segunda-feira, 4 de junho de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 70.






-Pai, esse relógio tem um negócio... um dispositivo... que avisa em nano segundos sua localização por satélite em alto mar! 

-Prá Marinha, filho?

- Prá qualquer navio de esquadra britânico mais próximo, pai! E ele tem uma blindagem com camadas em ouro, tungstênio e titânio! É a mesma tecnologia das caixas pretas das aero naves...

-Vou querer um desses!

-É! mas não estão a venda, pai!

-Ok. Isso até o dia em que alguns chineses resolvam o projeto e comecem a fabricá-lo as dúzias no galpões de casa!

Robert ria com seu filho Ewan enquanto aproximava o carro da entrada  de sua antiga residência. Era o período das tão aguardadas férias para Ewan.
Ele passara um longo período longe de casa freqüentando a escola preparatória de cadetes da Marinha. Um sonho que sempre acalentara. Diferente do pai artista, Ewan pensava em cursar engenharia naval e seguir a carreira militar. Mas Robert não acreditava em nada disso. Achava que o filho só estava gostando de “brincar de soldado“. Porém não criticava.
Quando Ewan amadurecesse e confrontasse o desafio verdadeiro das próprias escolhas, seria obrigado a rever muitas de suas certezas.
Ao estacionar no calçamento de pedras que dava acesso a entrada principal, pai e filho passaram a descarregar a bagagem.
O mordomo correu para auxiliá-los.

-Mestre mcKennan, mestre Ewan, sejam muito bem vindos!

-E a senhora G? Não vem nos receber, Agnello?

Robert flagrou um meio sorriso abatido no rosto do amigável mordomo:

- A senhora...Já vou avisá-la, mestre mcKennan.

-Como assim, “vai” avisá-la? Ela já estava perfeitamente bem avisada de que Ewan estaria chegando! 

O mordomo chegava a contorcer-se de tão sem jeito.
O seu rosto incendiou-se e ele tratou de baixar a cabeça  recolhendo a maior quantidade de bagagens que conseguia. Tratou logo de se encaminhar para a casa. Robert achou estranho...

-O que está... se passando, Agnello... 

Um  som de vozes que vinha da parte mais alta da esplanada, chamou a atenção dele. Teve de subir um estreito lance de degraus para transpor o jardim que a cercava. A medida que as arbustivas deixavam de encobrir sua visão, Robert foi deparando-se com uma cena.
Carol sorria sedutoramente tomada por uma espécie de bobeira. Ela trocava confidencias em meio a sorrisos com um homem. Um desconhecido. Um negro atlético de dentes e sorriso perfeitos! Ela o beijou em uma das faces e ele, em retribuição, beijou suas mãos com um olhar que demonstrava franca devoção. Depois disso o homem entrou no próprio carro, um magnífico Mercedes. Manobrou em direção a saída. Carol ia lhe acenando enquanto ele se afastava.
Robert estava paralisado com os olhos cravados nela. Sua respiração por instantes parou. O que, em nome de algum deus, significava aquilo?
Então ela veio distraída em sua direção sorrindo, dessa vez consigo mesma. Ainda não se dera conta de que havia a presença de um espectador em especial.

-Não se envergonha, Carol?

-Robert? 

Robert bloqueou-a com o corpo. Por um momento impediu-a de passar.

-Você não tem respeito pela sua casa, pelo seu filho? 
FICOU LOUCA?

Ela desviou de seu caminho, rumando para a entrada da casa. Robert a seguiu de perto.
Puxou-a:

-O que tem a dizer, Carol? O que tem a me dizer?

-Tenho a dizer que: a- Deve soltar meu braço imediatamente!  b- Estou muito bem e que gostaria de abraçar meu filho, estou com muita saudade!

-Tem coragem de abraçar nosso filho depois disso?

Ela fechou os olhos com ar aborrecido e suspirou:

-Robert.

-?

-Me dê um descanso? Não vamos discutir! Ewan está recém chegando em casa. Quero recebê-lo bem. Mandei fazer uma torta de laranja. Tome chá conosco, se achar que deve!

Ewan avistou-a. Mãe e filho aproximaram-se correndo e gargalhando muito. Carol abraçou-se ao filho que, com quase dezesseis anos, já a ultrapassava em altura.

-Filho, que uniforme bonito!Impecável.

Carol e Ewan entraram distraídos e conversando. Robert por alguns minutos ficou do lado de fora claramente possesso. Mas não pretendia que seu filho presenciasse uma briga sua e de Carol. Foi ao encontro deles e se despediu. Alegou ter um compromisso de última hora. Carol aproveitou a oportunidade antes que a perdesse:

-Como está Claudia, Robert? Desferiu, com um ar estudadamente desinteressado.
Robert fulminou-a. Mas manteve a compostura diante de Ewan:

-Claudia...Está bem.

-Deve estar mesmo. Tão jovem... Continua bonita. Você não acha?

Robert não percebeu a armadilha maldosa de Carol. Claudia evidentemente não era mais a mesma mulher cheia de sensualidade com a presença marcante onde chegasse que tinha antes, e Carol sabia disso. Além de tudo, havia o cruel isolamento que estava sofrendo, fora de seu próprio país e afastada dos amigos. Mas Robert, como a maioria dos homens, obviamente não atentava para essas sutilezas que estavam diante de seu nariz.
Ele não queria assunto. E antes que pudesse explodir, resolveu ignorá-la de propósito. Alteou a sobrancelha:

-Ewan, eu te ligo, filho! Vamos marcar aquela partida de rúgbi.

-Demorou, pai! Aprendi uma jogada nova!

-Ótimo. Te vejo mais tarde, então!

Saiu dali à bala. Sabia que não podia naquele momento sequer olhar para Carol ou as conseqüências seriam ruins.
Circulou pela cidade. Estacionou o carro e saiu caminhando em desassossego pela rua.
Estava fora de si. Se Carol achava que iria desrespeitá-lo diante de seu filho; em sua casa; ela teria que nascer de novo! Não admitiria aquilo! Ela pensava que iria dormir...dormir com outro homem? E dentro da casa que era dele? Robert jamais permitiria.
Isso não poderia nunca acontecer! Seu semblante pegou fogo e o coração palpitou descontrolado. Já teria acontecido?
O celular tocou. Era Mike Rolland:

-Até que enfim te achei “hermano“!Onde você está?

-Não estou a fim de ser encontrado, Rolland!

-Mas não sou eu quem está procurando você, hermano. Claudia ligou. Anda atrás de você. Não vai para casa hoje?

-Porque será que ela não ligou prá mim?

- Esse é o jeito dela. Queria saber se você estava pela aqui em minha casa. Diante da negativa, procurou bancar a segura dizendo que estava tudo ok! Ela não quis demonstrar, mas eu sei que está é aflita!

-Já vou ligar prá ela. Fique tranqüilo.

-Pois faça isso! Paz, hermano!

Não ligou para Claudia. Não saberia o que lhe dizer naquele momento.
Que estava perdendo a controle por que sua ex esposa estava com outro homem? Isso poderia magoá-la.
Entrou em um coffee shop. Pagou por um fardo de cervejas e foi sentando em um banco pela rua mesmo. Entornou as primeiras num segundo. Alguns garotos o reconheceram e vieram jogar conversa fora. Ele lhes deu autógrafos e convidou-os para beber com ele. O grupo aumentou, com a chegada de alguns estudantes conhecidos do grupo e que traziam duas ou três garrafas de vodka que generosamente dividiram com todos. A cerveja acabou rápido e um deles se prontificou a buscar mais alguns um fardos. Evaporaram em minutos!
Robert bebeu vodka e bebeu mais cerveja, começou a sentir a cabeça rodar levemente e foi então que percebeu que precisava parar. Não podia beber tanto. Tinha seus filhos... Se tinha um problema deveria resolve-lo. E resolveria.
Veria Carol e tentaria conversar. Despediu-se a muito custo dos garotos que queriam carregá-lo nos ombros e cantar que ele era um” bom camarada “. Deu-lhes a senha para a sala vip de um show que seria gravado na emissora de TV local no dia seguinte e rumou para o carro que logo pôs em movimento. Ligou do celular:

- Carol, quero falar com você!

-É você, Robert? Porque acha que eu quero falar com você? 

-Estou indo para aí agora!

-E eu quero  dar um pouco de atenção a Ewan. Não ouse vir aqui! 

- Carol! Mande Agnello abrir. Estarei aí em quinze minutos!

- Robert...

-Já disse que ESTOU INDO AÍ!

Robert deixou o carro mal estacionado no acesso principal de entrada da casa. Carol decidiu deixá-lo entrar para evitar que ele fizesse uma cena. Recebeu-o com a cara fechada, pois notou que cheirava a bebida.

-Você não deveria vir aqui nesse estado, Robert.

Ele mesmo fechou a porta encurralando-a e indo direto na sua direção:

-Quem era aquele sujeito, Carol? Fale!

Carol sentiu medo mas não queria demonstrar:

-Faça o favor de controlar o seu tom de voz. E eu não preciso que saiba quem são meus amigos.

Ele segurou-a pelo ombro com uma das mãos e com a outra agarrou sua cintura. Colou seu corpo contra o dela, pressionando-a conta a estante de livros. Seus rostos estavam muito próximos e Carol sentia o bafejo alcoólico dele, além da pulsação acelerada do coração. Ele prendeu-a pelos cabelos da nuca:

-Não me provoque ainda mais, Carol!

Carol não lutou para afastá-lo. Apenas sorriu ironicamente olhando em seus olhos:

-Está com ciúmes, Robert?

Ele explodiu:

-Estou! Estou com ciúmes! É isso o que quer ouvir?
Estou com ciúmes! Você é minha mulher e nunca vai deixar de ser!

Ela tentou livrar-se dele mas ele a reteve ainda mais junto dele. Acabou derrubando-a ao desequilibrar-se e instintivamente apoiar-se nela que vergou sob o peso. Não se machucaram, foi mais uma troca de passos mau sucedida. No chão, Carol procurava levantar, afastando-se dele. Ele não sabia se tentava levantar ou se a segurava junto dele. Por fim, Carol conseguiu se desvencilhar, erguendo-se do chão. Ele ergueu-se com certa dificuldade, pois sentia-se tonteado. Carol procurou se afastar e ele começou a persegui-la.

-Você acha que é livre e que pode trazer um homem prá cá? Prá dentro da minha casa? Acha que pode...acha que pode dormir com... A voz dele estrangulou na garganta. Não podia sequer imaginar a situação de Carol fazendo amor com outro homem.

-Olhe o que está dizendo...

A campainha tocou e Agnello anunciou Mike Rolland. Carol já havia ligado para ele assim que recebeu o telefonema de Robert. Mike fez sua entrada maciça silenciosamente.

-Hermano, hora de ir prá sua casa.



 ***

-Arthur deixa mamãe passar xampu no seu cabelo, filho!

-Eu tomo banho sozinho!

-Arthur...então quer que eu chame o papai?

-Eu tomo banho sozinho!

Claudia sentiu uma fibra de seu peito romper. Uma simples recusa infantil a magoou mais profundamente do que poderia esperar. Sentiu lágrimas embotarem em seus olhos e procurou disfarçar. Não era a primeira vez que se sentia desse jeito. Amargurada, mas tentando fazer parecer que tudo estava bem. Seu teatro diário, desde que as coisas começaram a piorar... 
O coração de uma criança, aos poucos tornando-se duro diante de uma mãe, era uma tristeza, sem qualquer dúvida. Queria poder retirar as experiências maléficas que fizeram parte da vida de seu pequeno filho, mas isso era impossível. 
Quanto a Robert, constatava a cada dia que ele era uma força com a qual ela não sabia lidar. Nem sempre disposto a sorrir, preocupado em demasia com trabalho. Nem sempre disposto a escutá-la, mas sempre muito insaciável. A tal ponto, que algumas vezes sentia-se usada por ele. Um mero objeto para seu prazer sexual. Ainda por cima, desconfiava que ele não fosse totalmente fiel. De modo algum seria. Nunca fora o seu estilo. Levando em conta a maneira como se conheceram, esperar outra postura dele, talvez fosse pedir demais...
Os filhos do primeiro casamento de Robert a odiavam. Carol tratava de caprichar no veneno. 
Helena vinha visitá-los em fins de semanas alternados; Ewan, só raramente, quando tirava férias. Helena fazia questão de espezinhá-La, obviamente quando Robert não estava por perto. Certa vez, disse que não compreendia como mulheres feias e aleijadas não cometiam suicídio! Que, se ela, Helena , não pudesse dançar e tivesse uma aparência permanente e repulsiva de doença, simplesmente renunciaria a vida! Mas que era compreensiva, pois as prostitutas deveriam ter medo de ir para o inferno. Nesse dia Claudia desferiu-lhe uma réplica bem amarga;

 -Você está contra mim e a favor de Carol, não está Helena? Mas não pude deixar de notar, ao longo desses anos em que conheço vocês, que Carol nunca esteve muito a favor de você, não é mesmo?

-O que isso significa? Seja objetiva!

-O significado na cabeça de sua mãe, só ela pode dizer. Mas para mim, parece evidente que ela nunca lhe estimou muito!

A menina assumiu um ar contrariado repleto de fúria, dando clara mostra de que entendera perfeitamente bem o ponto em que Claudia queria chegar. Sempre fora preterida por Carol em comparação a Ewan, “o filho legítimo”. Claudia achou que foi longe demais, mas não aceitaria que aquela menina a xingasse de prostituta dentro de sua própria casa.

-Sabe, Helena. Essa casa é bastante grande. Quando você vier aqui é melhor se manter afastada de mim.

-De você sim, e com todo o prazer! 

Claudia sentiu melancolia na própria voz:
-Quanto a Arthur, sei que gosta de você.

Helena bufou. Os olhos marejados, mas sem querer entregar-se ao choro diante de uma mulher que considerava desprezível:
-Eu também gosto dele.

-Que bom. Murmurou Claudia.

Helena prosseguiu:
-Não posso garantir me manter afastada de outra pessoa.

-Não quero que se afaste de seu pai.

Helena falou num tom melífluo:
-Ele não é meu pai, Claudia.
O silencio pesou na sala entre as duas. Haviam terminado as sobremesas. Arthur estava com a babá no jardim começando a cochilar e Robert no escritório, no nível de cima, atendendo a mais um interminável telefonema de um anunciante. Claudia tentara ler um livro e a empregada trouxera café. Aguardava pacientemente na copa a ordem para remover a louça da mesa. Na vastidão daquela sala, nem um único som. 
O olhar da menina, fixo em Claudia era venenoso, totalmente isento de inocência!
Claudia procurou responder com calma:
-Seu pai morreu, mas Robert te ama como filha, Helena.

Helena riu irônica, apoiando os pés sobre a mesa; decerto aprendera com o pai a arte de carregar no drama.

-Tire seus pés da mesa, Helena!
Ordenou Claudia com dureza. Helena obedeceu e seguiu encarando-a.

-Não é meu pai.  Levantou mantendo a postura de desfio: -Acorde para essa, Claudia: Prometo a você que logo eu e Robert estaremos juntos  na mesma cama! Transando!

Claudia ficou perplexa. Helena saiu silenciosa como uma cobra:
-Que coisa vergonhosa e suja,  Helena! Gritou Claudia.
Helena virou-se com um sorriso aberto:
-Tão vergonhosa quanto você traindo minha mãe com ele!

-Cale a boca, Helena! Você não sabe de nada...

-E nem quero saber! Vai provar do seu próprio veneno, madrastazinha!

Não comentou aquele assunto com Robert. Não duvidava de que aquilo fosse um ardil de Carol, instruindo Helena a dizer aquele tipo de bobagem, mas...não! Sabia que seria demais. A garota já não era mais uma garota e tinha decidido, por conta própria, acabar a com a paz de Claudia. E pelo jeito tinha o dom se meter a para jogar jogos pesados. Não acreditava no que ela havia dito, mas só o fato de haver dito era horrível.
Arthur pediu que saísse de perto dele, pois já queria sair da banheira. 

-Mas, querido. Deixa mamãe te secar! 

-Tu é doente. Não pode secar eu.

-Mas quem disse isso Arthur? Quem falou que a mamãe é doente?

-Eu mesmo. 




O corpo de Robert completamente despido. Mesmo relaxado, mostrava a perfeição cinzelada dos músculos de seu peito e abdômen; lembrando, sem qualquer prejuízo, as formas do exemplar de Belvedere. Sinalizava, através do leve movimento modulado da respiração, todo o seu vivo calor. Os braços dobrados, adornados por um latente desenho de absoluta potência, eram  irresistivelmente másculos. Apoiavam, de maneira preguiçosa, seu pescoço e cabeça contra o espaldar da cama. Movia devagar e prazerosamente toda sua nudez sobre a maciez de uma falsa pele de zibelina prateada que, naquele dia, revestia a cama do casal.
Claudia ficava fascinada ao contemplá-lo. Nem podia acreditar que a natureza fosse capaz de manifestar tanta ordem, harmonia e beleza no corpo de um homem. Ele lhe parecia idealizado.
Robert não resistia em afagar os cabelos dela, trazendo-a para mais perto  dele. Então provocava outro round de beijos, mordiscos, palavras sussurradas, carícias e orgasmo que carregavam-na para fora de si mesma. Em contraste com ele, o corpo dela era frágil e pequeno. Sobre tudo as pernas, que haviam perdido boa parte da quantidade de músculos e apresentavam uma magreza desproporcional com o restante.

Houve certa vez uma sereia, que para obter o amor de um príncipe, renunciou a vida no mar e abdicou das próprias barbatanas...

-Está pensativa, querida. Por que?

Robert pegava a mão de Claudia, fazendo-a passear pela sua barba loira e macia muito devagar e calmamente; mas tinha os olhos azuis oceânicos cravados nela.

- Um pouco preocupada com Arthur. Ele está ficando tão diferente...

Robert espreguiçou-se:
-Percebi que ele está mudando. Está crescendo, Claudia! É normal que os meninos se desapeguem de suas mães.

Falara com uma entonação marcial, tão pouco solidaria a ela, que provocou no peito de Claudia uma pequena dor. Em seguida, levantou-se agilmente da cama e foi catando as próprias roupas que estavam jogadas. Começando a vestir-se, foi falando outro assunto:
- Vamos para a casa de Rolland mais tarde, Claudia. Adelle nos convidou para jantar.

Claudia embasbacou: :
-Jantar? Estou esperando pela fisioterapeuta, Robert! Esqueceu disso? Ela vem hoje as dezenove horas!

Com um sorriso flamejante e dando-lhe um beijo na testa, Robert respondeu:
-Não se preocupe, amor! Mandei desmarcá-la hoje cedo da tarde.

-Mas...

-Quer que eu ajude você a se arrumar?

-Eu...

-O que houve, querida? 

-Não gosto de deixar de fazer a terapia, Robert.

-Amor...

-Você remarcou para quando?

-Não remarquei. Ela disse que vai estar em um Congresso a partir da próxima semana. Vai ficar fora por um mês.

A garganta de Claudia fechou-se, contendo um soluço de dor. Tinha vontade de chorar.
 -Porque você está fazendo isso?

-“Isso“? O que estou fazendo, a você, Claudia? O que está querendo dizer?

Claudia não queria, não podia chorar. Se chorasse o mundo desabaria...

-O que houve, Claudia?

Engoliu um soluço de choro e lutou por encará-lo com um pouco de altivez:
-É a terceira vez... que você interfere no meu agendamento, Bob! Não parece querer ...

-Querer o que?

Se ela falasse os diques romperiam...Olhou para as próprias mãos em resposta a ele, parado, em guarda, a seu lado.

Os oceanos fervilharam:
-Quer me fazer algum tipo de acusação, querida?

-Eu...

-Sim.Você?

-Preciso da terapia...

-E alguém a está impedindo de fazê-la. E esse alguém impiedosamente mau e desumano sou eu, não sou, querida?

Claudia achava que não conseguiria mais engolir  o choro, e não conseguiu...a dor trespassou-a numa onda violenta através do estomago. Odiava se sentir tão pequena diante de Robert. Ainda mais tendo-o de pé, diante dela, dono de uma soberania invulnerável.

-Você acha que quero prejudicá-la intencionalmente não é mesmo, Claudia? É o que anda pensando de mim!

-Bob...eu não quero brigar...

-É muito fácil fazer insinuações e depois se cobrir de lágrimas. Não é mesmo, querida?

Claudia apenas encolheu-se deitada a beira da cama. Sentindo uma dor infinita.
Robert bateu a porta, encerrando-se no banheiro.

Ela sentia-se arrasada pela reação dele. Aquilo se somava a todos os desgostos que Claudia estava enfrentando; e Robert parecia não compreender todo o esforço que ela estava fazendo para ter de volta uma vida normal. Queria voltar a lecionar, sentir-se útil, ser respeitada.
Robert retornou para o quarto, estava com os cabelos encharcados. Trazia a toalha jogada sobre os ombros. Sentou-se ao lado dela na beirada da cama. Ela começou a buscar apoio para levantar-se enxugando as lágrimas e tentando esconder os olhos inchados. Robert segurou-a pela nuca, como gostava de fazer, enrolou a mão em seus cabelos obrigando-a a olhá-lo de frente.

- Eu AMO VOCÊ, Claudia.
Ele a impedia de desviar o rosto do dele:
-Amo você, e não aceito que duvide disso. Amo,  mas isso não te dá o direito de me machucar.
Puxou-a de modo muito dinâmico, trazendo-a para seu colo; assim os olhos de ambos ficaram no mesmo nível.
-Você sofreu muito, sei disso. Mas como pode imaginar que eu esteja sabotando você? Eu, Claudia?
Ele não a deixava sequer tentar responder:
- Você acaso tem idéia do pavor que tive em perder você e Arthur? 

-Robert...

-Você faz idéia da importância que você tem na minha vida, mulher?
O coração dele palpitava tão acelerado que ela o sentia contra seu próprio corpo.
Ele sussurrou:
- Mas minha vida agora é sua. Também preciso do seu apoio! 
Pela primeira vez, Claudia se deu conta do quanto o rosto dele estava marcado...
- Você me acusa de ter desmarcado três sessões suas como se isso fosse por perversidade; mas me diga, acaso minha esposa não deve me acompanhar? Você esqueceu com quem está casada? 
Como o tempo era invejoso! Ousar tocar aquele rosto! Fazer com que um deus se parecesse com qualquer mortal...
-Tenho sócios e clientes que me cobram vinte e quatro horas; tenho inimigos, no meu pé que adorariam me ver caindo no descrédito e no esquecimento total. E tenho pesadelos, imaginando que você possa cair doente novamente e o pior vir a acontecer...
Baixou o olhar de modo perdido. Segurou a mão dela com força e a dele estava tremula:
 -...tenho pânico de perder o contato com meus filhos, Claudia. E muito medo de deixar vocês todos desamparados.
A voz dele passou a emitir uma nota de desespero:
-Rolland é e sempre foi meu único amigo de uma vida e agora estão querendo metê-lo numa jaula...está sendo investigado...Adelle está sofrendo; ambos estão...
Será que peço demais quando peço seu apoio?

De repente era como se Robert se tornasse menor do que ela que estava sentada em seu colo. Um carvalho altivo soberano poderia desabar?
Sentia que pedir desculpas seria pouco para conter a impetuosidade das ondas que açoitavam o espírito de Robert naquele momento.
-Robert...
Beijou-o e ele se deixou beijar. Enquanto se beijavam, ele a afagava incontrolavelmente como se quisesse mergulhar para sempre dentro dela e deixar de ser ele mesmo...





sábado, 2 de junho de 2012

A ópera de Robert mcKennan. 69.






Carol não compreendia.
Se Robert queria afastar-se dela, como lhe dizia agora, do alto de uma postura grave e soturnamente solene, porque então viera pessoalmente? Porque estava ali ? O que queria dela?
A sua intuição nunca a deixava mesmo na mão...imaginou que Robert se descontrolaria ao encontrar-se com aquela mulher novamente... Sabia disso. Havia o menino... Quem resistiria ao amor de uma criança enviada pela Deusa? Que homem? Ainda mais se tratando de um cujo sentido da existência era proteger. Robert sempre se encantaria com qualquer bobagem vinda de um filho. Aquele filho que deveria ser dela e não de Claudia!
Robert a queria fora de sua vida. Robert queria descartá-la... E ele simplesmente a estava descartando.
Vê-lo ali, pouco a vontade, com as mãos postadas nos bolsos da calça do paletó lhe trazia um sentimento de algo colossal sendo fragmentado. Toda sua história juntos. Era como se tudo o que pautara sua vida; seus projetos, lembranças; tudo fosse dragado e naquele único momento se esvaziasse diante dela.
Carol teve a repentina sensação de que poderia cair e então respirou com força. Robert notou:

-...E  você tem algo a dizer, Carol? Quero escutá-la....

Escutar para quê, se ele já havia dito tudo? Queria de alguma maneira aliviar a própria consciência? Se é que alguma vez ele teve alguma.
Ou queria que ela se jogasse aos pés dele numa cena de drama?
Não. Ela não faria isso. Ele não teria isso também!
Lutou contra si mesma:

-Sabe, Bob. Você fez sua escolha. Mas quanto a mim...

-Quanto a você...

-...Gostaria de poder ficar nessa  mesma casa.

Ele não esperava aquela resposta e muito menos aquele tom de calma em sua voz.
Esperava por lágrimas. Por uma explosão de raiva.
Dava-se conta de que esperava até mesmo por um ataque físico da parte dela  contra ele.
Alguma reação mais razoável da parte de uma mulher num momento como aquele, mas nunca tanta calma. Nunca um tom de voz tão controlado. Nunca aquela serenidade. Aquilo lhe pareceu funesto.
Ficou desconcertado...

- Você... tem todo o direito de ficar nessa casa, Carol. Eu lhe asseguro isso, você...
Ela o interrompeu seca:

-Então nada mais temos a falar, não é mesmo, Bob? Assuntos de ordem judicial podem ser resolvidos por quem entende disso, não é mesmo? E certamente não somos nem eu e nem você...

Ela ficou perguntando a si mesma de que lugar teria tirado forças para conseguir falar tão naturalmente e ainda por cima... sorrir!
Aproximou-se dele dando-lhe um imperceptível toque com os lábios no rosto. Uma representação distante e amargurada de um beijo.
Robert sentiu o coração apertar quando a viu repentinamente subindo as escadas sem nem mesmo voltar o olhar para trás.
O nome dela morreu em uma inspiração sua.

Saiu de lá bastante perturbado. Pensativo. Mas aos poucos retornou as suas atribuições cotidianas. Além delas, tinha de ocupar-se da escolha de uma nova casa que Mike Rolland se encarregara de negociar.
Robert, Claudia e Arthur haviam ficado hospedados  na suíte de um dos hotéis da rede até fechar a compra da nova casa.
Soube depois, através de Mike Rolland, que Carol não desejava dividir o patrimônio e  justificava isso por temer prejudicar Ewan. As aplicações da família eram conjuntas e poderiam descapitalizar-se.
Ela deixou claro que não ligava para o dinheiro desde que mantivesse a casa, os empregados e recebesse uma boa pensão.
Rolland viu que alguém obviamente a havia instruído e que  isso daria pano prá manga. Tratou de começar logo a pré negociar essa e outras questões com os advogados dela.

Carol fora suave, colaborativa, e até mesmo absurdamente gentil. Mas isso, ao invés de trazer paz definitiva ao coração de Robert, de um modo estranho, só lhe trouxe insegurança.
Carol, sozinha naquela casa...
Helena passava o dia na escola, tinha os ensaios do grupo de dança, suas próprias amigas...mas e quanto a Carol?
O que ela tinha? O que faria? Ficaria sozinha por muito tempo? Uma mulher como ela?
Quando deu por si, Robert  dava a desculpa diária a Claudia, de que precisava ir até os estúdios, ou de que precisava encontrar seus advogados, o que  não deixava de ser verdade, para sempre acabar aproximando seu carro da antiga vizinhança. Estacionava perto da casa. Observava as janelas. Dava voltas de carro, lentamente no quarteirão.

Numa bela manhã resolveu, sem mais nem menos, fazer uma visita.
Carol em pessoa o recebeu na porta, e por alguns momentos Robert perdeu a fala. Quase deixou de reconhecê-la. Ela estava arfante e
seus cabelos estavam escuros.
Pintados de negro!
Carol nunca antes em sua vida havia pintado os cabelos.
Robert a conhecera ruiva, fato que sempre o fez, inconfessadamente, recordar-se de Lindsay e que lhe dera sempre uma espécie de sensação confortadora, familiar...mas agora, Carol havia subvertido isso. Era chocante!
Para ele, era como se ela tivesse profanado uma imagem consagrada!
Porque ela estava arfante?

-Porque alterou a cor de seus cabelos, Carol? Perguntou ele bobamente. Carol pareceu não entender a pergunta imediatamente, pois  estava totalmente surpresa com a visita.
Levou alguns segundos:

-Ah! Os cabelos? Mas... Meus cabelos sempre foram escuros, Robert!
Ela estava dizendo uma loucura. Sempre fora ruiva. Em suas fotos de infância aparecia ruiva. Sua irmã Dóris era ruiva! O que Carol estava dizendo?
Ficaram alguns segundos em silencio, encarando-se. Ela por fim pareceu alertar-se e resolveu falar:

-Entre, Robert. Sinta-se em sua casa... 

Ela sorriu. Escancarou a porta para ele de maneira teatral. A casa rescendia ao perfume de jacintos. Era um perfume forte, estranho...
Ele assistiu, ainda em silencio, ela servir-lhe, delicada, o whisky com o modo de preparo que ele sempre apreciou.

-Sente-se, Robert! Me conte como você tem estado? 

Robert teve vontade de rir com a entonação da pergunta.

-Como “eu tenho estado“? E quanto a você, Carol?

-Eu? O que tem eu?

-Olhe prá você! Eu vim conversar e encontro você desse jeito!

Carol atentou para uma única palavra:

- Conversar? O que temos para conversar?

Robert permanecia boquiaberto:

-...O que temos...Muito bem. E o que não temos? Você fez algumas exigências complexas...

-Você se refere?

-As condições do nosso...divórcio.

-Robert, isso é assunto para os chatos dos advogados, não quero me ocupar disso.  Aliás...você está muito bem...gosto quando coloca essa camisa escura...

Robert ainda não conseguia acreditar na mulher que estava diante dele. Aqueles cabelos!
Era incomodo de certo modo. Sentia-se falando com uma mulher totalmente estranha!

-Sabe, Robert. Estou impressionada com Helena. Suas notas são muito boas. E ela é uma artista! Precisa ver como evoluiu tecnicamente, fico até boba...E Ewan está adorando a escola náutica...

-Naval.

-Sim, naval. E ele está quase saindo de férias!

-Sim, eu sei. Nos falamos ontem. 

O silencio pesou sobre os dois.

-Nossos filhos. Disse Robert.

-Ewan é nosso filho.

-Sim. Mas eu amo Helena como filha. Você não, Carol?

Carol sentou-se. Colocou os pés sobre o sofá, dobrando as pernas. Seus joelhos muito alvos ficaram a mostra. Robert sentiu um calor interno.

- Eu acho que...

-Você acha o que, Carol?

Carol remexeu-se, alisou o pescoço distraidamente e olhou ao longe.

-Acho que tenho um pouco de...um pouco de ciúme.

-Ciúme? De Helena?

-Não é ciúme...é que...é difícil admitir, mas...ela é irmã de sua adorada Lindsay.

Robert remexeu-se pouco a vontade no sofá.

-Isso é bobagem. Vamos mudar de assunto.

-Mas ela deve parecer com a irmã...

-Não, não se parecem, Carol! Isso é bobagem. Helena precisa de mim, mas precisa também e muito  de você. Agora que o pai também faleceu...

Robert começava a sentir o sangue ferver, sem saber precisamente o pôr que.

-Eu quero saber o que está acontecendo, Carol? Você...você estava com alguma visita? “Porque estava arfando quando me recebeu?” Porque pintou o cabelo desse jeito?

Ela fingiu não ouvi-lo, analisando os diáfanos reflexos de uma taça de cristal, sem dar-lhe atenção. Então ele repetiu a sentença num tom mais forte:

-Está me ouvindo, Carol? O que está acontecendo com você? Responda! Dê  ponto final nessa  coisa...nessa maluquice!

Carol pareceu despertar de repente. Olhou-o diretamente e falou com ar de franca indignação:

-Robert, querido. Sou eu quem lhe pergunto: O que “você” está fazendo aqui? Não que eu desgoste de sua visita mas...não lhe devo mais nenhuma satisfação, querido. 

A veia da testa de Robert saltou:

-Como...como assim, “Não me deve nenhuma satisfação”? Essa casa é MINHA! E você deve  manter a dignidade diante de nossos filhos!

Carol bufou de raiva. Suas bochechas fervilharam.

-Acho melhor que vá embora agora. Não acha melhor, Bob? Você conhece a saída...

Aquele “você conhece a saída” quase o fez precipitar-se em cima de Carol. A veia de sua testa latejou ainda mais. Com quem ela estava pensando que falava?
Ela fingiu não lhe dar importância e atirou-se, deitando no sofá. Passou em seguida a verificar mensagens do celular. Parecia virtualmente uma... adolescente!
Ele teve o ímpeto de arrancar aquele celular das mãos dela! Quando o dele tocou. Era Claudia:

-Oi Querido! Quase esqueci de te pedir: Quero ligar para Helena e convidar para passar o fim de semana aqui conosco. Arthur não para de perguntar por ela desde que a conheceu. O que você acha? 

Claudia falava e falava, mas Robert só conseguia prestar atenção nas pernas bem torneadas de Carol jogadas para cima no espaldar do sofá. Que mulher era aquela? Ela o estava sim provocando de propósito!

-...Não é  uma boa idéia? Ah! E queria pedir também que você me ajudasse a fazer a sobremesa preferida dela...você sabe qual é? Eu e Arthur queremos sair com você para comprar os ingredientes...
O que houve, amor? Está ouvindo? Robert...

-Estou. Estou ouvindo, querida...Podemos falar depois? Já estou indo para casa. 

Claudia respondeu alguma coisa gentil, dando fim a ligação.
Robert, pela primeira vez em sua vida, sentiu-se sem ação diante de Carol. E foi ela quem falou:

-Robert, estou esperando uma visita...será que se importa?

Ele custou a acreditar no que acabara de ouvir “uma visita“? Respirou fundo:

-Ousando me mandar embora da minha casa, Caroline?

Carol levantou-se falando com ar aborrecido:

-Não banque a criança, Robert. Já está mais do que na sua hora sim! E tenho um compromisso daqui a pouco. E você faça o favor de parar de dizer que essa casa essa sua.Você não mora mais aqui!

Ele encarou-a com ferocidade. A voz saiu como um rugido:

-Meus filhos MORAM AQUI. E eu e você “ainda” não estamos separados.

Ela ignorou os olhos ejetados de raiva dele e foi levantando. Atirou-lhe o paletó e caminhou em direção à porta para que ele saísse.
Que visita seria aquela, que fez com que ela se parecesse completamente com outra pessoa? Tão grossa e indiferente... com ele?
Em que tipo de mulher Carol havia se transformado?

-Nós ainda não terminamos nossa conversa, Carol!

Sem dar por si, Robert agora a detinha pelo braço. Estava em vias de perder o controle. Mas Carol calmamente:

-Se você nesse momento não tirar as mãos de cima de mim, vou chamar a polícia, querido.

Robert a encarou bem perto:

-Nunca em sua vida você me viu ter medo de ameaças, mulher. Mas reze para que eu não faça nenhuma.

-O que você quer Robert? O que quer aqui? Porque não vai embora agora?

-Eu ainda sou pai de Ewan e de Helena e você, caso se recorde, ainda é a mãe! Porte-se como tal!

-CHEGA! Você não é mais bem vindo aqui! E eu não tenho mais medo de você! Volte logo prá aquela sua aleijada fracassada e me deixe em paz!

Um torvelinho de cor rubra cegou por instantes a visão de Robert. Quando deu por si, Carol estava caída no chão e a seus pés. Ele a havia esbofeteado! Ele não podia ter feito aquilo! Não podia acreditar no que havia feito! Recolheu-a do chão num movimento rápido e ergueu-a nos braços levando-a até o sofá. Estava louco? Como havia feito aquilo?

-Me perdoa! Me perdoa, querida! Me perdoa!

Tentava fazer com que ela o olhasse, mas ela virava-lhe o rosto inundado pelo choro.

-Me perdoa, querida! Me perdoa, eu não queria ter feito...eu  não queria...

-Não me... não me chame... querida... 

Ele jogou o casaco paletó  sobre o sofá virando nele o conteúdo do balde de gelo. Enrolou-o transformando-o numa pretensa bolsa térmica que encostou, mesmo contra vontade dela, em seu rosto delicado. Mantinha o rosto dela seguro com a outra mão e beijava sua testa, olhos e boca.

-Me solte! 

-Perdão, Carol! Perdão!

Ela de encarou-o com um ressentimento tão amargo nos olhos que o machucou fundo.

-Vá embora, Robert! 

Mas ele sabia que não poderia ir. Não sem que ela aceitasse perdoá-lo. Mas o que acabara de fazer havia sido inominável!

-Você me bateu, Robert Você me bateu porque não me ajoelhei diante de você quando chegou aqui! Porque tenho amigos e continuo bonita!  Porque tenho uma vida agora da qual você não faz mais parte, não é, Robert?

Robert sabia que ela tinha razão. A cabeça dele com seus cabelos muito claros pendeu naquele momento e suas belas mãos renderam-se sob os joelhos. Sentiu-se envergonhado e sem coragem de encará-la. Pela primeira vez, Carol o fazia perder o domínio da situação. Ela era mais forte do que ele.
Era sim. Pois ela pode suportar o gênio difícil dele durante todos aqueles anos, vencer uma enfermidade mortal, ser abandonada por ele e ainda renovar-se e enfrentá-lo de um modo corajoso, como nunca havia feito! E ele? Ele ao menor sinal de ameaça a seu orgulho, perdia o controle agindo feito um animal!

-Eu não chamo a polícia, Robert, em consideração a Ewan e Helena. Nossos filhos, como você diz! Mas eu quero que você vá embora agora.

Robert ergueu os olhos para ela e seus olhos estavam turvados.

-Carol, Carol! Você nunca me viu implorar, mas por favor me perdoa...me perdoa, amor...

-Amor?

-Carol...

-Você me chama de amor?

-Carol...

-Você sabe o que é isso? Sabe o que é amor, ou só o que sabe é colecionar pessoas e reger suas vidas?

Ele travou e seu rosto adquiriu uma expressão perturbada. Ergueu a sobrancelha:

-Reger a vida das pessoas?

-Se cerca de todos os que se rendem a você. De todos os que pode comandar. Rolland, Helena, seu pai, sua mãe, os puxa sacos do patronato, os puxa sacos dos seus sócios e até mesmo Claudia! Agora controla a vida dela também!

O rosto dele foi assumindo um ar ainda mais grave. Se pôs de pé e pôs as mãos nos bolsos, encarando-a seriamente:

-Não aceito que fale de minha vida e das pessoas de quem gosto do modo que falou e não aceito que fale nada sobre  Claudia. Você deve estar precisando de alguma coisa prá se ocupar...
Pegou o paletó embolado, virou-lhe as costas e foi em direção a saída.

-Você é um machista podre nojento, Robert! E ainda por cima bate em mulheres!

Ele bateu a porta fortemente ao sair.

Ao final da tarde jantavam ele Arthur e Claudia. Claudia lhe falava entusiasmada sobre a metodologia de ensino de cada uma das escolas em que pensava matricular Arthur, mas Robert pouco prestava atenção.
Tomou uma ducha fria muito demorada e Claudia percebeu que havia alguma coisa errada. Mas se havia uma coisa que não pretendia, era bancar a esposinha pentelha. Se ele quisesse falar ele que falasse. Ela não o atormentaria, não o tiraria de suas reflexões.
A receita para um bom convívio a dois: Respeitar o espaço mental do outro. No final das contas ela, não deixava de se sentir como uma convidada naquela casa que ele fazia questão de dizer ser dela.
Ela não a sentia assim. Apesar do esforço que fazia para torná-la um ambiente descontraído para ele e para Arthur, sentia o peso daquelas paredes daquela decoração milionária, daquele amplo espaço de requinte como algo totalmente distanciado dela e de sua própria história. Os vizinhos esnobes!
Ah! A antiga e pequena casinha de seu irmão ...A presença querida de Juju... suas bochechas coradas, o sorriso querido, a comida simples e caseira que preparava...Claudia sentiu o coração despedaçar de saudade!

-Amor... Era Robert. Estava parado diante dela e naquele mesmo instante a abraçou.
Como ela sentiu-se pequena dentro daquele abraço. Precisava tanto daquilo. Mas não queria saber que Robert estivesse ligado a ela por um sentimento de reparação. Não queria isso de modo algum.
Não queria que ele tivesse abandonado Carol, não queria sentir-se culpada por isso. Mas sentia.
Além de tudo, enfrentava diariamente a batalha contra as limitações de seu próprio corpo e percebia estar encaminhando-se para o esgotamento.
Sua cabeça a torturava:
O que iria fazer de sua própria vida? Em que iria trabalhar? Conseguiria corresponder a expectativa de um marido tão brilhante, tão aclamado...

-Claudia! Amor, estou aqui...olha prá mim! Estamos juntos, não quero vê-la assim triste.

Robert a retinha diante dele ajoelhado a sua frente. Obrigava-a  à encará-lo.

-Triste?Não...não estou. Não tenho motivos para isso... As coisas estão se ajeitando aos poucos, não estão? Está tudo bem.  

Robert olhava para aquela mulher. Sabia que não poderia sequer pensar em viver sem ela. O amor que sentia era tão pleno que nos momentos mais inesperados chegava a comovê-lo: Ao vê-la dormindo a seu lado, quando ela desabotoava os botões da blusa, quando afagava os cabelos dele em seu colo. A melancolia latente do sorriso que ela sempre lhe ofertava...
E ela agora lhe pertencia, não poderia mais fugir. Sentia um fortalecimento pessoal diante disso.
Ela dependia de sua força em todos os sentidos. Ele carregava seu frágil corpo nos braços muitas vezes. A ajudava no banho. Massageava suas costas, sua nuca. Segurava-a firmemente para ajudá-la a treinar o caminhar. E isso o fazia sentir-se tão vitalizado, tão absolutamente importante em sua vida. Havia uma satisfação em, aos poucos, junto com Arthur, tornar-se o centro da existência dela. Ela era sua. Isso não seria alterado.
O que estava faltando então? Por que sentia que seu ciclo de soberania pessoal e orgulho masculino estava ameaçado?

A Ópera DE Robert mcKennan. 68.



 Vastidão celestial. A luminosidade branca misturada ao azul infinito causava temor. Solta no espaço atmosférico, presa apenas a um pulsante e ridículo órgão que pretensiosamente conectava vida...
A realidade da finitude humana era e seria para sempre, esmagadora.
Sob a ambigüidade do apego pelo amor e da ansiosa aflição pelas futuras e possíveis perdas em sua existência, Claudia partiu para a Escócia ao lado de Robert e de seu filho.
 Ela já não tinha certeza quanto ao futuro e nem queria ter.
 Sabia apenas que Robert estava ali, ao seu lado e ao lado de seu filho. Segurou a forte mão dele em silêncio e ele correspondeu o seu carinho de forma silenciosa e compreensiva, apertando a dela de modo suave, mas firme.
Não precisavam dizer muitas coisas um ao outro quando estavam juntos agora. O sentimento que os uniu passara para um estágio novo, em que haviam consolidado uma cumplicidade legítima.
 Isso teria de ser suficiente para dar forças a ela, pois as lutas que enfrentaria a partir do momento em que pisasse no solo daquele país, mesmo sem vontade de lutar, não seriam amenas.
Só o que poderia fazer, seria contar com o apoio daquele homem ao seu lado.
Apesar de tudo o que enfrentara, sua  sensação secreta inconfessável já era a de derrota...Pois tudo parecia vasto demais, árido demais. Não tinha vontade de enfrentar mais nada. Apenas queria ficar ao lado de seu filhinho...
Arthur lhe parecia mais amadurecido. E para Claudia  isso era imperdoável! Seu lindo rosto de criança trazia agora um tênue abatimento, uma marca sombria, silenciosa mas latente. Aquilo a devastava. Sentia culpa por todas as coisas que seu filho havia passado. Por todas elas. Sentia a culpa pela morte de seu irmão, pela morte de sua cunhada...sentia culpa por tê-los procurado e os envolvido em sua vida!

Rolland também parecia mais velho e os acompanhava no vôo do Legacy.
Robert, chegando a Escócia, já não pretendia retornar para sua casa. E sabendo o quanto Robert amava aquela propriedade, seus jardins, sua orla de carvalhos e macieiras, seus adoráveis puro sangue, Claudia sentia por ele. Mas ele disse que  proporia a separação a Carol. Afirmou que fizera uma escolha e que  enfrentaria as conseqüências dela.

- Escolhi esse caminho, Claudia. E sempre vou agir dentro daquilo que acho certo. Você já deveria me conhecer...

Sutilmente, o tom da fala de Robert a fez pensar em alguém que se preparava para a guerra e que já era perfeitamente acostumado a batalhas. Robert olhava para ela, alquebrada e pálida, tão diferente da menina que conhecera anos atrás; sobrevivente duas vezes e quase saindo da vida dele para sempre. Secretamente ele fazia um juramento:
Claudia e Arthur jamais sairiam de perto dele novamente. Utilizaria as armas que fossem preciso utilizar, a manteria vigiada sem que ela soubesse, e até mesmo controlaria a aproximação de pessoas se fosse preciso! Mas Claudia nunca mais fugiria. E, inconfessadamente, observar sua incapacitação física, agora que as pernas dela não tinham mais autonomia, corroborou seus planos.
Era preciso que se casassem o mais rápido possível, pois assim ela teria cidadania e não correria o risco de deportação. Por isso precisaria separar-se de Carol. Seria um golpe duro, mas teria de fazer isso se pretendesse mantê-la na Escócia e junto dele...
Claudia, ao tentar argumentar não conseguia deixar de se colocar no lugar de Carol...

-Claudia, você ainda não entendeu que Carol colocou Noah contra você? 
Todas as ameaças. A trama urdida por ele e por Dóris foram orquestradas por Carol!

-Robert, isso que você diz pode ser verdade. Mas Carol tinha medo que você a deixasse. Ela estava doente e com dois filhos pequenos...

-Esta é a verdade, Claudia!

-Mas ela estava fragilizada, Robert ...


-Estava e eu não a abandonei e tão pouco abandonei meus filhos. Fiquei ao lado dela por amor e lealdade, mas ela aliou-se aquele canalha. Esqueceu, Claudia que ameaçaram você?  Ameaçaram nosso filho? 
Se você não tivesse superado o medo e não houvesse procurado Rolland eu jamais saberia da existência de Arthur!
Você pode imaginar o que Noah poderia ter feito se ainda pudesse vir contra você?

-E ele... não pode mais?

-Não. Garanto a você que não.

-Mas não entendo. Porque ele desistiria? Porque você acha...

-Não quero falar nisso, Claudia! Certos assuntos são meus.
Você não se ocupa. 

-O que você quer dizer?

Robert mudou o tom de sua voz, falando baixo bem próximo a ela:

-Quero dizer que você não deve fazer perguntas demais e nem se preocupar, querida. Deixe tudo nas minhas mãos. Estou encerrando esse assunto por aqui. Nem mais uma palavra sobre Noah. É tudo.

Pelo tom ele já lhe dava mostras de como pretendia conduzir as coisas.
Claudia  sentiu uma fisgada angustiosa no peito.
Percebeu claramente estar nas mãos dele.
Não teria como voltar a seu país se as coisas não funcionassem pois ela e seu filho ainda corriam perigo.
E mesmo se pudesse, Robert certamente encamparia uma luta aguerrida nos tribunais pela guarda de Arthur. E seria prá valer, não ficaria no âmbito hipotético de um  mero desabafo como aquele  que ela lhe  fizera no carro.
O fato é que suas chances contra o poder econômico dele comparadas a sua própria condição debilitada...
Robert leu a aflição em seu rosto:

-Desculpe ter sido rude, querida. Esse assunto me perturba, é por isso. Prometa que não vamos mais tocar nele?

A questão que a incomodava era o porque de Robert começar a tratá-la como se fosse uma idiota. Ele não precisaria esconder-lhe nada relacionado a Noah; não depois de ela ter enfrentado tanta coisa!
E porque atribuir tanta culpa a Carol? Noah não gostava de Claudia desde que a conhecera, não precisou do incentivo de Carol.
Claudia queria debater essas questões mas percebeu que acabaria gerando uma discussão.
Foram avisados pela comissária de que dentro de alguns minutos seriam iniciados os procedimentos para a aterrissagem em solo escocês.



***


-Esses implantes ficarão perfeitos. Sua condição óssea para a ancoragem do pino em titânio é excelente. O formato de sua arcada me dá espaço suficiente para prende-lo...o resultado será ótimo!
Mas, eu ia perguntar-lhe se chegou a formalizar uma queixa contra os ladrões que o atacaram...

-Na verdade, Geoffrey, eu preferi suprimir o escândalo. 
Você sabe o quanto o nome da família Greensberg é visado, não sabe? E pisar numa delegacia de polícia jamais me agradaria, Acredite: O trauma seria pior do que aquele ataque...