terça-feira, 24 de abril de 2012

A Opera de Robert mckennan. 46


A vida por um momento pareceu suspensa.
A destruição da oficina, estranhamente, não parecera exercer nenhuma contrariedade em Orestes. O que Julia achava  muito estranho, mas que logo deixou de preocupá-la, quando viu seu marido finalmente voltando a sorrir e a brincar com Arthur.
Voltando a ser seu amor Orestes!

Orestes recebera um bom dinheiro por conta do seguro de seu empreendimento perdido e não cabia em si. Tudo o que queria na vida agora era desfrutá-la com sua esposa, irmã e sobrinho.

-Sabe, Claudia. Estou de olho em um terreno em Vila Nova.

-Não me diga Orestes! E de onde veio essa idéia?

-Da vontade de viver uma vida rural. 
Vila Nova! 
Você vive no campo estando a poucos quilômetros da cidade! Isso é viver de verdade!

Orestes falava disso a Claudia como se fosse em um anúncio de TV.

Vila Nova ficava praticamente dentro de Porto Alegre que era uma metrópole, mas era um bairro absolutamente rural; o que era incrível.
-Não conheço Vila Nova, mas tenho uma aluna que mora por lá.
Seus pais são viticultores.
Os olhos de Orestes brilhavam mirando ao longe, como se sorrissem, nem prestara atenção ao comentário da irmã.
-Pretendo viver, Claudia. E quero que você e meu sobrinho venham com a gente. A vida passa rápido, não quero adiar nossa felicidade.
-E eu aceito o convite, Orestes. Claudia sentiu- se contagiada com a felicidade do irmão. Há muito não o via assim.
-Sabe, mano estou muito feliz por tê-lo de volta.
Orestes segurou suas mãos:
-E eu estou feliz por você ter gerado meu sobrinho, Claudia. Esse é o melhor presente de todos.
Recordou que sua esposa Julia não conseguia engravidar e que o fato de morarem num bairro com uma localização insegura não favorecia de qualquer maneira a educação de um filho.
Mas a partir de agora as coisas poderiam mudar.
Quem sabe se um milagre não ocorresse e Júlia, finalmente, conseguisse levar a gestação até o fim?
O tão sonhado bebe e Arthur seriam primos irmãos. Perfeitos companheiros. Arthur o protegeria e cresceriam juntos


Naquela tarde, Orestes levou a família para visitar o terreno escolhido. Tinha quatro fantásticos hectares, ficava no alto  e tinha vista para o rio. Júlia o beijava o tempo todo.
-Arthur, nós vamos todos morar aqui!

-E você vai  finalmente poder ter seu cachorro!
Os adultos falavam e falavam.

Sempre coisas chatas em que Arthur não prestava atenção; mas quando escutou a palavra cachorro e que poderia finalmente ter um só seu, sentiu o coração acelerar.
-Um guaipeca?

-Sim, meu querido! Você vai poder escolher um para morar aqui com a gente!
A coisa mais preciosa em se conviver com crianças é poder observar a espontaneidade e a pureza de suas reações.
Arthur deu um grito e começou a gargalhar sem parar, encantado. Botou as mãozinhas cruzadas na altura do peito e com ar de júbilo.
Exatamente como aquelas imagens votivas dos santinhos.
-É, mamãe?

-É, Arthuuuurrr!!! Claudia não resistiu aquela carinha amada e cobriu-a de beijos. Em seguida trouxe-o para o colo, abraçando-o e  tentando elevá-lo, mas sem conseguir, já que Arthur com seu tamanho respeitável para a pouca  idade já pesava um bocado.
Sim, sim, sim! Tudo seria perfeito! Tudo ficaria bem. Morariam no campo, respirariam ar puro, cuidaria de Arthur e lhe daria um cachorro!
Decidiu  que arrumaria de uma vez sua vida.
Daria um jeito de falar com Robert sobre seu filho como era o certo fazer.
Enfrentaria as ameaças de Noah contando toda a verdade dos fatos.
Desde o dia em que a ameaçara na casa de Robert, na  Escócia, até o dia em que ameaçara...Claudia sentiu gelar o estomago...afogar seu filho!

Uma das primeiras coisas que faria seria enviar a Robert uma foto de Arthur.
Mike Rolland era quem poderia ajudá-la, pois desde o início tentara convencê-la a contar tudo.
Mike era o fiel amigo dos tempos duros de sua juventude e seria o primeiro a defender o filho de Robert de qualquer pessoa que ousasse ameaçar um filho dele.
Seu coração lhe gritava que confiasse em Mike Rolland.

Arthur tinha quatro e já perguntara mais de uma vez pelo pai. Claudia não mentiu; disse a Arthur que seu pai morava muito longe e que era um homem bom, mas como era ocupado demais, ainda não tivera tempo de vir visitá-lo.
-Papai é um homem que trabalha muito, Arthur.

-Como é o nome dele, mamãe?

-É Robert. É um nome bonito, não é filho?

-É...
Nesses momentos Arthur se perdia em pensamentos que o levavam longe, Claudia temia que suas conjecturas infantis o levassem a imaginar se fora rejeitado por seu pai.
Arthur tinha coleguinhas com pais separados que não os visitavam. Sofriam com isso. Claudia ficara sabendo de muitas histórias ao conversar com as professoras do maternal.
-Quando papai vai vir, mamãe?
Sentia um remorso que sufocava cada vez que tinha de enfrentar esse tipo de questionamento do filho.
Agora tinha consciência de que Arthur merecia receber o amor de seu pai. Tinha tanto direito a isso quanto Ewan e Helena.
Considerou se os dois não ficariam felizes em saber que tinham um irmãozinho...
Já estava na hora!
Arthur queria saber do pai, isso era tudo.
Não era uma criança enjeitada; e ter essa impressão poderia marcar sua alma.
Um fato do passado, errado ou não, não poderia estigmatizar toda a vida de seu filho. Isso não era justo com Arthur!
Percebeu finalmente que se mantivesse o silencio o poder das ameaças da família Greensberg apenas aumentaria. Era uma estratégia pueril a de manter-se escondida. Os problemas não se solucionariam dessa maneira.

Admitiu para si mesma que no tempo em que esteve envolvida com Robert teve pavor verdadeiro de que de uma hora para outra pudesse ser abandonada por ele.
Medo de que da mesma maneira louca com que ele a trouxe para sua vida ; pudesse também descartá-la de sua vida. Esse foi seu maior medo.
Fora covarde.
As ameaças que sofrera de Carol e de Noah, serviram de certo modo para lhe dar o motivo concreto para fugir, para romper com tudo.
Alimentou a tênue ilusão de que o sofrimento seria menor se o deixasse antes que ele a deixasse.

Sabia secretamente que ainda não deixara de amá-lo; mas o maior interesse de sua vida agora era seu filho. Seu bem estar.
Não se importava mais com  “finais felizes” em sua vida amorosa. Porque sabia que o amor deve ser sereno, e não mora em palácios de cristal e nem em anéis de casamento. E só o fato de se ter compartilhado da vida de uma pessoa é realização suficiente para uma história de amor.
E ela e Robert tiveram sua história, uma história que jamais poderia deixar de existir.
Ao olhar para seu filho Arthur sentia o coração confortado com essa verdade.
 Daria um basta na culpa.
Afinal Robert a havia amado também, e Carol, contrariada ou não, era apenas uma mulher, e não Khali, a deusa da destruição indu, com quem Claudia tinha pesadelos.
Já não era a mesma tola de antes, nunca mais cederia ao medo.
Se qualquer coisa tentasse interceptar seu caminho, Rogério Trigal estaria de sobre aviso.
Pois planejaria com ele meios de se preservar.
Sendo um homem influente com excelentes conexões tanto  na política quanto imprensa, deixaria que ele tomasse as medidas que julgasse necessárias.
Rogério tinha a seu serviço um conceituadíssimo escritório de advogados. Claudia estaria em excelentes mãos!
Sem dúvida sua amizade com Eulália também se mostrava importante nesse processo todo. Embora ela não quisesse envolver-se em escândalos, o fato de manterem contato depois de tantos anos passados era  muito significativo.
Não queria ter qualquer contato com Robert por nada no mundo.

Qualquer assunto relativo a visitas, valores de pensão alimentícia a que Arthur tivesse direito, preservação e direitos de imagem, etc. Deveria ser tratado com um  advogado.
Não seria bom reascender lembranças. Não seria bom olhar Robert Wolk nos olhos outra vez, pois Claudia sabia que isso a arrasaria!

Mas não havia motivo para incinerar-se numa fogueira.
A vida era curta, como disse Orestes. Não havia motivo para adiar a felicidade! Pelo menos não a de seu filho!
Claudia escreveria a Mike Rolland.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 45




A rua deserta.
Três eram os indivíduos. Três, portanto, seus alvos.
Durante meses Orestes colocou a disposição desses mesmos sujeitos o espaço de sua oficina para servir-lhes de depósito para o que quisessem negociar, vender, esconder, adulterar, traficar...

Silencioso. Humilhado. Orestes apenas cuidava de seus próprios assuntos mecânicos: motor retificado ou por retificar, suspensão quebrada ou por rebaixar, partida elétrica, eixo Cardin...mãos encardidas de graxa, pulmões repletos de CO2, audição parcialmente prejudicada aos vinte e quatro anos de idade; ninguém para ajudá-lo nas tarefas, clientela reduzida; um ódio visceral remoendo...
Três indivíduos dos quais nunca jamais esqueceria as vozes...três sorrisos permanentes, tatuados, repulsivos que só em recordá-los alimentavam ainda mais em seu peito a sádica fornalha de ódio. Ainda mais fomentada  pelo convívio compulsório dos últimos meses.

O primeiro deles entrou cedo como sempre fazia.
Ascendera o habitual cigarro se preparando para a chegada de mais um lote de entregas.
Parou no ângulo abençoadamente exato.
Nunca em sua vida esperaria por um gigantesco gancho de liga metálica; uma tralha pesando mais de duzentos quilos, suspensa diagonalmente a uma altura de seis metros;  projetando-se em cheio contra suas costas desguarnecidas.
 Jamais esperaria ter as costas violentamente cingidas. A coluna vertebral partida. A última coisa que ouviu foi o som dela esmigalhando-se no choque contra o metal. Um som semelhante a um estrondo abafado. Seguido de uma imobilidade gélida, paralisando seu corpo, impedindo qualquer reação. Sua incapacidade de sorver o ar. O diafragma inutilizado. O cigarro, ainda aceso, consumindo-se impassivelmente caído bem abaixo de seus pés.
 Única testemunha de sua imolação justamente a  sua vítima mais insignificante...

Orestes desceu do andaime. Seu ponto anônimo de observação. O triunfal ponto de partida para trajetória daquela que se tornara sua arma mortal e que agora pendulava macabramente num ciclo cada vez mais ameno, pouco a pouco congelando-se devido a inércia.
Em sua extremidade ensangüentada um acúmulo retorcido do que, segundos antes, fora um homem verdadeiramente temível.
Aquele aspecto de coisas não lhe esfriou o ímpeto vingativo. Ao contrário; reavivou sua determinação.
Considerou incontestável sua vitória; uma prova física indubitável  de que voltava a se reerguer como homem. Sentiu-se vivo. Em contato pleno com alguma instância primitiva e antiga de sua própria mente.



Enquanto os outros dois palermas chegavam e eram tragados por um rodamoinho desacertado de desespero, insegurança, dúvida e finalmente determinação em encontrar o culpado por aquilo; Orestes já os aguardava ocultamente. Pronto para executar friamente a etapa seguinte.

Ligou remotamente motor e farol de um dos carros. A luz deu diretamente na direção dos dois sujeitos. O ronco acelerado do motor com as marchas desengatadas atraiu sua atenção; exatamente como esperado.
Aproximaram-se do carro com armas em punho. Não viram sinal de ninguém. Postaram-se de costas um para o outro, examinando cheios de suspeita ao redor.

Orestes, no lado oposto da cena, engatou jogando o SUW em que estava diretamente contra eles. Esmagou-os como moscas contra a parede de pedras aparentes do alicerce da oficina.
Uma , duas ,três, quatro, cinco vezes.
Quando recuou da última investida e pode admirar o estado deplorável daquelas duas pobres figuras; convertidas numa massa de sangue, tripas e ossos esmigalhados. Irreconhecíveis exceto pelos sapatos e pela cor dos cabelos.
Um deles ainda claudicava, tremia como uma figura teatral cômica. Até cessar de repente. Transfigurado, assim como o comparsa, numa máscara de morte.
O som dos impactos contra a parede subterrânea foi confundido com o som estridente do motor ainda ligado do carro.
Cerrou por dentro as portas da oficina. Não queria visitas inesperadas.

O lugar que escolhera para sepultar aqueles infelizes já estava escolhido:
Um alçapão negro e fundo, reservado especialmente para incinerar detritos.
Era escamoteado da visão através de um passadiço que servia aos automóveis.
Ali, depois de arremeçar a mórbida carga junto com suas próprias roupas enxovalhadas, resolveu se dar o prazer de urinar por cima.
Então, preparou e entornou pacientemente o conteúdo de  quatro betoneiras de concreto no buraco.
Com a calma plácida de um monge, após banhar-se e vestir roupas limpas, caminhou pela extensão da área despejando o conteúdo de galões de combustível em cantos estratégicos.

Descerrou as portas. Saiu. Ainda era madrugada. Respirou o ar frio do resto da noite.
Cerrou pela última vez as portas de sua oficina. Dava a última volta simbólica na fechadura.
Não sentiu nem um pouco de remorso ao deflagrar a faísca diabólica com o dispositivo  que tinha nas mãos.
Caminhou tranqüilamente para casa.
O fogo e as seguidas explosões acabando com tudo, foram alentadores.

A Ópera de Robert mcKennan. 44


Noite dos preparativos finais.
Naquela que seria a derradeira, Orestes colocava a postos cada mínimo detalhe da obra que havia preparado.
Ajustava, verificava, reexaminava.
A sua obsessão por colocar em prática a vingança por meses gestada tinha nuances de filme noir.
Soaria quixotesca para qualquer um se tivesse compartilhado sua mortal intenção.
Porém não cometeu esse equivoco.
Orestes manteve em segredo o ferrão envenenado que portava dentro de seu próprio cérebro.
Agora, altas horas da noite, só do que  se ocupava era dos últimos preparativos para sua primorosamente acalentada vendeta.








terça-feira, 10 de abril de 2012

AÓpera de Robert mcKennan. 44


-O que está fazendo, Claudia? Que malas são essas?
-Eu e Arthur vamos embora, Júlia! Temos que ir!
-Mas, como...
-Julia, me dói muito falar isso mas tenho medo de que...
-De que?
-De que eu seja culpada...- Claudia começou num choro que a fez desabar em cima da cama.
-Claudia, você está falando de que? Estou ficando assustada...
Claudia suspirou tremulamente. Queria ter forças para falar mas aquilo não era a tarefa das mais fáceis. Limpou o rosto e encarou diretamente os olhos de um verde esmaecido de sua cunhada.
-Julia...Orestes foi espancado por minha culpa!
-Mas que bobagem é essa, Claudia? O que está dizendo?
-Júlia, escute bem: O pai de meu filho é um homem importante. E pessoas próximas a ele me odeiam...porque...
-Porque?
-Ele é casado, Júlia! É casado com uma mulher muito rica...sua família é poderosa. Não gostaram da idéia de um filho bastardo da...da outra...da amante! É isso! 
-Mas, Claudia...
-Eles me ameaçaram, Julia! Foi por isso que voltei para o Brasil...disseram que... Claudia sentiu um calafrio ao recordar as palavras de Noah “ afogue esse seu rebento ao nascer ou...”    O choro irrompeu doloroso novamente - Eu não consigo repetir aquilo, não consigo... 

-Acalma, Claudia! Estou vendo que você não está bem...
-Eles vieram atrás de mim, Julia! Eles ameaçaram matar meu bebe...meu bebe! Meu bebe...

-Isso não tem nada a ver contigo, mana. A voz de Orestes dominou o recinto.
Havia escutado a conversa do corredor, ao chegar da rua e agora entrava no quarto da irmã fixando-lhe o olhar amargurado insondável que havia se colado nele de alguma forma estranha inexplicável.
-Essa guerra é local. Não vem de outras fronteiras. Tu e o meu sobrinho não sairão de minha casa, Claudia. Não farão isso.
-Orestes...
-Não quero mais ouvir esse assunto.
Suas palavras foram secas e contundentes.
Ultimamente não parecia haver mais espaço para se argumentar com Orestes.
Havia adquirido uma expressão fria e taciturna que apenas Arthur, com sua adorável inocência, conseguia quebrar.
 Júlia não sabia se agüentaria por muito tempo se aquilo se prolongasse. Aquele não era mais o seu marido. Tudo mudara desde seu retorno do hospital. Se Claudia partisse com Arthur...
 Mas de que guerra Orestes estava falando afinal?

A Opera de Robert mckennan.43


 Orestes era um homem simples. Morava em um bairro de periferia onde a maioria dos serviços era precária e onde a maioria das pessoas era considerada cidadão de segunda classe pelo poder público.
As ruas não eram asfaltadas, o saneamento deixava a desejar e era comum conviver lado a lado com bocas de trafico. Ou seja; um cenário comum das favelas brasileiras. Ele era um dos poucos que conseguira montar um negócio e manter-se dignamente. Tinha uma oficina mecânica. Um negócio pequeno que comprara de um antigo patrão endividado e que conseguira ampliar aos poucos, a medida que seu trabalho ganhava reconhecimento na comunidade.
Orestes era um homem jovem e começara a trabalhar muito cedo. Sentiu que as contingências de sua vida; a morte de sua mãe e o sumiço do pai; o levaram à amadurecer cedo. E talvez seu casamento com uma mulher dez anos mais velha tenha sido reflexo da ausência da mãe cedo demais em sua vida também.
Tudo o que tinha era a família; sua adorada Juju, Claudia, que agora lhe dera um sobrinho, e apesar de poucas vezes encontrar-se com Murilo, tinha por ele um imenso amor e o filho dele, seu primeiro sobrinho, era como se também fosse seu filho. Desde o retorno de Claudia ao país compreendeu que sua irmã precisaria dele e decidiu que faria tudo para apoiá-la, não importando a opinião dos vizinhos ou de quem quer que fosse. Tudo o que lhe importava era manter a família unida.

Mais um final de tarde de trabalho extenuante.
Tudo o que Orestes mais queria era um banho relaxante, jantar e repousar.
 Dava a última volta na fechadura da frente e terminava de acionar o alarme da oficina quando sua percepção instintiva lhe fez ver que alguma coisa estava errada.
O vizindário estava em silêncio sepulcral.
Onde estava a turma de moleques do final de tarde que costumava  jogar futebol na rua? Onde estavam os mendigos de sempre seus conhecidos que vinham puxar conversa sobre o time, na esperança de levar um troquinho para o cigarro?
Aquilo pareceu ser mau augúrio. Como se o silêncio de morte que agora pesava na rua pudesse de verdade atingi-lo.
Escutou um assobio agudo e em seguida outro mais próximo em resposta.
Um golpeio brusco nas costas o levou diretamente para o chão.
Caiu de joelhos sendo esmurrado em seguida e seguidas vezes, perdendo de foco a clara visão dos indivíduos que o atacavam.
Estava cercado por três, mas devido o inchaço de seus dois supercílios, só conseguia distinguir as vozes deles a sua volta:

-Não tá a fim então de fazer o acordo com os malandro, né brother chapista?
Aquela voz não reconhecia.  As silhuetas borradas em sua volta não reconhecia. Mas soube imediatamente de que tipo de assunto se tratava.
O porta voz continuou:
-Eu e nossos parceiro tamos aportando  na quebrada, estabelecendo nossa filial, certo? E a partir de agora tamos contando com o apoio do brother chapista aí!

-Ih! O cara tá apagando, meu!...tá apagando!

-Vai caí no sono é? Sonha com a gente, então, ô careta!

-Nossa boca vai se cria por aqui, sujeito! E tu fica na tua. Boca fechada NÃO ENTRA MOSCA!



Dias desacordado. Orestes custou a voltar. Claudia e Julia a postos ao lado do leito, esperando ansiosas por qualquer sinal.
Seus primeiros movimentos e os olhos abrindo foram uma benção...
-Mano! Mano! Sou eu!
-Orestes, meu amor estou aqui...querido! Estou aqui...
Júlia caiu num choro que não podia conter.
Olhar para Orestes, ali, com o rosto desfigurado devido os horríveis hematomas estava dilacerando o coração dela e o de Claudia. Mas o desespero não era maior do que o medo. Finalmente Orestes havia despertado mas o medo não cedia. E o maior medo era o de que seu corpo tivesse sofrido danos mais extensos  do que aparentava.
Os olhos dele não eram mais os mesmos. Sua expressão continha um vazio terrificante.
Claudia percebeu: Aquele não era mais o seu irmão Orestes.

Depois da alta hospitalar Orestes ainda permaneceu em casa sob os cuidados de sua esposa e irmã sem vontade nenhuma de tocar no assunto da agressão que sofrera. Para a polícia inventou uma história confusa sobre ter sido atropelado após ter bebido um pouco. Por isso alegava não lembrar de muita coisa. Claudia temia que aquilo tivesse alguma coisa a ver com ela, e por isso não tinha coragem de olhar nos olhos dele e de  Júlia.

Júlia tentava manter a rotina da casa normalmente, mas via que seu marido estava diferente e que aquilo que  havia sofrido e que não queria contar desencadeara em sua alma uma usina de ódio vingativo.
O bairro em que viviam até, então tranquilamente, estava sendo assolado por uma onda de comércio e consumo de drogas. Muitas famílias estavam se mudando. Enquanto outras eram expulsas de suas casas por ordem dos traficantes. Tudo isso nas barbas da polícia!
Orestes fez uma promessa a si mesmo: Não recuaria.
Nas noites em que passava em claro, planejava cuidadosamente um meio de tecer a vingança.

Resolveu reabrir a oficina, apesar da quantidade mínima de trabalho que tinha desde a chegada dos pulhas. Permitiu que estocassem as mercadorias roubadas em seu depósito de peças como exigiam. Fez com que confiassem nele; em sua aparente resignação.
Mas uma coisa havia jurado: Se tinha de sair dali; do lugar que havia construído com o esforço de seu trabalho e com o sacrifício de parte de sua juventude e talvez de sua própria vida; não sairia  sem causar em quem o havia prejudicado um dano muito bem aplicado.




domingo, 8 de abril de 2012

A Ópera de Robert mcKennan.42


O pequeno Arthur se desenvolvia e envolvia a vida de sua mãe e tios a cada mínima coisa bonitinha que fizesse. Tinha já dois aninhos de idade e essa fase era das mais encantadoras numa criança. Todos concordavam nisso.
Tio Orestes tinha vontade de terminar mais cedo o expediente em sua oficina mecânica só para poder brincar com ele e saber logo quais as novas traquinagens que deveria ter aprontado. Estava sempre com o celular em punho, mostrando as fotos do sobrinho para os clientes e amigos. Apesar de saber que Claudia reprovava isso.
Tia Júlia se esmerava com as recomendações a Claudia.
Tinha medo que Arthur pegasse gripe, ou que caísse, ou atravessasse a rua quando não estivessem olhando. Seu irmão havia tido catapora quando pequeno, mas agora já havia vacina. Claudia não deveria perder tempo portanto.
-Calma, Juju! Catapora não dá em crianças tão pequenas...
-Todo o cuidado é pouco Claudia! Fique de olho! Pior ainda são as meningites...Deus nos livre!
-As vacinas estão em dia, Juju...não comece a me apavorar também, que depois não durmo!
O que Arthur mais gostava eram os cachorros. Com eles se entendia maravilhosamente bem. Estivesse onde estivesse; brincando com o que fosse, se passasse um cachorro por perto Arthur ficava fascinado.
Dava gritinhos, sorrindo  apontando maravilhado. E eles vinham todos direto para ele. Faceiros, loucos para brincar. Porém Claudia não permitia.
Arthur era muito pequeno e poderia puxar o pelo e as orelhas dos bichos correndo o risco de irritá-los.
Tia Júlia tinha calafrios.

Os vizinhos, seres com quem Claudia raramente falava, formavam, como é de praxe, suas conjecturas e comentários sobre quem seria o pai daquela pobre criança.

”Algum polaco lá dos lado dos gringo. Essa guria andava lá pelas Europa”;

”Não era Europa, não. Era nos esteites...

“De que adiantou estudar tanto?Tá aí, ó. Mãe solteira e pobre...” 

“Só pode ser filho do alemão Krueger! É a cara dele!”

“Aquele, cambalacheiro do jogo do bicho? Mas ele não é casado?”

“E daí? Aquele lá não deixa passar uma.”

“Não! Será?“ 

“É...Pode ser mesmo!”



Claudia ponderava que não era nada justo ocultar seu filho da vida de  Robert além de uma grande crueldade sonegar Robert da vida do filho. Ela sabia  reconhecer em Robert o excelente pai que era. Seu coração condoia de remorso.
Ainda tinha medo de que pudesse ser mau interpretada, ou de que Carol tentasse tirá-lo dela, ou ainda de que Noah pudesse fazer alguma coisa perversa contra Arthur...só de pensar nisso sentia as pernas afrouxar.

Incrivelmente, agora, pouquíssimas vezes pensava em Robert, exceto nos momentos em que fazia reflexões sobre o futuro do filho.
Se algum dia ela viesse a faltar temia que Arthur pudesse ficar desamparado.
Seu irmão Orestes tocava um negócio que dava no limite pra viver dignamente, mas jamais poderia sonhar que ele pudesse dar a Arthur tudo o que o pai milionário teria condições de dar.
No Brasil, até mesmo para se ter atendimento médico decente, o dinheiro fazia toda a diferença. Era um país caro de se viver, com alta carga de impostos, e serviços de saúde e educação públicas ineficientes. Esse um dos motivos que levou Claudia a sair do país a primeira vez.
Pensava agora cada vez com mais freqüência nessas questões; mas não sabia se entraria em contato com Robert. Não sabia nem se conseguiria essa proeza! E sentia que seria inconveniente demais utilizar alguma rede social para encontrá-lo. Seu assunto era de foro privado. Seria desastroso se viesse a público. Péssima maneira de tentar fazer as pazes.

-Mana, não queria me meter nesse assunto, mas...

-“Mas” o que,Orestes?

-Tu sabe...

-Orestes, eu tenho pensado muito sobre isso. Não acho justo o Arthur crescer sem a presença do pai. Mas as coisas são mais complicadas do que você pensa e eu...

-Mas o que pode ter de tão complicado? Vocês mulheres é que complicam. Que homem não ficaria feliz em saber que tem um filho tão lindo como meu sobrinho, mana? Pode me dizer? 

-Eu sei...Tem razão, Orestes. Tenho adiado esse assunto por tempo demais...

-E quando vamos resolver isso? Estou do teu lado,  mana. Ninguém fará nada contra ti!

-Eu sei que está do meu lado. Aonde eu estaria agora se não fosse por você e por Júlia,Orestes?

-Se você preferir eu falo com esse homem.

-Você...

-Me deixa resolver isso, Claudia...ou pelo menos... me diga quem ele é!

-Ele...ele é um homem muito bom,Orestes. Acho que uma das melhores pessoas que conheci no mundo...

-Então porque desse receio todo?

-Eu não quero prejudicá-lo...e há pessoas que... fizeram  ameaças...
Você deve entender, Orestes, que ele é um homem importante; tem um nome muito conhecido, o que complica bastante as coisas.

-Tu parece muito amedrontada, mana...se meteu numa embrulhada , não foi? Quem é essa gente com quem tu te meteu, maninha?

-Preste atenção, mano. É importante que você saiba. A vida de Arthur pode correr perigo se eu tentar me aproximar novamente do pai dele...

-Mas isso é loucura! Parece novela...

-Mas é verdade. Estou dizendo a verdade. Não haveria motivo prá esconde-lo do pai que não esse, Orestes. E por favor.Te peço: Não toque nesse assunto com ninguém. Nem mesmo com Júlia. Por favor!

-Quem está ameaçando? Quem é essa pessoa? Tu também tá em perigo,Claudia? Quero saber quem é essa pessoa!

-Alguém cuja a existência é até melhor que você ignore, mano. Acredite em mim. É melhor você nem saber que existe. A única coisa que vou revelar, mas que quero que não repita nunca é esse sobrenome: Greensberg!
Claudia terminou de falar e teve um arrepio.
Aquele nome soou misterioso na percepção de Orestes. Pela expressão dela a coisa era mesmo séria. Com quem sua irmã havia se metido? Em que situação comprometedora ou de escândalo teria se enredado? Tudo em que conseguia pensar era no que Claudia dissera sobre  Arthur correr risco de vida! Aquilo era covardia. Amava seu sobrinho e morreria se alguma coisa lhe acontecesse. Orestes não quis admitir prá si mesmo mas também sentiu muito de perto o bafejo do medo. Sentiu que mais cedo ou mais tarde teria que defender sua família. E afinal de contas, já não seria esta a primeira vez.

Claudia ingressou no pós graduação de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Dividia seu tempo entre as pesquisas e algum trabalho eventual. Não quis aceitar propostas de emprego integral para poder estar mais tempo perto do filho.

-Mamãe, dá um peicinhu?
-Um peixinho,querido?
-É. Peicinho. Não é au au!
-E pra que você quer um? Onde você viu um peixinho?
Arthur havia visto um peixinho azul no aquário de uma pet shop,quando passeavam no domingo. 
Arthur nunca havia visto um peixe de perto e agora, além dos cachorros, os peixes viraram sua nova obsessão.
-Dá mamãe?
Aquela carinha linda que ela amava mais do que qualquer coisa no mundo, lhe tirava as forças para dizer não.
Sendo assim, foi instalado um aquário no pequeno aparador da sala que dava para a janela contendo o mais novo morador da casa.
Arthur passava muito tempo com seu rostinho atento colado no aquário, maravilhado com as peripécias estrambóticas de Chuchu.
Chuchu foi o nome que ele e tio Orestes escolheram em comum acordo para batizar o peixe. Pois tinha uma sonoridade engraçada aos ouvidos de Arthur e parecia muito com Juju, apelido carinhoso de Julia.
Arthur nem queria comer para poder logo ficar perto de Chuchu.
Claudia que não resistia em mimá-lo mas que também preocupava-se com sua alimentação, decidiu em comum acordo com Julia colocar o cadeirão de refeições do menino ao lado do aquário.
 Mas a noite Arthur se enchia de preocupação:
-O Chuchu vai dumi sozinhu,mamãe?
Claudia o convenceu de que como ela dormia sozinha e Arthur também, Chuchu não se importaria nem um pouco de dormir sozinho, pois gostava de ter tempo para pensar em seus assuntos de peixe sem ninguém prá incomodar.
-Ele não gosta de ouvir a gente roncar, Arthur!
-E ele dá pum, mamãe? Riu o pequeno com cara de sapeca.
-Claro que sim. E ninguém iria agüentar o cheiro ficasse com ele no quarto.

Nas tardes de domingo em que havia sol,Claudia gostava de levar Arthur para passear no parque da Redenção.
Quase sempre alugava uma bicicleta ou singravam o lago de pedalinho. Arthur ia sempre bem preso ao cinto.Mas não havia perigo.O lago era artificial e sua profundidade apenas suficiente para impedir que os pedalinhos atolassem. Mesmo assim Júlia se esgoelava na margem. Inquieta. Acompanhava a travessia dos dois com o coração na mão.
Orestes limitava-se a rir dela, e depois ameaçava jogá-la no lago de roupa e tudo se não se acalmasse.
Nesses momentos Claudia pensava que gostaria tanto que o tempo não passasse.
Essa estava sendo a melhor época de sua vida.

sábado, 7 de abril de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 41


Arthur Orestes dos Santos. Um nome que evocava realeza.
Um nome talvez pesado demais para um bebê, mas foi o que Claudia escolheu. Pode assim homenagear seu irmão Orestes e ao mesmo tempo citar o lendário rei da távola e da mágica espada. Uma forma singela, talvez, de lembrar-se... da Escócia!
Claudia repousava no leito da maternidade cercada por seus amigos, seus dois irmãos e, como num anúncio publicitário de final de ano: por lindos arranjos de flores.
Aconchegado em seus braços trazia o bebe com as bochechas mais rosadas de todo o mundo.
Olhar para aquele rostinho a fazia sentir-se a mãe mais boba de todas. Não conseguia parar de sorrir e muito menos impedir que brotassem lágrimas de felicidade de seus olhos .


A Ópera de Robert mcKennan. 40








O trabalho com Eulália rolou, mas ficou aquém do esperado.
Claudia sentia-se uma morta viva.
A ruptura. O conflito doloroso e definitivo entre ela e seu amor; conflito que latejava dia e noite em seu pensamento como um ferimento virtualmente exposto, a transformou num mero ser que apenas respirava e passava pelas ruas. Passava pelas praias de sol tropical do lindo Rio de Janeiro repleto de uma juventude dourada e alegria única sem nada ver. Tudo o que tinha diante de si mesma era um vazio. Um vazio incapacitante que lhe roubava o sabor de todas as coisas.
Só agora conseguia avaliar a extensão dos danos provocados pelo caminho que havia tomado. A decisão de vir sozinha para o Rio e que acabara por levá-la  a romper com Robert...as palavras que ela lhe dissera! Aquilo que ele lhe dissera... Tudo aquilo feriu seu espírito; tirou a graça de seu sorriso, lhe fundiu a um grilhão de culpa preso ao abismo. Sentia falta dele. Sentia que as coisas só tinham graça e faziam sentido se ele também as visse e comentasse sobre elas. As coisas só tinham graça se viessem acompanhadas da risada dele. Tudo só existia a partir da existência dele. Ela agora compreendia o quanto estava só.
Mas, no final de tudo, decidiu que ficaria definitivamente no Brasil.
Brasil: Seu país. Sua  salvaguarda.
Percebeu, profundamente fragilizada, que tudo o que lhe restava era o amparo de seus irmãos.
No final de tudo eram as únicas pessoas com quem podia contar. Sua família. O elo mais forte consigo mesma.

Fez o acompanhamento do pré-natal em sua cidade no Rio Grande do Sul.
Recorreu em busca de amparo emocional a seu irmão do meio Orestes e a esposa Júlia. Foi  recebida de bom grado na pequena casa de subúrbio, na zona norte de Porto Alegre. Uma casa simples de alvenaria com quartos sobrando que lhe ofereceram pelo tempo que quisesse.
Orestes a recebeu emocionado. Não se viam desde o último natal e sua gravidez foi uma festejada surpresa.
Ela transcorria sem maiores problemas apesar do tamanho do bebe um pouco acima do esperado, segundo a leitura da nova obstetra.
Mas se desenvolvia bem. E se tudo continuasse assim, dali seis meses, Claudia entraria em trabalho de parto.

Orestes tinha um jeito direto para falar as coisas e isso era uma das características que Claudia mais gostava nele. Orestes era ele mesmo. Não fazia rodeios.

-Quem é o pai dessa criança, maninha? Por que não diz? Eu torço o pescoço desse cara prá ti!

-Não acha esse um motivo bom o suficiente para não dizer, Orestes?

-Não imagino quem é o cara, mas tem uma sombra de mágoa no teu olhar. Sei que o safado te machucou...

-Isso já é passado...

-Parece muito vivo em ti...Quantas vezes te peguei  chorando, tentando disfarçar? Pensa que não vejo?

-Sabe, Orestes, já aprendi que o que devemos  fazer na vida é prosseguir e prosseguir. Nada de olhar prá traz. Isso só traz dor. E não quero cultivar isso em minha vida. Já sofri demais.
Mas não pense que não foi uma decisão minha; eu fiz minhas escolhas e a mais acertada foi voltar prá cá e ter esse bebe sozinha.


-Isso não é justo nem contigo e nem com essa criança, Claudia! Por pior que pareça ela tem o direito de conhecer o próprio pai. De receber o nome dele. Tu não pode tirar isso...

-Eu sei disso...eu sei.

-E então?

-Sabe, mano. Ainda é cedo demais prá mim, não vou conseguir lidar com essa questão agora. Quero dar um tempo nesse assunto. 
Não leve a mal.

-Como quiser, maninha. Mas não pense muito com essa cabeça de osso prá sopa. Faça o que for certo pra esse bebe. Ou já vai começando mal.

Orestes era um homem jovem, porém seu olhar emitia a sensação de pertencer a um homem que vivera muito. Havia enfrentado a vida sem que ela tenha lhe oferecido muitas escolhas. Seu trabalho era pesado e interminável. Seu corpo, já trazia marcas tão cedo. Já precisara, até mesmo, trabalhar machucado.
Não havia viajado. Não havia tido formação superior como sua irmã, que conseguira obter bolsa de estudos, mas Orestes, mais do que ninguém, sabia que Claudia precisava dele. Ela não teria forças para encarar sozinha um momento como aquele. Ela era sua irmã, e isso significava muito pra ele, mais do que conseguia admitir.

-Não consigo entender uma coisa, maninho.

- O que?

-Como você já pode estar ficando com fios de cabelos brancos antes de mim?
Orestes sorriu lindamente, e nesse momento seus olhos azuis se iluminaram.
-Isso significa que tenho mais problemas que tu e que agora vou  me tornar um senhor de respeito. Já tava na hora!

Vivenciando dias em que as lembranças e o arrependimento açoitavam, outros em que a saudade assaltava cruamente, e dias em que se convencia de que  tinha apenas que viver pra cicatrizar o que fosse preciso cicatrizar, Claudia esforçava-se por encontrar sua própria paz.
Lutava por tirar Robert da cabeça, mas ao final de cada dia deparava-se com a crueza de sua incapacidade  nisso, e com a falta aterradora que sentia dele.
Escreveu-lhe uma carta.
Nela expressava todo o amor que ainda sentia por ele, grifava a palavra amor. Culpava-se pelo modo como as coisas saíram.
Agradecia a boa vontade que tivera com ela desde o começo, desde que a conhecera e revelava-lhe que no fundo de sua alma sabia que as coisas deveriam ter ocorrido do modo que ocorreram, pois achava que seus destinos estava marcados de uma maneira que não sabia explicar.
Tentou enviar-lhe a carta, mas na hora H desistiu.
Tocava a própria barriga e via sua forma mudar.
 Como seria feliz se ele também pudesse ver aquela barriga, a tocasse, encostasse nela sua cabeça loira que ela afagaria tranqüila recebendo beijos de afeto em troca... Como queria tê-lo ali com ela.Ter o amparo de seu abraço masculino e  protetor...ter seu amor.

Afinal onde estava a super Claudia Drury?
 A emancipada, a cheia de projetos e planos que não podiam esperar e que eram mais, mas muito mais significativos do que o amor de um homem?
Onde estava a moça cheia de amigos e com milhões de programas prá noite e para os fins de semana?
Essa Claudia de agora só tinha vontade de chorar escondida, quando seu irmão e sua cunhada saiam e não podiam flagrá-la.
Essa Claudia depressiva Drury agora conectava-se a internet tendo qualquer motivo aleatório como desculpa para acabar sempre buscando por uma foto recente, ou algum blog de notícias; qualquer coisa que referisse o ator Robert Wolk mcKennan.
Sentia-se patética quando andava pela rua e vislumbrando um homem de porte parecido com o de Robert, com a mesma tonalidade de seus  cabelos, sentia a respiração encurtar,  para depois ser atingida por uma pontada no estomago da mais pura ansiedade junto a uma enorme decepção.
Certa vez no ônibus sentiu a mesma fragrância dele, era o perfume de alguém próximo a ela. Pensou que fosse enlouquecer. Olhou para os lados ansiosa. Havia um homem bastante parecido; mas sua fisionomia era ocultada pelas lentes obscuras dos óculos de sol. Engoliu em seco, pois sentiu certo medo. Tentou não encará-lo  voltando os olhos para a paisagem nas janelas, mas não resistiu e olhou novamente. O homem não estava mais.

Buscava no trabalho uma fuga para essa permanente aflição. Para os pensamentos insistentes que muitas noites a impediam até mesmo de dormir.
Claudia conseguira vários trabalhos como free lancer. Estava começando do zero. Na maioria das vezes atuava no atelier de um costureiro tradicional e bastante conceituado da cidade de Porto Alegre: Rogério Triggal.
Os dois davam-se imensamente bem.
Ele admirava o trabalho de Claudia pois reconhecia o quanto ela valorizava o espírito de suas coleções ao fotografá-las. Poucos profissionais da fotografia tinham a percepção diferenciada de Claudia para adequar as tonalidades de luz com a delicadeza das criações dele.
Ela gostava de passar as tardes por lá. Sugerindo, estudando, criando junto a Rogério Triggal.
Ele era imensamente generoso com ela ao compartilhar seu vasto conhecimento com relação a moda e a arte.
Nos intervalos ele sempre a convidava para “O Chá” com um serviço de porcelana que levava ao devaneio.
-Sabe Rogério, eu desde pequena subia por essa rua e ficava admirando sua vitrine.

-Nem me fale, Claudia. Que idade você já tem?

-Vou fazer vinte quatro.

-Poderia ser minha neta...se eu tivesse filhos...
O belo senhor grisalho de porte impecável pareceu esvaziar-se. Claudia notou sua melancolia.
-Você é um grande artista. O Brasil tem sorte em ter você.

-O mesmo digo a você, Claudia. Reconheço de longe um legítimo talento quando me deparo com um. Você está destinada a brilhar, querida. Estou sendo muito sincero. 
Claudia já não sabia mais se o que queria de sua vida era brilhar. Cada vez mais confortava-lhe a idéia de ficar em sua cidade, buscar uma pós graduação em Arte. Estudar. Lecionar talvez. Adquirir uma casa. Queria ter paz para criar seu filho. Isso bastaria.
-Quanto tempo ainda falta, Claudia?

-Segundo minha médica vinte e quatro semanas.

-Então nesse fim de semana vamos sair, eu e você!

-Sair?

-É claro! Temos que percorrer algumas lojas para bebe. Quero que você escolha os presentes mais lindos do mundo! Vou ser o padrinho! Não vou?
Claudia sentiu os olhos embotarem.
-É claro que vai, Rogério! É claro,querido!





A Ópera de Robert mcKennan. 39


Robert Wolk mcKennan. Uma transição tão súbita do amor para o ódio mais puro .
Claudia sentiu a cabeça rodando. Sabia que mais cedo ou mais tarde iria sofrer, mas não estava preparada para aquilo. Não acreditava que aquele pudesse ser Robert! Mas era. Pelo menos o pior que ele poderia ser.Um bicho ferido.
Arrependeu-se de ter falado aquilo. Queria poder pedir desculpas, implorar que a ouvisse.O arrependimento a arrasou.

“Bob por favor, me perdoa pelo o que falei...ainda está aí? Me responda. Eu estava com medo. Foi Noah. Noah me ameaçou...fale comigo.



Robert a havia bloqueado permanentemente.



A Ópera de Robert mcKennan. 38







Claudia hospedou-se em um hotel simples da zona leste de São Paulo. Esse era diferente daquele que lhe estaria destinado a partir da semana seguinte: Um Sheraton, para onde iria com a troupe de Eulália no Rio de Janeiro.
 Mas agradeceu por poder finalmente jogar-se na cama do hotel e fechar os olhos. Seus pés estavam um pouco inchados. Isso nunca acontecera antes...Sentia um sono muito pesado e acabou dormindo sem ter nenhum sonho. Quando despertou, constatou que haviam passado duas horas. Resolveu levantar e tomar uma ducha, pouco depois pediu à  cozinha uma sopa de legumes. Pegou o note book conectando-se. Aquela hora em Los Angeles esperava encontrar Robert on line, e com um frio na barriga... encontrou;

“Não sei porque estou falando com você, Claudia, mas acho melhor usarmos a chamada de vídeo. Quero vê-La frente a frente”.

-Robert, sei que está zangado...

-Você sabe? 
Escute: Você não sabe nada sobre mim! E só estou atendendo porque quero ver até onde consegue ir.

-Robert...desse jeito não conseguiremos conversar...

-VOCÊ , já ouviu falar, em sua vida, de uma palavra chamada lealdade, Claudia? Sabe o significado dela? Pois não perderei meu tempo explicando-a a você. Só quero aplaudi-la por ter sido tão esperta.

-Es...perta?

-É! “Esssperta“! Você conseguiu, fazendo o papel de “tolinha inefável“, atrair minha atenção para você e tirar algumas boas vantagens disso, não foi?

-Do que está falando, Robert?

-Começando por seu currículo. Não é mais o mesmo, não é? Você agora tem seu passe mais valorizado. Sem isso “Victória´s ” não aceitaria você. Não estou certo ?

-Robert, não é nada disso...

-É exatamente isso, sim, Claudia! Fui bem idiota em não perceber o tipo de mulher que você é!

-Tipo?



-Quando voltou para Los Angeles não quis perder tempo e foi tratando logo de seguir os passos de sua amiga: “Milionários de Los Angeles aqui vou eu”!

-Você está sendo cruel, Robert! Porque NÃO ME DEIXA FALAR?

-E você, por acaso tem alguma coisa para falar, Claudia? 
Alguma coisa que me interesse? Você, acha francamente que estou me lixando para suas baboseiras? Acha que ainda consegue me enredar com sua conversa de orfãsinha vítima do mundo? Abra bem os seus olhos e ouvidos, guria: NÃO CAIO MAIS NA SUA CONVERSA!

-Nunca imaginei que fosse capaz de ser tão injusto, Robert!

-Ah! Vai continuar tentando recitar sua ladainha manhosa decorada? Eu sou ator, você não! Agora escute bem! Nunca mais me procure, nem cite meu nome ou vou processá-la, está ouvindo?

-Estou, Robert, estou ouvindo...mas tenho algo que quero que você ouça também.

-E o que será? Qual é a “pérola”dessa vez? Fala! FALA LOGO!

-...Agradeço a Deus por não carregar mais dentro de mim nada que tenha vindo de você...

Aquelas palavras foram fundo nele como um agudíssimo punhal.

-Eu...não duvido mesmo disso...não duvido. Você, o tirou! Você o TIROU, não foi? Agora eu vejo isso com toda a clareza!
Fique sabendo que se estivesse diante de mim nesse momento, eu te faria em pedaços! EM PEDAÇOS! Mas não pense...não pense que não te alcanço...
Ainda pretendo acertar minhas contas com você pessoalmente! Vou te fazer SE ARREPENDER, IMPLORANDO, DO CRIME QUE FEZ  E DAS PALAVRAS IMUNDAS QUE ACABOU DE VOMITAR! 

No mesmo momento a conexão pareceu simplesmente perdida. Mas na verdade fora Robert que num surto furioso arrebentou o console do próprio computador.









domingo, 1 de abril de 2012

A Ópera de robert mcKennan. 37


-Robert, temos que retocar nesse momento!

-“Nesse momento“! Vamos Sara, só precisa corrigir o  brilho da testa e  nariz dessa vez; o cabelo ainda está ok.

-Meio elétrico, Robert. Vamos ter de pôr só um pouco daquele mouse milagroso...
Robert acomodou-se em uma tradicional e lindíssima cadeira de barbeiro que a maquiadora Sara gostava de chamar “Sweeney Todd”.
Ela foi logo apontando uma fortíssima luminária no rosto de Robert e corrigindo habilidosamente alguns sinais de sardas de sua pele clara com um preparado de bases em tons adequados para ele.
Aquele processo sempre o acalmava.

-E aí,“moço do kilt”,como estão as coisas?

-Porque a pergunta?

-Sua cara não anda boa é por isso...

-Pois trate de deixá-la ótima então, Sara. É sua nobre função! Estou nas suas mãos.
Sara caprichou no retoque para dissimular a tonalidade azulada das olheiras dele.
Aquele cara tava no limite.
Era um mestre em aparentar jovialidade e humor, mas a maneira como suspirou ao atirar-se em”Sweeney Todd” foi, no mínimo, reveladora.
Mas Sara sabia que daquele ali não arrancaria nada.
Não havia astro mais hermético quanto a vida pessoal do que Robert Wolk.
Um dos contra-regras, se esgoelou na porta do camarim:

-Dez minutos, Wolk! O diretor já está louco!

Robert apenas abriu os olhos erguendo a sobrancelha para Sara:

-E quando ele não está?

Apesar de tudo, o dia havia transcorrido rápido. Mais um dia.
A luta de Robert era das mais árduas:Contornar emoções que o arrasavam e continuar atuando como se nada houvesse.
Sua esposa morria aos poucos e diante de seus olhos.
Essa era a dura verdade que a todo o momento se apoderava de seus pensamentos.Um tortuoso remake de sua história com Lindsay.
 Além da tristeza que o destroçava por dentro, sentia-se imensamente culpado, embora não houvesse uma lógica evidente nisso.
Para buscar equilíbrio, mergulhava em seu trabalho; queria anestesiar-se da crueldade dos fatos que o acompanhavam onde estivesse. Mas já havia  decidido que não desistiria de lutar. Isto pelas únicas pessoas que dependiam totalmente dele: Seus filhos.

Ewan e Helena precisariam muito do amparo do pai se o pior ocorresse.
E aplicaria todas as sua forças em dar-lhes sua proteção.
Desempenharia seu honrado papel de pai. Desse modo sentia que poderia consolar um pouco seu coração machucado.

Mas, e quanto a Claudia?

Ela havia simplesmente partido de uma maneira covarde e desleal, sem lhe deixar qualquer justificativa. Abandonou-o no momento em que mais precisava dela!

Robert considerou essa a maior demonstração de egoísmo que alguém poderia ter lhe feito em sua vida.
Sentia-se dolorosamente traído. E uma revolta perigosa detonava silenciosamente em seu peito.
 A força de um ciúme avassalador daquela mulherzinha que desejava de maneira tão louca e que sabia agora que amava, tomava conta dele e começava a fazê-lo ferver de ódio.

-Acho que está ok, moço...só me dixe finalizar com um pouco de mousse nessas pontas...voilá!

Ao final das gravações, sentiu uma vontade desesperada de telefonar para seus filhos.
Concedeu autógrafos aos inúmeros fãs de plantão postados diante do estúdio, conversou com alguns deles, tirou fotos e partiu assim que conseguiu.
Não queria esperar chegar em casa para falar com seus filhos. Era tarde e já poderiam estar dormindo quando ele chegasse. Era o que costumava acontecer na maioria das vezes. Mas sentia-se culpado. Claudia também exigia dele sua cota de dedicação, e isso o fazia sentir-se em débito com as crianças. Agora ela partira. Saíra de sua vida. Flagrou-se pensando que talvez fosse melhor assim.

-Oi, pai! Você já vem prá casa?

-Já estou a caminho, campeão! Quer que eu compre alguma coisa no caminho? Tem sorvete por ai?

-Ah, não precisa nada! Vem prá casa logo, pai!

-Tou indo, já tou no carro. Não dorme antes do pai chegar, ok?

-Tudo bem, pai, vou esperar sim . A Claudinha tá aí?

Robert sentiu o peito tumultuado. Sempre procurou não transparecer que tivesse algum relacionamento mais íntimo com Claudia para seus filhos. Aquilo era assunto de adulto. Para todos os efeitos, Claudia apenas trabalhava para ele e era uma boa amiga dele e de Carol. Com o tempo achava que as coisas se acomodariam. Tinha planos de trazer Claudia para perto, mas mantendo-a em uma casa separada.
Porém, agora que tudo havia acabado, se é que havia, ficou pensando como lidaria com a situação se ela estivesse grávida. Como ele levaria adiante uma situação como aquela? Jamais poderia esconder algo assim de seus filhos! Tanta loucura! Tanto desejo por uma mulher. Se ele a tivesse em sua frente naquele momento...Claudia!

-Claudia está no...Brasil, filho. E vai demorar por lá...
Me diga; a mamãe tá bem?

- Mamãe me ajudou num tema sobre os costumes povos ibéricos pré romanos. 

- Nisso ela é boa ! Vocês já jantaram?

-Pai.

-Sim?

-Porque Claudia foi pro Brasil? Ela não vai mais voltar?
A voz de Ewan denotava uma evidente aflição. Robert Jamais perdoaria Claudia por isso. Não havia dúvidas do quanto Ewan e Helena gostavam dela. Ela os encantara com sua atitude sempre afetuosa para com eles, as vezes até mesmo brincando como se tivessem a mesma idade. Tantas vezes ele a vira rindo junto com eles, imitando falas de personagens, jogando vídeo game, dançando...
O que ele poderia dizer a seu filho agora?

-Ewan...Espere eu chegar em casa. Estou levando sorvete de pistache.

**




Robert entrou em casa encharcado pela chuva que caíra repentina. Não teve disposição de estacionar na garagem, de onde teria acesso direto ao interior da casa, pois assim que a avistou, sentiu uma vontade irresistível de sair logo do carro e abraçar seus filhos. Deixou o carro no acesso da entrada.
Encontrou os dois pequenos jogando vídeo game:
-Pai!
Assim que o viram, Ewan e Helena correram e se abraçaram a ele, sem importar-se com os pingos gelados que escorriam de sua roupa barba e cabelos. Robert ajoelhou-se e prolongou o abraço sentindo o coração acelerar. Sentia-se comovido sem saber o motivo.
Helena, na tentativa de envolver toda a imensidão do pai, colocava os bracinhos por dentro de seu casaco quase desaparecendo dentro dele,  Ewan apertava-o fortemente com o rosto imberbe colado ao seu.
-Adoro seu cheiro, papi. Disse-lhe Helena com o narizinho cravado na altura do coração dele, aspirando profundamente.
Robert segurou sua cabecinha e beijou-a em uma das têmporas, demoradamente.
Levantou-se, carregando a menina no colo. Com uma das mãos sobre o ombro de Ewan, dirigiu-se com eles até a biblioteca.
Dóris cumprimentou-o, estranhamente discreta, e fazendo menção de retirar-se, anunciou que mandaria a cozinha servir-lhe o jantar.

- Não é necessário, Dóris. Não sinto fome.
Robert sentou-se na antiga poltrona muito ampla de espaldar alto, sua preferida. Colocou um filho sobre cada uma das coxas. Dóris, parecendo preocupada com a resposta de Robert, mas sem querer bancar a mãezona, apenas sugeriu:

-Aceita então que eu lhe prepare um drink, mcKennan?
Robert acenou negativamente com a cabeça.
-Não. Obrigado, Dóris. Gostaria de saber como Carol passou.

-Carol teve um dia, acho que posso dizer, excelente! Até ajudou Ewan em uma pesquisa para a escola.

Ewan sorriu confirmando.

-Mamãe, queria até sair comigo para visitar o museu. Mas tia Dóris achou que, por enquanto, não seria bom. 
Dóris fez sua saída discretamente, enquanto eles mantinham sua conversa.

Helena logo ressonava, aconchegada ao calor do corpo de Robert.

- Papai trouxe sorvete, filho. É melhor colocarmos prá gelar e levarmos Helena pro  quarto dela. 
Robert observou atentamente o rosto do filho que demorou a responder.
-Ok, pai.
Robert se alertou:
- O que há, campeão? Levantou essa sobrancelha daquele mesmo jeito do seu avô...
Era impossível para Ewan tentar disfarçar seu estado de espírito diante de Robert. O garoto olhou-o nos olhos:
-Pai.
-Sim? 
-Você gosta da Claudia?
-Se gosto da Claudia. Gosto. Todos nós gostamos, você não?
-Sim, eu gosto mas...
-Mas?
-Você gosta dela de... um jeito especial? 
-...O que isso quer dizer?
-Vocês já... Vocês já se beijaram?  
Naquele ponto, Robert conteve a respiração. Sentiu que a conversa estava tomando um rumo perigoso. Encarou o menino por um momento. Diante dele estava um individuo que nada tinha de ingênuo. Ewan estava crescendo, tinha dez anos. Pensar que não percebia ou desconfiava de certas coisas é que seria ingênuo da parte de quem o julgasse apenas pela pouca idade.
-Porque você esta me perguntando isso, Ewan?
Ewan teve mais um momento de pausa antes de falar:
-É que eu acho que ela gosta de você...quero dizer, de um jeito especial.
Robert controlou o tom de voz:
- E o que você quer dizer mesmo com “um jeito especial”?
O garoto pareceu vacilar por um segundo, mas resolveu falar.
-É que ela é bonita...e eu perguntei um dia e ela falou que não tem namorado.
O silencio pesou, causando sensação de desconforto ao menino. Mas ele não desistiu:
-É que eu acho mesmo que ela queria namorar com você, pai...
Uma das  pálpebras de Robert vibrou imperceptivelmente. Ewan não se deu conta de que poderia estar em apuros.
-Sempre que ela vê você ela treme um pouquinho. Passa a mão nos cabelos e tenta não te olhar. Uma vez eu tava segurando a mão dela, lá na agência do tio Mike, daí você chegou e a  mão dela ficou suada. Eu acho que ela te ama, pai...

Robert tirou-o de seu colo, levantou-se com Helena ainda adormecida, tendo a cabeça apoiada em seu ombro.
Robert alteou a sobrancelha e encarou Ewan muito duramente. Falou em um tom de voz baixo e grave:

-Isso tudo é bobagem, ouviu bem? Você não repete essa conversa dentro dessa casa e nem em lugar algum. 
Ewan engoliu em seco desconcertado. Aproximando-se lentamente dele, Robert prosseguiu:
-Coloque uma coisa na cabeça,Ewan: Claudia já não trabalha prá nós, e aconselho a você que a esqueça! 
O menino parecia desamparado:
-Então ela foi embora? Sem se despedir da gente?
Não houve resposta. Robert viu claramente a película líquida formando-se nos olhos de seu filho. Arrependeu-se do tom utilizado com o menino. Depositou Helena, que se remexeu, com suavidade no sofá. Ajoelhou-se diante do filho.
-Ewan, campeão... 
O menino abraçou-se a ele. O choro rompeu forte como a chuva que caía aquela hora.
Depois de soluçar muito. Ewan conseguiu, arfando profundamente,  pronunciar:
-Mas eu...eu acho que sinto...
Robert pressionou o braço dele sem perceber:
-O que você sente, Ewan?

O garoto afastou-se dele e engoliu o choro encarando-o. Caminhou em direção a porta e saiu correndo para o quarto.
Robert  foi sobressaltado por um pensamento do qual arrependeu-se e que resolveu tentar imediatamente afastar...
O que aquela mulher havia causado a sua família! O que ele, Robert, permitira que ela causasse?






A Ópera de Robert mcKennan.36


Chegar ao Brasil depois de três anos inteiros passados fora era uma experiência estranha para Claudia.
A primeira coisa que notou de cara foi que o cheiro de seu país era intensamente diferente do cheiro da America; de um modo que não podia explicar nem para si mesma. Os sons; o borbulhar de carros e pessoas, tinham um outro tom como um matiz mesmo. Ao pisar em sua terra, sentiu-se como num sonho; tudo para o que olhava lhe  dava a impressão de que poderia se desfazer ou mudar.
E o idioma! Praticamente se desabituara do idioma português, e escutar subitamente a fala das pessoas era como recordar-se de uma canção do passado. Houve durante seu vôo um espocar ou outro nas falas de desconhecidos, mas agora era arrebatada por uma correnteza de “ai”,”espera aí”,”meu senhor”, que sentiu uma irresistível vontade de rir. Seu espírito por breve momento acalmara.

Aquela saída antecipada mau lhe dera tempo de pensar ordenadamente sobre as providencias que deveria tomar.
Tinha de entrar urgentemente em contato com Eulália, para assegurá-la de que estava bem e que continuariam  trabalhando juntas. Que nada mudaria. Mas viu que não conseguia montar uma justificativa que evitasse expor-se de alguma forma.
Eulália compreendeu imediatamente que não seria conveniente perguntar demais pois algum acontecimento inesperado perturbara a paz de Claudia e não tinha o direito de colocá-la contra a parede. Apenas citou o envelope com dinheiro que encontrara em cima da mesa.

-Doe esse dinheiro, Eulália, faça-me esse favor!

-Mas, Claudia, é uma boa quantia. Você tem certeza? Pode precisar para o seu bebê...
Claudia sentiu o sangue gelar:
-Não! Esse dinheiro não chegará perto do bebê...e não...não mencione o bebê para ninguém, Eulália! Para ninguém ouviu? Você não falou para ninguém sobre o bebê falou, Eulália?

-Não se preocupe,Claudia, eu não teria motivos para falar de sua vida a outras pessoas...fique tranquila.

Apesar de Claudia não ter lhe pedido antes qualquer sigilo quanto aquele assunto, Eulália jamais incorreria em indiscrição.
 Imaginava que aquele bebê fosse filho do ator Robert Wolk; que além de famoso, era casado...mas isso só reforçava a necessidade de discrição com o assunto, segundo seu instinto.
Depois do telefonema de Claudia, Eulália pegou o envelope e carregou-o para o quarto da amiga.
Estava muito desordenado.
Haviam claros vestígios do ultimo encontro de Claudia e de Robert Wolk, além dos sinais da saída apressada dela; peças de roupas puxadas do guarda roupa para o chão, cabides espalhados, gavetas abertas...Eulália escolheu uma das gavetas para depositar o envelope.
Haviam nela uns poucos negativos de fotos, que a interessaram.
Raramente via algum daquele tipo.
Olhou-os contra a luz que entrava pela janela.
Eram lindos!
Paisagens européias; monumentos; ruínas magníficas! Uma casa em estilo de vila romana...um homem, que parecia ser Robert...
Colocava os negativos de volta na gaveta quando teve a atenção atraída para uma sobrecarta grande e parda com um carimbo de laboratório. Tinha o nome de Claudia no cabeçalho e estava com o selo rompido.
Claudia já  abrira, portanto.
Eulália tocou o envelope. Sabia do que se tratava. Não haveria mau algum em olhar...

Minutos depois o porteiro interfonou avisando da chegada de Robert Wolk ,e num tom deslumbrado disse que já autorizara o “formidável senhor Wolk” a subir.
Eulália detestou estar naquela situação, mas não havia nada a fazer; o porteiro já havia dado seu atestado de incompetência.
Eulália refletiu se Robert Wolk saberia ou suspeitaria da gravidez de Claudia. Ali em suas mãos, Eulália tinha a prova contundente daquilo.
Não precisaria falar nada, apenas deixar em algum local para que ele encontrasse.
Ela recebeu-o pouco a vontade, mas assim mesmo convidou-o a entrar. Porque ele não telefonara antes dizendo que viria era a questão que a intrigava. Porque ele estava ali?
-Claudia não está mais senhor Wolk, como pode ver. Se o senhor tivesse telefonado antes eu...

-Como assim, não está? Onde está Claudia?
Sua voz deixava transparecer animosidade. Decepção evidente.

Eulália não gostaria de ter nada a ver com aquilo, achou que o olhar dele era áspero e a culpava de alguma forma, mas procurou dizer-lhe a verdade, do modo mais adequado e formal :
Chegara em casa e não havia sinal de Claudia.
Recebera uma ligação internacional horas depois em que ela dizia estar São Paulo, mas não lhe dera muitas explicações, apenas garantia que faria o ensaio das fotos na semana seguinte, como estava no contrato.

Robert não parecera muito satisfeito com a explicação sintetizada de Eulália. Não respondeu nem falou nada por alguns segundos seriamente constrangedores.
Eulália sentiu-se intimidada. Sentiu o rosto queimar.
-Senhor...Wolk...gostaria de poder ajudá-lo mais mas se não se importa tenho um compromisso agora que...

-Não. Você não quer ajudar. Sei que não tem compromisso e que quer que eu vá embora logo.

-Senhor...

-É isso o que costuma acontecer com vocês quando chegam aqui em Los Angeles, moça? 
Simplesmente se vendem, não é? 
Mas você “não deve entender nada desse assunto“, não é moça? Não é mesmo?

-O que quer dizer, senhor?

-Claudia deve ter dado ouvidos a você. É “isso” o que quero dizer.

-Senhor Wolk, peço que saia!

-Mas o que há com vocês mulheres tão liberadas e independentes? Não aceitam um pouco de confronto de idéias? Não aceitam provocações? Porque? Não têm argumentos? 
Não são seguras e “poderosas“?
Eulália caminhou direto para ele, e sorriu-lhe acidamente
-Mulheres poderosas o desgostam senhor, Wolk? Porque? Devido o poder econômico que pode superar o seu?
Aquela poderia vir a ser uma discussão boa, das que Robert particularmente costumava gostar. Arqueou a sobrancelha e tencionou o maxilar. Seu sangue circulou mais rápido. Sorriu:

-Sabe, moça? 
Esse papo de “mulheres poderosas”, “poder econômico” na mão das mulheres é  um placebo. 

-Placebo...

-Exatamente. 
É o que umas do seu tipo costumam vender, mas que é apenas uma falácia, sabia?

-Eu sou a prova viva de que uma mulher pode ganhar muito dinheiro, senhor Wolk. 
Isso o incomoda? 
Ela estava insistindo...
Ele avaliou-a demoradamente.
Os lábios dela tremiam levemente por ansiedade, mas ela não deixava de encará-lo aguardando audaciosa o próximo movimento dele.
 Robert resolveu não baixar o nível dando-lhe a resposta no tom exato que pretendia. Pois a coisa poderia no mínimo acabar em processo para ele.
-Serei sincero.
Talvez me incomodasse se a realidade fosse outra e não essa onde apenas “quatro por cento” da riqueza no mundo está nas mãos de mulheres. Bob falou como quem consola alguém. Com um tom cansado em sua voz.

-Essa “fachada” que temos no Ocidente de que mulheres são emancipadas de que são livres se restringe a uma parcela bem pequena se olharmos as coisas de perto. 
Mesmo aqui na América essa liberação toda é bem restrita.
Ele desviou o olhar e mirou a porta do quarto de Claudia.
A modelo não desistiu:

-Sei, senhor Wolk. Mas devemos lutar para mudar essas coisas,
o senhor não concorda? 
Uma vez que há uma perniciosa feminilização da pobreza e que atinge em cheio as crianças no mundo todo. 

-E pelo jeito você tem uma teoria sobre isso, não?


-As mães, senhor Wolk. As mães permanecem ao lado dos filhos nas piores condições. 
Seja na guerra, na fome, na miséria. 
As mulheres protegem quem mais depende delas. Enquanto que os homens costumam abandonar suas famílias, com boas intenções ou não.
Talvez em busca de emprego ou entrando para milícias, não sei, mas o fato senhor mcKennan é que as mulheres possuem algo chamado “alteridade”.

-Alteridade! Você gosta de falar difícil, moça.

-Mas não é algo difícil de entender, senhor. 
As mulheres tem o dom de carregar a vida dentro de si mesmas e isso é o que lhes faz respeitar e amar a vida do outro, as faz perceber o outro como individuo. Não como uma coisa. 
Sabe porque o homem acumula riquezas? Território? Escraviza a outros de sua espécie, Senhor mcKennan?

-Não sei não. Me diga! 

-Pois eu lhe direi. 
Para preencher um vazio que não acaba, por não compreender que doar-se ao o outro, protegê-lo é o que verdadeiramente realiza e o que dá sentido a todas as coisas. 
Isso é riqueza, senhor mcKennan. 
Placebo é a mentira cotidiana de que consumir nos fará pessoas melhores.
Mas não devo ser hipócrita pois também estou no mercado da propaganda.
 Mas"Uma do meu tipo" procura vender a imagem aliada á ética e ao respeito a vida . 
Jamais aceita trabalhos que comprometam seus próprios valores, senhor ator!


Aquela moça não era boba. Não era mais uma cabeça oca de corpo perfeito e beleza descomunal.
Robert viu que ela possuía inteligência e sobretudo integridade.
Aquele tipo de coisa fazia toda a diferença.
Sua antipatia por ela tornou-se na mesma hora em admiração.
-Cessando as hostilidades, Eulália. Nada tenho contra você.

-Cessadas, senhor. Eulália sorriu lindamente, desvanecendo imediatamente toda e qualquer sombra de aflição do rosto. -Veja bem, senhor Wolk. Claudia nunca comentou comigo sobre você, e muito pouco sobre a vida pessoal dela...mas se me permite uma sugestão: porque não tenta falar com ela? 
Talvez possam se entender...Sabe, me desculpe, mas realmente estou de saída...

-Permite que eu fique um pouco?

-Como...mas...

-Não vou mexer em nada. Apenas gostaria de ficar um pouco.

-Bem...acho que não há problema nisso. Gostaria de pensar sozinho, não? Eulália flagrou-se com certo remorso por aquele homem.
Robert Wolk não lhe parecia agora mais do que um homem comum com o coração arrasado.-Bem. Deixarei o cartão na porta. 
Entregue-o na portaria por favor, quando sair? 
Gostaria de ficar e para debatermos mais, mas...

-Eu sei, Eulália. 
Pode ir, não quero atrapalhar sua vida. Apenas obrigada. E me desculpe se descontei em você... 
Eulália sorriu-lhe com ar de consolo:

-Ainda vou desculpá-lo...mas o que você fez foi apenas colocar em palavras diretas o pensamento comum das pessoas a respeito das modelos...

-Eulália, eu...

-Eu sei...eu sei. Está tudo bem. Aguardo seu convite para um filme que venha a dirigir algum dia. E daí sim estará perdoado!

 Eulália se afastava para pegar a mochila quando Robert perguntou:
-Você por acaso não sabe se Claudia encontrou meu BlackBerry perdido por aqui? Tenho muitos dados importantes armazenados...foi por isso que acabei vindo.
A resposta de Eulália foi negativa. Claudia não havia tocado nesse assunto com ela quando ligou.

Mas Eulália garantiu-lhe que procuraria com mais tempo e o postaria imediatamente para o escritório do agente dele, assim que encontrasse.
-Mas, senhor Wolk, o senhor deve poder rastreá-lo.

-Rastreá-lo...

-Sim. É provável. Deve haver um chip de rastreio! Informe-se com a companhia.

-Tem toda a razão, Eulália! Faremos isso. Agradeceu-lhe Robert.
Eulália disse-lhe que ficasse a vontade, despediu-se e saiu.
Fechou a porta sem barulho.

Robert sentiu a esmagadora presença do silêncio.
Parou na soleira do quarto onde ele e Claudia haviam se amado com tanta desvario.
Conseguia sentir a presença persistente dela de modo enlouquecedor. Seu coração acelerou e sentiu-se sufocado.
Tocou em algumas peças de roupas do roupeiro  como se fosse possível descobri-la escondida entre elas.
Mas subitamente deu-se conta do papel ridículo que estava fazendo. Ela não estava morta.
Apenas optara por deixá-lo de uma maneira sórdida e descarada. Fugindo, sem lhe dizer absolutamente nada.
Arrojou-se para fora dali pisando firme.
Jurou para si mesmo que nunca mais poria os pés ali novamente; e que sob nenhuma circunstância rastejaria pelo amor de Claudia.
Bateu a porta por fora.
Robert não percebeu o envelope pardo que Eulália jogara deliberadamente sobre uma das poltronas da pequena sala.




A Ópera de robert mcKennan. 35


“-Robert...Robert. Estou tentando te ligar! Que inferno! Eu sei que agora não pode me atender. Mas preciso que me ouça! Eu não quero decepcioná-lo, amor. Mas não posso aceitar o que me propôs. Estou saindo do país, amor! Mas acredite em mim, será por pouco tempo...eu vou voltar...liga prá mim. Liga prá mim por favor...eu te amo, amor. Eu te amo.”

Claudia estava no Aeroporto internacional de Los Angeles fazendo o
check- in de sua bagagem, enquanto tentava mais de uma vez comunicar-se com Robert.
Estava apavorada com a visita de Noah.
Achou que a decisão mais acertada era sair logo de onde estava e procurar um refúgio em que estivesse plenamente segura.
Não conseguira dormir aquela noite.
Qualquer ruído estranho lhe dava calafrios.
Sabia que não agüentaria.
Arrumou poucas roupas na mala, e saiu num taxi de madrugada.
Teve sorte em conseguir uma conexão com São Paulo para as seis horas da manhã.

Dóris Greensberg foi a primeira a levantar pela manhã e ouviu o toque do celular de Robert vindo do bolso do paletó dele que ficara largado no capitoné  da biblioteca.
A julgar pelo esperado tom de desespero daquela mensagem de voz, Dóris concluiu que Noah havia trabalhado bem...
Não  ponderou muito antes de decidir o que faria.
Modificou a posição da câmera de segurança. Sua sensação foi a de um mórbido e secreto prazer ao arremessar o telefone pela janela diretamente para dentro da fonte de pedra do jardim. Lá sabia que ele permaneceria por um bom tempo sepultado em águas limosas.

A partir de agora exigiria dos empregados um relato detalhado de todos os passos de Robert dentro daquela casa.
 Noah já havia providenciado um renomado detetive para ocupar-se dos passos dele na rua e no trabalho.