquebrados mas, sem dúvida, uma mulher. O pior de tudo para Carol naquele momento foi ter a consciência de que a invejava.
Claudia modificou o tom. Olhou demoradamente para o teto e acabou suspirando, como quem depõe armas:

-Helena e Arthur  estão lá embaixo. Agora preste atenção: São nossos filhos. São nossa família. E, de verdade, são tudo o que temos.

-E o que você quer dizer com isso, Claudia?

-Quero dizer que de minha parte, sinceramente, Carol, farei com que Arthur conviva com seus irmãos e que tenha em você uma espécie de segunda mãe.

Carol inquietou-se com aquela fala de Claudia. No fundo sabia o quanto amava aquele menino. Amava a ele e amava a Ewan. Os amava, simplesmente porque os dois eram filhos de Robert. Amava tudo o que proviesse daquele homem.
Claudia pareceu adivinhar o que ela pensava:
-Eu sei que você o ama , Carol. E afinal ele é seu filho também, de algum modo.
Carol sentiu um frêmito no peito. Recordou-se dos beijos trocados a três, de sua intimidade compartilhada...da lassidão satisfeita de seus corpos femininos tão distintos, enlaçados ao corpo de Robert. As mãos unidas, os sussurros em meio as carícias...teve vontade de poder fazer voltar o tempo. Sentiu os olhos embotarem-se. Não queria afastar tudo o que viveu com Claudia  e com Robert. Não queria que tudo houvesse acabado em uma disputa que levou a nada. Queria amar. Queria ser tocada daquela maneira única de novo e novamente. Queria afagar e sentir o perfume dos cabelos negros de Claudia, queria os beijos ardorosos de Robert, seu desejo, sua fúria apaixonada....mas naquele momento percebeu que jamais teria aquilo tudo de volta...
 -Eu não sei quem é você, Claudia...

A voz de Carol estava tremula:
-Você me amedrontou e fascinou a primeira vez em que te vi. 

Seus olhos lilás embotaram-se
-Aquilo que você trazia era só de você...mas sempre foi um mistério prá mim...não era só a beleza descuidada...era aquele olhar, que implorava carinho...como o olhar de um pet, de um animalzinho bobo...Mas os seus olhos também dardejavam uma soberania. Uma força escondida...É isso sim: Você sempre foi forte; mais forte do que qualquer um de nós! E no final...as nossas vidas ficaram girando em torno de você...
Se você quisesse manter o menino fora do nosso conhecimento, poderia fazer isso, estava só em suas mãos! Desde de o começo, poderia ter tirado Bob de mim...Ele te amava de um jeito que tentava, mas que não conseguia, esconder...
Sorriu com desamparo e leveza:

-Você não fez ele te dar a vida dele, por que não quis, apenas por isso...E o pior de tudo ...é que você nem tem consciência disso, não é, Claudia?
Sorriu, baixando a cabeça. Falou num tom em que só ela própria podia ouvir:
-Claudia, você é Afrodite... 

Carol girou o corpo, foi até ela e subitamente parou. Claudia não se perturbou frente o olhar desconcertado de Carol, e frente a proximidade de suas mãos tremulas que se colaram a seu rosto. Não temia maia a deusa Khali...
Carol, aos poucos, afastou-se sentido as lágrimas fugindo do controle:
-Eu não queria te amar...não queria...

Claudia, apoiou-se àquela muleta que agora era seu estranho e novo elemento cênico. Aproximou-se de Carol:
-Me beije, Carol.

-O que?

-Faça isso. Essa vai ser prá sempre a última vez.

Diante da indecisa inércia de Carol, Claudia resolveu por si mesma tomar o comando. Puxou Carol contra si. Mirou em seus olhos chorosos. Com uma das mãos limpou-lhe as lágrimas. Sorriu-lhe. Carol também sorriu. Abraçaram-se encostando as testas, os rostos. O beijo ocorreu em meio a sorrisos e lágrimas.
-...Faremos o Natal sempre aqui nessa casa... E ...eu gosto muito de você.






Claudia decidiu naquele momento: Conseguiria uma trabalho. Não mais dependeria de um homem.
Virou-se, bateu na porta e em seguida saiu, ajudada por Agnello.