sábado, 31 de março de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 34


Claudia atendeu a porta sem jamais esperar por aquela desagradável surpresa:
-Você...
Noah Stuart Greensberg estava parado a sua soleira saído de algum O.V.N.I. ou coisa semelhante!
Claudia sentiu seu estomago revoltar, mas manteve-se firme encarando-o, esperando que ele tomasse a iniciativa de dizer a que vinha.
Ela não permitiria que ele entrasse. Mas, ele se impôs, forçando a passagem.
-Então é aqui que você perverte um pai de família? Nesse antro de mariposa? Patético...
Claudia tentou sair pela porta enquanto ele examinava curioso as paredes, os móveis, avaliando a regularidade do reboco, eventuais teias de aranha...mas ele manteve os reflexos ligados.
Capturou-a antes que ela escapasse.
Segurou-a pelo tronco e impediu que gritasse com a mão em sua boca. Bateu a porta com o pé.
Claudia só percebeu que estava no chão e aos pés daquele pústula  arrogante.
Ergueu-se com rapidez.
Seus olhos deram diretamente nos dele.
Noah a examinava com cara de desprezo.
 Procurava por “certos sinais“...
-É. Certamente você engordou um pouquinho! Seu manequim definitivamente, não é mais o trinta e seis!
O que aquele diabo queria dizer com aquilo? E se queria dizer qualquer coisa que dissesse logo e que fosse embora!
Claudia olhou em torno. Queria poder avistar seu celular.
Se pudesse então teclaria emergência.
O sujeito flagrou sua atitude ansiosa interpretando-a a seu modo:
-O que, senhorita “princesa persa”? Está procurando uma faca? Disse “faca” com uma entonação que parecia  ofídica.
Claudia gelou.
Temeu que ele tivesse a intenção de esfaqueá-la...
-Mas porque isso se sou seu amigo? Vim ajudá-la, sabia?
Ele aproximou-se com lentidão. Claudia recuava.
Ele riu:
-Está bem, está bem. Não me aproximarei mais. 
Puxa, Deusa! Como você está terrivelmente linda! Eu adoraria maquiá-la...-riu-se-...no seu caixão!!! Brincadeirinha...estou só brincando.
Noah puxou do bolso do terno alvíssimo de linho uma cigarreira madrepérola.
Era uma beleza.Tinha filigranas em ouro e incrustações de conchinhas rajadas em abalone. Fez toda uma movimentação afetada mas não fumou. Manteve um dos braços cruzados no tronco e outro livre estendido, portando o cigarro apagado.
-Sou seu maior amigo nesse momento, princesinha. Pode acreditar.
Ele puxou uma das cadeiras, sentando e mantendo as pernas alinhadas de lado, aristocraticamente, como se estivesse numa recepção palaciana.
- Vim fazer o magnânimo sacrifício de pisar nessa sua”moradia” para avisá-La do sério perigo que está correndo, querida. 

Examinou as próprias unhas polidas esmeradamente, lixadas no formato de ogivas.
-Nenhum de nós da família Greensberg gostaria de ter de tomar uma atitude drástica  mas já está mais do que na hora de você se retirar de cena, meu bem...Cruzou os braços com as mãos sobre a mesa afagando a pedra de um de seus magníficos anéis.-Você desencadeou nosso ressentimento, mas não se preocupe somos todos muito tolerantes. Pelo menos até certo ponto. Sabe senhorita princesa persa, eu pessoalmente optaria por dar um jeito em você agora! Mas não sejamos grosseiros. Sejamos civilizados. Eu lhe dou uma saída diplomática:
Arrume logo suas trouxas e suma da vista do marido de minha prima! Desinfete da presença de meu sobrinho, e desista de uma vez de fazer chantagem. Ah! e afogue esse seu rebento assim que ele nascer, ou nós mesmos faremos para você...
Claudia perdeu toda a cor das bochechas. Sentiu-se  frente a frente com um réptil venenoso, pronto a atacá-la. O céu de sua boca tinha um gosto amargo ilusório.
O medo irrompia em ondas de suor frio.
Perdera o controle da própria fala.
-Ótimo. Bem a tempo. Estou vendo que entendeu a mensagem.
Noah ergueu-se num salto ágil de bailado.
 De dentro de sua carteira puxou um envelope que deixou sobre a mesa. Aquilo fazia parte de um último ato de humilhação contra ela:
-Muito bem, querida. Como não sei exatamente o preço do procedimento, tome isso! Deve dar! Estou a meu modo acertando as contas por mcKennan com você. Dê-se por muito feliz...Não morrerá nas mãos de um açougueiro pelo menos!
Ah, e antes que me esqueça: Não pense que não estou de olho nos seus passos. Sei muito bem que está torcendo para que minha prima morra, achando que assim se tornará a nova senhora mcKennan, não está?
Escute bem: se minha prima morrer saiba que culparei você.
Você que desencadeou nela o desespero pelo medo de ver seu casamento ruir. Você que se aproximou intencionalmente de mcKennan, para esfregar-lhe esse seu cheiro de cadela imunda no cio! - Aumentou ameaçadoramente o tom de voz:
-Isso mesmo, sua pilantra. Você provocou a doença de minha prima e fique sabendo que vou fazê-La pagar...mas não agora. Ainda não sujarei as mãos com você!
Ele brutalmente, arremessou a cadeira em que estava na direção dela. Claudia encolheu-se.
Sentiu o deslocamento de ar do objeto a poucos centímetros de seu ombro esquerdo.
Atingira a parede.
Alguma coisa lhe dizia que ele errara de propósito.
Noah envolveu a maçaneta com um lenço, escancarando a porta e lançando a ela um último olhar antes de finalmente sair.


A Ópera de Robert mcKennan. 33



Depois de Robert sair, Claudia se dedicou a  pensar por muito e muito tempo.
Apesar da maravilha que os ligava, aquela reação dele ao lhe falar sobre seu trabalho no Rio foi, no mínimo, egoísmo machista puro.
Obstinação em tê-la a sua volta, dominada por ele.
Será que atores, no fundo eram puramente uns narcisistas?
Criavam uma ilusão de estar no centro do mundo; passando a acreditar nisso cegamente com o passar do tempo, com o acúmulo de sucesso; retroalimentados pela loucura de todo o circo de mídia e dos fãs?
Ela agora refletia nessas coisas.
A atitude dele tinha um intuito sobrepor sua vontade. Submetê-la a ele.
Ele não a respeitou.
Não respeitou sua dor, sua raiva. Sua dignidade de mulher.
Provavelmente nunca soube o que era isso pois Carol vivia cegamente para ele!
Mas ela decidiu que ela não! Não seria assim.

Robert se tornara o foco em sua vida e tinha seu amor. Não poderia mentir prá si mesma quanto a isso e nem deixar de sofrer de uma hora para outra.
Mas não queria; e sabia que não poderia, continuar ao simples balanço da vida dele, das urgências dele, daquilo que ele resolvia e do que precisava.
Não poderia perder a chance de retomar  sua própria vida e decidir soberanamente o que seria melhor para si mesma e mais do que tudo agora: Para seu filho. Pois uma coisa a incomodava insistentemente; a conversa estranha de Carol, sobre ser “dela” o bebê que Claudia carregava. E mais ainda; o fato inexplicável de ela “saber”desse bebê. “Saber“!
Isso estava enchendo-a não só de desconfiança, mas levava seu pensamento para um terreno que não lhe agradava e que lhe trazia flashes daquele estranho momento na ala dos carvalhos.

Agora Robert vinha com aquela conversa de imóvel, de chaves, de “você é só minha !”
Estava começando a ficar complicado demais. Ele a estava cerceando!

Se ela concordasse com aquilo ele a teria a disposição quando quisesse até enjoar-se. Mas e depois?
O amor que ela sentia significaria mesmo alguma coisa?
Ele a  amaria tanto assim a ponto de expor-se dessa forma?

A tela de TV e as entrevistas com assuntos previamente acertados eram prolixas em mostrar Robert Wolk como um homem de grandes virtudes.
Com uma esposa perfeita, pai de família, coração generoso.
Mas aquilo era impossível.
Não haviam seres perfeitos.
Claudia pensava agora se teria se deixado levar e até seduzir por essas máscaras, esses efeitos estudados.
Pela fantástica habilidade dele como ator ao lhe proferir declarações e manipulá-la o tempo todo para que se submetesse a ele e fizesse exatamente tudo o que ele queria.
O que no final de tudo era gerar aquele bebê para depois tomá-lo dela!
Quem sabe o que seria dela depois que o bebê nascesse?
Não. Não. Estava exagerando. Delirando! Que infantilidade!
Se o casal quisesse um bebê, conseguiriam de alguma outra forma.
Nos dias de hoje...
Mas por via das dúvidas, não falaria nada.
Não confiaria em mais ninguém.
Rolland já deixara sugerido para ela do que ele e Robert poderiam ser capazes.
E agora achava que não conhecia tão bem assim aquelas pessoas.

Ouvira dizer sempre que gente muito rica dificilmente chegava ao topo sem deixar para trás alguma sujeira.
Através do pouco que Rolland lhe contara sobre seu passado e o de Robert podia “deduzir“...
 Alguém bateu em sua porta. Seria Robert?
Será que esquecera alguma coisa?

quinta-feira, 29 de março de 2012

A Ópera de robert mcKennan. 32


Depois do ótimo jantar e das conversas apimentadas temperadas com o excelente humor de Dóris, Robert retirou-se satisfeito sem esquecer de dar uma olhada nas crianças.Tudo lhe pareceu bem.
Ewan dormia tranqüilo mas esquecera o X-BOX ligado. Robert salvou o jogo e o desligou. Depois fez com que Ewan levantasse e escovasse os dentes.
Quanto a Helena. Não estava em seu quarto.
Aquilo imediatamente o sobressaltou.
Procurou-a no banheiro da suíte dela e olhou também pela sacada o que foi em vão.
Mas logo lhe sobreveio uma idéia; subiu as escadas. Lá estava ela.
Dormia serenamente na suíte dele junto a Carol .
A cena o confortou.
Aquilo se devia a presença benéfica de Dóris que fez com que Helena relaxasse um pouco, não ficando tão intensamente apegada a Robert.
Helena, mesmo sendo pequena sabia que havia algo errado com a mamãe. Era muito dependente de Carol, emocionalmente ligada a ela.
Ele muitas vezes se afligia pensando nisso.
As coisas seriam bem difíceis não apenas para ele.

Robert entrou no banheiro fechando a porta silenciosamente.
Antes de ligar o chuveiro, examinou seu próprio rosto no espelho.
Achou que já apresentava marcas sutis da passagem do tempo e que se parecia muito com seu pai e tios! Tinha o mesmo ar jovial e a mesma expressão atenta nos olhos azuis de todos eles.
A barba um pouco rala lhe dava um aspecto indomado e sabia o quanto gostava de poder manifestar essa impressão que transmitia desafio!
Gostava de ser um mcKennan!
Um remanescente legítimo de alguma misteriosa estirpe de “highlanders“.
Treinou uma risada teatral sinistra tirando camisa a seguir.
Sua pele clara estava marcada no peito e costas por vergões, e micro arranhões com pequenos pontos de seu próprio sangue coagulado.
Teve  uma prazerosa  sensação de orgulho vaidoso nisso e imediatamente, lembrou-se dos acontecimentos passados horas antes:

-Onde você está indo Claudia?

-Estou com fome,  vou pegar uma fruta e uns biscoitos.
Claudia havia despertado do mesmo modo repentino com que costumava desabar nos últimos dias dormindo ao lado dele. Robert mal teve tempo de vestir a calça jeans e correr atrás dela.
 Parou junto ao batente da porta olhando-a impressionado:
-O que está havendo, mulher? Quer que eu peça um lanche prá nós?


-Quero, Bob. Comida cantonesa, por favor...rolinhos primavera! Ela falou enquanto devorava uma maçã.
-Nunca vi você assim... 
Claudia tratou de responder-lhe rápida:
-Não se preocupe, devo estar entrando na TPM...

- Você nunca comeu assim. Até parece que está grávida!


-Decerto os hormônios da gravidez ainda tenham algum reflexo.

-É. Ou talvez seja psicológico. Mas você vai ficar linda mais rechonchuda...
Robert fez o pedido que não demorou muito. Assim que pagou o entregador, procurou Eulália. Quis convidá-la a acompanhá-los. Robert achou que exagerou no pedido!

-Sua amiga deve ter saído, pelo jeito.

-Ela as vezes vai prá casa do namorado multimilionário...ou então vão jantar em algum bom restaurante.


-Vocês duas se dão bem, não?

-Eulália é boa gente.Tranqüila e discreta, não posso me queixar. 
Ela até...

-Ela até?
-Ela até cozinha bem.


-Claudia!


-O que? 
-Você, agora está...“tangenciando“.


-Tangenciando?


-Você ia dizer alguma coisa sobre Eulália, mas não era sobre ela cozinhar bem...


-Pare, Robert!


-PARE, ROBERT?
Robert pulou diante dela, no estilo do vilão dos filmes mudos, agarrou-a  elevando-a do chão com facilidade.Obrigou-a a deitar no sofá. Então começou uma impiedosa sessão de cócegas. Ela quase sufocava de tanto rir.
-Não vou parar até você falar...


-Tá...tá bem, Robert!
-E ENTÃO?


-Me dá um beijinho, então...
Ele sorriu não podendo resistir de modo algum aquele pedido. Os beijos foram intermináveis e foram conduzindo a afagos e carinhos cada vez mais quentes...
-Hummm...assim não vale, Claudia...você tá me distraindo de propósito...
A muito contragosto parou de beijá-la, segurando os pulsos dela gentil mas com firmeza. Ela certamente não poderia lhe escapar:
-O que você ia me falar e se arrependeu antes de terminar? 
Claudia girou a cabeça em meio a cascata de seus cabelos negros, não o encarando diretamente:
-Eulália me convidou para fotografá-La.

-Fotografá-La? Que interessante. E você já começou?

-Começo daqui duas semanas.

-Sim. Daqui duas semanas. E porque não amanhã? As fotos serão externas? A previsão é boa para Los Angeles amanhã! Serão fotos prá um book? O tom e o ritmo rápido das perguntas dele emitiam certo ar prevenidamente desconfiado.
Claudia olhou-o de esguelha, sabendo de saída no que aquela conversa iria dar...
-Não são para um book e não serão feitas aqui em Los Angeles, Robert.
Robert reposicionou-se soltando os pulsos de Claudia. Seu maxilar
cerrou, deixando ver claramente a contração dos  músculos de seu rosto. Perguntou frio:
-E serão feitas...onde?

-No Rio de Janeiro. 
Claudia preparou-se para a reação. Ele simplesmente falou:
-Hum. Rio de janeiro.
Sentou-se ao lado dela.
Analisou os furos assimétricos nos joelhos de sua calça jeans.
Tocou o próprio queixo com o punho fechado, como alguém que refletisse cuidadosamente no assunto; batucou com os pés no assoalho, e em seguida emitiu o decreto com voz dura:
-Rio de Janeiro você não vai.
Claudia esperava qualquer comentário dele, menos aquela fala fria e taxativa.
Ela quase engasgou. Sentiu o peito contrair tenso e o rubor quente subir pelo rosto. Não acreditou:
-Como?
Ele girou o olhar na direção dela. Enfunou o peito aspirando fundo. O olhar plácido e a voz calma de um regente:
-Acabei de dizer. Que parte você não entendeu, Claudia? Rio de Janeiro você não vai.
Ela achou-o um poço de arrogância, ao vê-lo falar daquela maneira...Ele nem se envergonhava!
-De onde você tirou isso, Robert?


-Isso o que? Minha decisão definitiva sobre o assunto?
Claudia bufou mas sua voz acabou saindo enfraquecida devido o nervoso:
-Você não manda em mim... 
Ele rebateu-lhe tranqüilo:
-Isso ainda precisa ser discutido...
Ela arregalou os olhos. Não conseguia crer que ele pensasse algum dia que podesse falar com ela assim!


-Não adianta me olhar com essa cara, Claudia. Esse assunto está resolvido...agora vem aqui...
Aquele “Esse assunto já está resolvido” deixou-a a ponto de querer expulsa-lo:
-Que tom machista, absurdo e bobo é esse, Robert?
Ele percebia todo o descontrole que tomara conta dela. E simplesmente desferiu:
-Ou você fica em Los Angeles! Ou você fica na Escócia! Você esqueceu que trabalha prá mim?

-Eu rescindi com Rolland...

-Comigo não rescindiu NADA. Continua como antes. Você trabalha prá mim. E além do mais eu tenho uma proposta nova prá você...


-Não quero ouvir proposta sua nenhuma!


-Vai ouvir!


-Com quem você acha que está falando, Robert?

-Estou falando com você mesma, CLAUDIA e diretamente para você! Sua voz alteou-se -E sei exatamente como falar quando falo com alguém que amo, que  faz parte de minha vida e na qual confio! Robert não pareceu estar para brincadeira. Naquele momento Claudia mesmo sem querer começou a recuar. Achou o olhar dele pesado de sustentar.
-Estou falando com alguém que me deve muita, mas muita consideração. E não estou a fim de aceitar que me desconsidere, esquecendo quem sou e o que represento em sua vida!

-Bob, não estou te desconsiderando...


-NÃO? Ele encarou-a incisivo -Não é o que está parecendo. Acho que você ainda não tirou da cabeça aquela idéia infantil de fugir pro Brasil e me abandonar! Só que vou te dizer só uma coisinha, menina, e quero que preste atenção...


-Robert...


-NINGUÉM me abandona. NINGUÉM me trai. Não tolero e não permito que tentem me pôr prá escanteio, Claudia. Fique bem certa de que isso não vai acontecer!

-Não sou sua propriedade, Robert! 
Ele olhou para o teto  sorrindo com ironia:
-Mulher. O que você é então?!! O que você é? Um pássaro migratório? Um andarilho sem vínculo com nada e nem ninguém? Uma enjeitada sem família, sem laços de amor com nada nem com ninguém? Você é uma pessoa tão covarde assim, Claudia? Tão fraca? 
Tem tanto medo de se comprometer, de pertencer? 
Escute bem, Claudia : Não há escolha!
Não aceito vacilo. Quero você inteira. Quero agora e quero sempre! Eu faço o que for preciso fazer...VOCÊ ME PERTENCE, está ouvindo? 
Eu amarro você se precisar!
É melhor que aceite isso logo por bem e de uma vez.
E não vou aturar mais esse seu de tom desprezo comigo, Claudia. Essa conversa boba de Brasil e Rio de Janeiro ENCERROU!
Claudia tentou engolir o choro que era de pura raiva.
Nunca em sua vida dependera de homem nenhum e agora, frente aquilo, simplesmente não sabia como defender-se de Robert que a tratava com todo aquele desrespeito como se fosse uma garotinha de colégio.
Não queria dar o gosto a ele de a ver chorar e fugiu para o quarto tentando trancar a porta, coisa que ele não permitiu que fizesse. Escancarou a porta com facilidade puxando-a de trás dela:
-Pare com essa criancice, não vai adiantar nada...A voz dele estava calma sem sombra de ameaça...-Sobre a proposta que tenho, Claudia, quero que preste atenção...
Ela tinha vontade de poder esmurrá-lo. Ele continuou junto a ela e enxugou suas lágrimas mesmo com ela tentando impedi-lo.
-Antes de mais nada, desculpe o modo como falei. Não queria te fazer chorar. Ele beijou-a na testa. Falou com suavidade: -Há um imóvel em meu bairro aqui em Los Angeles, bem próximo de minha casa e a caminho da sede da revista. Vou te dar as chaves dele. Quero ter você por perto, Claudia. Vai ser melhor.
Ela não disse nada. Apenas fulminou-o com os olhos inchados pelo choro, afastou-se dele e encolheu-se em sua cama. Ele sentou-se a seu lado:
-Amor, olha prá mim.
-Não me toque, Robert! Estou com muita raiva de você...muita raiva.
Ele não pode resistir; aproximou os lábios do ouvido dela. Declarou:
-E isso me excita, sabia?
Ela ficou furiosa com aquilo. Sentou-se na cama e atirou-se contra ele tentando estapeá-lo. Ele deteve todos os seus ataques facilmente. Em seguida abraçou-a pela cintura e beijou seu ombro e pescoço inúmeras vezes. Como ela continuasse as tentativas dos golpes, jogou-se sobre ela obrigando-a a ficar de bruços os braços retidos por ele e cruzados diante do peito.Uma técnica de luta romana. Manteve-a assim presa embaixo dele.
-Amor...amor, se acalma! Como você tá furiosa. Mas não adianta, ouviu? Não vou te soltar...
-Me solta, Robert! Rugiu ela com a voz meio abafada.
Ele a soltou só para ver o que ela faria. E ela foi direto tentando lhe desferir um tapa do qual ele se defendeu encolhendo-se e que acabou acertando seu ombro de pedra. Depois foram vários que acertaram as costas, os braços e coxas numa tentativa frustrada dela de fazer com que ele sentisse dor, mas ele estava extasiado, adorando provocá-la daquele modo. Não continha um riso de prazer!
Ela desistiu e cruzou os braços exausta.
Ela estava vermelha e as lágrimas explodiam junto com a raiva.
-Robert, vá embora! Vá embora agora! Me deixe sozinha...Odeio você!


-Isso é mentira! E eu vou mas é porque está ficando tarde e  seu bairro é longe. Mas logo você vai morar bem perto de mim...
-Não vou morar perto de você! Não quero saber de imóvel nenhum!
-Não dificulte as coisas, Claudia, tá bem? E não grite...Falo com você amanhã. 
Claudia arremessou-lhe um sapato. Ele desviou a tempo.
Nunca havia flagrado aquele temperamento virtualmente latino de Claudia!
Aquela mulher repleta de passionalidade estava bem escondida em meio a toda a doçura, maneiras suaves e encanto de menininha.
 Ah, mas ele adorou deparar-se com aquela mulher furiosa! Com aquele potro desenfreado rebelando-se contra ele. Sentiu uma excitação que o encheu de vida e de alegria autêntica.
Também sentia um pouco de raiva misturada a uma sensação de limite, de medo de que todas as coisas pudessem despedaçar-se de repente.
Queria poder ficar mais e fazer amor por toda noite mas sabia que não poderia.
Mas de repente, perdendo todos os parâmetros, arremessou-se sobre ela na cama obrigando-a a beijá-lo! Aquele beijo foi quase uma luta. Robert sentiu seu coração mais acelerado do que nunca, no ímpeto de submetê-la, de fazê-la ceder a ele.
Ela tentava impedi-lo mas ele a mantinha presa enquanto percorria com a boca seu pescoço, seus ombros seus seios, seus lábios. Dominado por uma força que nem ele mesmo compreendia nem jamais havia sentido. Ela finalmente rendeu-se a ele e a partir daquele momento os dois eram puro instinto se integrando profundamente como forças terríveis, opostas e indissociáveis.
-O que me atraiu prá você, Claudia? O que me atraiu? Ele perguntava a ela sentindo desespero. Sentindo uma vontade de chorar como um bebê enquanto a amava incontido, sendo arrastado pela ligação entre seus corpos, levado por ela até o encontro de um irresistível abismo. Mas não queria respostas. Não queria nada além daquele momento em que se tornava tão pequeno e absolutamente dela.

Depois de se amarem ele afagou seus cabelos deitado sobre seu corpo sem vontade nenhuma de partir. Aconchegava-se nela, respirando o perfume de seus cabelos beijando suavemente o lóbulo de sua orelha...
-O que você está fazendo, comigo, menina? O que é “isso“?

Naquele momento percebeu que nunca em sua vida sentira-se tão ligado em uma mulher, que nenhuma lhe deixara tão vulnerável. Inseguro.
Parte do encanto talvez se devesse ao fato de ela não querer dar-lhe garantias do seu amor, e de ser tão volátil.
Em um dado momento ele a tinha e de repente ela se insurgia, quebrava tudo gerava um filho dele sem que ele soubesse, arremessava-se contra ele tomada de fúria e em outro momento o chamava “amor” se entregando a ele daquela maneira louca. Voraz.!

Sofreu em ter deixá-La, mas era tarde. Não queria deixar de estar com Carol. E apesar do suporte dado por Dóris, as crianças precisavam ter o pai em casa. Não podia desamparar sua família num momento tão forte. Claudia aceitaria o que ele lhe propusera. E então tudo ficaria bem. Ficaria se fosse desse modo. Do modo que ele pudesse controlar.



sábado, 24 de março de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 31


Os acontecimentos tumultuados dos últimos dias além de muitas outras coisas por muito pouco não atrapalharam o ritmo de gravações da série em que Robert possuía papel de destaque. Carol, felizmente, já estava em casa e, apesar do quadro médico, estava tranqüila e não sentia qualquer incômodo.
Seu primo Noah veio imediatamente. Noah, por quem Carol já cultivara enorme afeição no passado e que agora ela fazia questão de receber.
Os pais de Robert, devido a idade foram poupados das notícias. Pelo menos por enquanto. Ficaram na Escócia onde viviam, mas tendo Mike Rolland de sobreaviso para qualquer eventualidade que ocorresse em Los Angeles.
Ewan parecia mais maduro e procurava não fazer perguntas. Robert achava que era porque ele tinha medo das respostas.
Helena estava mais apegada a Robert, e não conseguia dormir sem que ele chegasse.
Teve episódios de xixi na cama e Robert ordenou que não a recriminassem. Resolveu passar mais tempo com ela; assistindo aos desenhos animados que ela costumava assistir com Carol; ajudou-a nas lições. Comprou para ela um lindo livro de bonequinhas de papel e brincaram de desfile de modas. Robert fazia o melhor que podia. Mas tinha um medo persistente de não estar fazendo o bastante.

A chegada de Dóris Greensberg, irmã de Carol, foi muito semelhante a um grande acontecimento. As crianças esqueceram-se por um momento da aflição e do medo pela mamãe, fascinadas por tia Dóris, que os abraçou efusiva e lhes trouxe os mais exóticos presentes.
Dóris era uma mulher corpulenta e risonha de cabelos vermelhos, bochechas coradas. Vestia cáqui, no mais puro estilo de expedicionária da África.
De fato estivera recentemente pela África com equipes da ONU e em outras ocasiões integrando uma organização médica-humanitária.
Dóris era exatamente o oposto de Carol. Pois era talhada para os desafios.
Tinha 36 anos, e era formada em Odontologia com especializações em Cirurgia Maxilo Facial, e reconstituição óssea do crânio.
Tivera um papel relevante salvando as vidas de mulheres, homens e crianças mutiladas pela guerra em confrontos com explosivos ou sobreviventes de chacinas na Argélia; Moçambique; Somália. Tinha brevê de piloto e muitas horas de vôo.
Robert Wolk já integrara com ela mais de uma de suas missões a África.
Fora convidado a angariar fundos e donativos para organizações de assistência internacionais.
 Nesses encontros, apesar da precariedade das instalações, das constantes quedas de luz, ameaças de terrorismo e seqüestros, Dóris o divertira com suas piadas espirituosas. Conseguia sempre o efeito de entusiasmar a todos com sua preciosa energia contagiante inesgotável.
Tinha uma risada muito típica e alta. E suas maneiras eram totalmente espontâneas. Autenticas.
Dispensava maquiagem. Comia o que gostava e era assediada pelos homens, dos quais fazia uso para seu prazer sem pudores nem caretices.
Sua predileção eram o Schott e os charutos cubanos.
Em síntese: Apesar de sua área não ser a artística, Dóris Greensberg era uma quase versão feminina de Robert Wolk mcKennan.
E talvez por isso os dois se dessem tão bem.

Formou-se ao redor de Carol uma rede de proteção e alegria com a chegada de Dóris da qual só agora Carol se dera conta de que realmente sentia falta.
Dóris impôs ritmo novo a casa e fez com que os empregados andassem rigorosamente na linha.
Robert desse modo sentiu-se amparado e com forças e tranqüilidade para trabalhar.
 -E então, mcKennan, como é ela?
Dóris brandia um velho e precioso Schott on the rocks, sentada sob a luz indireta de um abajur na biblioteca. Ouvia-se baixinho ao fundo”Fly me to the moon“.
Robert acabara de chegar de um de seus encontros com Claudia. Eram mais ou menos onze horas da noite. Ele fez um ar incerto, pego totalmente de surpresa por aquela pergunta direta como um soco.
-Oi, olá, Dóris...o que você me perguntou?
-Eu apenas lhe perguntei”como é ela?” Me refiro a sua bela gueixa...
Ele não soube o que dizer. Dóris prosseguiu;
-mcKennan, você é uma força da natureza, mcKennan e gosta de... sexo. Isso não é vergonha. Não estou te censurando. Somos adultos, não é mesmo. Existe uma pessoa e posso ver claramente que ela te virou a cabeça. Você está maneado, moço...
Robert tinha o maior apreço por Dóris mas não achava que aquele fosse um assunto que devesse abertamente debater com ela.
Dóris leu seus pensamentos;
-Fique a vontade, em sua própria casa, cunhado. Não vou mais incomodá-lo. Acho que bebi um pouquinho além da conta. Não tenho o direito de me meter em sua vida.
Ela sorriu-lhe calorosamente:-Vamos devorar o ensopado de carneiro que mandei preparar! Receita tradicional da minha mãe. Você deve estar faminto, mcKennan. Pelo menos está com cara...Eu estou!
 Robert serviu-se de uma dose sinalizando que não tinha vontade de sair . De um modo único Dóris lhe inspirava a amizade e descontração encontradas na pessoa de um verdadeiro amigo. Ela era inteligente. Não havia motivo para esconder-lhe aquilo que já sabia. Tinham franca sintonia.
-Sou tão transparente assim, Dóris?
-Você é um homem. E bem humano, apenas isso! Sabe, mcKennan esse é um dos motivos que me impedem de querer casar.

- E qual é?

-Preciso de minha liberdade, rapaz.
Convencionalismos caretas? Não nasci prá esse papo, mcKennan. Por isso fui afora pelo mundo. Não dependo de ninguém. Mas muitos dependem de mim. Se tivesse que assumir o papel de mulherzinha ia enlouquecer.
-No fundo acho que sou um desatinado, Dóris.
 -Você ama demais. Eu sei. Por isso te entendo.
-É que amor trás o sentido de tudo nessa vida prá mim, Dóris.
-Por isso se apaixonou, não é mcKennan?
O olhar dele a fixou por um momento depois aos poucos foi se distanciando. As palavras perderam o significado. Ele só sabia daquilo que sentia:Uma vontade aflita de perder-se nos braços de Claudia. Entregar-lhe tudo. Seu corpo, sua visão, o ar que respirava. Sua própria vida.
E Carol. Carol representava o sol, faria qualquer coisa por ela. Carol era a motivação de tudo, quem o trouxe de volta, de onde ele renasceu. De quem ele sabia que não teria forças para se desapegar se o pior viesse a acontecer...
Dóris sorriu tristemente para si mesma, imaginando o conflito que se passava na vida dele. Olhou para a mãos dele. Emitiam tanta fortaleza. Parecia a ela que apenas com elas seu cunhado queria controlar as rédeas de sua vida e da vida dos que o cercavam. E ele tinha a crença de que controlava realmente a tudo e a todos. Bastava arrojar-se em direção aos problemas, enfrentar o que viesse com sua atitude extraordinariamente corajosa, amar a todos com seu coração tremendamente amoroso e tudo estaria certo. Nada lhe seria negado.
-Não o censuro por amar, mcKennan. Apesar de doer tanto, amor nunca é demais, meu caro! Viva a isso. Um brinde.

-Um brinde a você Dóris. E obrigado.

-Pelo que?

-Por não me odiar. Não queria fazer ninguém sofrer Dóris. Mas sinto que estou fazendo.

-Porque diz isso? Você está querendo se abater por uma culpa que não é sua,mcKennan.
Que na verdade não é de ninguém.

-Como você sabe disso, Dóris? Como pode saber?

-É simples. Sabemos que você nunca foi um “galinha“. Você despertou por essa pessoa. Você teve necessidade de amá-la. 
Ela deve ser encantadora. Dá prá ver de longe que ela mexeu com você. Mas eu sei que você jamais desampararia Carol. Você jamais a abandonaria. Apenas porque ela é o tipo de mulher que depende de você, mcKennan.
E você tem esse estilo: O que acerca. O que protege. Sabia? O Grande pai. Você já se deu conta disso? Também sou assim. Com a diferença de que não me prendo a ninguém. Meus laços de amor não tem nó.
Robert ergueu a sobrancelha preparando uma cara de zombaria :
-Significa que eu estaria perdido se me apaixonasse por você... 
Ela deu uma gargalhada que contagiou a ambos. Eram os dois rindo como velhos camaradas.

-Pobre mcKennan! De mim você não conseguiria dar conta...pode com as duas princesinhas, mas eu...ia te dar muito cansaço!
Mais gargalhadas intermináveis.
-Sabe, mcKennan, esse é  um fenômeno que está se espalhando.
Ele fez uma cara de incompreensão.
-Há pouquíssimos homens bons de verdade no mundo, meu velho. E mulheres sozinhas demais. Não sei porque não acabam logo com a hipocrisia...

-Instituição monogâmica?

-Não só disso, mcKennan! Mas com a loucura de separar as pessoas por classe, origem, raça. Homens e mulheres são uma grande família.
Como os golfinhos! Deveriam compartilhar do mesmo banquete da riqueza. É tão simples.
Se você tem seus filhos, deve amar todas as crianças como se fossem suas, independentemente de serem pretas, ou chinesas ou furta cor.
Essa história de casamento, é uma forma de discriminação. Os ricos casam entre os ricos e fecham um cerco de relações entre eles excluindo o resto da humanidade. Isso é errado. É um princípio machista prevalecendo. A única coisa nisso é garantir que os filhos sejam seus e não do vizinho. Mas acontece que a metade é do vizinho mesmo e isso não muda em nada no amor pelas crianças...Ai! Vamos jantar, mcKennan, não posso beber de barriga vazia. Aliás preciso parar...

-Ela é linda.

-Ela... é?

-Simplesmente...linda. Tem olhos amendoados, pele morena. Cabelos negros... 

-Rapaz, você está sob feitiço!
-O problema, Dóris é que me sinto como...como se tentasse ergue-La...mas é como ela pesasse cada vez mais. Como se não quisesse minha ajuda, meu carinho. Sinto como se ela se afastasse, não importando o que eu possa fazer para tê-La. Para trazê-La comigo... 

-Não a conheço, mas pelo jeito esse é justamente o problema:”Querer trazê-La com você. Para você.

-Mas porque? Se eu posso lhe dar tudo. Porque ela quer tanto fugir de mim?

-Talvez as respostas não sejam simples, mcKennan...

-Carol. Meus filhos. Minha carreira. São minha vida. E tudo o que eu mais queria era trazê-La para minha vida também, mas ela parece não querer.
O olhar de Dóris se distanciou:
-As sereias são maravilhosas...Eu já vi sereias em alto mar, sabia?
Numa das expedições com o velho professor Jacques. Mas há uma coisa definitiva sobre elas, mcKennan: Seu mundo é o oceano. Não é o nosso mundo. Elas podem nos amar mas não se prendem a nós. São entidades marinhas, apenas nos encantam.

Robert aproximou-se de Dóris. Beijo-a no rosto e apoiou a mão em seu ombro:
-Vamos, Dóris. Tem razão. Vamos jantar. E já chega de whisky prá você por hoje...





quinta-feira, 22 de março de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 30





Naquele momento Claudia nem ligou para a conversa de Eulália.
Somente no dia seguinte pôs as idéias no lugar. E fez-se a luz quando percebeu que aquilo era tudo de que precisava para colocar seu próprio mundo em ordem novamente: Trabalho.
Eulália conseguira um tão sonhado e magnífico contrato e começava a ter seu rosto divino ilustrando as capas das principais publicações de moda da América. Começou também a ganhar muito, muito dinheiro.

Claudia, foi imediatamente convocada para uma concorrida reunião com os produtores responsáveis pelo ensaio de Eulália.
Esses sujeitos viram seu portfólio e ficaram visivelmente satisfeitos. Conversaram com ela sobre detalhes da proposta e sobre o estilo da produção das fotos. Ficaram muito bem impressionados também com a sua versátil participação na publicação editorial que homenageava o ator Robert Wolk. Apesar de ela própria, estranhamente, não haver citado o trabalho.
A partir de então foram uma série de conversas e mais conversas até que se chegasse a um acordo final satisfatório.O ensaio teria uma série de fotos de Eulália junto a outros rostos conhecidos das passarelas internacionais apresentando uma nova coleção de lingeries diretamente do cenário de Búzios no Rio de Janeiro.
Ficou acertado que partiriam para o Rio ela acompanhada de outros dois cinegrafistas da equipe dali três semanas.

 No final daquela mesma tarde, depois da maratona de executivos chatos, visitas a publicitários e reuniões com equipes; Claudia e Eulália relaxavam preguiçosas, atiradas no sofá do flat assistindo a DVD´s de shows e fazendo guerrinha de pipocas.
-Baby, se eu ganhar uma menina juro que ela vai se chamar Eulália!
-Ai Mas o meu nome é antiquado, Claudia!
-Não importa! É lindo.
O celular de Claudia vibrou.
Era Robert:
-Você não atende mais as minhas ligações,Claudia? 
Ao escutar voz dele, sentiu uma leve palpitação no peito. Era como um vestígio de culpa. Um peso. Mas logo pensou que não deveria ingressar naquela linha de pensamento. Ninguém tinha culpa de nada. Robert trabalhava demais e tinha assuntos sérios em casa e ela tinha o direito de relaxar um pouco, de sair com jovens de sua idade, ouvir musica e dançar. Não havia crime nisso. Fez um esforço para  estabelecer que não cobraria nada de Robert e muito menos de si mesma. Procurou manter um tom alegre descompromissado na voz:
-Ah! Oi, Robert. Pelo jeito você tem trabalhado bastante. Eu te liguei ontem mas deu na caixa postal...

-Liguei hoje o dia todo pro seu celular, Claudia. O que houve? 
O tom dele era arrastado, como se buscasse desesperadamente por auto controle. Claudia percebeu isso, mas resolveu manter-se serena:
-Hoje meu dia foi uma maratona. Nem sei como corri tanto...
Dessa vez a fala dele foi mais rápida e contundente:
-Ontem, tarde da noite liguei para seu telefone residencial . Procurei você, mas, você não parecia estar em casa...
Ela ponderou se deveria dizer aquilo, mas viu que não havia motivos para esconder nada dele. Afinal não fizera nada errado:
-Saí com minha amiga, querido. Fomos a uma festa. O coração dele descompassou ao ouvir a palavra “festa“.-Só não me pergunte que festa era que não sei dizer. Mas sabe quem eu vi lá?
 Ele demorou mas respondeu ele com uma arrasadora frieza:
-Nem imagino. 
-O Justin!
-QUEM?
-Justin Bieber, Bob.Veja só! Mas ele não pôde ficar. Só deu uma circulada prá curtir o lugar. Ele ainda é menor de idade! Não é um barato? Por isso amo los Angeles, querido! 
Robert estranhou o tom de voz de Claudia.
-Você está bebendo, Claudia?

-De maneira nenhuma, querido. Eu e Eulália estamos comendo pipoca. Desculpe...falei mastigando!
Ele ouviu risadas e aguardou um  momento, para então falar:
-Estou aqui embaixo. Gostaria de ver você. Podemos sair?
-Podemos...vamos sim. Mas tenho que me arrumar um pouco! Porque você não sobe? 


Do corredor Robert escutou a música alta junto as risadas femininas. A porta estava encostada. O ambiente estava iluminado.Cheiro de pipocas. Claudia pulou de pé no sofá assim que o viu.
-Entre, Bob. Essa é minha amiga Eulália. Mas você já deve tê-la visto nas capas de revistas. Eulália Constança, esse é o ator Robert Wolk.
Robert cumprimentou a bela modelo que contrastava bastante em altura com Claudia. Lembrou de já tê-la visto sim. Como hostess em alguns festivais de cinema e também em festas ligadas a promoções de eventos.
Claudia veio para ele jogando-se em seus braços. Ele tentou disfarçar mas adorou aquilo.
Ela sorria, como num transe e a primeira coisa que fez foi beijar  seu rosto, morder sua orelha e queixo inúmeras vezes, além de abraçá-lo.
Puxou-o para o seu quarto, e o fez atirar-se em sua cama.
-Claudia, você esteve usando drogas?
-Sou”careta”! Nunca experimentei nenhum tipo de droga! Nem mesmo na faculdade...Ela falou solene com a mão no peito. Depois sorriu.
De um modo particular aquela informação o tranqüilizou. Ele logo a fez sentar-se em seu colo.
Deu uma demorada olhada nela com os olhos azuis perscrutadores. Então desabafou:
-Amor, eu precisava tanto te ver! Apertou-a muito. Beijou-a apaixonado. Mergulhou a língua em sua boca numa demorada troca faminta entre os dois; intensa de tanto desejo.Teve de controlar-se para não amá-la naquele momento, pois precisava saber:-Me diga, como foi seu exame?
-Está tudo bem! Doutora Reyes me examinou e descartou qualquer problema.
-Queria muito ter ido com você. Você saiu ontem sem falar comigo...Ele beijou seu pescoço, o qual examinou atento na busca por alguma marca ou hematoma. Mas tranqüilizou-se por não haver nada. Ela lhe sorriu, olhando-o dentro dos olhos com uma ternura que o fez arrepiar-se:
-Mas te enviei uma mensagem, não foi? Eu tentei te ligar mais tarde por volta de umas vinte horas...Depois saí.
Como ele queria amá-la, como ele a desejava! Mas algo o perturbava ainda:
-Saiu...com sua amiga?
Claudia respondeu rápida:
-Eu a encontrei depois. Eu caminhava pela rua e então ela e o namorado surgiram num maravilhoso Porche...Ela seguiu falando sobre a saudade que tinha de sair a noite em Los Angeles, do quanto as pessoas eram bem humoradas, do clima maravilhoso de praia que inspirava a todos para a vida,etc.
Mas Robert via Los Angeles de outro modo:
Haviam festas sim, mas sempre envolviam contatos de trabalho.
Havia a beleza de mulheres estonteantes, mas a maioria delas era paga. Havia uma riqueza ostensiva que alienava as pessoas e confundia seus valores.

Lá ele poderia fechar excelentes contratos, fazer os mais conceituados cursos na área de produção executiva, mídias,direção e cinema, participar dos principais festivais, mas nenhum lugar para ele se comparava ou algum dia se compararia a Escócia. O seu lugar. Lugar para onde não via a hora de voltar e de estabelecer-se com um forte e bem estruturado centro de produções prá TV, que rivalizariam com as produções britânicas. Este era um dos seus projetos.Talvez o mais querido...
Claudia levantou-se e catou um par de meias do chão:
-Como está Carol? Robert sentiu uma fibra de seu coração vibrar:
-É complicado falar...Carol é forte. Estamos com o melhor e mais avançado dos tratamentos. Ele falou rápido.
-Amor. Quero tudo de melhor prá ela.
A voz de Robert embargou:
-É a primeira vez que você me chama de “amor”, meu amor...
-Não seja bobo. Sempre te chamo...
-Não. Você parece que tem medo de se entregar inteira prá mim.Tem medo que eu te machuque, não é?
-Bem...esse é um poder que todos os homens possuem. Magoar as bobas das mulheres...
-Hummm!Acho que precisamos de verdade conversar sobre essa sua teoria, Claudia. Estamos precisando mesmo conversar...
Ele afagou-a pelas costas percorrendo sua lombar mas ela desvencilhou-se. Ele ficou sem saber o que fazer.
-Vou escolher uma roupa, mas você precisa me dizer aonde vamos, querido.
Ela começou a despir-se, sem importar-se com a reação dele. Seus seios pareceram para Robert maiores do que antes. E seus quadris mais cheios.
Há semanas Robert não tinha a chance de olhar o corpo dela nu de modo tão detido e com uma iluminação tão favorável.
Achou-a mais desejável do que nunca.
Inclinou-se de costas para ele, completamente nua, investigando as profundezas do guarda roupas. Ele ficou louco ao vê-la naquele enquadramento. Puxou-a, dessa vez firmemente segura, para si. Suas mãos percorreram seus seios, as costas e não pode conter a boca ávida por seus beijos.
Ele a amou com uma fome de desejo que há tempos não saciava. E ela estava diferente. Incontida. Solta de qualquer receio. Dizendo coisas provocantes no ouvido dele que ele nunca imaginara ouvir.

Robert sentiu-se esvaziado, exausto como alguém que realizou uma extensa jornada.
-Você está diferente,Claudia...
-Estou é com muito sono, Bob...quero dormir...
-Mas, não vamos sair ?
-Amanhã. Agora vou dormir...tenho que dormir...
-Claudia, precisamos falar... Em segundos ela ressonava profundamente ao lado dele.
Notou que era a segunda vez naquele dia que ficava sem saber como reagir a ela.
Permaneceu na cama sentado ao seu lado, admirando o ritmo de sua respiração que elevava suavemente as auréolas chocolate dos seios.
Teve que encarar a verdade de que sentia ciúmes. Sentia ciúmes diante dessa postura indiferente e provocadora com que ela lhe aparecera.
Tão provocante.Tão densamente sexy.
Uma festa? Não esperava por isso. Porém deveria imaginar que isso ocorreria.
Mulheres jovens e belas a solta e sozinhas em Los Angeles...Ele não era o único astro, o único a suscitar fantasias. Havia uma constelação de pessoas bonitas, e de homens muito ricos disputando espaço.
Los Angeles era repleta de tudo do mais extravagante ao mais sofisticado.
A competição era dura em todos os setores. Desde o espaço em mídia,círculos de amizades influentes e até mesmo, porque não? Na terreno da sedução. Pensar nisso o fez engolir em seco. Se amaldiçoou por um momento.
Flagrou-se pensando que se Claudia ainda estivesse grávida dele, ele a teria por inteiro. Poderia ditar as regras. Exigir que ficasse em casa ...então ela se tornaria totalmente carente de sua atenção, presa a ele...
Ela moveu-se irrequieta balbuciando alguma coisa que ele não conseguiu ouvir direito:
-Gêmeos...Ca...minho...do útero...
-Claudia...Amor, o que está dizendo?
Ele procurou acordá-La. Ela sorriu, abraçou-o, e logo ficou entorpecida, meio acordada, meio dormitando. Ele não resistiu e amou-a novamente. Ela sorriu-lhe voltando em seguida a dormir. Quando ele acabou sentiu tristeza. Aquele ato lhe fez parecer que ela estava ausente. Aquilo de certa forma o magoou. Beijou-a. Ela mal reagiu. Ele não gostou nada do caminho por onde lhe levaram seus próprios pensamentos...
Compreendeu, totalmente rendido, que Claudia estava sendo um bálsamo para ele, um bálsamo que o libertava momentaneamente da realidade.
 As sombras do diagnóstico de Carol, do qual ele não quis falar a Claudia, e no qual ele não queria pensar perdiam a densidade quando pensava em Claudia, quando estava com ela. E constatou que o medo de perde-La estava começando a lhe gerar desespero.
-Claudia. Claudia, acorda por favor, amor.  


quarta-feira, 21 de março de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 29




Luzes strobo, som nas alturas, beleza faiscante.
Aquela era mais uma típica e abençoada comemoração dos que só o que sabem fazer na vida é  comemorar.

Los Angeles era assim o tempo todo.
Claudia agora não se perdoava por a haver abandonado.
Como teve coragem de imaginar que seu coração poderia bater longe dali?
Ela dançava cheia de felicidade e por diversas vezes foi elevada nas alturas por braços e mãos desconhecidos que a envolviam como que por mágica, para depois aterrissá-la sã e salva na pista de dança com uma irresistível vontade de “quero mais”!
Quero mais da vida, quero mais de amigos legais, quero mais de irresponsabilidade,  quero mais de poder alcançar esse lustre imenso e cintilante, quero mais de perda dos próprios sentidos...

-Claudia! Uma figura feminina e delicada tocava seus cabelos...

-Claudia, quero falar com você, honey!

Era Eulália que a muito custo arrastou-a para o pátio primorosamente ajardinado daquela mansão de alguém conhecido de alguém que dava aquela grande festa na qual ela e Claudia aterrissaram acompanhadas dos amigos e do namorado de Eulália.


-O que tá rolando, Eulália?Porque me tirou lá de dentro? Eu quero dançar...me deixa vai...Claudia estava sorridente e com os cabelos purpurinados por micro estrelinhas de papel fluorescente.
Sentia-se feliz e abraçou-se a Eulália pendurada e dando nela um efusivo beijo na boca de lábios perfeitos.

-Hey...hey, Claudia.Você não bebeu? bebeu?


-Eu não posso! Te falei que estou esperando um bebe? Só estou feliz de estar aqui com você, Eulália. É isso! E você é a mulher mais linda de todo o mundo!


-Um bebê? Você tem certeza que não bebeu? Está certo, então. Você consegue me entender?

-Eulália! Você viu quem estava lá dentro?
O JUSTIN BIEBER, Eulália! Querido! Querido do Justin...

-Eu vi, querida...escuta. Será que dá prá gente falar?


-Diz logo o que você quer amor...Te amo, te amo, sabia?


-Eu sei...que bom...Olha só quero que você faça um trabalho comigo, ouviu?


-Ouvi sim, amor. Ouvi, sim.


-Vou fotografar no Rio para uma grande coleção e eu e Jerome conversamos e...quero que “você” faça minhas fotos, Claudia. Quero muito que você integre a equipe!





terça-feira, 20 de março de 2012

A Ópera de Rober mcKennan. 28


Doutora Reyes percebeu de imediato que havia algo turbulento tomando conta dos pensamentos de sua jovem paciente. Mas decidiu que não faria perguntas.Tentaria apenas acalmá-La.
Se ela quisesse abrir-lhe seu coração ela a ouviria.
Mas Claudia encerrou-se numa mascara linda e inescrutável.
Vez ou outra sorria forçadamente. Era um mistério aquela moça. Parecia tão desamparada emocionalmente, mas ao mesmo tempo projetava tanta força e resistência!
Doutora Reyes fez questão de pessoalmente ajudá-la a preparar-se.
Queria ficar de olho nela por mais tempo que pudesse.

-Querida, quero que tenha certeza de que pode contar comigo. Tenho duas filhas jovens como você. E sei que as vezes o mundo não é o mais lindo dos conto de fadas...e os príncipes podem só gostar de desfrutar dos banquetes. Mas não se preocupe. Sou sua amiga ouviu? Comigo você pode contar.

Claudia olhou nos olhos daquela mulher de cinqüenta anos com belos traços andinos, e percebeu neles um carinho genuíno.
Aquela mulher certamente já havia sofrido em sua vida. Via isso no fundo daqueles olhos em tons de ouro suave.
Sentiu-se confortada por ela. Ela poderia se assemelhar a sua mãe.

-Não leve a mal, doutora. Prefiro encarar meus problemas de frente e sem atrapalhar a vida de ninguém. Não se preocupe comigo. Já estou bem grandinha prá fazer e responder por minhas próprias escolhas.

Reyes ficou perturbada ao defrontar tanta amargura numa mulher tão jovem.

-Sabe, querida. Você pode fazer o que achar melhor. Só não deixe que a amargura domine você com o tempo. Sua alma pode adoecer...

 - Minha alma já é muito calejada, doutora. E é forte a sua própria maneira.
A noite Claudia fez repetidas tentativas de falar com Robert mas o celular dele estava sempre indisponível.
Provavelmente ainda deveria estar debatendo sobre as questões médicas de Carol, ou com seu agente sobre a série de TV e seus importantes contratos de publicidade.
Além disso haviam seus filhos.
Eles precisariam mais do que nunca do pai num momento como aquele.
Mas e quanto a ela? E quanto a seu bebê?

Queria contar a notícia a Robert, mas achava que deveria fazer isso pessoalmente.
Passou-lhe pela cabeça ir até a casa dele, mas não saberia ir sozinha. Pensou em ligar para o agente dele.
Queria abrir as janelas e gritar. Onde estava Bob, quando precisava tanto falar com ele?

Jantou solitária por volta das sete horas.
Ligou a TV sem conseguir prestar atenção na programação e acabou cochilando.
Mais tarde da noite resolveu fazer a ligação derradeira.
Digitou um por um os números do celular de Robert. Pacientemente.
Mas a ligação só caia na caixa postal.
Pura raiva.

Ali sentada sozinha na penumbra do final da tarde, sentiu uma profunda angústia. Uma sufocante. Do tipo que fazia tempo não sentia.
O que havia dito a Robert era verdade:
Ele dificilmente teria tempo para mais um filho e ainda mais um ilegítimo.
Essa era a crua realidade. Claudia percebeu com clareza que precisava dar um rumo em sua vida.
Já não sabia se a coisa certa seria contar tudo a Bob. E se esse bebê também não vingasse? Não era cedo demais para contar a ele? Entusiasmá-lo com uma incerteza? Quais as garantias de que não poderia perder esse no outro dia, ou na próxima semana?
Além do mais, as coisas haviam mudado muito depressa com a doença de Carol.
E tudo em que conseguia pensar agora, surda pelo silêncio daquela sala, eram nas palavras furiosas dela carregadas de mau agouro.
A afirmativa insana de que Claudia mentia e de que podia “ver’ o bebê.
“Ver” o bebe!
Relembrar aquela cena foi apavorante!

O medo se fez plenamente presente e ela, arrepiada, sentindo um sabor amargo imaginário no céu da boca, resolveu que devia sair imediatamente. Refugiar-se em meio as luzes e multidão, antes que começasse a desencadear o seu antigo e conhecido mecanismo auto destrutivo novamente.
Simplesmente saiu.

Aquela hora a cidade começava sua terceira fase de movimentação em torno das festas e do desfile ostensivo de pessoas bonitas por todos os lados.
Carros com o som nas alturas. Akon, Ney-o, Lil Waine...
Turmas de jovens andando pelas ruas,vestindo roupas no maior estilo; caras ou não e portando head phones chamativos.
Calças jeans skeany com a cintura arriada na metade da altura dos quadris. Meninas lindas de olho nos rapazes...
Claudia quis mergulhar naquele mundo novamente.
Lembrou que sentira um fascínio incrível quando chegou a Los Angeles pela primeira vez.
Lá estava com seus iguais. Jovens de toda parte do mundo, deslumbrados pelo poder lisérgico da beleza da praia interminável. Dos inúmeros convites para festas inesquecíveis.
Da fausta riqueza convertida em felicidade...
Era aquele o seu mundo, e era o mundo que queria.
Queria dançar “all night long”. Queria curtir as pessoas, os momentos, sua juventude.
Merecia isso. Não tinha nada a perder. Queria o sol e se “produzir inteira”. Não queria mais saber da Escócia, nem de suas antigas ruas.
Queria falar a gíria dos negros e mascar chicletes diets de vários sabores. Resolveu prá valer que aquele seria seu último dia de tristeza.


Um lindo carro esporte piscou os faróis de Led passando lentamente a seu lado.
De dentro dele do lado do carona sua colega Eulália lhe acenou.
O carro reduziu e foi estacionando.
A música explodindo a mil decibéis era “sexy chick” David Guetta e Akon.
-Hey, Claudia. Vem com a gente!
Certamente ...Certamente que sim! A partir de agora Claudia queria desfrutar dos banquetes a que também tinha direito...


Diante do endereço de Claudia, poucos minutos depois que saíra, ninguém menos do que Noah Stuart Greensberg, abria automática e suavemente a vidraça traseira do lado de dentro de um Bentley.
Deu uma boa e curiosa olhada no lugar.




A Ópera de Robert mcKennan. 27


ATO XXVII.

Um menino de cabelos muito claros, com os pesinhos descalços sorria para Robert.
Corria completamente sozinho pelas alas do Hospital e Robert tentou em vão pega-lo.
Ele sumia subitamente e depois aparecia, como se estivesse brincando com ele.
Falava qualquer coisa em uma língua que Robert não conseguia entender o que começou a desesperá-lo.
“-Hey, garotão onde está sua mãe? Volte! Não pode correr por aí! Não pode correr por aí sozinho...”

-Senhor, Wolk? Está tudo bem com o senhor?
Quem lhe falava era uma das enfermeiras da sala de recuperação que veio em seu auxílio.
-O que?

-O senhor estava agitado. Chamava por alguém...
Robert se deu conta de que cochilara na chaise hospitalar da sala recuperação.
-Estou bem. Apenas...acho que cochilei.

-Quer que mande lhe trazer um café, senhor? Está aguardando quase há uma hora... 

-Espero por notícias de minha esposa.

-Ela já está acordada, senhor. Se quiser já pode vê-La. Aqui ou em sua suíte, para onde já será levada. Onde achar melhor.

-Me leve até ela...

Um menino de cabelos muito claros lhe sorria...descalço e lhe sorria...






segunda-feira, 19 de março de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 27


ATO XXVII.

Atônita com aquelas palavras Claudia se esforçou para discernir visualmente a forma que a doutora Reyes lhe apontava com cara de boba na tela do mostrador enquanto a ultra sonografista continuava impassível pressionando o abdome enregelado de Claudia com a sonda.

-Veja só, Claudia! Um bebezinho! Um embrião com pelo menos onze semanas de vida e o coraçãozinho... batendo em ritmo e freqüência normais! É PERFEITO.
E veja só como é maravilhosamente bem desenvolvido! Cinqüenta e oito milímetros! Esse é dos grandes, hein?!“Parabéns, mamãe!”
Será que a doutora Reyes estava tomando Claudia por alguma espécie de louca?
-Doutora...eu sofri um aborto! Estou dizendo a verdade, não foi ilusão de modo algum!
-Sim, querida. Mas a notícia consoladora é que parece mesmo que haviam “dois” bebês!
Você esperava gêmeos! Bi vitelinos, querida! Gêmeos!
Palmira Reyes foi levada por uma irresistível vontade de afagar o rosto e cabelos de Claudia. Ela lhe lembrava tanto suas filhas.
-Claudia, fique tranqüila. Pelo jeito está tudo bem com ele e com você. Mesmo assim vou examiná-la, agora querida. Quero verificar se seu corpo eliminou todo os vestígios do primeiro bebe, ou então talvez precise anestesiá-la.
Claudia não sabia quais eram suas emoções.
Não conseguia crer nas palavras da doutora.Custava a entender o que se passava com ela.
-Doutora, isso é impossível. Eu passei por uma situação horrível.Tive um aborto. Foi no vôo. A comissária...a comissária me ajudou...Quando aterrissamos um agente médico também me examinou!
Reyes parecia não escutá-la. Mantinha seu sorriso maternal impassível.
-Claudia, sei que isso é coisa demais para sua cabeça, mas vou falar devagar: Seu útero estava gestando dois embriões. Apenas um deles foi abortado. O segundo ainda está dentro de você aqui. E está vivo!
Aquilo era impossível! Os deuses estavam brincando com ela? Subitamente Claudia sentiu uma suave alegria tomar conta. Sentia-se a mais boba das criaturas.
-Há alguém que você queira chamar, Claudia? Podemos esperar antes que eu prossiga 
examinando-a.
Carol. Era por Carol a quem Claudia queria poder chamar.
Mas não poderia.Carol a quem dissera palavras terríveis e a quem queria abraçar não podia vir.
Mas subitamente recordou o estado enfurecido e insano dela, sua máscara de ódio lhe conjurando maldições e encolheu-se de medo. Carol “sabia” que ela ainda carregava um bebe.
Carol, de alguma forma, “viu”realmente o bebe dentro de seu útero.
Aquilo não  havia sido mero acaso.





domingo, 18 de março de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 26


ATO XXVI.
Claudia decidiu que não ficaria de jeito nenhum esperando que Robert voltasse daquela reunião com a equipe médica. Pois provavelmente Carol demoraria a sair da Recuperação.
E de qualquer modo, ainda não teriam notícias imediatas da biópsia.
Apenas um primeiro parecer dos médicos frente aos dados da investigação cirúrgica.
Claudia não contribuiria em nada ficando ali confinada naquela prisão de alto luxo.
Detestava esperar. Detestava sentir-se improdutiva.
Calculou que se pegasse um taxi naquele momento, chegaria com folga ao centro de exames onde sua ginecologista  obstetra
Doutora Palmira Reyes a aguardava juntamente com a radiologista.
Redigiu uma mensagem e salvou-a no arquivo de memória do seu
 celular. Resolveu que só a enviaria quando estivesse dentro do taxi; 

“Bob, tudo em ordem com as crianças. Aguardam você. Não pude te esperar, pois tenho o ultra som marcado para as dezesseis horas, e não devo atrasar. Nos falamos depois. Claudia.”

Pensou melhor. Corrigiu:
“...Um Beijo. Claudia.” 

Mais tarde, depois de enviar a mensagem, desligou o aparelho.

“-Você também é minha mulher, Claudia! Esqueceu?”

As palavras dele não paravam de ecoar em sua cabeça.
Quando ele lhe disse isso tentou bancar a indiferente usando o subterfúgio do deboche ao responder:“-Certificado de propriedade, por favor!”
Não quis que ele percebesse o quanto ela gostara de ouvir dele:

”Você é minha mulher.” 

Talvez por timidez ou por puro e simples medo. Medo de que o futuro lhe reservasse muita dor.
Sempre o fantasma da culpa.Sempre ele.
E o pior de tudo era constatar que apesar do tempo passado era sempre a mulher a herdar a pecha de vilã da história. De pecadora. Esse era um estigma em todas as culturas humanas. Eminentemente na cultura ocidental.Não parecia haver queimas de sutiãs suficientes para banir essa mentalidade. Nem mesmo dela própria.
Não queria mais pensar aonde aquela história poderia lhe levar.Tudo havia virado de cabeça prá baixo de um modo tão abrupto e duro que parecia loucura...

Doutora Reyes recebeu-a em sua clínica com seu caloroso sorriso, que transmitia tanta confiança.
A auxiliar foi logo ajudando Claudia a acomodar-se para o tão esperado exame. Empapou seu abdome com uma substância viscosa transparente para dar o início. Reyes deu um salto:


-...Mas... há um aqui!

-Como? Não entendi, doutora!

-Está GRÁVIDA, Claudia! Veja!



A Ópera de Robert mcKennan.25


Mais uma vez Claudia via-se arrastada em sua vida pela correnteza Robert Wolk.
Dessa vez percorriam juntos as ruas de L.A., ocultos pela espessa armadura do BMW negro dele, a caminho do complexo clínico em que Carol estava.

Claudia falou muito pouco durante o trajeto; não achou que devesse desconcentrá-lo do volante com seus pensamentos que se mixavam gerando-lhe uma aflição que crescia mais e mais a medida que se aproximavam. Mas nos momentos em que paravam nos semáforos, Robert a observava atento. Ela apenas lhe sorria.

-Claudia, eu sei o que está sentindo. 


-Sabe?


-Tem medo que nos julguem.


-Você é perceptivo.


-Sem ironias, Claudia! Elas e você não combinam. 

Ele pegou sua mão:

-Saiba que estou prestes a tomar uma decisão. Uma decisão que diz respeito a nossas vidas.


-Robert, porque você quer tomar decisões importantes agora? Num momento como esse?


-É simples. Porque se eu não tomar, sei que perderei você. E isso não vou deixar acontecer. 

Arrancaram como raio e Claudia, agora alertada, passou a ocupar-se do enigma que poderiam encerrar as palavras dele.



Ao entrar no saguão do Centro Médico Claudia tratou de desvencilhar-se de sua mão, mantendo-se  um passo atrás dele.
Robert voltou-se claramente irritado.Tomou novamente a mão dela e a puxou para junto de si:

-O que está fazendo, menina? Não há necessidade disso, Claudia. Não aqui.

Ele falava com conhecimento pois aquela era uma caríssima clínica na qual apenas pessoas da alta esfera  de Hollywood tinham acesso.
Sigilo total. Nada de imprensa. Nada de perguntas.
Ao se aproximarem da ala dos quartos ela recuou uma vez mais:


-Robert, eu não gostaria que Carol me visse com você. Não hoje. Não será bom...


-Carol ainda não está no quarto, Claudia. Está na Recuperação. Mas porque esse seu medo? Não estou te entendendo!

As mulheres as vezes eram enigmas indecifráveis! Todas elas, sem exceção.

-Você sabe que discutimos e...


-Você não está levando “isso” em consideração em um momento desses. Está?

Ele achou graça intimamente do beicinho que ela fez, e resolveu amenizar o tom da própria voz. Falou como se ela fosse criança:


-Escute, Claudia. Agora é o momento em que precisamos nos unir. Preciso que me apóie. Preciso de você. Será que me concede isso? Você e Carol são muito especiais em minha vida. Parece que estou te pedindo demais? Do contrário, o que significou nossa história? Você disse e eu pensei francamente que gostasse de mim...

Ela o amava. E ele sabia disso. Estava definitivamente marcada por ele. Atrelada mesmo contra a vontade. Mesmo contra Carol.
Robert percebeu a indecisão dissipar-se do rosto dela:

-Eu gostaria de te pedir um favor, está bem,querida? Remexeu o bolso do paletó.


-Quero que telefone agora para Ewan e Helena. Eles estão na casa de Valentinne Donovan, esposa de meu agente em Los Angeles. Quero que os conforte, meu anjo. Pelo menos até que eu possa falar pessoalmente com eles. Depois iremos direto prá lá.
Robert deslizou com rapidez a tarjeta magnética que destravava a porta da suíte hospitalar. As luzes foram acesas automaticamente. Era um recinto amplo com iluminação indireta, quadros e móveis belíssimos .
Tinha a sua disposição, contígua ao quarto, uma sala equipada com todo o aparato de um escritório com espaço para reunião e com vista para o Pacífico.
Fez Claudia acomodar-se mas não deu mostras de que permaneceria ali com ela. Não por enquanto.

-Mas e você, aonde vai?


-Tenho uma reunião com a equipe médica de Carol. Estão apenas me aguardando. Claudia não gostou nem um pouco da idéia de ficar sozinha.


-Mas me deixe ir com você...


-Não. Quero que converse com as crianças, agora. Acho melhor. Eles gostam de você e sei que saberá tranqüilizá-los a seu modo...
eu volto já, amor. Me aguarde, sim? 

Rezaria para ter paciência em aguardá-lo.
Antes de sair, Robert, lhe deixou o número de Valentinne.

-Sou amiga de Ewan e de Helena, nos conhecemos na Escócia. Robert Wolk me pediu que falasse com eles...meu nome? Claudia. 
A reação do outro lado da linha foi quase ensaiada de tão fingida.
-Oh, Mas que honra...é pena, Claudia, querida mas eles estão descansando...monsieur mcKennan, me pediu que cuidasse deles. 
É uma situação delicada, como você sabe, trata-se de sua mãe...

-Escute, Valentinne, sei perfeitamente do que se trata. Não preciso que me diga. Agora faça o favor de chamar Ewan. Robert Wolk é o pai e pediu a mim que falasse com eles, e é o que pretendo fazer. Você não está a fim de encrencar, não é mesmo?


-Mas, mademoiselle Claudia...

-Ótimo! Faça a gentileza de chamá-lo. Aguardarei na linha. 
Claudia detestou Valentinne já através do telefone, e imaginava que a recíproca fosse a mesma, mas não perderia seu tempo com os bajuladores de Robert.
Queria saber como estavam Ewan e Helena. Sentia-se nesse momento identificada com eles por tudo o que já passara em sua própria infância com a enfermidade de sua mãe. Sentiu muita falta de poder abraçá-los:

-É você mesmo, Claudia?

Ela reconheceu a voz do menino.

-Oi, zagueirão!  Sou eu. Estou louca de saudade de você. Não vai me convidar para jogar outra partida?

Por um breve momento Claudia sentiu que teve o poder de distraí-lo com aquele comentário sobre futebol. Ele não resistiu e deu uma risadinha.

-Mas você joga mal, Claudinha. Não quero te machucar... 


-Mas você tem me ensinar alguns passes. Pode ser? Tem uns incríveis do Neymar. Você já viu?


-Já vi sim! E o Neymar é irado, né Claudia? Faz uns dribles loucos...


-E ele é do meu país, sabia?


-Claro! Ele e o Ronaldo também!


-Como está Helena, amor?


-Está chegando aqui comigo.Vou ligar o viva voz. Fala com a Claudia, Helena...fala...Ih!Ela tá capiau hoje, Claudia. Não quer falar.


-Sabe, Helena o papi já está indo aí pegar vocês...

-Com a mamãe? A pergunta da menina esfacelou seu coração. Claudia segurou um profundo suspiro:

-A... mamãe ainda está tomando uns remédios, mas daí ela já vai também, meu amor. Estão aqui cuidando prá que ela tome os remédios direito.

-Mas porque ela não toma o remédio em nossa casa? A suavidade da voz infantil de Helena fez com que Claudia se sentisse um monstro por ter falado todas aquelas coisas a Carol.
Não conseguiria perdoar a si mesma se alguma coisa acontecesse a ela.
Queria apenas ter tempo para pedir-lhe que a perdoasse.
A dor atravessou-a, a vontade de chorar era incontrolável. Mas era imperativo ajudá-los a não ter medo:

-Ela vai, querida. Ela já vai tomar os remédios em casa. E já vai ficar boazinha, está bem? Você espera um pouquinho, tá? E você, Ewan cuida de Helena até seu pai chegar? 
Faça ela comer direitinho e fazer as lições, tá certo,querido?


-Estou cuidando de tudo, Claudia. Sou o chefe por aqui. Vai ficar tudo bem...


-Amo muito vocês dois, sabiam?


-Nós também, Claudinha! A gente sentiu sua falta. A Helena quase chorou...


-Não chorei, nada! Não sou mais bebê!


-Hei, queridos. Ninguém precisa chorar. Logo papai estará aí e depois vou visitar vocês, tá legal? Daí a gente vai passear. Vamos no show do Bruno Mars e vou mostrar a vocês o meu corte novo de cabelo!


-Você cortou o cabelo, Claudinha?


-Não ainda...


-Não corte não. Eu disse pro pai que você parece sereia! Esse cabelo é grandão!


-Mano, eu amo sereia. Você é sereia, Claudia?


-Humm. Isso é segredo nosso, tá legal?


sexta-feira, 16 de março de 2012

A Ópera de Robert mcKnnan. 24


-Ah que bom que já veio senhor mcKennan. Desculpe entrar assim...
Se quiser que eu saia...

Robert reconheceu a esposa de seu agente de Los Angeles.
Controlou o choro imediatamente. Contingência de sua condição masculina.

-Está tudo bem,Valentinne. Pode ficar.

-Foi eu quem mandou avisá-lo assim que a senhora Caroline foi removida para cá...

Robert reviu os acontecimentos recentes. O policial identificara seu carro, demonstrando ser perfeitamente discreto ao encontrá-lo justamente no apartamento de uma moça.
Garantiu-lhe, sem esperar que pedisse, que seria absolutamente sigiloso quanto aquela situação, já que sabia perfeitamente como “eram esses assuntos” e que quando precisasse seria um prazer estar a sua disposição.
 Era também grande admirador de seu trabalho na TV e no cinema.
Se isso não se cumprisse Navarro teria um trabalhão daqueles prá acalmar as coisas na imprensa!
 Ficou pensando se Valentinne estaria por dentro da história toda... Era possível até que o policial estivesse na folha de Navarro! Certamente estava!

Robert saiu logo depois do policial, cuidando unicamente para que Claudia não despertasse.
Queria que ela descansasse. Ele já a havia feito deitar-se acomodando-a em sua cama.
Seu quarto era aquele repleto com seus desenhos, de decoração discreta e com referências ao Brasil.
Passara parte da noite junto dela, controlando o desejo que de hora em hora o fustigava ardendo como fogo. Lembrava-se, então, de respeitar-lhe o resguardo e do risco para ela se não respeitasse.
Ligaria mais tarde assim que pudesse.

-Valentinne, você foi uma verdadeira amiga. Não tenho como lhe agradecer.

-Está tudo bem. Só esperamos que sua esposa melhore logo, senhor mcKennan.

-Certamente que sim Valentinne, certamente que sim...


Claudia despertou com o toque do celular.
-Querida, sou eu. Só agora consegui te ligar.

-Oi, Bob...não vi você sair!

-Você já comeu alguma coisa? Precisa se alimentar direito...

-Na verdade acordei agora,com o toque do celular. Mas não, não comi ainda.


-Pois faça isso amor, faça...escute, as coisas não vão muito bem.
Agora vou precisar muito, muito mesmo de você... Vamos sair prá almoçar juntos. Pego você daqui a pouco.

-Acha essa uma boa idéia, Bob? 

-Não importa.Vou aí te pegar. Esteja pronta em uma hora.

-Bob, não quero sair. Posso preparar alguma coisa prá gente, aqui mesmo.

-Ótimo. Me espere, então.
Robert atrasou-se mas quando chegou recompensou-a pela espera. Ele apareceu em sua porta,tomando-a nos braços e beijando-a desesperadamente.
-Eu..não agüento mais, Claudia! Preciso de você...quero...

-Bob, o que há?

- Amor..me abraça, vem...

Robert conseguiu a muito custo falar:

-Sinto medo Claudia, medo...

-Mas o que...

-Carol. Ela não está bem....

Desde que o conhecera Claudia sempre o vira com o ar decidido isento de preocupações ou dúvidas. O fato de ele mencionar a palavra medo lhe tirou, de certa forma, o próprio chão...

-Você está me assustando...

Ela notou seus olhos fundos arrasados e a maneira constante com que pegava as mãos dela, pressionando-as fortemente como se buscasse desesperadamente alívio para seus próprios pensamentos.
Pela primeira vez,Claudia sentiu pena dele.

-Bob, sou eu quem está ficando com medo, agora. Nunca te vi assim...

-Carol está doente, Claudia.

Ele pronunciou as palavras como se o ferissem. Manteve-se  olhando-a de lado com uma expressão de derrota no fundo do azul de seus olhos, agora sombrios.

-Pode ser um tipo de câncer. Dos mais agressivos.

Um pesada cortina de silêncio caiu sobre os dois.
Claudia viu a agonia no olhar dele e sentiu-se impotente. Só conseguiu então pensar em Ewan e em Helena.
Claudia não queria impor a ele mais uma preocupação mas teve que perguntar:

-E as crianças...onde estão? Como eles estão?

-Ainda não sabem. Estão ... na escola...

Ela abraçou-se fortemente a ele. Beijou seu rosto salgado pelas lágrimas.

-Mas o que lhe disseram, o que você sabe ?

Ele suspirou dolorosamente. Sua voz saiu num fio:

-Eles ainda não tem as respostas de todos os exames...mas as expectativas não são boas.
Está sendo monitorada por uma das melhores equipes. E agora vão lhe fazer um procedimento...eu ia enlouquecer se ficasse sozinho lá, preciso de você comigo, Claudia. Do meu lado... 
Claudia ponderou que aquela idéia era loucura. Robert perdera a noção da situação em que ambos se encontravam.

-Ela teve um desmaio, pela manhã . Eu não devia tê-la  deixado sozinha...me sinto um cretino!

-Calma. Não vai adiantar culpar-se. Não é o momento.Venha. Coma um pouco, preparei alguma coisa prá nós. Obrigue-se a descansar também. Só depois volte prá lá.

-Você virá comigo, Claudia, está bem? Virá comigo!
Ele agarrou-a num impulso aprisionando sua cabeça entre as mãos e beijando-a na boca de modo enlouquecido, deixando-a sem fôlego.
Mirou-a diretamente nos olhos, mantendo-a ainda presa:

-Vem comigo! Sim!

Ela percebeu no azul de seus olhos apenas o nítido brilho de uma tempestade cataclísmica...foi como um flash. Uma breve sensação de que já sentira aquela força e de que já vira antes aquele mesmo olhar...

-Irei...claro que irei sim. Não posso te largar num momento desses, não é? Aconteça o que acontecer...

Ele abraçou-a soluçando. Ela sabia que havia concordado com um pedido que seria difícil cumprir. Estaria numa situação em que seria alvo e objeto do juízo de todos; da família dele, de seus amigos e de quem mais estivesse por perto.
Mas não quis demonstrar-lhe sua apreensão, não queria deixar de atender a um pedido dele, feito com tanta veemência e dor. Não queria decepcioná-lo novamente. E além de tudo, não queria parecer egoísta num momento daqueles.
O que quer que Carol tivesse demandaria o apoio de todos.
Apesar de ela saber que Carol não gostaria nada de vê-la por perto.
Claudia estremeceu.

-O que foi, amor?

-Não foi nada. Senti um pouco de frio. Esse lugar aqui é frio. Vou pegar um agasalho...



a Opera de Robert mcKennan. 23



Carol despertou zonza sentindo cheiro de emanações hospitalares.
Tentou olhar em volta, mas sentia-se tonta. Com vontade de vomitar.
Uma mão delicada em sua testa:
-Que bom, senhora Greensberg. Que bom que acordou...
Está sentindo frio? 
Sua  mãos estão tão frias! 
Desculpe. Não me conhece. 
Meu nome é Valentinne Donovan. Sou esposa de Pieter Navarro.
 Meu filho Francis, é colega de aula de Helena...mas deixe avisar as enfermeiras que acordou...volto já!

Carol sentiu um profundo desespero ao ver Valentinne se afastando, precisava de respostas.
Respostas urgentes. Onde estava Robert?
E as crianças onde estavam? O que lhe havia acontecido?
Só lembrava de um pedaço da noite anterior, quando Robert sumira sem levar o celular e ela tomada pelo desamparo fizera uma ligação recorrendo a Noah.
Noah. Seu único e verdadeiro amigo em todo o mundo. A única pessoa que a entendia e com quem podia sempre contar...
A porta foi escancarada. Alguém aproximava-se de sua cabeceira. Carol reconheceu pelo pisar firme e pelo porte. Era Robert.
Carol estava com dificuldades sérias para falar mas aos poucos, conseguia balbuciar.

-O ...onde?
-Carol, você acordou? Está hospitalizada, querida. Mas já está tudo bem. Você teve um desmaio e disseram que foi devido a uma leve desnutrição, querida...você não comia e nem se hidratava direito a dias...
Robert foi atravessado por uma profunda angústia ao dizer-lhe aquilo, pois agora já sabia que não se tratava apenas de uma simples desnutrição...
“Foram encaminhados alguns exames, senhor mcKennan. Existe uma desconfiança da qual precisamos lhe falar...”  
Ver Carol naquelas condições lhe dava um profundo medo.
Sentia-se desprotegido e culpado como uma criança.
Queria poder estar em seu lugar. Queria anular-se.
-Nós já iremos prá casa, querida. As crianças estão nos esperando... 
Aquela mulher enriquecera sua vida com seu humor maravilhoso e com seu carinho.
Viu que era um homem feliz por causa dela. Era pai de uma família linda por causa dela. Ela lhe dera tudo.
Teria desistido de viver se não fosse por Carol.
Era quem ele tinha para ouvi-lo quando precisava falar.
Era quem o conhecia nas mínimas coisas, nos mínimos gostos e se desdobrava para agradá-lo quando ele vinha prá casa, para fazê-lo sentir-se aconchegado, pertencendo a um lar, pertencendo a alguém.
Quantos homens no mundo poderiam dizer que recebiam o amor de forma tão incondicional.
Quantos homens no mundo tinham o privilégio de viver ao lado de uma mulher que acreditava na magia? Que era apaixonada pela simplicidade dos presentes da natureza como uma tarde morna ou a beleza do mar tempestuoso?

E Carol pertencia a ele. Sempre pertenceria.
Disso, incrivelmente só  agora se dera conta...
-Querida estou aqui...eu estou aqui...

Ele aproximou seu rosto do dela e então a dor arrasou-o.
Um choro convulsionado começou e custou a parar.


quinta-feira, 15 de março de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 22

ATO XXII.


Caroline Greensberg foi encontrada por uma das faxineiras, na manhã seguinte de seu surto contra Robert.
Estava desacordada no piso da varanda que dava acesso a suíte deles.
 Já habituada com cenas semelhantes presenciadas por ela ou narradas por colegas da agência, a moça, sabia a primeira coisa iminente a fazer: Verificar pulso...
Pelo jeito as coisas não iam bem...







A ópera de Robert mcKennan. 21


A amiga da falecida Lindsay, precisava cada vez mais de dinheiro para custear seu vício. Isso era fato. Foi sob as ordens de Noah que sua secretária tratou de oferecer-lhe uma boa quantia em troca de algo muito fácil de ela obter:
Simples peças de roupas.
Casacos, camisas, camisetas de algodão, acessórios, jeans etc.

Peças de roupas que haviam pertencido a Lindsay Willians e que se encontravam pelo teatro, na casa dos pais de Lindsay ou no apartamento que as duas dividiram e que agora seria compulsoriamente desocupado, por falta de pagamento do aluguel.
Tanto as roupas de Lindsay deixadas no teatro  como as da casa dos pais dela, a moça obteve vestindo-as por baixo de suas próprias roupas.

De posse dessas peças, que não eram poucas, Noah agiu:
Escolheu as mais discretas e disse a Carol para usá-las combinando-as com outras peças que haviam comprado. Não lhe deu informações, portanto sobre sua origem...
Carol deveria escolher dessas  as mais neutras possíveis.
Algumas ele resolveu alterar a modelagem.Tornou saias kilt em corsets. Alvejou e desbotou jeans originalmente escuros e despojou-os dos bolsos.

Em alguns momentos orientou a linha da combinação das roupas de acordo com o estilo próprio de Lindsay e que vira em fotografias obtidas por seus meios peculiares.
Por exemplo: a partir da idéia de um casaco sete oitavos em  jeans claro que ela costumava usar com uma cacharell ébano, Noah confeccionou modelagem similar do casaco em veludo escuro, combinando-o com uma cacharell cinza.
Havia um vestido social, modelo trapézio em veludo alemão negro, decorado com lantejoulas cobre; Noah aplicou um viés no comprimento do vestido, removeu as lantejoulas daquela cor e substituiu-as por lantejoulas... pretas...foscas.
Noah sabia o que estava fazendo. Além de trazer auto confiança a Carol, criava uma impressão dela sutilmente familiar para mcKennan. Sem que isso lhe fosse conscientemente perceptível.
Noah não se arrependera. Sentia-se como compositor e regente de uma obra prima. E o sucesso de seus métodos culminaram com a gravidez de sua prima Caroline...


Quando soube que Claudia pegara o avião para Los Angeles, Noah teve um pressentimento mau que não o deixava.
Já havia revelado a Carol sua franca opinião a respeito da inconveniência da presença de Claudia Drury junto dela e de mcKennan.
E ela o tratou como se ele fosse um traste senil, de quem as valiosas lições não fossem mais necessárias.
Seu vínculo agora não era como o de antigamente.
E Noah sentia com amargura que com o passar dos anos Carol apenas o recebia por conta da boa educação. Ela agora apenas o tolerava.
 Havia se afastado dele.
Não era mais a mocinha que se encantava com as histórias que ele contava, e não se interessava mais por seus mirabolantes conselhos sobre conquistas.
Mas no recente telefonema que recebera, Noah soube imediatamente que as coisas haviam mudado:


-...Eu sabia! Ela ameaçou você com bruxaria, querida?!! Que ousadia! Não, não se aflija ela não pode conosco...ela terá o que merece, prometo a você...Ouça, Carol, controle-se. mcKennan está aí com você? Saiu? Mas como saiu? Você acha que ele foi atrás dela? Acalme-se, querida está bem? Espere por mcKennan! Espere! Não se desespere. Não dê uma de fraca! Estou do seu lado, amor! Você sempre terá a mim...  


Quando encerrou a ligação, Noah o fez  com o peito destroçado de pena e preocupação.
Ele apenas tinha certeza de uma coisa; se Claudia vagabunda Drury conseguisse acabar com a união de Carol e de mcKennan, Noah morreria. Mas antes disso a faria pagar. De uma forma definitiva.

A Ópera de Robert mcKennan. 20





Noah Stuart Greensberg recebeu em sua casa um telefonema.
Um telefonema que desencadeou nele dois tipos diferentes de sentimentos: Aflição, devido o drama que se passava e orgulho vitorioso por ela ter recorrido justamente a ele.
Mas acima de tudo, seu coração impregnou-se de lembranças.
Lembranças relacionadas a devoção que tinha por Carol e por mcKennan...

Onze anos atrás. O velho teatro da down town.
Noah lembrava-se de ouvir sobre o quanto mcKennan amara Lindsay Willians.
Sua morte causara um impacto terrível na vida do jovem ator, e a dor por aquela a quem amava, teve o efeito de torná-lo violentamente apaixonante no palco! Aterrorizante!
Foi deflagrada nele uma capacidade inédita de atingir a platéia com uma intensidade dolorida na interpretação, que escapava pelos poros de seus personagens:
 Romeu. Rei Lear. Henrique V.
Sua postura enfurecidamente nova no palco despertou em Noah a necessidade de saber a fundo os detalhes que levaram a morte de Lindsay. Isso conseguiu aproximando intencionalmente sua secretária de uma das atrizes.
Daquela que melhor a conhecera.
E ele, por sua vez, levantou informações com funcionários da companhia teatral.
Desse modo pôde saber como as coisas haviam se passado.
A morte prematura da amada de mcKennan se devia ao consumo auto destrutivo de drogas.
Noah alarmou-se já que a outra atriz e amiga, assim como Lindsay, também as estava consumindo.
Ele temia que mcKennan, dominado por tanta dor, também caísse.
Temeu que ele mais cedo ou mais tarde acabasse se envolvendo com a moça, identificando-se com ela devido a amizade com Lindsay.
Sentiu a urgência de resgatá-lo dali. Tinha que tirar Robert Wolk mcKennan daquele antro antes que provasse do cálice da loucura!

Era urgente fazer com que emergisse do ambiente velho e saturado de memórias daquele teatro velho e pisasse um cenário com outros estímulos, repleto de juventude e arejado pelas novas idéias e pelo debate.
Por meio da fundação cultural que seu pai presidia, conseguiu para mcKennan um convite do departamento de artes da Universidade.
Lembrou-se daquele dia:

Procurou por mcKennan duas horas antes do início de um de seus espetáculos.
Tremia tanto que achou que não fosse conseguir falar.
Esperou por ele no camarim. Aflito. Preocupado com a própria aparência.

Será que mcKennan lhe daria atenção? Seria rude? Será que demoraria?

Estava quase desistindo da idéia quando ele surgiu diante de seus olhos.
Tão majestosamente simples, vestindo jeans e com os cabelos revoltos! Noah emudeceu e deixou por breves instantes de respirar.
Ele era ainda mais belo ali, diante dele, mais belo do que no palco.
Queria poder aprisionar o tempo para ficar contemplando aquela presença vinda diretamente dos épicos.
Aquele ali diante de seus olhos era Parcifal!
Com muita dificuldade e vergonha Noah conseguiu se recompor.
Mas precisou desviar o olhar para conseguir falar racionalmente.
Apresentou-se.
Contendo o próprio nervosismo, fez a entrega do convite nas mãos de Robert Wolk mcKennan.
E aquelas mãos eram portentosas. Imensas. Dotadas de tanta força e beleza...Sabia que sonharia com elas para sempre...

No convite mcKennan leu que deveria falar sobre a obra de  Shakespeare e sobre sua própria experiência como intérprete do maior de todos.
Aquilo a princípio o não interessou nem um pouco e demonstrou isso, esquecendo o convite em cima da escrivaninha ao perguntar a Noah se não queria fazer um figurante. Falou que o achava muito parecido com Conrad Veidt. Encheu a boca com passas de uva, oferecendo algumas a Noah e em seguida sintonizou um rádio velho de uma prateleira, para saber o resultado de um jogo do Celtics.
Noah francamente sentiu-se lisonjeado por ele achá-lo parecido com Conrad, o qual sempre considerou um tremendo ator; mas para retomar a questão do convite, usou como estratégia falar sobre as festas de arromba que aconteciam no campus. Noah acertou em cheio! Conseguiu atrair a atenção de mcKennan, que após revelar conhecer alguns integrantes de bandas que faziam shows por lá e enumerar um a um aqueles com quem tinha jogado rúgbi, saído para beber e fumar maconha, finalmente refletiu e resolveu abraçar a idéia do convite. Era um novo desafio.
Falar para um público jovem que amava teatro e contrariar diante desse mesmo público as teorias de seus professores beócios distanciados da realidade da sua profissão, inflaria seu orgulho.
E ainda seria pago, o que faria diferença naqueles dias.
Noah quase desmaiou quando se viu afetuosamente abraçado por mcKennan.
mcKennan lhe sorriu e disse que gostara muito da idéia.
Noah naquele instante precisou sentar.

Ao longo daquela semana, Noah ajudou-o a organizar o roteiro da palestra, pois era algo totalmente novo para mcKennan.
 E o resultado: Um indiscutível sucesso!
Tiveram de repetir o convite já que os pedidos foram muitos. O auditório do centro acadêmico lotara. O fórum de perguntas e debates costumou estender-se por mais de duas horas após cada encontro.
Como alguém tão jovem podia ter tanta familiaridade com Shakespeare?
 Ter mergulhado tão profundamente em sua obra e lhe feito análises tão originais? Era o que alguns dos catedráticos assombrados se perguntaram.

Noah então moveu uma campanha para que a Universidade concedesse a mcKennan uma bolsa. A Fundação presidida por seu pai apoiou.
Não que o jovem ator levasse a idéia muito a sério, mas gostou particularmente do ambiente acadêmico, onde sua figura rebelde de maneiras e postura ousadas provocavam o maior interesse e lhe dava a oportunidade de chocar algumas mentalidades conservadoras.
O passo seguinte de Noah  foi encarregar-se de Carol.

Noah conhecia Carol muito bem. Sabia que ela era bem diferente de sua irmã Dóris, a aventureira que brincava com os moleques como se fosse menino.

Carol era mais ou menos a “frágil“. A que sempre era deixada para trás pelas outras crianças. A que sofria um tratamento atencioso demais por parte das babás e professores, o que só piorava sua situação com os de sua geração.
Todos gostavam de Dóris, a parceira das bagunças, e detestavam Carol, a boba “bonequinha de louça” como desdenhosamente a apelidaram.

Noah sentira sempre uma necessidade instintiva de protegê-La.
Ela adorava, quando pequena, que ele lhe contasse histórias de cavalarianos e princesas em que ele se desdobrava imitando personagens durante a narrativa; tudo para acalmá-La do medo que ela sofria com a  perseguição e inveja dos tiranos da escola.
Desde então Noah estabeleceu com ela um vínculo muito forte a ponto de influenciá-La em tudo, pois ele, dez anos mais velho, lhe dava a atenção que seus pais não davam.
Para Noah, Carol contava tudo, compartilhava seus sonhos e medos.
Estudando-a, Noah obteve um vislumbre muito nítido da alma feminina, algo que sempre o fascinou.
As mulheres sempre o fascinaram de um modo especial, a começar por sua mãe uma atriz deslumbrante em seus anos de glória.
Uma mulher enigmática e elegante que mesmo com a idade fazia seu pai e outros homens suspirar.
Decidiu ensinar algumas lições dela a Carol. Fortalecê-La para que superasse a si mesma e tornasse seu, o amor do extraordinário ator Robert Wolk mcKennan.
Noah aventurou-se nisso, por se tratar de uma prática familiar.
Toda a vida fora encorajado pelos ensinamentos de sua mãe.
Observava como ela tranqüilamente seduzia a todos e sem que percebessem faziam o que Ela queria.
Possuía o dom feminino de fazer com que a amassem.
Tânia Meredith Greensberg lhe dizia que atuar era uma necessidade constante da própria vida. E que os melhores intérpretes, em qualquer circunstância, eram os que não esqueciam da força contida em sua própria expressão.
“Atue como vencedor, Noah, mas não esqueça nunca que atuar é acreditar!”
Achou que ele mesmo não soubera praticar esse ensinamento, mas faria o possível para incuti-lo em Caroline.
“O que você mais teme, Carol? Quem você mais teme? Pois torne-se o que mais teme! Mostre para mim, estamos só nós dois aqui, ninguém vai nos magoar!”

“A rua é um palco, Carol! A sala de aulas, seu quarto, qualquer lugar! São seu palco, são território seu! Domine-o! Apaixone-se por ouvir o som de sua própria voz...silencie, quando todos esperam que fale.
Grite quando pensarem que vai agir timidamente.”

“O que você sofreu, Carol? Tire força desse sentimento. Se ele é dolorido é porque é forte. É forte, e é seu. Você possui essa força.
Use-a!”

“Use sua sensualidade de maneira sutil, faça com que olhem para você!
Faça-os sonhar que você é a mulher que é capaz de tudo, que conhece todos os seus pensamentos. Fascine-os, Carol. Mas sobretudo, goste de fazer isso...”

Noah agradecia a Deusa por Carol possuir um certo lirismo que ele captara incrustado no recôndito de seu olhar. Isso talvez lhe viesse do balé clássico, ao qual ela se dedicara desde muito pequena.
Sua leveza era sublime.
Ao dançar conseguia escapar para uma dimensão intocada de sua mente.
O setor mágico da inconsciência atemporal.
Fazer aflorar isso nos momentos certos seria muito util.Teve de fazê-La aprender a fazer uso pleno  desse dom.


Na ala dos jardins que cercava o prédio do departamento das Artes da Universidade, Noah convidara Carol para um café  pois queria apresentá-La a um novo amigo...
Ao ver Robert pela primeira vez, Carol se apaixonou.
Ele encarnava o guerreiro arrebatador destemido, vindo direto da região do sonho. Ela soube que ele era único.
Com sua cabeleira loira rebelde, gestos expansivos e risada alta que a deixaram hipnotizada, Robert, a partir daquele momento, marcou a vida dela prá sempre.
 Os cabelos ruivos de Carol, sua meiguice natural, e talvez a semelhança com Lindsay, também chamaram a atenção dele...



Noah conseguiu-lhes caríssimos convites para um jantar da Fundação, onde mcKennan, que não foi vestido apropriadamente, tirou partido disso encantando a todos com seu charme e com suas ótimas piadas.
Fez seu debute junto a nata empresarial e artística, sendo aquele o primeiro de inúmeros convites da família Greensberg.
Mas apesar de tudo, mcKennan não se envolvia com Carol.
Seus pensamentos estavam ainda voltados para o amor  que perdera.
Isso começou a arrastá-la para uma profunda desilusão.
Nesse momento Noah compreendeu que infelizmente não havia o que fazer...a não ser que pusesse em prática uma última e excêntrica tentativa...

Refletindo noites inteiras insone Noah finalmente percebera a importância vital de compor para Carol um guarda roupa. Poderia parecer ingênuo, mas poderia também ser genial!
Um guarda roupa era essencial para a mágica de todo o personagem que quer deixar marcas no imaginário de seu público. Noah intuiu sobre a importância da combinação de cores suaves harmonizadas com o alabastro da  pele de Carol. Suas peças de roupas deveriam ser joviais mas tinham que lhe destacar a personalidade. Destacar sua presença. Além de, inegavelmente, fortalecer-lhe a auto confiança.
Se encarregou disso tudo. Mas havia ainda um toque especial.