quinta-feira, 31 de maio de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 67.


-Como Ewan está parecido com você, Robert! 
Venha ver,  Arthur. Olha! Esse moço bonito é seu irmão! Não acha parecido com seu  pai? Se parece com você também... Ah, como ele está elegante neste Kilt, Robert!

Arthur aproximou-se para ver de perto a foto do irmão que não conhecia.

-Menino de saia?

-É um kilt, querido! Explicou-lhe Claudia.

Robert elevou Arthur nos braços fazendo-o ficar de frente para ele.

-Arthur, preste bem atenção. O Kilt é uma roupa usada pelos guerreiros dos clãs escoceses! Homens muito corajosos. Papai também usa e você também vai ter o seu.
 Arthur não entendeu a fala no inglês vibrante do pai, mas Robert conseguiu falar em um português travado com a ajuda de Claudia.
O menino riu disso, então Robert começou nele uma sessão de cócegas.

Apesar da descontração Claudia via o quanto Robert permanecia pensativo desde a conversa que  tiveram no carro pela manhã.
Sabia que deveriam terminar logo aquele assunto e a sós. Não havia porque adiar mais.
A estada de Robert no Brasil já havia se prolongado além do esperado e ele tinha compromissos em seu próprio país. Precisaria partir o mais breve possível.
Murilo preparou um lanche para Arthur na cozinha e lá ligou a TV no Vila Sésamo.
Robert e Claudia  aproveitaram o momento à sós.
Decidiram falar no quarto que temporariamente estava sendo dela e de Arthur. .

-Você sabe qual a solução, não é mesmo, Claudia?

-Você quer que eu volte com você.

-Você VAI voltar comigo. É o único caminho e você sabe. 

- Robert, eu sou uma pessoa. Também tenho uma vida. Como você acha que eu me sentiria? Veja minhas condições...

-E você, Claudia? Acha que eu permitiria que Arthur ficasse longe de você? Depois de tudo o que esse menino sofreu? 

-Bob...

-Depois de tudo o que “você” sofreu, Claudia? Você acha que você sobreviveria ficando longe de Arthur? 
Eu vi, Claudia. Eu sei da vastidão do amor que vocês tem um pelo outro! Eu vi!
Você acha que se pode abandonar um sentimento, uma ligação como essa? 

Aquela conversa estava tomando justamente o rumo que Claudia mais temia. Voltar para a Escócia, depender de Robert  a essa altura de sua vida, para ela, seria como voltar ao passado.
E tudo o que construíra? E seu emprego? E a bolsa de estudos tão batalhada?
Mas no fundo sabia que Robert estava certo. Não sobreviveria longe de Arthur. E Arthur sofreria.
Aquela criança não poderia sofrer ainda mais.
Perguntava a Claudia pela tia Juju, sentia saudades; não compreendia inteiramente ainda o que havia acontecido.
Não sabia nada do que acontecera ao tio “Ores” e a seu pequeno e único amiguinho mas sentia falta deles e demonstrou isso quando ficou olhando o vazio e perguntando  a ela se algum dia iria deixá-lo também, se iria embora sem avisar assim como os “outros’ fizeram.
O pobrezinho perguntou se havia sido “mau educado” com eles, se fizera algo errado que levara tia Juju a deixá-lo...

-Sabe, Bob. Quando nos conhecemos eu era outra pessoa. Era uma menina. Mas o tempo passou!
O que eu faria hoje num país pertencente a uma união que cada vez mais repudia imigrantes, Robert? E eu teria que começar do zero. As coisas mudaram. Você sabe disso...

-Você sabe que eu apoiarei você. Não temos porque discutir isso...

-E eu então teria uma vida nos moldes do século XXVII quando as mulheres ou se casavam , ou iam para o convento, ou tinham um protetor...


-Eu já lhe falei certa vez que esse tom irônico não combina com você, Claudia? 
E o que haveria de errado em ter a mim como protetor? Seria humilhante para você? Você se envergonharia tanto assim? 
E se fosse o contrário? 
Se eu precisasse depender economicamente de você. Estaria tudo em ordem? Qual é a diferença?

Ela calou. Mordeu levemente os próprios lábios. Sempre quisera fugir do modelo de mulher que fora sua mãe; uma dona de casa vulnerável emocional e economicamente, que dependia de um homem para pagar as contas. E que no momento em que esse homem deixou de honrar sua parte ela se viu entregue a mais brutal miséria.
Que garantias haveriam para Claudia?
Abandonaria o caminho que estava construindo correndo o risco de não conseguir colocar-se e de com o tempo perder o apoio de Robert...
Mas pelo menos teria seu filho.
Pelo o menos até o momento em que ele ainda precisasse e dependesse amorosamente dela.
Até o momento em que fosse para uma escola naval, assim como Ewan e passasse a tirar férias nas antigas colônias acompanhado por turmas de amigos bem nascidos.
E então começasse a se interessar por esgrima, automobilismo e festas. Em algum momento começasse a freqüentar os circuitos aristocráticos e provavelmente passasse a se envergonhar por ter uma mãe na condição de uma aleijada, latino-americana e amante de seu pai.

-Claudia, a verdade pura é que você não tem escolha. 

-E eu odeio muito isso sabia?

-Eu sei.


Robert trouxe o rosto dela para o seu:

-Você tem raiva de mim?

-Não, Robert. Nunca tive raiva de você. Não diga nunca...

-Porque você quer lutar então?

-Lutar?

-Você luta o tempo todo contra minha presença em sua vida, Claudia. 
Você age  como se me rejeitasse. Porque?

-Jamais rejeitei você.

-Agora nesse momento a impressão que você está dando é a de que estar comigo, fazer parte de minha vida novamente é a pior coisa que poderia lhe acontecer...

-Não, querido. Não interprete assim...é que você precisa entender que eu estarei abandonando coisas que construí. É isso...

-E essas coisa são mais valiosas do que o amor, querida? 

-Robert, tudo o que realizei e tenho em minha vida fiz com amor.

-E essas coisas que fez retribuem, Claudia? Essas coisas são mais queridas que seu filho e o pai dele? 

-Bob...

-Eu te amo, Claudia. Eu te amo mesmo temendo que você não me ame e que me queira fora da sua vida. 
Eu te amo, Claudia...e se você preferir, eu hoje mesmo me separo e me caso com você...É só você me dizer que é isso o que quer...
Mas por favor não me impede de te tocar, não me impede de ser teu homem...não me impede...nunca mais me deixa...
Não foge mais de mim, amor...

Claudia foi arrebatada pelo beijo irresistível daquele homem que jamais imaginou que a beijaria novamente algum dia.
Um calor através de seu corpo fez com que o rubor tomasse seu rosto. Sentiu-se como a menina magricela e desajeitada que os meninos da escola ignoravam e que de uma hora para a outra passa a receber atenção e elogios.
Porque ela francamente naquele momento não esperava por aquilo!
Não esperava por aquela declaração de Robert. Não esperava que ele ainda a desejasse, agora que seu corpo...

-O que eu disse foi prá valer, Claudia.

-Sabe, Robert. Esse assunto...não sei porque você tocou nele...não é o momento.

Robert alteou a sobrancelha.

-Porque não seria? Me parece o momento perfeito. Chega de indefinições na nossa história. Chega de desencontros, chega de culpa. Chega!
Eu estou exausto, Claudia. Você não? 

Ele beijou as mãos dela.

-Vamos fazer logo o que é certo. Vamos ficar juntos.

Ele tocou seu corpo com o domínio de quem o conhecia e o queria há muito tempo.
Foi sendo dominada por ele sem saber explicar como.
Aos poucos as mãos dele, seus braços potentes e seu cheiro masculino a evolveram. Suas pernas vigorosas abriram espaço entre as suas involuntárias e tremulas.

Gemendo por ela, chamando seu nome manhosamente, ele, com uma delicadeza especialmente cuidadosa, a penetrou.
Ela sentiu-se como se recebesse a chuva.
Não teve medo. Correspondeu aos seus beijos com uma espécie de fúria elementar  atávica.
Afagava os cabelos dele; gemia ao beijá-lo e ao se deixar beijar.
Porque nunca conseguiu libertar-se dele? Depois de tanto tempo...
Que doçura apaixonante era aquela?
Onde estava ela agora nesse preciso momento do tempo em que ele a invadia ousada e profundamente naquele ritmo contínuo irresistível que aos poucos a fazia alucinar?

-Robert...te amo...! Me beija, amor...meu amor...

-O...Oooh! Claudia...querida...

A respiração potente dele sobre seu rosto a enlouquecia, a boca em seus seios arrepiava sua pele.
Esse era o estado em que Claudia agora se encontrava:
Uma simples mulher entregando-se vorazmente, até a última gota, a fornalha do corpo de um homem.

-O...o que foi isso, Robert?

-Você ainda quer explicação, querida?  Ainda quer?



***


Claudia despertou sentindo o corpo muito, muito quente. Além de uma fraqueza inexplicável que começou a afligi-la.
Não sabia que horas eram. Apenas tinha consciência de que estava na suíte do hotel caríssimo em que Robert se hospedara. Ele insistira, veemente, para que ela e Arthur ficassem junto dele, já que ela se comprometera aceitar acompanhá-lo de volta à Escócia. Além disso, ela e Arthur ficariam em maior segurança estando junto dele.
Claudia percebia um vulto sentado a seu  lado, na cama. O vulto tocou sua testa e pescoço com a mão pesada. Com um  pouco de confusão, ela reconheceu a voz de Robert:

-Querida,  você já foi examinada e medicada. A febre vai baixar... Já está vindo uma “home care“ para cá!
Em seguida, ele aproximou-se, beijando-a na testa.
Medo...medo...Pânico! Como ficou tão doente e de uma hora para outra? Mas a resposta era evidente: Cometera abusos. Se incomodara demais, e repousara pouco. Seu corpo precisava de tempo para recuperar-se. Havia sido alvejada por dois tiros! Aquilo não era brincadeira.
Silenciosamente começou a rezar. Repetia num looping a oração do “Pai Nosso”. Aos poucos o sono foi dominando, e ela desligou, como se um fio houvesse sido puxado da tomada.

Robert fora pego de surpresa com a súbita mudança do estado de Claudia. No meio da noite deitada ao seu lado, ela começara a ter delírios, além de uma febre estranhamente alta.
O impacto emocional de despedir-se de seu irmão Murilo naquela tarde, devia ter levado por água abaixo seu último fio de resistência. Além disso, ela não estava repousando como deveria, e ele era culpado por isso...se alguma coisa acontecesse a Claudia, a essa altura, Robert jamais se perdoaria!

 Ana Clara Dias estava sendo o braço direito dele no Brasil. Rolland, apesar de ser tão dedicado, não tinha meios de ajudá-lo em um país estranho. Ana Dias providenciara o médico de sua inteira confiança, e aconselhara Robert a optar por uma home care, ao invés da hospitalização. Ele acabara concordando com sua opinião, de que a remoção para um hospital, aumentaria os riscos. Poderia ser cuidada ali mesmo, no quarto do hotel, com uma equipe de enfermagem de alta categoria, além de receber a visitação médica.
Rolland também estava preocupado.

-O que o disse o médico, hermano?

-O estado é delicado...há uma infecção...Ela precisa de repouso total...a medicação é bastante forte, por isso devem verificar as micções...os rins podem sofrer dano...
Mike Rolland o conhecia bem. A voz de Robert saía num fio e ele estava tremulo. Estava com medo. Isso era um fenômeno raro, mas surgia sempre que alguém próximo ou de sua família sofria. E Robert; havia enfrentado os exércitos do próprio inferno com a doença de Carol.
Rolland deu uma olhada no quarto contíguo. Dentro dele, Arthur ressonava. Ficou satisfeito por isso. Crianças precisam muito de repouso. Mas o que aconteceria quando o garoto acordasse e visse sua mãe acamada? Entenderia o que estava acontecendo? Teria medo? Pobre menino! Já estava vulnerável demais...
-Hermano, faça um esforço...procure descansar. Arthur vai precisar de você bem desperto pela manhã. A equipe já chegou, e tudo vai ficar OK...

-O que será que está havendo, Casca? A febre não baixou!

Os olhos de Robert estavam aflitos. Rolland sentiu a urgência de ampará-lo:

-Hermano, calma aí...“calma-te“! Lembra: “tu hijo“...ele  tá aqui!
Abraçou-o. Robert parecia criança, envolto no abraço de seu amigo gigante. As lágrimas se adensaram e ele curvou-se num soluço cortante.
-A febre vai baixar, hermano...ela vai ficar bem...vai sim...

Horas intermináveis. Não queriam que Claudia se agitasse demais, por isso lhe deram sedativos. Robert não gostava nada daquilo. Vê-la desacordada aumentava seu estado de aflição. Não pregara os olhos a madrugada inteira.
Mike convenceu-o a tomar uma ducha e insistiu para que comesse, mas ele não conseguia.

-Hermano, a febre vai ceder...Vamos ter esperança!

-Só vou melhorar quando falar com ela, Casca...a culpa é minha...

-Vamos, hermano...se existe culpa, pertence aos dois, certo? Vamos, coma um pouco. Você nem sequer dormiu... 
Robert estava em um estado deplorável. A barba por fazer e com os cabelos eriçados. As olheiras eram testemunhas de seu abatimento e eram fundas. Mas o pior de tudo para Rolland era ver o amigo contido em um silencio desesperado; os músculos retesados, como alguém que espera por um golpe finalizador. Rolland odiava vê-lo daquele jeito. Sempre olhara para Bob com a atenção de um irmão mais velho, quase a de um pai. Robert fora o garoto mais pobre da escola e na época em que os dois se conheceram, enfrentava o inferno na mão dos outros meninos por ser gordinho e filho de operário. Estigmas fatais para um aluno bolsista. Rolland vinha transferido e no primeiro dia na escola nova, o encontrou o menino sozinho, chorando em um canto do pátio após uma das incontáveis surras. Rolland comoveu-se com o desamparo daquele garoto sardento e gordinho, que mais parecia um filhote de cachorro abandonado. Conversou com ele e a partir daquele momento uniu-os uma amizade à prova de tudo. Defendeu-o e ensinou-o a se defender. Pescavam juntos, matavam aula e Robert passou a fazer parte de sua vida. Eram os garotos mais legais da escola e do bairro. Rolland sorriu levemente ao lembrar-se daqueles dias.

O menino surgiu na soleira da porta. Quando o viu, o coração de Mike Rolland quase explodiu. O menino, inacreditavelmente lindo, estava com a carinha sonolenta e apoiava um dos pesinhos contra uma das pernas. Vestia um pijaminha com padronagens navais de pequenas ancoras. Mike Roland tocou o ombro de Robert, e ele, no mesmo momento em que viu o filho, caminhou para ele com um sorriso desalentado. Envolveu-o em seus braços, erguendo-o no colo. Arthur esfregava a mãozinhas nos olhos e bocejava.

-Cadê o meu mamá?
Robert entendeu: Arthur queria sua mamadeira. E foi Ana  quem providenciou.

A situação de Claudia estava deixando o médico seriamente preocupado. Tivera uma convulsão além de uma queda muito brusca na pressão. Isso o deixou em alerta:

-Se não concordar em removê-la para uma unidade hospitalar o mais rápido possível, serei obrigado a sugerir que passe o caso a um colega, senhor Wolk. A paciente corre um risco bem importante...

-Mas eu quero...preciso ficar ao lado dela!

-Robert, vamos seguir o conselho do doutor. Falou Ana Dias, já arrependida de sua sugestão anterior. Algo lhe dizia que quanto mais rápido agissem, melhor seria. Claudia ficara mal de uma hora para a outra; isso não era um bom sinal.
Assim que terminou de falar,  Ana Dias sentiu o coração palpitar descontrolávelmente.
Parado, diante de uma das janelas, viu um menino de cabelos castanho claros, portando o trenzinho de Arthur!
A corrente de seu sangue congelou. As pernas amoleceram e ela teve de sentar-se.
A sua volta era como se os sons houvessem desaparecido. A cabeça zunia. Procurou respirar fundo e devagar. Baixou a cabeça. Quando novamente a ergueu, o menino não estava mais...
Ninguém percebeu a sua súbita palidez, de tão envolvidos no debate sobre Claudia. Ana ainda precisou de um tempo para normalizar as batidas do coração e recuperar a fala.
Olhou para Arthur. Ele olhava na direção da mesma janela. Sua expressão era como a de alguém surpreso, por ter escutado chamarem seu nome. Seus olhos vasculhavam o vazio e ele girou a cabeça. Subitamente, seus olhos encontraram os olhos de Ana, e ela imediatamente soube que ele experimentara uma sensação que não sabia explicar. Estranhamente, ele sorriu.

Robert estava em um estado lastimável; olheiras fundas;

-Mas e quanto a Arthur? Ficar longe da mãe é coisa demais para ele...

Robert falou num tom baixo desesperado enquanto espiava o menino de momento a momento. Via-o sentadinho agrupando pecinhas de lego, enquanto sorvia a mamadeira de leite vitaminado.
Ana Dias, até então num silencio pouco usual, passou as mãos nos cabelos para ajeitá-los e parecendo tomar fôlego, falou rápida como um soldado que sempre está a postos:

-Ele ficará bem. Vou levá-lo para brincar no play ground e... e depois para almoçar. Fique tranqüilo. Há os seguranças e posso leva-lo até o Hospital no horário da visita. Eu tive a pouco que dizer que sua mamãe está “dodói“, e ele entendeu. Perguntou se ela tinha dor de garganta. Confirmei e “ele mesmo” disse que logo iria passar! 
Está calmo. As crianças são mais fortes do que pensamos, Robert.
As crianças são assombrosas.
O médico resolveu tomar logo a frente:

-Senhor Wolk, aconselho não perdermos mais tempo.

***

Claudia sentia-se escorregar. Seus pés não tinham um apoio firme, o que era muito ruim, pois as ondas vinham cada vez com mais força e cada vez maiores. Tentou mover os braços, na tentativa de nadar, mas eles estavam presos por um emaranhado de algas que também se enleavam em seus cabelos, puxando-a mais e mais para a profundeza. Estava no limite de ser totalmente encoberta pelas águas. Já não conseguia manter a cabeça na superfície. Estava engolindo toneladas de água. Toneladas. A água era tão congelante que sentia a medula de seus ossos latejar como um dente com nervo exposto! Mas isso já não importava; lutava desesperadamente para respirar...mas as algas, agora, enlaçavam seu pescoço comprimindo-o, asfixiando!

-Claudia!
-O que está acontecendo? Por Deus! Ela está arroxeando!
-Tirem a criança daqui!
-Rápido o oxigênio! Rápido!



***



“Eu sou o culpado eu sou o culpado...”
-Senhor, não pode permanecer nesse local
-But...is my  wife! Is in there inside!
-Sory, não entendo perfeitamente, senhor...“Please, you can’t stay here, mister! Out. ok? Out!”

Galhos imensos de uma espécie arbórea muito estranha, formavam um emaranhado intransponível com espinhos afilados, ulcerantes como brasas. Claudia percebia que lentamente eles se moviam em sua direção e que nesse movimento persistente iam descamando lascas, como os fragmentos de cascas que se desprendem de um ovo ao romper-se. Isso a obrigava a recuar cada vez mais para a escuridão atrás dela. Sentiu nitidamente algo tocando em seus cabelos...envolvendo-a com um calor horripilante...

-A mamãe vai ficar bem? 

“Meu Deus...meu Deus, a culpa é minha!”

-We are take carefully of mom, Arthur...cuidar da mamãe...fica bem sim...my son!

-Tou com medo...

-Don’t...Don’t fear...não medo, son.

Robert abraçou o filho mantendo-o protegido em meio a fortaleza carinhosa de seu abraço.
Estavam, ele e Arthur, juntos na sala de espera de uma Instituição Hospitalar. Não era o melhor local para uma criança, mas as coisas estavam bem difíceis para Claudia e Robert sentia que precisava estar próximo do filho.

-Quero...quero ver a mamãe... 

Robert olhou bem dentro do fundo dos olhos do filho, era estranho como em certos momentos tinha a sensação de estar olhando para Ewan. Queria ter o poder de retirar a aflição daqueles olhinhos, mas sabia que isso era impossível. Mesmo sem esperança, tocou com sua imensa mão a testa do filho e esse gesto teve um efeito pelo qual jamais esperou...O menino reteve sua mão com sua pequenina e sorriu:

-Papai, eu vi.

Robert não entendia a fala do menino em idioma português, agitado, parecendo eufórico...

-Eu vi  mamãe, papai! Ela me abraçou quando você botou a mão em mim!
Eu vi a mamãe, papai! Ela  saiu de dentro da sua mão e me abraçou!

No mesmo momento o rosto de Arthur tornou-se sombrio e densas lágrimas desceram de seus olhos. A impressão que deu a Robert foi a de ter amadurecido dez anos em poucos segundos. Aquilo não era justo! Toda aquela carga de emoções que o menino vivenciou, estava levando embora de forma brutal a sua inocência.

“Meu Deus! Meu Deus! Isso é coisa demais pro meu filho!”

-Eu vi a mamãe...ela ...ela... Ele ergueu os olhos para o alto suplicante... -Mamãe, mamãe!
Robert sentiu o coração partir-se.
***



-Robert, lamento muito! Você terá de ser forte!

Por instantes Robert sentiu que o coração deixou de bater. Ana estava parada diante dele com o rosto pesadamente preocupado. Aquilo lhe trouxe um imenso medo. Robert suspirou dolorosamente mas não conseguiu responder. Levantou-se cambaleante, mas no mesmo instante pensou em Arthur e isso o levou a retesar todos os músculos do corpo e a segurar a mão do menino com firmeza. O que quer que Ana tivesse a lhe dizer teria de agüentar.

-O coma... 

Coma! Não ela podia estar dizendo aquela palavra, ele não podia estar ouvindo aquela palavra...

- O coma pode ser irreversível, Bob.


Imóvel. Imersa na escuridão absoluta, Claudia tentava gritar.
Aquilo era morrer? Aquilo era o Nada?

***

O telefone chamou cedo pela manhã. Era uma ligação da Escócia.

-Oi, Bob, como estão as coisas?
Aquela voz, parecia vir de um sonho distante no tempo...

-Caroline...Oi...
Pausa demorada da parte de Carol:

- Parece surpreso em ouvir minha voz, querido... 
Dessa vez, pausa constrangedora: -Você...você, não pretende mais voltar para casa, Bob?

Aquela pergunta encerrava todo o dilema em que a vida dele estava mergulhada naquele momento. E ao mesmo tempo, parecia-lhe ser totalmente fora de hora!
Robert suspirou fundo. Precisava falar e Carol, sem qualquer dúvida, sempre fora sua melhor ouvinte. Talvez sua melhor amiga?

-Carol, peço desculpas por não ter falado direito com você nesses últimos dias. Não quero ser negligente com você. Não quero...

- Eu sei. Eu não liguei para fazer cobranças. 

-Está zangada?

- Se eu dissesse que estou contente...Mas, estou mais é preocupada. Você acha... que devo viajar até aí?

O que ela estava dizendo era: “Você me quer por perto?
Robert remexeu-se nos lençóis, sentando-se na beirada cama. Coçou a própria nuca e passou a mão pela extensão da cabeça. Carol, mesmo a distância, parecia saber cada gesto dele décor.
Ela sentiu uma fagulha de desejo percorrer seu corpo. Não suportava mais a saudade...
“Volta prá mim, Bob!”

- Isso aqui está um ringue infernal! Episódios de piora, estabilidade, sobressaltos madrugadas adentro...

-O menino deve estar sofrendo, não está, Robert?

O coração de Robert encheu-se de ternura ao pensar em Arthur. Sua voz embargou:

-Eu...eu tento protegê-lo...mas no fundo ele sabe. E ele sofre.

-Sofre? 

O pânico instaurou-se na voz de Carol.

-Sim, querida...ele está sofrendo...

-Eu...eu queria tanto...poder abraçá-lo. Onde ele está agora?

-Está aqui, no quarto pegado ao meu...Nós conseguimos uma babá. Uma pessoa excelente! Ela passa a noite ao lado dele no quarto.

-Que bom...que bom, querido. Mas...

-Mas?

-Mas, e se o pior acontecer, Bob? 

-Querida, esse pensamento tem me atormentado dia e noite. Mas é a primeira vez que ouso admitir...´

Robert sentiu o estomago encolher e a vontade imediata que teve foi a de ser abraçado. Sua voz saiu enfraquecida:

-Nós...nós somos adultos. Não deixamos de sentir medo e dor, mas para uma criança...
Carol terminou por falar o que ele temia dizer:

-Perder a mãe para uma criança é algo que marca toda uma vida, querido.

A tristeza que ele sentiu  o fez ficar em silencio por um longo tempo. Mas Carol compreendia perfeitamente o que estava acontecendo com ele e tudo o que ela disse foram as seguintes palavras de súplica:

-Querido, não saia de perto dele.

- Não sairei, Carol. Nunca mais sairei...nunca mais...

Finalmente Robert entregou-se ao pranto como uma criança.

***

Imóvel. Imersa na escuridão absoluta, Claudia tentava gritar.
Aquilo era morrer?

Tentava girar os olhos em torno daquele espaço de negrura plúmbea, pois parecia escutar à distância o som ritmado de um gotejar. Surpreendentemente conseguiu girar o pescoço e uma lágrima fria escorreu, passou por  seu zigomático, caiu pela orelha  molhando seus cabelos. O negro absoluto esmaecia, como um tecido que desbotava e a claridade invadiu causando dor em seus olhos...














quarta-feira, 30 de maio de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 66.



A campainha tocou pela manhã muito cedo.
Murilo recém saía do banho.
Aguardava pela chegada de um amigo que se comprometera em trazer algum enxoval e em ficar um pouco de olho em Claudia e em Arthur pois Murilo tinha programada uma visita a um cliente e pretendia dar inicio a maratona dos cartórios para obter a documentação da irmã.

Atendeu a porta secando os fartos cabelos com a toalha.
Tomou um choque! Em sua frente o mais novo e loiro pai de seu sobrinho Arthur.
Murilo por instantes ficou emudecido.
Não sabia se o convidava para entrar ou o que.
-Claudia não me disse...

Antes que terminasse de falar, o homem estendeu-lhe a mão e em seguida puxou-o dando-lhe um abraço. Chamou-o “Brother”!
Murilo ficou ainda mais estupefato e tentou encontrar no fundo de seu arcabouço lingüístico alguma coisa gentil num inglês razoável.

-Seja...seja bem vindo, Senhor...Bob!

Meio tremulo e claramente envergonhado sinalizou convidando para que aquele deus nórdico entrasse em sua casa.
Sua irmã tinha mesmo um tremendo bom gosto!
Recuperado do susto resolveu oferecer-lhe o café da manhã;

-Me...acompanha, Bob? Tenho uma geléia de frutas caseira que eu mesmo preparo...

Mas notou que Robert olhava inquietamente para a porta fechada de um dos quartos. Lá dentro começou um chorinho de Arthur.
Ambos olharam-se e se dirigiram para porta. Murilo a abriu entrando e foi logo  acolhendo o menino.
Robert ficou alerta parado na soleira.
Claudia começava a despertar.
Ela o viu.
E era evidente a frustração dela em não ter autonomia de movimentos para poder ir até a cama improvisada de Arthur num colchão disposto sobre um sofá.

-Molhou a cama...foi isso. Está tudo bem, querido. O titio vai te trazer uma camiseta e um calção limpos...não se preocupe...

Dizendo isso, Murilo saiu para providenciar as roupas.
Robert não resistiu e entrou no quarto. Acolheu o filho nos braços.

-Vai molhar seu terno, Robert.

-Não importa...não importa.

Claudia tentou levantar sozinha.

-Quer ajuda?
Robert perguntou mas não esperou pela resposta. Aproximou-se, envolveu-a com cuidado ajudando-a a sentar. Seus olhos se encontraram.


Murilo voltou rápido:

-Por sorte tenho aqui algumas roupas do Antonio...seu primo. Um pouco grandes mas por enquanto vão dar!

Claudia segurou a mão de Robert e apertou-a.

-Desculpe o modo como falei ontem, Robert eu...


 Robert sentiu a sua própria fala  trancar.
Simplesmente trouxe a mão dela para o peito aconchegando-a. Beijou suavemente sua testa arroxeada por um hematoma.

-Tudo vai ficar  bem, Claudia. E eu também quero te pedir desculpas...

-Não. Não vamos falar do que já passou...

Arthur, agora trocado, correu para abraçar-se a Claudia e a Robert.


Mais tarde chegaram as roupas novas trazidas para ela e para Arthur.
O amigo de Murilo providenciou até mesmo camisolas para Claudia.
Trouxe abrigos e camisetinhas de algodão para Arthur, e uns tênis que ficaram um pouco maiores que o tamanho de seu pé.
Seus pais eram proprietários de um loja de departamentos e ele  conseguiu quase tudo por lá; desde roupas de baixo até maquiagem e esmaltes de unhas. Estava decidido a ajudar a levantar o astral da irmã de Murilo.
Como haviam pessoas boas no mundo!

-Tudo por minha conta, garoto. Declarou-lhe Robert num momento em que Claudia não pode ver, passando-lhe um maço de notas altas.
O rapaz sorriu agradecido.

Estavam na sala, com exceção de Murilo que já havia saído devido os compromissos.
O cheiro de comida era ótimo, pois o jovem adorava cozinhar e já providenciava o almoço.

Robert sentado no tapete cantava velhas canções escocesas tendo o filho em seus braços. E com os olhos azuis contemplava Claudia...

When o`er the Hill the eastern star
 Tells bughtin time is near my jo...
And owsen frae the furrowd field...

-Robert, temos que conversar sobre a situação de Arthur. Você pretende reconhecê-lo?

- É claro, Claudia.  Vou lhe dar meu sobrenome.
Rolland vai encaminhar essas coisas. Só está esperando que você tenha seus documentos em mãos para assinarmos tudo.
Claudia permaneceu em silencio, com um ar de preocupação. Robert percebeu:

-Está ansiosa por alguma coisa, Claudia?

-Eu gostaria de conversar com você, Robert, mas...

-Entendo...

Ela não queria conversar diante de Arthur.

-Mas, ele compreenderia o inglês?

-Tem razão. Acho que podemos falar...

Ele segurou a mão dela encorajando-a.

-Robert, dói muito falar sobre essas coisas...tudo é muito recente e difícil. Mas...estou com muito medo.

Robert inquietou-se.

-Medo? Mas qual o motivo?

-Meu irmão Orestes...bem, meu irmão e minha cunhada...

Claudia lutava para conter uma explosão de choro.
Robert sentou-se no sofá ao lado dela, com Arthur em seu colo:

-É melhor esperarmos Murilo chegar? Arthur não deve te ver assim.

-Murilo vai demorar, acho.

Resolveram sair e ir juntos até um shopping Center naquela região.
Lá havia ala de recreação e Arthur poderia se distrair.
Avisaram ao simpático amigo de Murilo que logo estariam de volta.
A cara de desapontamento do moço foi evidente. Mas lhe prometeram que retornariam a tempo para o almoço.


Naquele dia o shopping não estava cheio e puderam conversar enquanto observavam Arthur de perto.
Claudia estava na cadeira de rodas e Robert sentou-se perto dela.

-Houve um crime, Robert. E sei que pretendiam me executar também...Tive muita sorte, apesar de tudo. Estava escuro e não miraram perfeitamente a pedra.
Também queriam...acabar comigo!
Robert estremeceu com se tivesse recebido um impacto. Susteve a respiração e abraçou-a.
Sentiu absoluto pânico ao imaginar a cena e ao perceber que Claudia também poderia estar morta.

Ela conseguiu recompor-se um pouco:

-O meu medo maior, Robert. É que tentem vir...

-Atrás de você? Ninguém fará nada a você, Claudia.
Manterei seguranças vinte quatro horas a sua volta!
Ninguém ousará tocar em você! NINGUÉM! Está me ouvindo?

Robert falava enquanto acariciava o rosto dela e tocava suas lágrimas. Provou-as ao encostarem os rostos.

-É Arthur, Robert. Arthur. Meu medo é que tentem alguma coisa contra Arthur...

Robert  naquele momento acordou para o que Claudia estava tentando lhe dizer. Essa gente não deveria querer testemunhas.
Por isso tentaram matá-La também!
Por isso EXECUTARAM AQUELE POBRE MENINO!
Como Robert pode relaxar achando que sua família não correria mais perigo?
Como pode permitir que Claudia e Arthur tivessem passado a noite desguarnecidos na casa de Murilo?
Seu sangue gelou.

Do mesmo modo que seu pessoal investigara descobrindo o paradeiro deles, também deveria haver uma recompensa pelas mesmas informações oferecida pelos criminosos!

-Foi Noah! Não foi Robert?

-Hã...foi o que? Robert mergulhara em um caldo violento de preocupação.
Passava sem parar a mão pelos cabelos.

-Foi Noah!

-Não...não. Lhe asseguro, Claudia que isso nada tem a ver com Noah.

Começava a ficar aflito por estarem expostos naquele lugar amplo e com tantas entradas.
Resolveu  levantar  e logo foi conduzindo a cadeira de Claudia para a saída.

Teclou apenas um número e  rapidamente foram cercados pela sua  equipe de seguranças vestidos em trajes comuns.
Arthur já estava sendo trazido nos braços de um dos  rapazes, guarnecido por mais três.
A segurança naquele país era tão precária que as portas dos estabelecimentos comerciais grandes como aquele, não possuíam detectores de metais.



Claudia e Robert continuaram a conversa no carro em movimento através de  ruas secundárias da cidade. Arthur havia pegado no sono.

-Isso nada tem a ver com Noah, Claudia. Garanto isso a você. Ordenei uma averiguação. Há evidencias claras de que tudo tem ligação com traficantes de drogas daquela região.

-Mas...mas, meu irmão nunca mexeu com drogas , Robert. Isso é absurdo!

-Não. Mas se meteu com quem não devia. Acertou uma vendeta contra
dois apadrinhados de um “exu tranca rua“, como dizem aqui, Claudia. Um tal Zé Romão.
Robert pronunciou “Romáo“.
 -Foi isso, Claudia! Seu irmão Orestes conduziu uma vingança contra esses caras que queriam obrigá-lo a aliar-se ao tráfico. Matou três deles ao mesmo tempo, menina. Três!
Você e a esposa dele não sabiam disso? Ela não te falou nada?
Claudia  sinalizou negativamente a cabeça com olhos assustados ante aquele absurdo todo.
-Seu irmão pôs vocês em perigo, Claudia. Era uma questão de tempo.
Você e Arthur tinham armas apontadas contra vocês o tempo todo em que moraram com seu irmão vingativo!
A voz de Robert estremeceu ao dizer aquilo.
Claudia olhou para Arthur dormindo com a cabeça em seu colo.
Pediu para diminuir o frio do ar condicionado.

-Estávamos todos felizes...íamos mudar daquele bairro...Arthur iria ganhar um cachorro...

Claudia recordava-se de tudo como se tivesse sido um mero sonho.

-Claudia, você e Arthur vão ficar bem. Eu dou a garantia quanto a isso. Mas você e ele nunca mais terão vidas normais...Trata-se de vingança, Claudia. E isso não é esquecido tão facilmente.

-Então chegamos no ponto importante de nossa conversa, Robert.
Claudia segurou a mão dele como se buscasse forças para falar.
Mas demorou muito. Lhe custava enormemente articular as palavras.

-Fale, querida. Estou aqui. Fale o que acha importante me dizer?

-Eu não me preocupo se você vai me julgar ou não, Bob; mas o que me importa é a segurança de meu filho e a confiança que tenho em você.

A voz de Claudia embargava. E ela interrompeu-se por breves segundos:

- Desde que nos conhecemos eu vi o homem especial e bom que você é, Bob...O pai preocupado e amigo de seus filhos...
Ele tentou interrompe-la, mas ela continuou:
-A dedicação que tem com seus pais e tios.
Sua amizade inabalável com Rolland... A disciplina com o trabalho, com sua carreira.

- O que quer dizer Claudia? O que é isso?
Ela fixou-lhe seus olhos negros marejados, e Robert sentiu uma forte vontade de beijá-la. Não agüentava vê-la tão frágil e exposta. Queria abraçá-la, protegê-la. Ela prosseguiu:
-Você é notável, Robert! E nunca deixei de acreditar nisso!
O amor que dedicou a Lindsay, o levou até mesmo a arriscar a própria vida...Querido, desculpe se toquei nesse assunto, mas...
Robert sorriu com ar entre cético e divertido:
-Está tudo bem, Claudia. Não sei se concordo com tudo o que está dizendo mas não a impedirei de falar.
Pode tocar nesse assunto sim.
Ainda dói. Mas já acostumei. Quando olho para Helena sinto como se  nem tudo tivessem sido perdas nessa história...
Claudia, comoveu-se e não pode resistir. Abraçou-o demoradamente.
Ele correspondeu a isso  intensamente.
Afagou seus cabelos. Roçou delicadamente seus lábios nos dela.
Aquele calor do corpo dela o fez recordar tantas coisas...

-Fale, querida. O que tem guardado aí que não consegue me dizer, hein?

Ela sorriu suavemente em resposta.

-Arthur deve ficar com você, Robert.

As mãos de Robert apertaram tão forte os pulsos de Claudia que ela quase gemeu devido a dor.
Ele suspirou devagar e ficou examinando-a por um tempo considerável.
Claudia desviou o rosto e olhou o para cenário continuamente alterado através da janela do carro.
As lágrimas não queriam parar, mas isso fazia parte.

-Eu não sei o que vai acontecer comigo e já nem mesmo  sei se me importo, Robert.
Nem sei se voltarei a ter uma vida normal algum dia...Talvez precise de fisioterapia pelo resto da vida...Talvez até mesmo minha vida não vá prolongar-se muito.
Eu achei, eu acreditei sinceramente que poderia fazer tudo.
Que todas as portas se abririam.
Que as coisas seriam simples, até mesmo fáceis.
Não estou me queixando, não entenda assim.
Mas na verdade o que acho é que não tenho muita sorte. Não tenho mais muito o que ensinar a Arthur.
Não sou um exemplo muito bom. Diferente de você.

Arthur tem muito o que aprender com você, querido.
Sua alma é tão rica, tão forte. Por isso as pessoas te amam, sabia?
Você tem uma luz especial. É como se fosse abençoado; sei lá.
O que você toca resplandece.
Não sei o que viu em mim, mas eu agradeço por ter me dado Arthur.
Eu o trouxe até aqui.
Mas acho  que será melhor que a história dele fique nas suas mãos a partir de agora, Robert...

Arthur remexeu-se, e começou a acordar. Claudia sorriu para ele e brincou carinhosa saudando seu despertar. Robert assistia aquela cena com um misto de admiração e tristeza.
Olhou novamente  para Claudia e então teve uma certeza quanto ao papel dela em sua vida.
Ela viera para ele.
Suas vidas estavam ligadas e isso era simples e correto.
O desastre sobrevinha quando Claudia tentava de qualquer jeito modificar as coisas, subvertendo essa verdade pura.
Depois de ouvi-la  dizer tudo aquilo que considerou um absurdo, e dentro do mais contemplativo silencio de toda sua vida; Robert decidiu  a resposta que daria.
Mas não a daria agora. Esperaria pelo seu próprio momento.
Ordenou por telefone que fizessem um rastreamento preventivo na área e após receber um relato tranqüilizador, ordenou ao motorista que voltasse para a casa de Murilo Santos.
















terça-feira, 22 de maio de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 65


Após todas as garantias dadas por Murilo e por Claudia quanto a segurança de Arthur e além do reconhecimento por parte do menino dela como sua mãe diante de todos; finalmente o abrigo deu sua liberação.

Claudia assumiu o compromisso de providenciar toda  sua documentação o mais brevemente possível, pois tudo havia sido consumido no incêndio da casa.

Recém saída do hospital e ferida  Claudia recusara, determinadamente, a oferta de Robert para que ela e Arthur ficassem no hotel com ele.
Nem sequer o cumprimentou direito.

-Robert, eu gostaria que você compreendesse que eu e Arthur estamos de luto!

O olhar de Claudia para Robert era direto e sem qualquer vestígio da antiga admiração.
Ele procurou em vão na expressão e nos gestos dela algum sinal que lhe recordasse a jovem que conhecera cinco anos atrás.
Mas foi confrontado apenas por aquele olhar frio, de uma distância que o machucava.

Murilo começou por  ajudá-la a conduzir com dificuldade a cadeira de rodas pelo calçamento de pedras em frente a saída do abrigo.
Claudia contorcia o rosto de dor devido o sacolejar.
Robert estacou em sua frente obrigando-os a parar.

-O que quis  dizer  exatamente, Claudia? Desculpe. Acho que não entendi o tom que usou comigo agora a pouco! Acha que não sei o que você sofreu, Claudia? Acha que não ligo prá você?
Claudia grunhiu:
-Não importa.
Robert abaixou-se para mirá-La de perto:
-Hey! Um momento...como assim não importa? Não vou mais agüentar esses joguinhos, Claudia! 

Robert não queria brigar. Era uma das últimas coisas que queria no momento.
Vendo-a ali diante dele com o aspecto pálido, traumatizada pela dor e pela perda, queria era consolar, abraçar.
Mas as coisas não estavam indo conforme ele esperava.

Ela simplesmente lhe respondeu fria:
-Engraçado. 
Porque será que não me importo com o que você pensa ou espera, Robert?
Agora, por favor ! Estou muito cansada e não tenho tempo! E ainda preciso ajeitar as coisas para meu filho!

-Nosso! Nosso filho, Claudia. Arthur também é “meu filho“. 
Robert reforçou o pronome “meu”. Em seguida estendeu os braços para Arthur que jogou-se neles deitando a cabecinha em seu ombro.


-Eu e você precisaremos conversar, Claudia. Precisamos conversar muito. 

-Conversaremos. Através dos advogados!

Robert arregalou os olhos. O coração palpitou.
Uma raiva ressentida tomou conta dele. Mas não falou.
Sabia que se falasse pioraria as coisas.
Claudia estava ferida. No corpo e na alma. Tinha, de certa maneira, algum direito de reagir daquela forma.
Robert sabia não haver  um clima muito perfeito para conversa naquele momento.
Abraçou Arthur e se despediu.
Mas quando se encaminhava para o carro, Arthur correu até ele pedindo que ficasse.
-Fica comigo e com a mamãe, papai...Fica.
Robert não precisava entender o idioma literalmente. Compreendia o que o filho queria.
Olhou para Ana, que traduziu para o menino as palavras de seu pai:
-Amanhã vamos nos ver, Arthur e passaremos o dia inteiro juntos!

-Com a mamãe também?

O coração de Robert descompassou.

-Chamaremos a mamãe para vir junto com a gente, Arthur. 
Papai gosta dela.
Gosta muito de vocês dois. Quero cuidar de vocês, Arthur. Quero cuidar da mamãe também.
Robert vigiou para que ninguém além de Ana visse e entregou a Arthur seu próprio telefone celular.
-Guarde-o com você Arthur. É um segredo só nosso. Não mostre a ninguém! Não o perca! Ele vai dizer ao papai onde você está e  vai me levar até sua casa amanhã pra te visitar, tá bem?

-Tá!


Claudia e Arthur ficaram com Murilo na metade da casa que ele alugava no centro de Porto Alegre.
Murilo era pai de um menino mas não era casado e o garoto morava com os avós maternos.
Murilo trabalhava como decorador de ambientes e morava sozinho.
O trabalho, de que tanto gostava, lhe tirava o tempo para manter relacionamentos.
Logicamente que não estava preparado para receber sua irmã com uma criança, mas sabia que daria um jeito. Precisava dar.
Arthur estranhou o ambiente e permanecia muito quieto, agarrado a mamãe.


Murilo viu que precisaria providenciar muitas coisas; até mesmo roupas para os dois. Mas não tivera quase tempo. O máximo que conseguiu foi preparar um jantar e ajudar Claudia a lavar e secar os cabelos.
-Querida, seus remédios... É melhor tomá-los agora...

-Obrigada, Murilo...Desculpe todo esse transtorno...

-Meu amor, você ainda pede desculpas? Não tem que se desculpar... jamais pense em se desculpar...

Murilo abraçou-se a ela, esforçando-se para não chorar. Não queria  que Arthur ficasse impressionado.
O perfume de Murilo era bom, com uma fragrância delicada.

-Acho melhor ajudar você a deitar agora, irmãzinha. 
Vocês ficarão no quarto maior próximo ao banheiro, e se tiver qualquer urgência é só me chamar. Mas agora, venha. Vamos tomar os remédios...

Durante toda a noite Murilo vigiou-a. A vontade que tinha era a de poder colocar sua cama ao lado da cama de Claudia.
Qualquer barulho que ela fizesse, qualquer movimento o alertava.
Nunca tivera esse cuidado nem mesmo com seu próprio filho, mas isso se explicava porque nunca em sua vida imaginou que pudesse perder alguém. Nunca imaginou que uma tragédia pudesse abater os seus.
Quando perdeu a mãe era ainda pequeno e Claudia de alguma maneira supriu essa falta.
Orestes, também a seu modo o protegeu. Mas agora não tinha mais seu irmão e quase perdera Claudia também.
O que havia acontecido, Santo Deus? E que homem era aquele que agora aparecia dizendo-se pai de seu sobrinho ?
 Tantas coisas tumultuadas, tantas perguntas que queria fazer.






segunda-feira, 21 de maio de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 64.


Robert passou a tarde sentado em almofadas ao chão brincando com seu filho Arthur e com os outros meninos.
Puxaram de um cesto uma considerável quantidade de bonequinhos de heróis e Robert os ensinou a fazer mais bonecos com massinha de modelar. Aos poucos o sorriso ia surgindo no rosto de muitos daqueles garotos que viam  Robert como sendo uma espécie de homem de outro planeta, com sua risada alta contagiante e sua fala esquisita.
Virou cambota com eles, brincou de entrevistar sem que eles entendessem uma palavra do que ele dizia então caiam na risada e ele lhes aplicava muitas, mas muitas cócegas!
A maioria nunca conhecera seus próprios pais ou, os que conheceram, foram abandonados e esquecidos por eles.
Robert sabia disso.
E a tragédia dessa realidade o fazia ainda mais desesperado de amor por seus próprios filhos.
Lembrou do que certa vez Dóris dissera:

 “Se você tem filhos então deveria amar a todas as crianças como se fossem suas, não importando se são pretas, amarelas ou furta cor...”

Haviam crianças em situações mais tristes do que aquelas ali que conhecia agora.
Em alguns países asiáticos aplicavam penas de prisão e confinamento a meninos a partir de seis anos de idade apenas por serem pobres e órfãos...
Ter uma família, ter um lar era um privilégio que muitos jamais conheceram em suas vidas.
E...Deus! Como ter isso era vitalmente importante!

Os meninos teriam que deitar cedo conforme o regime de normas da instituição e Robert não poderia mais permanecer.
Esperava ansiosamente pela ligação de Ana e ela ligou  avisando-o que deveria aguardar com Arthur na sala da Secretaria.

Arthur não queria ir.
Não queria deixar seus novos amigos para trás.
A assistente lhe disse que poderia vir visitá-los quando quisesse e que haveria uma festa para todos os aniversariantes daquele mês e haveria muita música, seria instalado um parquinho, haveria Karaokê e que ele poderia vir se divertir também.
Mas agora ele deveria ir pois havia alguém esperando por ele e era alguém que ele amava muito!


***

-Mamã...MAMÃE!!!

Aquele momento para Claudia foi como se houvesse sido congelado.
Sua boca estremeceu e um soluço condoído rompeu-se de seu coração:

-Arthur!

Mãe e filho não viam mais nada ao redor. Apenas um ao outro!
As dores de Claudia foram para o espaço.
O medo que sentira, toda a tristeza por seu irmão e cunhada. Tudo distanciou-se no tempo como se tivesse ocorrido em outra vida. Como se não importasse mais.

-Arthur! Arthur! Arthur!

Arthur envolveu-se nos braços de Claudia aspirando seu perfume forte e profundamente. Queria sorvê-La, beijá-la, fazê-la caber em suas mãozinhas, pegá-la no colo...não perdê-la nunca mais.

Robert percebeu que aquele páreo jamais venceria.
Compreendeu humilde que o amor entre os dois tinha uma história consideravelmente mais poderosa do que a de sua recente relação com Arthur.
Era algo que lhe pareceu ter contornos místicos...
Robert se comoveu, assim como um jovem que permanecia em pé próximo a ela. Era um rapaz muito belo.
Robert notou os olhos. Eram iguais aos de Claudia.
Robert sentiu algo calidamente inesperado...

-Mamãe, olha o papai! 
Ele tá comigo, mamãe. Viu que ele veio ficar com a gente?

domingo, 20 de maio de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 63.


-VAMOS RÁPIDO, ROBERT! VAMOS RÁPIDO!
Ana não cabia em si.
Seu corpo tremia tanto pela ansiedade  que lutava contra si mesma para não saltar sobre Robert e abraçá-lo.
Mas mesmo assim acabou arrastando-o pela manga do blazer que esticou tanto que desprendeu parte da costura.
Ela quase o fez derrubar a cadeira em que estava no Hotel Plaza e por pouco não o fez quebrar um vaso de um aparador.


-Boas notícias, Ana?!!! Boas noticias?!!! Perguntava o gigante Michael Rolland com cara de bobo.
Ana tentou se recompor passando a mão pelo penteado desgrenhado:

-As melhores possíveis, as melhores possíveis! Senhor Mike! AS MELHORES POSSÌVEIS!


***


Em questão de horas foi revelado por agentes da polícia o paradeiro de Arthur.
Em uma unidade de abrigo da infância e juventude, há pouco mais de dois dias, dera entrada através da equipe do “Bonde da Cidadania” um menino proveniente da zona norte da cidade e com as mesmas características dele.
A informação fora levantada extra oficialmente por policiais amigos do chefe de segurança.
A dica da palavra “bonde” fora preciosa.
Levou a investigação direto para uma das turmas de agentes sociais lotadas na região!

No Brasil Robert Wolk mcKennan não era conhecido como era na Europa e países do norte da América, por isso sua  entrada só foi permitida no abrigo após detalhados esclarecimentos de Ana Dias  perante o diretor da instituição com a assinatura de um termo de responsabilidade por parte dela além da apresentação de toda a documentação do próprio Robert.

Mesmo assim Arthur só poderia sair quando localizassem sua mãe; pois ele não estava registrado no nome de Robert Wolk mcKennan; e o esperado era que ela obviamente detivesse a guarda.

Ana resolveu então movimentar-se utilizando as informações que já tinha sobre a internação de Claudia. Mike Rolland acompanhou-a pois sua entrada no abrigo, de qualquer modo, não foi permitida.

***

Robert foi admitido na sala de uma das oficinas recreativas.
Na amplidão fria, iluminada por grandes janelas que iam de uma ponta a outra e com vidraças protegidas por grades; um grupo de pelo menos oito meninos muito silenciosos modelava massinhas coloridas de plasticina.
Eram todos muito pequenos, com cabelos raspados e a maioria de pele morena ou negra.
Os olhos de Robert foram rápidos em identificar um dos mais altos entre eles. O único que estava de costas dedicando-se a fazer desenhos no bafo formado pela sua própria respiração na janela.
O coração de Robert acelerou e sua voz saiu esganiçada:
-ARTHUR! Arthur...
O menino não pareceu ouvi-lo. Nem sequer voltou-se. 
Mas sua mãozinha cessou imediatamente de tracejar.
Um olhar para a assistente e ela sinalizou consentindo que Robert se aproximasse ajoelhando-se ao lado do menino.
Fez com que o pequeno virasse o rosto para o seu.
O garoto tocou com sua pequena mãozinha a testa de Robert.
Desceu pelo maxilar parando em seus lábios.
Com um dolorido suspiro, Robert ajuntou a mão do menino com suas próprias mãos beijando-a; e num arranco puxou-o para si, abraçando-o fortemente!

Falou primeiramente em inglês, logo depois lembrando-se de falar em português, idioma que agora sabia que amava:

-É o papai, Arthur! Sou eu...eu vim!

Robert levantou-se tendo o menino no colo e preso fortemente  em seus braços.
Beijou-o sem parar.
Suas lágrimas e as do filho se misturavam.
Robert não queria feri-lo com sua barba por fazer.
Helena sempre reclamava quando ele a beijava e não a havia aparado.
Mas Arthur não parecia se importar.
 Beijou Robert inúmeras vezes na altura dos maxilares, na boca, no queixo, nas têmporas!
Seu coraçãozinho disparava acelerado de encontro ao peito de Robert.
Então aquele era o cheiro que tinha seu pai?
Sempre sonhara com papai.
Sonhava que o abraçava, mas nunca conseguia sentir seu cheiro.
E agora estava tão feliz porque ele cheirava como sua mamãe.
Mais forte, mas exatamente igual!
Afundou o rostinho no peito daquele homem infinitamente grande que amava: Era ali que seu cheiro era mais forte; dominante.

-Você trouxe a mamãe prá mim?

-Vai morar aqui, comigo? 

Robert entendeu alguma coisa sobre mamãe e sobre morar, mas não perfeitamente. E na euforia em que se encontrava apenas respondia rindo:
Yes! Yes...si...si!!!!!



***

sábado, 19 de maio de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 62.


Arthur ainda estava vivo, Robert sentia isso. Robert sabia disso.

-Contratei detetives, Rolland. Tenho a mais absoluta certeza de que logo encontraremos meu filho.

-Não era esse menino. Felizmente!


-Não, Rolland, não era...


-Eu sinceramente não entendo como você está conseguindo enfrentar isso, ermano. Eu estou...eu estou ficando doente...

-Meu irmão, Rolland. Isso tudo é demais prá você.  Ana não deveria ter te chamado.


-Mas como  eu poderia ficar lá do outro lado do mundo com essa história toda...

O gigante Mike Rolland fez um esforço enorme para suplantar o choro.


-Eu...eu não poderei ajudar ficando nesse estado, não é mesmo, ermano? 
Apesar de que agora... Agora já tenho mais esperança...


-Eu também tenho esperança, Rolland! Tenho sim!

Ana Dias tentava apagar a imagem daquele menino. Queria ser racional e fria mas sentia calafrios ao lembrar o que ouvira dele. O que ele lhe dissera!

Ao sair do cemitério ao lado de Michael Rolland e de Robert, que insistira em ir acompanhar aquela pobre mãe no sepultamento do filho, Ana tomou uma decisão.
Chamou o chefe de segurança de Robert:

-Isso é muito importante! 
Quero que coloque alguém de plantão naquele terreno onde o corpo desse menino foi encontrado. Mande levantar qualquer referência sobre um “bonde”! Qualquer referência mesmo. Assim que levantar qualquer coisa, me telefone imediatamente!

-Soube de mais alguma coisa que possa ajudar, senhorita Ana? Perguntou-lhe Rolland ao aproximar-se.

-Ainda não. Mas tenho um palpite muito forte de que estamos quase a ponto de encontrar seu sobrinho. Um palpite muito forte, senhor Rolland! 
Ana falara com um fervor de certeza que os olhos  de Mike  se iluminaram no mesmo momento. Robert sorriu jubilosamente.


sexta-feira, 18 de maio de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 61.


-...Mas, senhor Michael Rolland, o senhor teria como vir para Porto Alegre, eu diria; imediatamente, senhor? 
O senhor é a única pessoa que pode lidar com essa situação ...
...Sim! Eu sabia que diria isso, senhor. 
Sua amizade e a do senhor mcKennan é à prova de tudo, não é verdade? 
Sim...Sim, senhor. Estamos bastante preocupados. 
De verdade, senhor: Quanto mais rápido puder vir, será melhor...
Certo...Certo...O Legacy já estará abastecido e a caminho da Escócia para trazê-lo, senhor...

Ana Clara Dias além de tradutora e intérprete já desempenhara funções como chefe de protocolo do consulado britânico em São Paulo.
Hoje, através de sua própria agencia de consultoria internacional encontrava-se a serviço integral de um de seus maiores clientes; a rede de hotéis Saint Andreas Towers da qual o renomado ator e diretor Robert Wolk mcKennan era sócio majoritário.

Seu faro diplomático lhe avisava da importância de manter sigilo quanto aos últimos acontecimentos relacionados a seu cliente.
A imagem do empreendimento hoteleiro poderia sofrer arranhões por conta do destaque midiático lapidado pelo próprio ator Robert Wolk mcKennan.

Sua fama estava demonstrando ser uma faca de dois gumes.
Já achava totalmente fora de propósito o fato de Robert falar abertamente a respeito de um filho seu concebido fora do casamento!
Imagine-se agora o abalo histórico com aquela notícia sobre uma trágica chacina!
Os corpos de um homem adulto e  de uma mulher haviam sido encontrados calcinados no local.
E até agora não se sabia o paradeiro do filho de Robert!
Michael Rolland tinha de ajudá-la com todo aquele caos.
Aquilo tudo era responsabilidade demais  para ela.
Ele era o braço direito de Robert. As decisões dele seriam as menos criticadas.

Mantinha-se de sentinela na sala ao lado do quarto de uma conceituada clínica de repouso em que o ator Robert mcKennan era mantido, a muito custo, sedado.
Esperava ansiosamente que suas investigações obtivessem resultado pelo menos até a chegada de Michael Rolland.

***

Ana transformou provisóriamente a sala de acompanhante daquela clínica em seu próprio escritório e ali mesmo recebia agora a visita do segurança:

-Dona Ana, como eu lhe disse, levantei toda a história com alguns colegas da polícia civil.
Houve mesmo uma chacina, mas parece ter havido uma sobrevivente!

-O que acabou de dizer, rapaz?

-A mulher, senhora! A mulher está hospitalizada!

-Você está falando de July ou de Claudia?

-É Claudia. Claudia Santos, senhora. Estava sem documentos, mas disse o próprio nome.
Ela foi encontrada a uma curta distância do local do incêndio. 
Em meio a um descampado. 
Foi baleada nas costas e apresentava um ferimento na cabeça. 

-Santo Deus, rapaz! Que monstruosidade!
 Mas e quanto a criança? Queremos saber do menino...
O homem acenou negativamente com a cabeça e
Ana foi interrompida pelo toque de seu próprio celular:

-Ah! Oi...Que bom! Que bom que ligou, querida... Não, não tenha medo. Fique tranqüila. Pode pegar um taxi e vir até aqui?...  
Não, não se preocupe com isso, querida! A corrida é por nossa conta! 
Direi o endereço...

***

-Não queriam me deixar entrar aqui, madame.

-Desculpe, querida. Não leve a mal. Isso é assim por ser um local muito seguro. 
Você agora está na mais perfeita segurança estando aqui conosco.  
Não deve ter medo de nada, está certo? 
Fez muito bem em vir. Muito bem.

-Sabe, madame não tem nada prá comer não? Não tive tempo de trazer nada de casa...

-Já, já você vai poder comer, querida...sabe, agora preciso que me diga algumas coisas, você sabe...sobre aquela noite...

-A senhora quer saber sobre os justiceiro!

-Na verdade, querida. O que preciso saber é quando foi a última vez que seu filho brincou com Arthur...

-Com o Arthurzinho?

-Sim, meu bem. Com o “Arthurzinho”.


-Eles sempre brincava junto. O meu guri gostava daquele trem que ele tinha.

-O trem era do Arthur, não era?

-Era sim, senhora.

-Então. Veja bem: O que quero saber é como o trenzinho acabou ficando com o seu filho se era do “Arthurzinho”...

-A senhora quer dizer que acha que o meu filho roubou?

-Não. Você não entendeu, querida. O que quero saber é onde estava o “Arthurzinho”, quando emprestou o trenzinho para seu filho. 
Sabe? Qual foi o lugar em que brincaram juntos pela última vez?

-A última vez foi lá no...no campinho...foi lá que...

-Sim, querida.

-Eu não tenho mais meu menino, né dona? Sabe como é...foi lá no campinho que eles atiraram...

-Atiraram...

-Foi lá que encontrei meu menino abraçado...abraçado com aquele brinquedinho do “Arthurzinho”...o brinquedo que ele gostava tanto...

-Você está um pouco confusa, querida. É compreensível. 
Você quer dizer que viu... Arthur caído abraçado ao brinquedo, é isso o que quer dizer não é, querida?

-O Arthur não tava lá, dona. Não sei que fim levou...mas acho que ele quis deixar o trem de lembrança pro meu filhinho...

-Calma, não chore...não...
Um momento, querida. 
Vi seu menino com você hoje a tarde e ele segurava o brinquedo do Arthur! Todos nós vimos...esta brincadeira está sendo cruel! 
Acho que é melhor você voltar para sua casa! 

-Mas ele sempre tá comigo, dona...
Sabe, dona? A senhora falou que ia me dar dinheiro. E eu preciso, sabe? 
Porque senão não posso sepulta o menino. Ele tá lá que nem indigente...

-Ele está lá... “onde“? Onde você disse mesmo que ele está? 


-ONDE? ONDE ELE ESTÁ? 

Robert irrompera pela porta da sala de espera arrastando tudo pela frente. Quase caía devido a dose cavalar de sedativos.
-Robert, por favor você precisa repousar! Vai cair!

-Preciso...preciso... é ver esse menino! Preciso vê-lo com...meus próprios olhos!
Desabou enfraquecido no assoalho.
Sua cabeça rodava muito, mas precisava levantar...
O segurança voltou rapidamente para a sala e o ajudou.
Ana ficou temerosa que pudesse ter se ferido.
-Robert!
Conseguiram sentá-lo em uma das poltronas.
Fez com que o segurança o ajudasse a se vestir. Impediu que a enfermeira o tocasse.

-Mas senhor mcKennan. Tomou uma dosagem de remédios muito alta. Por favor, precisamos monitorá-lo!


-Eu estou perfeitamente bem! Vamos! Vamos, logo Ana. Vamos junto com essa senhora. 
Quero ver essa criança com meus próprios olhos!

***

Robert nunca em sua vida estivera preparado para uma cena como aquela.
Entraram na miserável moradia daquela mulher que mais assemelhava-se a uma tapera.
Uma pobreza extrema que ele jamais vira antes.
O corpo do pequeno jazia sobre uma mesa na cozinha.
Ana recusou-se a entrar.Tremia de frio. Palpitava de medo.
Eram já sete horas da noite e dentro de duas horas seria decretado o toque de recolher pelos traficantes.
Robert exigiu que lhe trouxessem uma forte lanterna de dentro do carro. Apontou-a para o rosto do pequeno; cabelos castanho claro e lisos...
Aquele menino...aquele era o menino que vira pela manhã portando o trenzinho de seu filho...
Próximo a sua clavícula, do lado esquerdo, num tom escurecido, uma perfuração de bala.
Robert, com delicadeza, manipulou sua cabeçinha.
Em meio aos cabelos, numa massa compacta de sangue coagulado, Robert encontrou mais uma perfuração feita por arma de fogo.

-Ele foi no lugar do Arthur...foi, né doutor? O senhor não entende o que eu falo, mas a minha dor o senhor entende...


Robert sabia que as palavras da mulher em meio a toda a dor se dirigiam a ele.
Abraçou aquela pobre mãe dilacerada.
Aquela mulher era o ser humano mais sozinho que já vira em toda a sua vida. Robert não duvidava; tudo o que ela tinha era aquele filho.
E era por isso que o espírito do menino a acompanhava.
Compreendeu que estando num estado de grande comoção pode vê-lo, assim como Ana também o viu e inclusive falou com ele.

-Ficarei aqui essa noite. Vocês todos podem ir embora.

-Robert...

-Não vou deixar essa coitada aqui sozinha velando o próprio filho, Ana! 
Amanhã mande vir um carro funerário. Pagarei pelas despesas.

-Robert, precisamos ir embora daqui...

-Você vai, Ana. Já fez muito por mim hoje!

-Não. Eu também ficarei. Se você sabe ser cabeça dura, eu também posso ser.

-Como quiser, Ana! Como quiser...

Tudo o que aquela pobre mãe queria era poder sepultar o filho dignamente.
Não esperava por justiça, porque já sabia que justiça era uma questão de dinheiro. Uma coisa que ela não tinha.
Amava aquele belo senhor de fala estrangeira, pois de alguma forma ele lhe lembrava Arthurzinho.
Arthurzinho era o único menino da vila que não maltratara seu filho.
 Ambos gostavam de cachorros e desenhavam juntos.
Arthurzinho sempre compartilhava com ele seus próprios brinquedos e o convidava para lanchar.
Sua mãe nunca teve medo de trazê-lo para brincar naquela casa pobre sua e de seu filho, para a qual a maioria dos vizinhos virava o rosto quando passava.

-Doutor, quero lhe entregar isso...
A mulher depositou nas mãos de Robert o vagãozinho de brinquedo de Arthur.
Um soluço fundo o atravessou. Densas lágrimas rolaram pelo seu rosto.


quinta-feira, 17 de maio de 2012

A Ópera de robert mcKennan. 60.


O ataque ocorrera por volta das quatro horas da mahã.
Um grupo de homens armados cercou a casa de Orestes com a finalidade de acertar as contas definitivamente.
As ordens: não deixar ninguém vivo.
A  punição deveria ser exemplar.
Em troca das pedras que não podia pagar, um mísero usuário relatou ao chefe do tráfico na região como  verdadeiramente se passaram as coisas na extinta oficina do “chapista“.

Ele próprio conversara com o primeiro dos “manos” antes que este entrasse na oficina!
Ficara esperando do lado de fora pela chegada dos outros dois com o primeiro fornecimento do dia.
Então tudo aconteceu rápido:
Orestes usou um gancho de guindaste para executar o rapaz e ainda por cima debochara!
Não quis esperar para assistir mais.
Fugiu o mais rápido que pode.
Não sabia o que dizer a respeito dos outros dois caras.
Mas para o chefe, aquele testemunho era suficiente.
Não precisava que a história de que um de seus homens fora morto numa armadilha feita por um simples chapista se espalhasse e menos ainda a suspeita de que seus dois afilhados desaparecidos, tivessem tido destino semelhante.
Seria olho por olho!

Claudia ouvira sua cunhada chamando-a para jantar e em seguida o forte barulho da porta da entrada sendo colocada abaixo.
Claudia espiou através da porta do quarto de seu filho para a sala e seu sangue gelou:

Orestes era espancado como um animal sem dono, enquanto Julia tinha suas roupas rasgadas e começava a sofrer abuso diante dele.
Claudia não viu seu irmão Orestes, em prantos, tendo o corpo banhado dos pés a cabeça de combustível, pois correu aflita até Arthur.

Comprimiu a boquinha do filho com as mãos e o fez  pular pela janela.
Ela pulou em seguida e começou a correr com ele nos braços.
Mas como não tinha forças, teve de deixá-lo descer incitando-o a correr o mais que podia.

Ela temia que se fosse pelo mesmo caminho que Arthur, aqueles capangas mandados por Noah o perseguissem e...

-Arthur vá para o campinho! Esconda-se lá! Prometo que vou te encontrar! Não! Não! Não! Não volte, Arthur! Não...
Mamãe está pedindo. Por favor não volte! É muito perigoso, querido! 
Eu juro que vou te encontrar lá! 
Não! Não tenha medo, querido! 
Espere lá pela mamãe! Eu juro...vai! Eu vou encontrar você lá ! 
Depressa Arthur! Isso! Depressa! Vá!

A noite vasta! A rua deserta pelo o toque de recolher decretado!
O medo por sua mamãe!
A incompreensão!
Tudo isso afligia o coraçãozinho de Arthur naquela rota de fuga para uma coisa maior do que qualquer coisa que já tinha visto:
O desconhecido...
Ouvia distante o latido desatinado dos cachorros da vizinhança.
Sirenes estridentes.
O som forte de motores de caminhão passando pela estrada perto dali lhe dava sobressaltos. Mantinha-se longe do caminho de qualquer pessoa que visse, mas haviam poucas aquela hora. Alguns grupos barulhentos nas esquinas. Mas o menino conseguiu evitá-los.
 Vislumbrou na escuridão malvada a fraca luminária do poste sobre o campinho de futebol, onde tantas vezes brincara.
Era lá que encontraria sua mamãe? Era lá que ela dissera para esperar!

Ao despertar pela manhã enroladinho em uma macega constatou que tudo era mais apavorante ainda do que lhe parecera antes:
Sua mamãe não viera pegá-lo...
Onde ela estava? Onde?
As lágrimas não tinham fim.

Custou a acalmar o choro.
Era dia claro. Já poderia voltar prá sua casa.
Agora já podia enxergar as casas próximas a sua rua.
Seus tios e sua mãe deveriam estar lá em casa, esperando por ele.
Tinha que ir!
Aquela hora muitos meninos começavam a passar com sua mochilas rumo ao colégio estadual, próximo dali.
Enxergou uns grandes dos quais tinha medo.
Resolveu esconder-se deles.
Estes ficaram um tempo parados na esquina fazendo algazarra, rindo, cuspindo no chão e distribuindo cascudos nos menores que passavam.
Arthur ouviu um barulho próximo a macega em que se escondera.
Seu melhor amiguinho viera ali para fazer xixi.
Quando se viram riram a mais não poder.
Arthur, naquele breve momento, esquecia o terror da noite passada.
Assim são os pequenos...
Seu amiguinho estava indo para a escola mas não entendia porque Arthur estava ali no campinho todo enlameado e vestindo um pijama.
Mas isso não importava. Lembrou que trazia na mochila o pão da mamãe e o deu a ele.
Havia também uma bola e o trenzinho que o próprio Arthur havia lhe emprestado.
Ficaria ali com ele.
-Tem gente grande e feia aqui perto, Arthurzinho!  Mas não fica com medo. 
Eu cuido de ti!

-Minha mamãe disse que vinha me buscar...

-Vamos, eu procuro ela contigo...
Ah, não! A bola! 
Busca ela rápido Arthurzinho, antes que os grandes vejam! Busca lá! 
Deixa que eu vou lá chamar tua mamãe prá ti, tá?

-Tá!

O menino espiou para os lados para ver se os garotos grandes não estavam por perto.
Atravessou, então o campinho tendo nas mãos o trenzinho de Arthur.
A meio caminho teve um encontro terrível...

Arthur se aproximava da margem do laguinho para resgatar a bola de seu amigo mas teve seu braço aprisionado por alguém bem maior que ele.

-Oi, Guri! O que tu faz ai sozinho?

Um assistente social com credencial do “Bonde da Cidadania” que fazia a ronda no bairro aquele dia vira Arthur de longe e não o tirou mais da mira.

-Onde estão os teus pais, carinha? Onde tá a tua mãe?

-Papai... tá dentro da televisão! E a mamãe já vem me buscar...

O agente examinou-o dos pés a cabeça.
Aquela criança imunda rolando por ali aquela hora, não passava de mais um menino de rua abandonado.
Sempre contavam mentiras fantasiosas como aquela.
Aquele ali deveria ter uns seis ou sete anos. Mas pelo menos tinha melhores chances de ser adotado do que os outros do abrigo. Certamente...
Aquele bairro era perigoso. Ouvira a pouco, claramente, dois disparos de arma de fogo perto dali!
E além disso, aquele menino pequeno poderia facilmente se acidentar  naquele lago...

-Qual é o teu nome, carinha?

-Arthur.

-Arthur, tu tá vendo aquela moça ali dentro daquela van? 
Ela trouxe um montão de chocolate e biscoitos prá ti e para os outros meninos que estão lá. Tu quer ir ali falar com ela?









A Ópera de Robert mcKennan. 59.


“...Arthur! Arthur, corra! 
Corra parra longe o mais rápido que puder! Vá para o campinho, Arthur!
A mamãe já vai te encontrar  lá! Corra!”

-ARTHUR!

-Oh!, vê se não grita aí dona, tem outros doentes aqui nesse quarto também! 
Era só o que faltava agora!

Lágrimas e delírio. “Arthur...Arthur...meu filho, corra! Corra querido!”

Claudia sentia-se voltando de um pesadelo real.
Dor de cabeça torturante. Dificuldade para respirar. Sobretudo medo, muito, muito medo.
Precisava desesperadamente de ajuda. Precisava conseguir se mover! Mas era impossível. Suas pernas pareciam simplesmente travadas.

-Por favor! Por favor alguém me ajude...por favor...

-Calma aí viu, moça. Calma que vou chamar a muié. Tá? A “nurse”! Sacou?
“Pobre dessa diaba aí. Tá sozinha! Grita qui é uma infeliz. Não consigo pregá o olho faz três noite, desde que ela chegou...”

***

Um vulto branco encorpado aproximou-se do leito de Claudia. Ela estremeceu.
-Hey, moça! Calma. Tá tudo bem. É só uma injeção prá dormir.
Sua pressão está quase normalizando. Nem sinal de febre. Vou aproveitar prá já trocar esses seus curativos...Gaby, me ajuda aqui, por gentileza?

A agonia de Claudia não podia ser sanada com remédios. Ainda mais agora em que começava a recordar-se de tudo e temia por sua vida!
Se absteria de fazer perguntas. Sabia que não deveria confiar em ninguém.
Se pelo menos suas pernas obedecessem! Poderia levantar-se e sair sorrateiramente, sem que ninguém a visse e ir ao encontro de seu filho ...

Ouviu mais uma vez a porta sendo aberta. Todos os seus instintos ficaram alertas.
Alguém aproximava-se dela.

Um homem de cabelos negros e olhos iguais aos seus, que custaram muito a encará-la começou a resmungar:

-Mana, agora só restamos nós dois...só nós dois...

Aquele homem com cara de bebê que se esvaia em prantos diante dela era seu irmão mais novo Murilo.
O que Murilo estava fazendo ali, Santo Deus?
 Aquilo não era bom sinal!
-Murilo, Murilo, por favor...me escute...chegue mais perto. Não posso falar alto. Murilo você precisa buscar o Arthur...depressa, Murilo!Saia daqui e chame Orestes ele irá com você! Arthur está escondido naquele campo de várzea perto da escola...vá rápido, antes que Noah o encontre! Depressa Murilo...depressa...

Sua irmã estava delirando. Mas isso era esperado. A pobre não poderia encarar a verdade do que havia ocorrido ou ficaria louca. Na verdade achava que a pobre Claudia já estivesse ficando.
Então ela não sabia?
Todos estavam mortos! Somente ela sobrevivera!
Disseram que Orestes havia se metido com quem não deveria ter se metido e o preço acabou sendo pago por ele além da própria mulher e de seu sobrinho inocente!
Murilo não sabia o que lhe responder. Simplesmente não sabia.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A Ópera de Robert mcKennan.58.


-Ele falou de um “bonde“...mas não sei o que seria esse “bonde” , Robert.
Ele é muito pequeno e está assustado!


-“Bonde“?


-Vou tentar conseguir mais informações, Robert.


-“Bonde“? 
Mas o que isso quer dizer, Ana? 
Onde está a mãe desse menino?


-Acho que é aquela mulher. Vê? O menino agora pegou sua mão...
Vou dizer que você quer falar com eles...

O segurança aproximou-se. Estava muito ansioso:
-Senhor, falei com um amigo policial pelo telefone! Infelizmente as notícias não são muito boas...


- ...???


-É melhor sairmos daqui o quanto antes, senhor! Essa é uma região de tráfico e você pode estar correndo perigo...


-FALE! Fale logo o que houve! ONDE ESTÁ MEU FILHO? 

-Senhor, devemos sair daqui e depressa!


-FALE LOGO!



-O que houve aqui foi...foi uma...UMA CHACINA, senhor!

O segurança foi muito atento ao impedir que Robert caísse  quando terminou de ouvir suas palavras.

Sua intérprete  aproximou-se correndo ao ver a cena. Voltou aflita da conversa que recém tivera com a mãe daquele menino:
- ROBERT! Robert, o que houve? 
Robert parecia não escutá-la.
Os instintos a alertavam de que era melhor irem embora o quanto antes. Robert  precisava de cuidados médicos. Estava catatônico.

Ana conseguira, minutos atrás, chegar até a mãe do menino e convencê-la a ficar com um cartão seu.
A mulher olhara para os lados hesitante não querendo falar.
Ana lhe prometeu uma boa recompensa em dinheiro se mantivesse sigilo e ligasse com qualquer informação para o número naquele cartão.

-Vejo que tem medo de falar, querida. Parece mesmo, muito, muito amedrontada. Alguma coisa feia aconteceu por aqui, não é mesmo? Mas meu cliente é um homem muito rico e generoso  e pode ajudá-la. Se  seu filhinho viu alguma coisa; se teve contato com Arthur e com a mamãezinha dele chamada Claudia, peço que a senhora nos conte. Mas não precisa ser agora, se não quiser...ligue depois... 

Depois disso o medo pelo que pudesse ter acontecido a  Robert...
Os seguranças a jogaram por cima dele para o fundo do carro blindado cerrando imediatamente as portas por dentro.
O motorista, por sua vez,  forçou habilmente a passagem  pelo meio da multidão que se avolumava.



A Ópera de Robe.rt mcKennan. 57.


Com aquela informação em mãos os passos seguintes não foram difíceis para Robert.
Sua tradutora, deu um telefonema citando Claudia e dizendo simplesmente que o pai de seu filho Arthur estava na cidade para vê-lo mas que perdera o endereço.
A secretária da escola lhe deu os telefones e o endereços da casa e da escolinha de Arthur com a maior cortesia do mundo!
Robert não coube em si.
Conseguira abalar a barreira que Claudia propositalmente colocara entre eles!
Ele a veria, depois de tanto tempo? Ela o veria?
Quando acontecesse esse encontro como reagiriam estando frente a frente?

Ela estava tentadoramente linda quando ele a viu pela webcam através do perfil de Mike Rolland. Mas ela reagira bloqueando-o.
Seria ainda por medo?
Para ele aquilo fora muito frustrante.
Não se conformava com a atitude dela.
Será que Claudia teria algum motivo em especial?
Tal como um marido ou um namorado?!
Pensar isso lhe gerou um doloroso frio no estomago. Suas mãos crisparam.
Não agüentaria nem mesmo sonhar.

Ligaram para a casa, mas foi em vão. O telefone parecia desligado.
Tentaram a seguir entrar em contato através da escolinha do menino.
E a resposta que tiveram foi preocupante:

Arthur não comparecia lá há pelo menos três dias!

Havia alguma coisa errada.
Robert  desistiu de esperar no saguão do Plaza e resolveu que iria pessoalmente até o endereço da casa.
Deixou um recado na recepção para que ligassem para seu celular caso trouxessem seu filho e houvesse um  desencontro.

Ordenou ao  motorista que acelerasse. Não queria perder nem mais um minuto.

***


-Diga a ele  que posso recompensá-lo muito bem se me der a informação de que preciso, Ana! 

Robert estava parado diante do endereço da casa de Claudia na zona norte de Porto Alegre e seu coração queria saltar pela boca.

A casa estava completamente calcinada!

Aquilo não podia ser verdade...


-Como assim, não sabe? Alguém aqui tem de saber alguma coisa! O que há com essa gente? ONDE ESTÁ MEU FILHO? ONDE ESTÁ ARTHUR? Traduza logo para esse idiota, Ana! 
As pessoas daqui são loucas? Como assim, “não sabem de nada?”

Robert sentado no meio fio da calçada com a cabeça baixa lutando para não entrar em desespero, mas já entrando, era uma figura digna de  pena.
Aquele bairro aviltante; sem calçamento, com fiação elétrica caótica, animais abandonados andarilhando em meio a via pública, lhe fazia recordar a pobreza e devastação da própria África.
Como Claudia teve a coragem de deixar a Escócia para vir morar num lugar como aquele, ainda mais com uma criança?!!!
Como teve coragem de vir criar seu filho num lugar como aquele?
Guria inconseqüente! Irresponsável!

A  presença de Robert, a de seus seguranças e intérprete, começou a provocar a curiosidade das pessoas da rua.
Em pouco tempo havia uma pequena multidão a sua volta.
Um dos seguranças contratados, falando num inglês impecável, aconselhou-o a esperar no carro.

- Senhor, se me permite, não adiantará muita coisa ficar aqui e se expor assim.
Tenho conhecidos na polícia local. Posso tentar obter mais informações. Se permitir, posso fazer alguns telefonemas...

-Pois, faça! Essa é a primeira conversa sensata que escuto hoje... 
Robert tinha uma enorme vontade de chorar ao olhar para aquela casa queimada.
Mas não deixaria que o desespero tomasse conta. Não enquanto não soubesse exatamente o que havia acontecido.
Seu olhar perdido vislumbrou um menino portando um objeto que lhe chamou a atenção. Era idêntico a um vagão de brinquedo que Arthur lhe mostrara dias antes através da webcam.
-Pergunte...pergunte aquele menino onde ele conseguiu aquele brinquedo, Ana!

sábado, 12 de maio de 2012

a Ópera de Robert mcKennan. 56.


Robert não podia negar para si mesmo:
Seu  coração batia com a mesma expectativa ansiosa do coração de uma criança diante dos presentes de natal.
Ele veio por Arthur.
Iria conhecer seu filho.

A aeronave agora pousava em solo gaúcho.
Aterrissagem perfeita. Robert sentiu-se bem...
Não deveria esquecer-se de cumprimentar o piloto.
Esse era um novo privilégio; ter a sua disposição um jato intercontinental exclusivo com uma tripulação a seu inteiro serviço.

Ser majoritário na rede de hotéis Saint Andreas Towers lhe outorgava além de outros privilégios, a possibilidade de realizar visitas a potenciais investidores em qualquer país do ocidente.
 Passou primeiramente por São Paulo, onde foi recebido por cinco de porte respeitável e com os quais, em questão de horas, fechara um acordo que renderia soberbamente.
Seu velho charme irresistível fora decisivo. Sabia muito bem disso.
Sorriu satisfeito para si mesmo.

Mas o motivo que o enlevava e que lhe trazia um entusiasmo genuíno para tudo em sua vida a partir de então se encontrava na capital gaúcha de Porto Alegre.
No sul daquele país até então igualmente desconhecido.
Seu precioso e pequeno filho Arthur.

Falara com ele através da rede, ou melhor, tentara falar.
Arthur não compreendia perfeitamente bem o idioma inglês e Robert mau entendia o português; tinha noções melhores do italiano que era fracamente semelhante. Mas aquele contato o realizara.
Utilizaram a chamada de vídeo pela primeira vez e Robert ficou maravilhado ao contemplar o rosto do filho.
O menino gesticulava e lhe mandava beijos, beijando a tela muitas e muitas vezes, gesto que Robert imitou desajeitado e com olhos marejados.
A linguagem do afeto não requeria tradutores.

-Arthur, meu nome é Robert. Sou seu pai. Amo você Arthur. Em breve vou te visitar! Você quer vir morar na Escócia comigo?

O garoto ria muito. Achava engraçadas as palavras ininteligíveis do pai. Achou a maneira de Robert falar semelhante a dos heróis de desenhos e vídeo games que conhecia. Mas não entendia quase nada!
Resolveu cantar uma canção. Uma em inglês que havia aprendido na escolinha:

 “  ...You say yes,
 I say no...
you  say good bye, 
And I say hello. 
Hello, hello...” 

E Robert cantou com ele, emocionado, aquela antiga canção dos Beatles.

Decidiu que em breve ensinaria ao menino algumas canções escocesas também. As mesmas que seu pai e seu avô cantavam!
“Bonnie Doon“, “The Lea Rig“, “Charlie is ma Darling” ...
Lhe ensinaria o próprio idioma escocês! Isso seria fundamental!
Não conseguia conter mais a vontade que tinha de abraçar o filho.
Chegava a sentir dor no peito.

Notava que Claudia NUNCA estava junto do menino quando se falavam.
Isso o levou a tecer suspeitas...
Uma mulher de rosto redondo e cabelos avermelhados que se apresentara como July ou Julian colocava Arthur em frente a tela.
Seu inglês era cômico mas ela conseguiu dizer-lhe, em meio a muitas pausas e gaguejos, ser cunhada de Claudia.
Mas não respondeu a nenhuma pergunta de Robert.
Parecia ou fingia não entendê-lo.
Todas as vezes em que Robert falara com Arthur era ela quem intermediara seu contato.
Nem sinal de Claudia.


-Você tentou reaproximar-se e ela fugiu? É uma pena. Eu pessoalmente acho que seria bem melhor se vocês pudessem conversar. Porem, ela já havia me  antecipado que desejava fazer tudo através dos advogados.
 E você sabia, disso!

-É isso o que não entendo. Porque ela se recusa a falar comigo? Sempre vem através de advogados, através do irmão, da cunhada...de você!

-Se você preferir, deixarei de tentar falar com ela também...

-Não! Não se trata disso! É bom ter você como alguém próximo a mim em contato com ela. Devemos abrir os canais, não fechá-los. Apenas acho que falar através de outros é impessoal e frio. 
E mais essa agora de me fazer esperar no hotel até que alguém dela traga meu filho até mim! 
Isso está me deixando impaciente, Casca! Vou explodir!   

-Bem. Paciência nunca foi mesmo seu forte, não é mesmo, hermano Robert?

-Tem toda a razão. E sabe o que mais? Já me decidi.

-Decidiu? Decidiu o que?


-Vou encontrá-la! A ela  e a meu filho! Vou achá-la, nem que tenha que pôr essa cidade abaixo! O que ela pensa? Que vai conseguir se esconder de mim?

-Não se precipite novamente. Calma-te, hermano...


-Arthur já deveria estar aqui há pelo menos três horas, Casca! E até agora nada! Diga que você conseguiu o endereço dela!

-Não.Tudo o que tenho é o contato eletrônico. É como nos falávamos. Bem, isso há cinco dias... Ela foi cuidadosa. E além do mais depois daquela que você aprontou, não consegui mais entrar em contato! 

-Ah...aquilo...foi engraçado...Tentei me passar por você, e ela quase não percebeu...

-Mas tomou um choque grande quando você ligou a webcam. 
Não foi, seu cabeçudo?

-Foi.  
E no fim me odiei por ter feito isso. Quebrou completamente a confiança. Ela me bloqueou na mesma hora!

-Sabe o que eu acho? Acho que podemos ter arruinado tudo, hermano. Claro que foi exatamente por essa sua atitude que ela não respondeu mais as minhas chamadas.

-É. Tem razão. Mas por alguns minutos eu a vi. Sem que ela me visse. 
E ela...ela...

-Sei.

-É.

-Você não pode esquecer que da última vez em que se falaram...

-Eu sei, eu sei,Casca...

-Ela deve ter um pouco de...medo de você. Não?

-Mas eu só quero conversar!

-Somente conversar, hermano?

-Não vem tirar onda, Casca! Não vou mentir...você sabe que ela ainda mexe com minha cabeça e...

-E?

-Isso é um assunto meu, Casca. Meu e dela...Acho que de Carol também.



-Isso vocês resolvem. Se é que conseguem...
Mas; como eu dizia; aconselho você a ter um pouco mais de paciência, hermano!

-Mas se eu continuar aqui nesse saguão de hotel ficarei doido, Casca!

-Mas como pretende encontrá-la, hombre?

-Eu...
Casca! Lembrei de uma coisa!

-De que?

-Você mencionou que ela ministrava aulas, não é mesmo?

-É sim. Leciona  História da Arte. 

-E?

-Tem razão, hermano! Ela descuidou e acabou falando. Não pôde evitar. Tinha um nome católico, foi o que a levou a gracejar comigo...

-Então ela disse a você o nome da instituição...

-Sim! Disse sim!

-E qual é?

-Ora, é simplesmente: 
“Colégio Nossa Senhora da Consolação“...

-Aguarde na linha, Casca! Depois soletre para mim!  Mandarei anotar esse nome!