quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 10



-Nada de caneladas, Ewan! 
Jogar futebol não era um dom que eu cultivasse.
Mas eu e Carol fomos desafiadas e aceitamos participar de um jogo contra Ewan e Robert.
Carol emprestou-me um tênis de Ewan, e totalmente desaquecidas, formamos juntas um time das garotas que era ruim de ataque, ruim de defesa e uma piada em termos de preparo tático.
Corríamos o mais que podíamos na tentativa de impedir as sucessivas goleadas dos rapazes e nos raros momentos em que dávamos sorte:
-NADA DE MÃO NA BOLA, MENINAS! É FALTA! 
Gritava Robert cheio de razão.
E assim transcorria nosso jogo entre rasteiras, caneladas de Ewan e encontrões bruscos contra a muralha peitoral de Robert.
 Vinte minutos e Carol parou arfando, apoiando as mãos nos joelhos:
-Robert... eu e Claudia... precisamos...de um tempo!

-É Isso que chamamos de amarelar, né pai? Debochou Ewan.

-Pois é, filho! Mal começaram e já tão pedindo água! Ia valer a pena ter feito uma aposta! Observou Robert irônico e arqueando a sobrancelha.

-É isso aí! Quem perdesse arumaria meu quarto por um mês! E  ainda teria que limpar a gaiola de Chewi! 
Ewan se referia ao hamster. Os dois cumprimentaram-se com toque de mãos de guerra e riram.
Riram cruelmente.
 Aquilo me encheu de raiva e me deu vontade de dar uma lição nos dois:
-Vamos em frente, Carol. Sussurrei para ela.- Vamos ter um pouco mais de orgulho!

-Vocês duas aí! Parem com a fofoca. Vamos logo marcar essa faltaaaa! Ordenou Robert.
Estávamos sendo verdadeiramente massacradas e foi assim o jogo inteiro.
Tive a ousadia de tentar cabecear um lance de Ewan porém, Robert estava atrás de mim e subimos os dois ao mesmo tempo.
Sendo bem mais alto que eu, logicamente ele conseguiu cabecear antes e direto para o gol.
Me desequilibrou e caímos de lado.
Fui envolvida por seus braços.
Seu corpo amorteceu o meu na queda.
Ele girou sobre mim, gotejando meu o rosto com seu suor.
Tudo aconteceu em câmera lenta na minha percepção e foi o suficiente para excitar-me.
-Você tá bem, Claudia perguntou ele prontamente de pé, puxando-me pela mão.
-Desculpe ter derrubado você, mas foi melhor  ter caído sobre mim. Você poderia  ter se machucado. Se eu caísse por cima de você, a coisa seria feia ... Eu lhe servi de almofada! 
Piscou o olho sorrindo e saiu correndo para comemorar com Ewan.
Porque ele tinha que fazer isso? Me deixar louca?
Eu tinha vontade de lhe dar uns tapas, me agarrar naqueles cabelos loiros e beijá-lo.
Queria amá-lo...
-Sabe de uma coisa, Claudia? Por hoje chega. Não agüento mais esses dois. É melhor nos rendermos!
Carol falou isso jogando-se de costas na grama. Eu fiz a mesma coisa.
O que foi delicioso.
Ficamos olhando pro céu e respirando profundamente.
-Quero ir até o centro da cidade, comprar um presente para Helena, Carol.Você tem idéia de algo que ela possa gostar?

-Claro! Essa é fácil. Sapatos de balé!

-Verdade?

- Balé é o que ela mais ama! Nós duas. Pensei em baixar prá ela o filme “Sapatinho vermelho”, mas ainda não é prá sua idade. Então ela se delicia com “Barbie e o quebra nozes”. Nem sei quantas vezes já assistimos juntas...

-Carol, você se dedica muito a eles, não é?

-Mas e o que mais uma mãe deve fazer a não ser dedicar-se a família?  Robert, também. Apesar de sua carreira o obrigar a passar a maior parte do tempo nos Estados Unidos. “Est la vie“.

-Mas para as crianças deve ter sido difícil abandonar essa casa e a vida na Escócia, não?

-Sabe, Claudia, já pensei muito sobre isso e a conclusão a que cheguei é: Não importa o lugar, se pobre ou rico, se Escócia ou Japão, para as crianças o importante são os pais. Estar junto deles.
Acho que eu concordava.
Robert jogou-se ao lado de Carol.
-Hey meninas! Desistiram de nos fazer rir?

-Não banque o chato, Bob! Replicou ela.

-Então quero um beijinho!

-Nada de beijinho, você nos maltratou muito! Acho  que não vou conseguir andar por meses!

-Onde está Ewan? Perguntei. E logo obtive a resposta:

-AQUI! Senti um jato d’água gelado na testa!
Ewan e Helena estavam juntos naquela armação: Nos deram um banho com pistolas de água.

No inicio da tarde decidi ir ao centro da cidade maior comprar o presente.
Saí discretamente, só comunicando minha intenção a Carol; não queria que Helena desconfiasse.
A muito custo consegui convencer Carol a me deixar dispensar o motorista.
-Prefiro caminhar um pouco, Carol! Sou acostumada a me exercitar todos os dias. Mesmo quando não estou à fim.
Carol me olhava desconfiada:
-Caprichou no perfume, hein moça?

Calcei uma bota bem leve, que eu adorava e escolhi um vestido de alças, uma manta de algodão ampla e um casaco de tweed bem quentinho que jogaria por cima de tudo.
A temperatura era suavemente fria.
Aproveitaria para encontrar uma amiga brasileira que andava passeando pela Escócia.

Ao sentir o vento daquela tarde no rosto me senti bem, havia um perfume marítimo no ar que eu respirava .
A rua estava vazia, pois se tratava de um ponto distanciado, quase rural. Além da propriedade de Robert só haviam mais duas grandes mansões encasteladas e de ar soturno.
Não se via viva alma mas certamente me vigiavam; senti um mau estar e tratei de apressar o passo. Fui subindo na ponta dos pés pela ladeira que encaminhava para o centro da cidade vizinha.
Paula avisou-me que atrasaria um pouco até conseguir chegar em nosso ponto de encontro.
Tomei então o gosto por caminhar tranquilamente apreciando as vitrines das lojas.
Logo percebi que chamava a atenção com meus cabelos negros em meio a toda aquela gente branca.
Apesar de haver muitos estrangeiros de múltiplas etnias, eu era alvo dos olhares de parte dos homens e das mulheres.
Nas lojas em que entrava os atendentes, que falavam escocês, uma língua que eu não entendia nem com toda a reza do mundo, pareciam satisfeitos em vir falar comigo com seu inglês de sotaque carregado.
- Ah! Eu imaginei que você fosse mesmo da América do Sul, querida! Brasil? Que sonho! Quero muito conhecer o Brasil!  Suas praias são lindas... Você tem olhos tão amendoados, parece com aquela atriz brasileira... e etc. 

Minha amiga deu um toque para avisar-me que já me esperava em nosso ponto combinado. Corri imediatamente para lá cheia de entusiasmo.
Quando a vi quase não reconheci. Faziam dois anos! E ela havia amadurecido. Era uma bela mulher agora.
Fizemos uma algazarra entre abraços e gritinhos histéricos de meninas.
Falávamos em português, o que fazia com que despertássemos ainda mais atenção.
Ela estava com as bochechas coradas.
-Paula, tu não tá morando em Dublin? 

-Estou. Mas como eu sabia que iria morrer esperando tua visita, resolvi dar um pulo na Escócia, para unir o útil ao agradável!

-Que útil ao agradável, Paula? Posso saber?

- Pode:Te encontrar pra matar a saudade e vir pessoalmente conferir o material escocês. Tem uns gatos bonitões por aqui!

-É, e pelo que sei as brasileiras costumam despertar uma certa “curiosidade”. Estou certa? 

-Tu é que vai me dizer, Claudia...E então, os escoceses usam ou não usam mesmo cueca?!!

-Porque tu não esclarece essa questão pessoalmente?

-É o que pretendo fazer. Pode acreditar!

-Eu acredito, Paula. Eu acredito. 
Comemos cheasecake, entramos em todas as lojas típicas que encontrávamos e experimentávamos tudo, desde chapéus exóticos até perucas vermelhas, só para ficarmos parecidas com, figuras típicas do folclore do Eire.
Experimentamos uma variedade de modelos de kilts e tiramos muitas fotos.
 Visitamos um lindíssimo pub todo amadeirado na down town, onde pela primeira vez na vida provei uma Guinness:
-Eca, que forte!

-Ah! Com o tempo tu acostuma. E vai achar que as cervejas do Brasil são xixi engarrafado!

-Paula, tu sempre me mata! Gargalhei quase sufocando e deixando a Guinness definitivamente de lado.
O bar tender me olhou enviesado.
-Mas, voltando a questão das cuecas... Penso que há inúmeras vantagens em o homem não as usar.

-Está bem, Paula, eu me rendo.  Faça a gentileza de enumerar as principais, que eu quero saber!

-Bom, claro que já facilita algumas coisas. Mas também poupa as esposas do tanque!

-Paula, ninguém usa mais tanque. Isso é do tempo da minha mãe.Talvez no Brasil ainda usem, não duvido. Mas aqui...

-Aqui não usam cuecas! Brindemos a isso!

-Fala baixo, escandalosa! Um brinde sim! 
Ríamos muito, até sem motivo nenhum.
Paula fazia o tipo descolada mas era a moça das mais conservadoras.
Um único amor, um único homem.
Deixara seu amor no Brasil enquanto suplementava os estudos superiores na Irlanda; e seu ritmo de vida era só estudar e trabalhar.
Economizava o pouco dinheiro e chorava a noite de saudades.
Dois rapazes que mantinham os olhos atentos em cima de nós já algum tempo, decidiram se aproximar de nossa mesa.O mais alto deles e com atitude de líder, colocou seu caneco de bebida em nossa mesa. Foi puxando a cadeira, da qual mudou a posição colocando o encosto para frente, sentando-se nela sem cerimônia e de frente para mim.
-A próxima rodada é por minha conta, moças.
Tentando transmitir calma na voz, respondi:
-Sabe, não se ocupe disso, amigo. nós duas já estávamos de saída. Precisamos acordar cedo.

- "Precisam"? Por acaso as duas moças dormem juntas? 
O sujeito cravou seus olhos azuis em mim, e notei neles uma fagulha de ódio. Seus cabelos ruivos, desgrenhados, contrastavam com o azul de seus olhos ejetados. Não seria bom nem para mim e nem para Paula demonstrar medo.
Fiz sinal para Paula, que estava pálida como papel e fui levantando. O Homem também levantou colocando seu corpo de muralha diante de mim. Parecia ser mais alto do que Robert. Talvez tão alto quanto Michael Rolland. O outro sujeito, acercou-se de Paula. Ela não ousava encará-lo. Fiquei furiosa com a intromissão daqueles sujeitos. Mais furiosa ainda com a intimidação contra nós duas por sermos mulheres e estarmos sozinhas.Elevei minha voz:
-Sabe moço, não estou a fim de conversa. E para o bar tender:- As pessoas costumam sempre ser importunadas aqui em seu estabelecimento, senhor? Sinceramente, me pareceu um local de respeito...
O bar tender, um homem robusto de bochechas coradas e braços que mais pareciam toras, rosnou:
-Liam, prá fora! E você também Darryl! Querem que o "soberano' entre em ação?

Eu não sabia oque ou quem era o "soberano", e na verdade não fazia questão de saber. O fato é que Liam e Darryl sairam rápido...mas muito rápido.

-Lamento que os rapazes tenham perturbado, moças. Estão bêbados e isso muitas vezes é um problema. As coisas costumam esquentar . Mas a única ameaça nesses dois aí é a feiúra. Podem ficar tranquilas, eu os conheço, não vão incomodar.

De qualquer maneira achei melhor que eu e Paula saíssemos pelos fundos. Mas não sem antes dar uma boa olhada para fora. O primeiro policial que passou com seu jaleco amarelo gritante, fazendo ronda, colamos atrás até o ponto de taxi mais próximo, onde eu e ela nos despedimos.

Comprei para Helena  não uma boneca Barbie Bailarina, com tutu, sapatilhas e tudo, mas uma linda boneca de louça antiga que quando vi, enlouqueci. Alguma pechincha e um pouco de beicinho eram iguais à três parcelas no Master.
Era bom saber que meu salário iria ser mais incrementado a partir de agora.


Voltei  num taxi no começo do entardecer, ainda a tempo de provar uns bolinhos de aveia recém saídos do forno e ajudar Carol a receber a organizadora e seu pessoal com todo o aparato de decoração para a festa de Helena.
Carol decidiu-se por um salão na própria casa.
-Faremos uma comemoração só para os familiares e alguns amigos próximos, por isso decidimos que em casa teríamos mais privacidade; pois privacidade, minha querida Claudia, é tudo pelo que Robert mais clama. E eu mereço isso.

-Joanne Rowling virá mesmo, Carol?!! Que legal!

-Joanne está aproveitando uma de suas folgas e virá sim nos fazer uma visita. Mas não fale alto. Não quero que a promoter escute...

Olhei para o grupo que trabalhava empoleirado em andaimes, martelando e tagarelando enquanto uma loira chic coberta de Prada dava ordens a torto e a direito.

- E vocês, quando pretendem voltar para os Estados Unidos, Carol?
Carol deu um suspiro alto:

-Assim que Robert começar a nova temporada de gravações da série. As aulas das crianças terão começado um dia antes, mas queremos  ficar na Escócia o quanto pudermos.

-Você não gosta daquele ritmo, não é?

-Eu gosto de nossa casa em Los Angeles.
Temos grandes amigos por lá e gostamos de recebê-los, mas não quero que meus filhos fiquem...como direi? “despersonalizados?”

-Sei. Com os”valores” distorcidos.

- Muita superficialidade, Claudia.
“Cultuam” isso.


- Isso também acho. E sabe que as vezes penso até que a América não é um país. Mas vários países dentro de um só?

-Mas é claro! A própria Los Angeles tem gravidade própria, Claudia, de tão vasta! Parece que altera sozinha o espaço tempo...

-É... São Paulo também é exatamente assim.
Eu falava enquanto observávamos duas corujinhas dando saltinhos no jardim.

-Não conheço São Paulo mas é a maior da America Latina, não?...Observou Carol.

- É sim. A verdadeira “megalópole“. Sabe, eu acho uma pena que se precise migrar para os grandes centros. Convívio familiar é algo precioso que acaba ficando para trás.

- Mas essa é nossa batalha. Minha e de Robert. Somos muito ligados a nossas famílias, e não deixaremos isso se perder. Mesmo na América costumamos nos divertir juntos reunindo os amigos, e viemos para a Escócia sempre que possível.

- Ah! Isso é mesmo bom. Saber que sempre se pode voltar para casa...
Carol olhou-me nos olhos antes de falar:
-Claudia, eu quero muito que você saiba que essa casa também é sua. E te digo isso do meu coração.
 Sua maneira de falar me comoveu.
-Sabe, Carol? Vocês são a família mais bonita que já vi.
Ela sorriu e abraçou-se em mim. Seus cabelos ruivos tinham perfume suave de alfazemas.
Lembrei de nosso jogo á tarde:
-Você não está dolorida, Carol?
-Estou é com as canelas roxas. Ewan me deu várias caneladas.
Riu ela, de forma plácida.
-E você?
-Eu? Me sinto como se tivesse lutado contra uma horda de celtas, sanguinários! Preciso urgentemente de Advil!

-Somos duas! Concluiu Carol.
 Carol me chamou até sua suíte para que eu visse o vestido que Helena iria usar em sua festa de aniversário. Me mostrou também algumas fotos de  Ewan bebê.
-Tenho tanta saudade dessa época, Claudia!  Acho que o tempo passou rápido demais.

-O tempo sabe ser aliado e sabe ser inimigo, dizia minha mãe.

-Sua mãe ainda vive, Claudia?

-No meu coração, sim.
Carol me olhou nos olhos sorrindo-me terna:
-Sua mãe certamente teria orgulho de você.

-Assim espero. Acho que o que me fortalece é lembrar-me dela.
Ela afastou-se, foi até seu criado mudo.
De lá trouxe um vidrinho de perfume entre as mãos. Era algo lindo. Todo decorado por pequenas conchinhas e cristais.
Esfregou algumas perfumosas gotinhas no pescoço e espargiu um pouco em mim. Sorrimos.
Lembrava flores do campo e o amadeirado de carvalhos...

-Helena e Ewan perguntaram por você hoje a tarde.

-Você disse que saí, Carol? Mas não revelou nada sobre o presente, revelou?

-Não. Eu só falei que você iria encontrar uma amiga.
Ela hesitou um pouco e perguntou:
-Como foi seu encontro? Sua amiga está bem?

Seu tom de voz emitiu desconfiança.
Carol achava que eu tivera um encontro amoroso. Me deu vontade de rir.
-Sim, e  melhor do que nunca. Aquela maluca...É uma amiga de Porto Alegre...do sul do Brasil, Carol.
Hoje ela vive e estuda em Dublin.
Aproveitou uma folga e sabendo que eu estava na Escócia veio badalar um pouco!
O nome dela é Ana Paula.

-É um belo nome. Bem católico, não?

-A mãe dela tem origem italiana e se chama Tereza. Super católico!

-É mesmo. Carol sorriu.

-Aqui essas questões entre catolicismo e protestantes ainda são importantes, não?

-Nossa família é católica. Mas eu pessoalmente creio na Deusa.

-Deusa?

-Sim na entidade feminina sagrada dos antigos celtas. Ou Sophia.
A sagrada sabedoria. O Espírito da terra que gera a vida e  comanda todos os seus ciclos e transformações.

-Que lindo isso Carol.
Ela não pareceu ter vontade de continuar o assunto.
Pegou minha mão e a encostou em seu rosto me olhando intensamente.
Ela foi ousada: Puxou-me pelos ombros, trazendo-me para muito perto dela. Senti o calor intenso de sua respiração enquanto que meu coração acelerava sem controle. Me deixei beijar. Me deixei levar. Ela agia como se eu fosse sua presa indefesa; vasculhava meu corpo com suas mãos sedosas com um jeito de quem toma posse. Sabia cada ponto em que devia tocar e como tocar .
Aos poucos ela se tornava uma correnteza. Algo que me invadia e aprisionava.
Seu toque era distinto do toque de Robert, mas parecia ter o mesmo ritmo com uma sintonia que se completava. Robert me imobilizava, ela também. Porém os beijos dela eram suaves, e se detinham de momento a momento, demorando num longo percurso. Exploravam meu pescoço, esquadrinhavam cada limite. Os beijos de Robert eram ásperos, eram agressivos, tinham um sabor que traduzia sua masculinidade agreste, mas também eram beijos famintos.
 As vezes eu tinha a sensação de que ambos queriam arrancar pedaços de minha carne. Nos dois momentos eu sentia-me quase que numa luta. As vezes não tinha nem mesmo como retribuir o que me era dado, porque o prazer que eu sentia me tirava o ar e era incrível. Eu só conseguia fechar os olhos, sorrir e suspirar...
Depois de nos amarmos sem controle, ficamos as duas abraçadas sem vontade de sair.

-Claudia, que encanto é esse que você tem que fez  eu e ele perdermos o juízo?
Eu apenas sorri preguiçosamente em resposta.
-Jamais experimentei isso antes.

-Mas foi idéia sua não foi, Carol?

-Sim. Desde o dia em que você apareceu aqui com aquele jeito atrapalhado de menina. Eu conheci seu maravilhoso trabalho através dos portfólios e não imaginava você tão humilde, tentando ser discreta...como se isso fosse possível! Sua beleza...você é encantadora. A Deusa habita você, amor...


Robert passou o restante da tarde repassando as falas do seriado com outros atores através da web. Não apreciava muito esse método, mas isso poupava tempo para seu trabalho.
Estava sempre agitado, quando o víamos, envolvido nisso ou atendendo à intermináveis telefonemas.
Lia textos obscuros de Shakespeare.
Estudava roteiros.
Pois muitos dos melhores  roteiristas apresentavam-lhe projetos com abordagens criativas e inéditas, já que isso o interessava para seu já planejado futuro como diretor.
Falava pacientemente com repórteres que exigiam entrevistas exclusivas.
Novos e consagrados diretores,
cheios de entusiasmo, compartilhavam com ele idéias de filmes e espetáculos de cena pois sua abalizada opinião quanto a detalhes como iluminação, cenografia, e até ângulos de filmagem, ao que parecia, contavam bastante prá essa gente.
E era muitíssimo evidente que ele amava tudo isso.
Nós o encontramos na sala em um raro momento de bagunça plena, brincando com Helena, de meias e empoleirado no sofá.
-Papi, você tem que imitar o grito do monstro!

-Mas, amor , assim papi vai detonar a garganta...

-Mas eu dou bejinho e fica bom, papi...

-Sou eu quem te dou bejinho! Vem cá!
Robert abraçou-a enchendo-a de beijinhos e
bufando em seu pescoço.
Helena dava gritinhos e morria de rir.
Ewan apareceu e fez um estardalhaço chamando-a para ver a decoração no salão. O que os fez sair correndo.
-Hey, vocês! Não corram tanto!
Gritou-lhes Robert.
-Estão aí meninas?
Despertou para a presença minha e de Carol:
-Estão lindas!
Fiquei meio sem graça com o elogio que também se destinava à mim.

Não pude encará-lo diretamente.
Não me sentia ainda assim tão a vontade  com Carol ao lado.
-Nelly preparou bolinhos de aveia, amor. Você quer provar?
Perguntou Carol maliciosa.
Ele sorriu :
-Quero sim provar tudo o que me é oferecido de bom na vida. “Saborear” a vida é uma experiência que está, eu diria,“me deliciando...Seus olhos azuis estacaram em mim.
 Morri de embaraço, Nelly poderia ouvir. O que iria pensar? Mas ele divertia-se com meu estado.
Carol lhe deu um toque na canela com a ponta do pé, simulando um pequeno chute sendo derrubada por ele em seu colo e imediatamente abraçada.
Carol, sufocando as risadas, tratou de chamar Nelly com a solicitação dos bolinhos.
Robert, também sorrindo, voltou de novo a atenção para mim:

-Muito bem, senhorita Drury, lembrei que tenho umas coisas prá você. Anunciou ele com seu jeito expansivo.
Puxou da mesinha central uns envelopes pardos bem recheados.
-Sente-se aqui comigo também. Piscou-me ele dando um tapinha no acento do sofá.
Esse aqui é um material bem interessante.

Carol desceu de seu colo recompondo-se; também curiosa.
Havia uma farta quantidade de fotografias que Robert espalhou, entregando maços delas para mim.
Eram inúmeras fotografias dele. Adolescente. Acompanhado dos amigos.
Em premiações de campeonatos do ginásio. Pescaria.Torneios de rúgbi. Competições tradicionais usando kilt, e até acompanhando garotas em bailes da escola!
Mas a maioria eram de divulgação de filmes, peças e espetáculos em que atuou.
Em todas aquele seu ar sedutor e passional que, mesmo escocês, tinha um viés latino.
Temperado.

-Incrível como você é expressivo, Robert!
Comentei.

-Os europeus não costumam ser assim, a não ser italianos!
Ele  pareceu concordar e deu uma das suas gargalhadas bem sonoras. Continuei:

-Bem que eu desconfio que você seja meio siciliano, nunca para com essas mãos...
Carol também sorria:
-Robert é bem passional. Mas você deve ter notado isso quando se conheceram no Fontaine Gotics, não foi Claudia?
Lembrei daquele dia. Como tudo se passara tão rápido!
Nunca imaginei que poderia estar ali agora com ele, trabalhando e com tanta proximidade! Sem contar o fato de que eu o amava como nunca pensei que algum dia pudesse amar alguém.
 Eu amava tudo o que pertencia a ele.
Amava aquela casa, amava o sotaque escocês dele, seus cabelos louros tão claros, sua sobrancelha arqueada.
A Escócia... Eu amava a Escócia porque a Escócia pertencia a ele e me lembrava dele. Era ele.
-Adoro você, Robert. Falei sem refletir.-Desculpe, Carol. Mas é a verdade.
Robert suspirou e correu a mão pela testa até seus cabelos claros desalinhando-os.
Olhou demoradamente para Carol.
Ela simplesmente falou:
-Mas o que eu preciso desculpar, Claudia? Que você tenha a mesma sensibilidade que eu? A mesma percepção? Somos irmãs, Claudia. Eu e você. Irmãs em alguma coisa poderosa que costumam chamar... Amor. Não devemos sofrer, devemos agradecer por isso.
Ela sorriu e acariciou o rosto de Robert:
- Eu nunca pensei que você pudesse não amá-lo.
De onde tiraria forças para lutar contra a maior força de todas?
Ninguém consegue fugir.
Somos humanos e prisioneiros dela.

Robert pegou nossas mãos e beijou-as, uma de cada vez.
 Amassou os cabelos de Carol e depois me encarou.
Tentei levantar mas ele não permitiu. Me deteve, prendendo-me com sua mão pelas minhas costas.
-Vocês duas me pertencem. Eu pertenço à vocês. Isso é tudo.
Não há o que explicar.
E principalmente, não há o que temer...
Bob segurou a mão de Carol e a minha e, aprisionando-as; obrigou-as a descer...























































terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 9


Na manhã seguinte tratei de apreciar um café da manhã que foi o melhor de  minha vida. Estupendo!
Uma mesa arrumada de forma primorosa.
A companhia de um belo casal com dois filhos lindos e educados.
Me sentia no palácio de Buckigham.
Brinquei o tempo todo com Helena imitando para ela vozes de personagens de desenhos animados e lhe cantando músicas de seriadinhos infantis.
Era o que eu costumava fazer para entreter meu sobrinho Antônio.

-Claudia, vamos juntas no trem de Hogwarts do Hary Potter? 
É um passeio ! E você vai adorar!

-Isso é mesmo verdade? Sorri. É claro que irei com você, Helena! Eu adoro Hary Potter!
 Pelo jeito, a pequena Helena gostava de mim.
-Carol, você deve ser a mulher mais feliz do mundo. Que família bonita e perfeita a sua! Minha voz saiu com um tom mais histriônico do que eu desejava.
A resposta de Carol veio com um sorriso um tanto quanto desconcertado.
Isto foi muito claro.
-...Obrigada, Claudia...estou achando você tão radiante. Hoje especialmente...

-É Que estou amando estar na companhia de vocês! Acredite. Que lindo seu desenho Helena!

-Gostou, Claudia? Essa é você!

-Lindo! Quero ele pra mim...

- Hey! Você e Helena podem falar mais baixo,Claudia. 
Estou ao telefone... Vocês duas parecem até ter a mesma idade! 
 Robert estava mais atraente do que nunca, com a barba ainda por escanhoar.  Bastante sério. Atendia aos telefonemas, ali mesmo, à mesa.
-Claudia, meu aniversário é amanhã! Falou Helena sem se importar com a ordem do pai.-Vai ter teatro de princesas e vou ganhar um cachorro! Joanne Rowling vai vir, também!  

-Você é amiga de Joanne Rowling? Perguntei. Ela fez que sim com a cabecinha.
-Pelo jeito sua festa vai ser mesmo o máximo. Falei já me esquecendo de onde estava e indo parar nas recordações da noite anterior.
Notei que Carol não estava falando.
Alguma coisa claramente a incomodava.
Olhava repetidas vezes para Robert que lhe retribuía o olhar, ficando os dois em um diálogo silencioso só decifrado  pela cumplicidade entre os dois.
Ele pegou sua mão enquanto esperava suas ligações serem direcionadas. Achei bonito perceber o quanto se amavam.
Pensei naquela equação.
-Claudia, assim que terminar, venha comigo até o estúdio, por favor.  Robert falou isso levantou-se e beijou Carol. Retirou-se.
Achei que o tom de voz dele quisesse antecipar alguma coisa. Me preparei. Havia tensão no ar. Não havia dúvida quanto a isso.
Minhas unhas estavam cravadas nas palmas das mãos.
A porta do estúdio estava encostada.
Entrei sem barulho.
Robert de costas para a janela:
-Quando eu lhe disse, Claudia que a queria a meu lado, falei por ter sinceramente gostado de você. Virou-se para mim devagar e olhou-me com um jeito magoado:
-Eu e Carol não abriríamos as portas dessa casa para você se fosse uma qualquer. Uma peça de um jogo, uma bobinha manipulável. Acredite. Jamais perderíamos tempo com você se fosse assim.

-Robert, eu fiz ou disse alguma coisa que você e Carol desaprovaram? 

-Me parece, francamente Claudia, que você julga que eu e Carol lhe fizemos!

Arrastei uma das cadeiras e sentei olhando-o da mesma forma direta que ele.

-Você e Carol me desejam. Gostam de mim mais do que se eu fosse uma amiga. Estou errada? Você quer fazer amor comigo e Carol também.  E eu acho que isso é um tanto... “diverso” para mim...
Robert parecia não estar preparado mesmo para toda aquela minha franqueza súbita.
Sua segurança inicial naquele momento cedeu.
Continuei:
-Tudo o que quero saber sinceramente é se você não acha que podemos nos machucar, Robert ?  
Não me entenda mau. Não estou querendo ser moralista. 
Entendo que você é um artista maravilhoso. Intenso. E Carol uma mulher fascinante. Única. Sensível. Sei que deve ter visto em mim alguma coisa que a tocou. E me sinto imensamente honrada por ambos gostarem de mim. Mas volto a perguntar: você não teme que algum de nós se machuque? 
Ele caminhou até uma das imensas janelas que dava vista para um bosque de sonho.
Ponderou um momento e falou com a cabeça votada para seu ombro direito:

-Está certo, Claudia. É melhor você ir embora. Você é jovem demais e pode sofrer. Não tenho o direito de brincar com seus sentimentos...mas apenas quero que  saiba que gostei muito de te conhecer. Você é dessas raras pessoas que falam com o coração, e que olham no fundo dos olhos. Isso me agradou muito; verdadeiramente querida...
Voltou-se caminhando serenamente até mim. Pousou a mão em minha cabeça.
Afagou meus cabelos.

Eu o olhei nos olhos e fui falando sem pensar:
-Nunca abri meu coração para pessoa alguma no mundo, Robert.

-E isso porque?

-Justamente por conhecer muito de perto a perversidade delas.
Você tira a dramaticidade para seus personagens da história oculta e da magia desse lugar em que foi criado. Mas eu tento tirar doçura e força de sobrevivência de um coração muitas vezes arrasado. E isso sempre foi assim desde minha infância! Nunca haveria lugar em sua vida para alguém como eu. 

-Eu gostaria sinceramente que houvesse em seu coração um lugar para mim, Claudia. Me faria muito, muito especial...
Ajoelhou-se diante de mim e enxugou as lágrimas que eu tentava sufocar.
-Eu não sou ninguém. Apenas mais uma sozinha no mundo. Já faltou muito pouco prá eu... 

-Olhe pra mim, Claudia. Olhe!
Obedeci.
-Não quero nunca mais que fale assim. Proíbo você, está bem? Proíbo!
Tentei esboçar um pequeno sorriso.
-Vocês meninas não sabem como são importantes. Os homens não conseguiriam viver se vocês não existissem. Não sei porque em certos momentos se fecham tanto dentro de vocês mesmas e passam a acreditar que não valem nada. Que suas vidas que seu amor não significam nada. Vocês nos arrasam quando fazem isso, sabiam?
 Ele beijou-me na testa.
Olhou no vazio como se refletisse e por fim suspirou:
- Vocês duas tem que ficar comigo. Você tem que ser minha!

-Mas como ...

-Eu “quero” você! Você me quer?
Quem suspirou fui eu:
-Tudo o que eu mais quero é ficar com você. Não posso fingir. Meu corpo te quer. Você é a melhor pessoa que já conheci na vida. E do teu lado me sinto como se tudo fosse perfeito... Mas tenho medo... 
Ele beijou-me o rosto, a testa, a boca, as mãos.
Abraçou-me forte transmitindo-me um carinho que eu nunca sentira no mundo.
Ficamos assim por um tempo e em silencio. Sua respiração me acalmava.
 -Eu prometo que não vou te machucar.

-Mas como pode prometer isso, Robert? Não será uma relação normal, seremos três envolvidos, duas mulheres amando o mesmo homem. Isso é loucura...

-Uma mulher e um homem se amando e os dois amando você.
 O tom de suas palavras confortou.
Minha carência de amor era tão grande que me deixei levar.
Eu o queria, queria mais que tudo. Não adiantava fugir dessa crua verdade.

Avancei para ele e beijei-o sem pensar em mais nada.
Ele retribuiu me envolvendo em um abraço infinito do qual eu não queria sair nunca mais.
Beijei suas mãos, tão firmes e queridas para mim.
Ao mira-lo tão de perto, percebi que seus olhos estavam com uma tonalidade de azul suave, e um tanto fundos. Parecia não ter dormido bem.
-Eu atrapalhei sua vida e a de Carol, não foi, Bob?

-Você e Carol vieram para minha vida, Claudia...quero tê-las prá sempre... 
 Envolveu-me.
Senti sua mão de encontro a meu seio direito, acariciando-o suavemente.
Ele afastou minha blusa. Seus dedos tocaram o mamilo, intumescendo-o muito.
Gemi sem querer.
Ele aproximou os lábios do mamilo e sugou-o demoradamente.



Eu escovava os cabelos no quarto depois de ter desfeito minhas malas e revisado meus e-mails. Alguém então bateu a minha porta. Isso sempre me dava um certo sufoco.
Sem querer eu retornava a época dura de minha vida, quando algum credor procurava por minha mãe para depois humilhá-la com palavras chulas e ameaças... Os olhares espantados de meus irmãos...O silêncio desesperado dela pelo resto do dia...
 -Posso entrar, Claudia?

-Claro. Entre, Carol. Respondi, surpresa com o tom de sua voz fina.
Carol entrou fechando a porta atrás de si. Sentou-se na chaise e me olhou através do espelho com seus olhos azuis muito claros sem dizer nada.
-Você tá legal, Carol?

-Estou. Eu só queria conversar com você. Mas agora que estou aqui não sei o que dizer.

-Não se preocupe em conversar, Carol. Deixe que o que temos de bom fale...




segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 8


ATO VIII.


-Você esteve chorando, Claudia? 
Robert aparecera na copa onde eu estava. Eram três horas da manhã e eu não conseguia dormir.
-Ai! Você me assustou, Robert!
-E você,“Gasparzinho”? Andando à noite sozinha pela casa...
Ele vestia uma camiseta cinzenta puída na gola. E uma espécie de bermudas acetinadas, acho que era a combinação de um velho pijama.
Era bacana constatar a pessoa simples que era em sua própria casa, na vida familiar.
-Quem disse à você que estive chorando? Posso saber?
Ele abriu a geladeira trazendo a água para a bancada.
- Então é verdade.
-Foi Rolland, não foi?   
-Não importa isso. Você deveria procurar descansar. Você ainda está de folga mas já que está dentro, teremos um bocado de trabalho para catalogar algumas coisas e quero que conheça outros de nossa equipe. 
-Então porque você não descansa, Bob? Lamento ter acordado você. Boa noite.
Fui tentando sair, mas ele obviamente me deteve.
-Espere um pouco. 
Sua silueta encobriu-me e seu perfume novamente arrebatou-me.
O ambiente estava mal iluminado mas me deparei com o azul de seus olhos que me invadiu.
-Está fugindo de mim agora, Claudia?
Colocou sua mão em meu rosto e beijou a minha:
-Não quero que você sofra, amor. Não quero que chore.
-Mas não se trata apenas de mim, Robert. E quanto a Carol?
-Carol também gosta de você, Claudia. Nós dois gostamos. Falou me mirando de uma maneira que queria insinuar algo mais.
E então compreendi tudo.
Ele puxou meu rosto para o seu.
-Você tem medo, amor?
-Eu deveria ter? 


Resolvi então deixá-lo solucionando sozinho a questão do que se passava em minha cabeça.
Era a minha vez de dominar o jogo.
Corri para cima e tranquei a porta do quarto.
Em seguida o giro silencioso da maçaneta numa tentativa perdida.

Então na verdade ela “sabia” de tudo o que se passava.
Sua atitude generosa escondia uma mulher com seus próprios, digamos que “interesses“.
Como eu havia sido ingênua.
  Havia muitos casais que desfrutavam desse gênero de coisas; eu deveria ter suspeitado.
O convite dela para que me dedicasse ao acabamento das fotografias de Robert em seu estúdio, a insistência para que me hospedasse em sua casa... Eu seria seu prato principal? Deveria temer ou orgulhar-me?







A Ópera de Robert mcKennan.7


ATO VII.

Na verdade tudo já estava acertado pelo o que pude constatar na conversa que tive com Rolland momentos depois.
-Claudia, como eu lhe disse, falei com Graham pela manhã. Ele foi informado por Fátima de que você provavelmente integraria nosso projeto.  
Ele não sabe detalhes mas não ousou discutir. Quanto a Fátima, nós já havíamos conversado antes.

-Sim. Você mencionou, Rolland. 

-Ela está por dentro. Ela apenas não imaginava que Robert fosse exigir que você participasse. Apesar de considerá-La ótima no que faz.

-Mas você me falou que Robert queria segredo. Como Fátima está sabendo? 

-A editora da revista de Fátima terá o direito de distribuição exclusiva desse material na América, Claudia. Ela tem um papel muito expressivo no mercado, como você já sabe. E o certo é que se você integrar o projeto, estará ainda sob contrato da revista. Serão feitas apenas algumas alterações. O seu pagamento, por exemplo, será significativamente maior; uma vez que seu trabalho envolverá tempo e total imersão. 

Rolland ficou analisando minhas reações por algum tempo para então falar:

-Claudia, se me permite dizer, você é jovem e talentosa. Mas esse é um Meio muito competitivo, onde o talento e a juventude são descartados rapidamente. Essa seria uma esplêndida oportunidade de consolidar sua carreira, se me permite dizer. 

-Você tem toda a razão Rolland.

 -Então porque quer nos deixar? 

Senti meus olhos embotarem de lágrimas. Rolland já sabia o que estava acontecendo. Era perspicaz e tremendamente experiente.

- Cláudia, se me permite dizer. Robert é uma excelente pessoa.  Sua maneira de trabalhar é séria e comprometida. Ele tem um senso fantástico para reconhecer o caráter e talento das pessoas e jamais... jamais se aproxima de alguém em quem não acredite. Em minha opinião, se ele aproximou-se de você é porque a julga especial.
Eu não queria fazer daquele homem meu confidente mas o fato de chorar diante dele não facilitava as coisas.

-Claudia, você acha que vai ficar bem ? Quer que eu chame Robert aqui?
Eu não queria que Robert me visse chorando. Não precisava de uma cena. Precisava me controlar.

Se eu fugisse arruinaria uma possibilidade excelente para minha carreira e nunca... nunca mais veria Robert de novo, e eu sabia que seria impossível arrancar de mim o amor que sentia por ele.
Eu estava dentro de um turbilhão que não podia controlar, mas pelo menos em minha carreira eu deveria pensar com seriedade e de cabeça fria.

Respirei profundamente e decidida:

-Rolland, eu ficarei na Escócia. E esse projeto será o trabalho de minha vida.  

Não precisei me ocupar com o cancelamento do vôo para a América. Rolland já havia antecipado tudo. Já o havia cancelado, quando atendeu a ligação da companhia aérea.




domingo, 26 de fevereiro de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 6


Estirada numa bela cama de casal, sobre uma colcha tartan em tons esmeralda, fiquei quase por uma hora tentando por as idéias no lugar, e a conclusão à que fatalmente cheguei era a de que estava mais do que na hora de voltar para casa. Não desmanchei minha mala, tão certa estava de minha decisão. Fiz minhas reservas para o primeiro vôo da manhã seguinte.

A janela do quarto em que estava tinha vista para os jardins da ala sul, mas eu escutava a distante movimentação de carros que chegavam e eram estacionados no pátio de pedras da entrada principal. Havia um vozerio alegre no meio do qual o eco da voz de Robert se destacava.
Carol interfonou convidando-me a descer.
-Carol, você me perdoaria se eu ficasse no quarto? Estou um pouco cansada.

 - E você me perdoaria se eu subisse para vê-la ? 
Eu não esperava que ela me pedisse isso. A última coisa que eu queria era ter de olhar em seus olhos.
-Suba, Carol, pode vir. A casa é mesmo sua.
Carol percebeu meu tom amargurado e veio em seguida.
-Se você me deixar sozinha seremos somente eu e Helena de meninas lá embaixo. E ela está perguntando por você, Claudia.

-Será apropriado que eu apareça, Carol? Não são pessoas de cerimônia?

-Não existe isso de “pessoas de cerimônia” em minha casa, Claudia. Pelo menos não costumo convidar ninguém assim. Veja como podemos nos sentir à vontade aqui: um ambiente totalmente agregado a essa natureza mágica da Escócia. Rústico e cheio de aconchego. Só combina com gente em sintonia, não acha?

-Sua casa é mesmo agradável. Todos se sentem bem aqui. 

-E você, não?

-É claro que sim Carol. Na verdade acho que também amo... Esse lugar.
Ela limpou as lágrimas que fugiam de meu controle.
-“Ele” é mesmo assim, Claudia: “Arrebatador“. Não precisamos tentar explicar.

-Hã?!! O que você está...
Helena escancarou a porta do quarto entrando num rompante e se jogando na cama a nosso lado. Era pura luminosidade vestindo rosa.
- Mami, vocês duas não vem descer?  O papi mandou chamar. Disse que se vocês não descerem vai começar a fumar charuto...
Carol fez uma cara de espanto depois sorriu para Helena amarrando uma das fitinhas do cabelo da menina que insistia em se desmanchar.
-Só me faltava essa, Helena. Seu pai fumando charuto, e depois tocando aquela bagpipe de seu bisavô.

-Você vai ajudar na decoração de minha festa, Claudia? Perguntou Helena.
Eu estava com a cabeça congestionada; paralisada com o possível sentido da última coisa que Carol havia dito antes de Helena entrar.
-Hein,Claudia? Meu aniversário é depois de amanhã. Você vai me ajudar a decorar tudo? Papi falou que você desenha.
A menina estava falando de aniversário...”Atenção, Terra para Claudia”
-Claudia? Helena está falando com você! Chamou-me Carol.
Tentei me recompor: -Sim? Aniversário? Eu não sabia ainda, Helena. Desculpe. Vou te comprar um presente.

-Claudia, desça conosco antes que Robert dê início a uma revolta celta lá embaixo... Claudia, está tudo bem com você? Alarmou-se Carol ao constatar que estava difícil de eu reagir a ela.

-Sim. Já desço com vocês. Deixe-me trocar essa saia. Resolvi acionar meu eu robótico, antes que as coisas pudessem entrar em colapso de vez.

-Você não esvaziou sua mala ainda. Observou Carol, enquanto eu escolhia a peça de roupa.

-É. Não, ainda.



Vozes masculinas, piadas em que eu não prestava atenção, sorrisos que eu dava no automático. Estava me sentido num vazio claustrofóbico.
Robert não parava de falar e gesticular com aquelas mãos. Ionizado.
Eu fingia que bebia, mas apenas sonhava. Sonhava com suas mãos, com o aperto de seu abraço, com a maciez de  sua barba ...seu cheiro...
 -Claudia Drury. Você é um público difícil de agradar, hein menina! Não ri de nenhuma de nossas piadas.
Quem reclamava era um irlandês de sotaque forte com bochechas vermelhas que sinalizavam já estar um pouco alto.
-Me perdoem, senhores. Acho que não bebi o bastante, ainda.
Todos gargalharam alto e ele disse que eu era cruel.
-Achamos que “alguém” é que não lhe deu o remédio de que precisa. Falou um magro de olhos azuis agudos com aspecto frio.
Me fez imaginar Grima língua de cobra.
Vaias em uníssono .
 -Cuidado Noah, Claudia é minha convidada. Respeite-a se não quiser levar uma garrafa de Schott direto no meio dessa sua testa! Brandiu Robert com a sobrancelha ameaçadoramente alteada.
-Noah cutucou a onça. Deveria ter mais amor à própria pele, Noah nem que fosse para a gente poder fazer um tambor com ela depois! Sentenciou o que parecia ser o mais velho deles com o cachimbo fumegante.
 Achei melhor sair dali e ir até o lavabo.
Eles nem sequer notaram minha saída estratégica, pois, aos gritos e assobios, agora aplaudiam Robert que se postou a recitar Crates de cima do sofá, com voz e trejeitos exagerados, acompanhado pelos acordes andaluz do violão que Rolland dedilhava. Os outros dobravam-se.
Depois eram os hinos do Celtic e do Elgin City em altos brados.
Eu estava detestando aquele idílio machista.
Como Carol agüentava?

Minha cara no espelho não estava das melhores. Mas não poderia ser diferente com aquele  turbilhão de emoções desde que eu chegara a Escócia. Era como se minha vida estivesse em um momento de suspensão, no aguardo por um ato de grande transformação. Não sabia se para o bem ou se para o mal. Mas talvez fosse o fato, pouco comum, de eu não estar recebendo telefonemas a toda hora de meu chefe, com urgências relativas ao fechamento de capa da revista ou a revisão de um texto erradamente formatado,etc e isso representasse para mim uma quebra de ritmo.
A partir da manhã seguinte tudo se normalizaria e eu finalmente voltaria a anestesia de meu trabalho.
Molhei o rosto e belisquei as bochechas.
Resolvi ver se Carol precisava de apoio feminino na batalha contra os Orcks!
 Ao  sair do lavabo, deparei-me com alguém que vinha da adega trazendo na mão, obviamente que...uma garrafa.
Infelizmente para mim era o tal Noah.
 -Hey, alô senhorita ‘princesa persa“. Sorriu com dentes amarelados.
Tive a impressão de que tinham o exato formato  de punhais.
Sinalizou com o queixo para sua encomenda etílica
.- Fui designado por mcKennan a descer até a adega. Acho que ele quis me dar uma espécie de punição sabe? Por “sua” causa.
Não lhe dei assunto, tratei de ir saindo.
Ele impediu minha passagem postando-se em minha frente.
Encarei-o com expressão fechada.
- Sabe , “senhorita princesa persa”, conheço o seu tipo. Seu hálito era alcoólico.
Me empertiguei;
 -Conhece “o que“, moço?
Ele enfunou o peito e desatou numa gargalhada;
- Ora, minha cara, brasileiras! Você é brasileira não é? 
Eu percebi na hora o gênero de baixaria em que ele queria meter a conversa;
-Eu sou brasileira e publicitária, meu senhor. Mas não lhe devo explicações. Com licença. 
Ele se interpôs novamente, dessa vez segurando meu braço;
-Seu estilo de jogo não é novo, minha cara: Se faz de pobre menina injustiçada, ganha a simpatia do galã e aos poucos se enfia na vida dele. Na casa dele. Seduzindo seus filhos! Bancando a amiguinha da esposa; tramando ir para a cama de um homem casado! Não é isso? E no final da história a pobre vítima é sempre você. Não é mesmo querida? 
Respirei fundo.
Não precisava daquela situação horrorosa para coroar o meu dia;
-Senhor, posso lhe perguntar quem é o senhor? Falei em tom forçadamente calmo.

-Eu sou alguém que ama essa família como se fosse a sua vida. Alguém que foi mais importante na carreira de Robert Wolk mcKennan do que qualquer outra pessoa. Alguém que o viu atingir a excelência em sua trajetória. Alguém... Que sabe farejar de longe uma cadela oportunista quando vê uma do seu tipo. 
A minha vontade era de cuspir-lhe na cara. Pulverizar aquele arrogante. Rezei para não perder a voz;
-Meu senhor eu vou dizer-lhe exatamente quem você é: você é e sempre foi o tipo que daria tudo para estar na “cama” com o galã!  Infelizmente, essa é a história de sua vida. Estou certa? 
Libertei- me dele e fui saindo de cena. Não totalmente isenta do medo de que ele pudesse ainda arremessar a garrafa contra mim.


Aquele cara não iria me fazer desabar. Não na frente de todo mundo.Respirei. Queria que minhas mãos parassem de tremer. Senti um soluço sufocar-me.
Entrei na cozinha às escuras procurando não sei bem o que e lá fiquei por algum tempo, esvaziada, mirando os jardins iluminados através da janela, lutando para restabelecer meu equilíbrio.
Aquele idiota era um racista. Um sujeito desprezível que me odiava sem motivo nenhum. Sem me conhecer.
O que ele tinha era medo de perder sua influência sobre a pessoa de Robert. Se é que ele realmente tinha alguma, e não fosse apenas alguém que era tolerado por haver em algum momento contribuído para sua ascensão.
Talvez por isso o apego tão desesperado ao ícone: Medo de ser esquecido. De se ver vazio, sem ter construído nada na própria vida.
Esse o medo de muitas pessoas competitivas que desistem de brilhar e se apegam ao brilho de outro. Se vêem em desespero se alguém novo se aproxima de seu cultuado tesouro.
Eu não diria nada do que ocorrera ali naquele corredor. Sepultaria tudo no silêncio.
O orgulho me fazia assim.
 Não daria aquela criatura a chance de renascer, de ganhar um sentido para sua existência medíocre, através do embate pelo amor do ídolo.  Robert não precisava saber. Carol não precisava saber. E eu, sobretudo, não iria chorar. Voltaria para o salão antes que dessem por minha falta.

O piadista agora se esganiçava cantando “Molly Malone.” Só escutei os outros em coro:”Ah não!

Tudo o que eu queria era subir para me isolar, mas Rolland, agente de Robert, me fez um sinal de que queria falar.
 Eu não estava nem um pouco a fim.
Aproximou-se  trazendo o violão ao ombro a moda de um bardo;
-Claudia, falei com Graham esta manhã e consegui acalmar um pouco as coisas, ele chegou a falar com você?

Rolland analisou meu rosto com atenção:
-Você está bem, Claudia?
-Estou...
Ele não pareceu se convencer:
-Estou um pouco cansada. É isso. Não nos falamos ainda, Rolland. Não tive tempo. Hoje tudo transcorreu rápido demais. Nisso menti. Eu é que não retornei a nenhum dos telefonemas de Graham.

-Mas a revista recebeu a arte das fotos, sabia? E Fátima Lacerda, a diretora e sócia majoritária, te elogiou. Sorriu efusivo.

-É. A publicação sai daqui dois dias. Sempre tem alguma revisão. Mas as fotos até que ficaram boas!
   Dei um sorriso tímido.


-As fotos ficaram ótimas, Claudia! Sabe, eu conheço Fátima. É uma grande profissional. Combinamos os detalhes dessa matéria para a revista.

-Essas reuniões aqui acabam sempre nessa cantoria? Perguntei, um tanto friamente .

- É inevitável com escoceses e irlandeses por perto... Você há de concordar.
Eu percebia que ele queria falar algo mais, mas não sabia como começar. Estaria meio desconfiado sobre o conflito meu e de Noah ocorrido a pouco?

-Você ta com jeito de que tem mais a dizer, Rolland. Vá em frente.
Ele sorriu amável;
-Sim realmente. Você tem razão, Claudia... Esfregou a mão bronzeada no rosto aproximando-se com jeito cauteloso:
-É que estamos, eu e Robert, na busca por alguém  que trabalhe conosco. Será na compilação de uma espécie de guia com texto biográfico sobre a carreira dele. Queremos que contenha uma coletânea de fotos, antigas e atuais e ao mesmo tempo aborde uma boa gama de informações sobre a  Escócia, sobre seu parque cinematográfico, suas locações. Será um documento em parte subsidiado; porque você deve saber que atualmente Robert Wolk é considerado, sem qualquer exagero nisso, um símbolo da Escócia. Isso devido seu apoio a produção cinematográfica local e pela divulgação do país através de entrevistas, cinema e TV internacionais.  E sabe que ele agora está preparando-se para estrear como diretor, pretendendo desenvolver  futuros trabalhos por aqui?
Ele não parava mais de falar!
Todo aquele lero - lero estava me cansando.
Ainda por cima estava sentido frio. Mas procurei ser gentil e educada incentivando-o a falar:
-Eu não sabia que ele almejava ser diretor. Faz sentido. Sua carreira de ator praticamente já o consagrou.
Rolland assentiu sorrindo como se o reconhecimento fosse para ele;
-Ele não pretende deixar de atuar- Explicou ele rápido. -Mas agora se coloca diante dele esse novo desafio. 

-E certamente se sairá muito bem. Tudo a que se dedica faz com inteligência e coração. Arrematei disfarçando muito bem meu tédio com aquela conversa.
-E...sabe, Claudia. Robert gostou muito de você. Digo de sua forma de trabalhar. Você imprime um teor artístico em tudo: nas fotografias, nas seleções das fotos e além disso, seu texto escrito é bastante bom.

-Obrigada Rolland! Mas não sou perfeccionista, acho que sou intuitiva! Nem sei se isso é bom...

-Mas é justamente uma das coisas que atrai nossa a atenção para seu trabalho, Claudia: Sua intuição. Isso a diferencia. Além do sólido conhecimento, o que é importante. Mas o que quero é te propor que trabalhe conosco nesse projeto.
 Devo apenas pedir-lhe que seja discreta. Robert não gosta de jornalistas bisbilhotando seus empreendimentos. 

-Entendo... Ele pediu que você falasse comigo? 

-Na verdade eu meio que estou antecipando esse assunto, já que pelo jeito você está decidida a deixar a Escócia amanhã. 
Aquilo sim me alertou!
Como ele sabia? Ele, notando minha expressão surpresa, prosseguiu:

-Resolvi falar com você, antes de Robert pois atendi, à pouco um  telefonema aqui no estúdio. Era a companhia aérea querendo confirmar alguns dados seus. Parece que seu celular está desligado.  

Sem carga.

Naquele momento Robert aproximou-se de nós:
- O que minha linda hóspede e meu  advogado estão confabulando secretamente? Fui excluído das conversas importantes? 
Seu tom era jovial mas não evitou, porém, o olhar direto para mim com uma centelha.
Arqueou aquela sobrancelha. Olhava-me como se eu lhe pertencesse, com um claro ar de... ciúme?!!
Eu me afligi.
Rolland evidentemente percebeu a atmosfera.
Abraçou Robert pelos ombros batendo suave a cabeça contra a dele, numa demonstração de sua velha afinidade:
-Estou apresentando à Claudia nossas idéias sobre la publicacion,“hermano“! Veja se consegue convencê-la a entrar! 
Robert olhou-me detidamente como se não houvesse escutado nada do que Rolland dissera.
Fiquei ainda mais constrangida por ele sinalizar assim, de forma tão clara, nossa situação.

-Acho melhor deixá-los para que se entendam. 
Rolland retirou-se contendo um sorriso.
Robert não tirava os olhos de cima de mim. Tentei não encará-lo:
-Sabe, Bob. Esse projeto seu é maravilhoso mas você deveria escolher alguém da Escócia. Identificado com seu mundo.

-Eu escolhi você. Não era fácil para mim agüentar aquela proximidade toda. Eu me via obrigada a olhá-lo nos olhos e me dominou uma irresistível vontade de beijá-lo.
Como eu era fraca! Estava escancarando sem querer tudo o que sentia. Quanto mais eu tentava recuar mais o seu olhar me invadia e a lembrança do que acontecera no estúdio persistia me levando de volta para nosso abraço e para a fúria deliciosa daquele beijo...


-Você gosta de mim, Claudia? Ele perguntou num rompante com seu ar de desafio.
O que eu poderia responder? Meu amor por ele aumentava a cada momento.
-Robert, você sabe que sim...



-Então você deve estar nesse projeto. Você sente algo verdadeiro por mim e você é uma artista. Não preciso de alguém da Escócia. Escolhi você. Você agora integra o meu mundo, Claudia. 
Ele mais uma vez não me deu sequer tempo para argumentar.
 Me puxou para o corredor me encostou contra a parede e ousadamente me beijou.
Eu gemi de prazer ao mesmo tempo em que gelei de medo, mas não consegui detê-lo.
Quanto mais tentava afastá-lo, mais ele me apertava contra seu corpo e me tirava a força de resistir.
Eu cai num estado quase de inconsciência e só sentia o pulsar do coração dele contra o meu.
Aquele beijo não tinha fim...
Ele segurou-me pela nuca e me olhou dentro dos olhos:
-Você... acertará todos os detalhes com Rolland. Mas quero que saiba:  Eu preciso de você. Não só nesse projeto, mas ao meu lado...  
Afrouxou as mãos de meu corpo afastando-se um pouco. Deixando-me com as pernas trêmulas e com o desejo mais aceso ainda. Me recompus.
A qualquer momento alguém poderia chegar.
(Era um milagre não ter ainda chegado!)
-Robert, vou ficar doente se continuarmos assim.
Ele afagou meus cabelos e me beijou a testa.
Antes de se afastar disse que eu deveria dirigir-me até o estúdio, pois Rolland me encontraria lá para acertar tudo.
-Faça isso por mim. Por favor, Claudia.




sábado, 25 de fevereiro de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 5



Joguei os sapatos longe e capotei na cama. Dormi direto por seis horas seguidas.
Quando acordei o caos já estava instaurado.
Graham havia ligado mais de mil vezes ao saber, através da equipe, que eu não viajaria com eles.
Não havíamos, felizmente, ficado no mesmo hotel.
Eu cai em mim e vi que não sabia exatamente o que me deu ao decidir ficar na Escócia. Um ataque de loucura, é provável, mas pela primeira vez sentia que estava fazendo algo que realmente queria fazer na minha vida. E isso era libertador.
Nada de compromissos com a ajuda no sustento de dois irmãos.
 Nada do olhar penalizado das vizinhas por eu ter um pai que nos havia simplesmente descartado de sua vida. Nada de credores ferozes perseguindo e ameaçando a mim e a minha mãe.
Nada de ordem de despejo. Nada das orações intermináveis de minha mãe, enquanto a pneumonia a consumia junto com  a sobra de nossos últimos abraços.
Nada mais da sombra da infância e adolescência massacradas, pois agora eu era uma cidadã do mundo, uma “jovem artista de enorme talento“.
Lágrimas inesperadas correram pelo meu rosto. Mas depois de um suspiro profundo eu consegui sufocá-las.

Carol ligou dizendo que ela e Robert me aguardavam para o almoço, e que estaria enviando o motorista dentro de uma hora para me pegar.
Tratei de tomar um banho rápido. Juntei minhas coisas e fechei a conta no hotel.
Dei o endereço da residência de Robert caso houvesse algum recado e o celular me deixasse na mão.

Fui recebida por Carol e Helena:
-Seja bem vinda, Claudia! Você está muito bonita. Carol beijou-me no rosto.

 -Robert está no estúdio ao telefone, como sempre, mas logo estará conosco. 
Vou mandar levar suas coisas para o quarto.

-Carol, sua casa é fantástica! Mas eu não sei se devo hospedar-me aqui.
 Não quero importunar.

-Se você recusar, ficaremos ofendidos, Claudia. E pare com essa formalidade toda. 
Nós gostamos de você. Você é jovial e é tão simples. Você é americana, não é?

-Não. Sou brasileira, Carol !

-Brasileira? Rolland não disse. Então é por isso que você tem esse bronzeado bonito, não é moça?
Descemos para o jardim climatizado onde havia uma mesa com aperitivos.
Havia uma  grande estufa com variedades de flores, algumas belíssimas, desconhecidas para mim, e que descobri depois, serem, incrivelmente, plantas tropicais.
-Como passou Ewan, Carol? Perguntei.

-A febre baixou e finalmente ele quis tomar sopa. Mas está bastante sonolento ainda.

-Se ele dormir bastante e tomar líquidos vai se recuperar logo. Você vai ver.

-Você tem filhos, Claudia?

-Não. Mas tive dois irmãos que valeram por filhos.

-É mesmo, e eles estão no Brasil?

-Estão. Eu os vejo no natal. O menor deles já me deu um sobrinho...
Helena aproximou-se e timidamente tocou meus cabelos. Mas assim que Robert apareceu ela correu para ele e foi recebida com um abraço que a levou as alturas.
-Aí está o anfitrião! Acenou-lhe Carol amável.

-Perdoem minha demora, moças! 
Ainda com Helena nos braços beijou Carol e a mim.
-Fico feliz em revê-la, Cláudia.

-Oi, Robert! Fico feliz em ter vindo. É pena que seu filho Ewan esteja...

-Ewan está sozinho, Carol?!! Alarmou-se Robert.

-Está com Nelly, mas estou mantendo a babá eletrônica ligada. Ele está dormindo.

- Preciso dar mais uma olhada no garotão daqui a pouco. Mas ele vai se sair bem! Desculpe ter lhe interrompido,Claudia...logo trataremos de nossas fotos! Mas já aviso a você que não se preocupe com nada, Rolland negociou com seu chefe e você terá seus dias na Escócia livre dele.
Ele estava com um ótimo perfume, idêntico ao de Carol, reconheci quando me beijou o rosto.
Não havia se barbeado, no entanto, estava muito charmoso e de bom humor.
 Eu não quis alimentar o assunto sobre meu trabalho pois não me parecia a ocasião apropriada.
 Robert beijou o rosto de Helena e a colocou no chão.
-Vamos logo ao que interessa! Claudia, prove esse!
Robert serviu-me uma dose de Whisky.
 Pensei em recusar por não estar habituada a beber, mas fiquei respirando o perfume da bebida prazerosamente e dando micro goles, apenas molhando os lábios.


Nosso almoço transcorreu tranqüilo e familiar em meio a conversas agradáveis. Que versavam desde a tradição das destilarias da Escócia até reminiscências da infância de Robert e de Carol, pois Helena estava curiosa sobre o tema.
Dava gargalhadas imaginando seus pais como crianças ao ouvir as histórias de ambos.
 Adorou saber que sua mãe tivera uma golden retriever que a acordava para os passeios matinais e acompanhava nas pescarias dos finais de semana.


-Seu nome era Gorda, e dormia no quarto comigo e com sua tia Dóris. Nós duas a escovávamos e lhe colocávamos água de colônia...ah e ela sempre espirrava, a pobrezinha!
Helena gargalhava:

-E você papi, também tinha bichinho de estimação?

-Nós tínhamos muitos cães, a maioria eram beagles. Muito inteligentes e determinados. Não eram muito de fuzarca, mas eram ótimos farejadores.

-É, mas seu pai tinha uma coleção secreta de... Conte para elas, querido!

-Que? Não sei do que sua mãe está falando, Helena!

- Ele tinha uma coleção de COBRAS!

-Ah, mas eram inofensivas! Cobrinhas do campo. Coloridas! Defendeu-se Robert.

- É, mas conte a sua filha uma de suas mais célebres traquinagens com essas “cobrinhas”!

-“Célebres Traquinagens“! Imitou ele.Sua mãe está de brincadeira, Helena. Não dê conversa! Carol continuou lançando-lhe um meio sorriso maldoso:

-Seu pai tinha uma vizinha fofoqueira. A velha Maudie. Ela contou aos pais de Robert que o viu, com mais alguns garotos, explodindo fogos de artifício na rua à caminho da escola. Resultado: uma semana de castigo. Mas Robert e os outros resolveram acertar as contas com a velha Maudie...
Robert saltou sobre Carol fazendo-lhe cócegas e cobrindo-a de beijocas.
-Você bebeu um pouquinho, querida!

-Vamos, Robert. Deixe-a terminar de contar! Estou super curiosa!
Intervi eu.
Robert, em meio as risadas e tentativas inúteis de Carol de fugir-lhe das mãos, resolveu dar-lhe fôlego.

-Ele e os garotos...hunf, hunf! Jogaram as cobras...Robert recomeçou a sessão de cócegas.

-Deixe-a contar, Robert! Reclamei.

-É sim papi, deixe mami contar! Reforçou Helena, pendurando-se no braço do pai.

-Está bem,eu deixo!
Carol retomou o fôlego:
-Esses meninos terríveis jogaram todas as cobras na horta da senhorita Maudie.

-Coitada dessa tal Maudie! Exclamei eu.
Helena arregalava os olhos e tapava a boca com as mãozinhas, olhando para mim divertida.

-E vocês podem imaginar o estado da coitada cada vez que se deparava com uma das “amiguinhas” de Robert!

-Pelo menos ela ganhou uma coisa prá se ocupar! Sentenciou ele debochado; recebendo imediatamente um beliscão de Carol.


A tarde fomos até o estúdio ver as fotografias feitas com a velha Nikon.
Elas eram todas em cores mas havíamos conseguido lhes dar uma tonalidade lavada e isso tinha um ar antigo que nos agradou.
-Robert, ficaram muito boas! Gritei assim que as vi e sem nenhuma modéstia.

- Eu também gostei bastante, Claudia... Acha que poderíamos fazer mais algumas? Aproveitaríamos ainda um pouco da luz natural. Ou usaremos o flash. Não há problema.

-Eu estava pensando em explorar as nuances da luz no monocromático com sua máquina, Bob. Você acha maluquice?

-Mas é claro que acho. Vamos fazer!

Em nossa nova sessão de fotos, aproveitamos para fazer também algumas tomadas da bela propriedade que evocava muito de essência romana.
Uma vila patrícia com jardins bucólicos convidando a cabeça a relaxar e apreciar sua beleza.

Aquele lugar também possuía alma histórica, algo que não tinha preço e não era comum pois era único.
Comecei a entender porque ele amava aquele lugar.


-Claudia não acha essa luz incrível? Perguntou-me Robert.

-Acho sim, Robert. A Escócia é incrível! Jamais imaginei que viria a conhecê-la.  E a luz tem sim uma espécie de densidade...Não sei explicar!

-Mas e  você veio do hemisfério sul? Carol me disse. Deve achar frio aqui, comparado com o Rio de Janeiro...

-Na verdade não sou do Rio.

-Não?

-Venho de um estado um pouco mais frio.

-E qual é ele?

-Rio Grande do Sul. Sua capital é Porto Alegre. Temos uma paisagem bem melancólica para o interior, com grandes extensões de campo e  um vento vindo do pólo sul. A luminosidade por lá é bem especial. A luz do sol já vem rebatida. 

-Mas existem auroras austrais por lá?

-Não!

Ele fez uma cara bem marota.

-Você já viu uma aurora boreal?

-Não! Nunca vi!

Ele tocou com o indicador a ponta do meu nariz:
-Pois a qualquer momento vai ter uma surpresa!


Trabalhamos por pouco tempo, enquanto ainda dispúnhamos da luz natural. Anoitecia cedo. Achei melhor ir adiantando a revelação dos filmes. Um processo artesanal que estava me encantando.

 Mais tarde, ficamos apenas os dois no estúdio.
Carol havia ido dar uma olhada em Ewan, e Helena tinha aula de piano com a professora particular.
Do estúdio em que estávamos podíamos escutar distante seus esforços com Chopin.

De uma hora para outra comecei a sentir-me pouco à vontade.
 Tentei manter-me pouco próxima a Robert, sem olhá-lo diretamente porque sua proximidade estava tendo o efeito de me fazer parecer boba e afásica. Robert, claramente percebia o efeito que sua presença masculina estava produzindo em mim e portava-se como um perfeito cavalheiro deixando-me à vontade para trabalhar, sem impor-se demais. Mas em certos momentos seu perfume insinuava-se até mim. E eu, ruborizada, me flagrei excitada sexualmente.

Eu sabia ser aquele o mesmo perfume que sua mulher estava usando e isso me fazia imaginar o  que o fato significava em termos de intimidade entre o casal:
SEXO...SEXO...SEXO...sexo que devia ter acontecido entre eles depois da recepção, seguido por um banho compartilhado à dois pela manhã e acabando na cama com mais sexo. Por isso estavam exatamente com o mesmo cheiro.
Eu já não conseguia deixar de pensar no prazer que ela teria sentido nos braços dele.
Comecei a ter arrepios...
As longas pausas e silêncios que começaram a surgir entre nós naquele momento, no estúdio, acabaram sendo claras testemunhas de que havia pouco a ser dito e de que havia mútua atração.
Eram como um clamor imanifestado, presença forte do desejo...
-Será que Carol não está precisando de ajuda, Robert? Fique á vontade, eu me viro bem com a revelação  dos outros frames por enquanto.
Falei de um modo casual fingindo não ter notado o volume sob sua calça jeans claro.
Tentei voltar o olhar para os negativos, ao mesmo tempo em que sentia seus olhos cravados em mim.
Quando ele me pegou, pôs a mão em minha nuca, obrigando me a olhá-lo. Não lutei contra o domínio furioso de seu beijo que me tirou o ar, com sua língua insinuando-se em minha boca encontrando a minha.
Ele esmagou meu corpo contra o seu sem que eu pudesse ou quisesse resistir a sua força.
Eu sentia o pulsar de seu coração contra o meu peito.
O calor de sua pele fazia-me  desejá-lo dentro de mim.

-Robert... é melhor não...eu...

- Você quer que eu pare, Claudia?  Estou machucando você?
Sua voz estava rouca de desejo.
Coloquei minha mão em seu rosto e acariciei sua barba rala.
Ele apertou minha mão, beijou-a e me abraçou fortemente.
Seus olhos azuis encontraram os meus, mirando-me com cumplicidade.
-Minha querida... Penso em você desde a primeira vez que te vi...

-E eu não sei se tenho forças para resistir a você, Robert...

-Eu sei...eu sei, Amor...
  Ele beijou-me novamente na boca, agora mais demoradamente.
Nos desvencilhamos aos poucos mas ele aprisionou minha mão à sua.
-Vem, querida. É melhor nos reunirmos aos outros. Quero ver como Ewan está, antes que Rolland e o resto do pessoal chegue.
-Robert, é melhor que eu vá embora.

-E você acha que vou deixar?

-É sério, Robert. Isso não poderia ter acontecido, não é correto...
Ele postou-se diante de mim me encarando sério:
-Você sentiu a força que nos chamou um para o outro? Você acha que ela pode ser simplesmente descartada?
Não tive resposta para dar.
-Essa força não tem nada de promíscua, Cláudia. Ela “simplesmente é“.

Eu não sabia claramente do que ele estava falando, mas de repente me preocupei por estar tão desalinhada que pudesse dar na vista nossa situação para os outros, e senti um desespero:
-Não quero ser suja e desleal com Carol. Ela é sua esposa e é uma ótima pessoa. Isso não é certo... Não é certo. Eu não sou assim.
Ele permaneceu diante de mim me olhando tranqüilo com ar de certeza no que dizia. No controle absoluto de tudo.
-Eu não sou desleal, Claudia e não obrigaria você a ser. E nós não somos sujos. O que está acontecendo conosco é precioso e verdadeiro. Não há vergonha. E eu e Carol nos amamos muito, mas isso é entre eu e ela. Não deve ocupar você.

-Robert. A culpa é minha. Eu sempre o desejei...tentei esconder mas você sendo sensível e inteligente  logo percebeu, e uma coisa levou a outra...Ele me fez calar aproximando o indicador de meus lábios:
-Não fale assim. Não quero que se aflija com culpa e coisas assim.Tudo está bem eu garanto á você. Eu sou um homem, Claudia e não faço nada que não queira fazer. Você deve saber que eu quis você no momento em que a vi.
Fez uma pausa respirando profundo:
-Eu QUERO você, Claudia. E não vai fugir de mim.
E eu acho que não queria fugir...quando ele falou senti minha pele toda se eriçar. Queria mais de seu beijo, queria o calor de sua mão exatamente ali onde eu ardia em brasa.
Ele me segurou pelos ombros e puxou-me para si novamente beijando-me quase com violência.
Agarrei sua cabeça loira enchendo-a de afagos enquanto retribuía seus beijos transportada para outro mundo sentindo uma fogueira em mim; esquecida dos receios, gemendo descontrolada sentindo o calor de sua mão imensa sobre meu seio, através da blusa.

 Seu relógio de pulso tocou, despertando-o para a realidade dos compromissos de sua agenda.
Olhou-me afetuosamente:-Tenho assuntos para resolver agora, amor .
Beijou minhas mãos e sugeriu-me que terminando com as revelações,eu subisse para descansar um pouco:
-Vá e desça mais tarde, quero que conheça um pessoal...
Sorriu e saiu, não esquecendo de me dar um último olhar cheio de significado.
 Parecia que um tornado tinha acabado de passar. Minha cabeça estava girando. Ainda tinha no corpo a sensação do seu abraço. Meus lábios ainda queimavam e latejavam devido aos beijos.
O que eu estava fazendo? Queria afirmar para mim mesma que não era certo mas meu coração queria me fazer ficar na Escócia.
Eu precisava tirar forças de algum lugar para derrotá-lo. De minha educação cristã. Do meu respeito e carinho por Helena e Carol ou do medo de ir até onde pudesse ir e acabar me machucando muito. Me desesperei:
  “Ah, não! Por favor não, Robert! Não me faz eu te amar!”



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 4






-...“Aquele kilt escocês, em que eu o vi na foto, Robert, fica muito bem. Consiga-o para nós, por favor,Carol! Você não sabe como é bonito!

-Aquele tom de azul dá uma coisa de rebeldia: Robert mcKennan, The Brave Hart! Adoro este espírito! Não riam!

-Não, Tonniolo! Não disfarce a cicatriz! É marca registrada! Charles Azsnavour disse: “ Não disfarce minhas rugas! Levei setenta anos para adquiri-las!” É isso que os verdadeiros artistas fazem: não usam disfarces; expressam as sutilezas de suas próprias almas. Desabrocham personagens a partir do leito de seus próprios corpos. Utilizam suas características físicas, não as escondem... , 

-Nós admiramos Robert Wolk, por sua autenticidade, pelo seu ar indomável! Sua cicatriz é como uma marca de passagem ritual, acentua seu eu masculino.Tem algo simbolicamente primitivo e que “enlouquece as donzelas“...” 

 Eu ia fazendo esses comentários bancando a cineasta.Toda agitada.
 Correndo para lá e para cá, me reposicionando a cada foto enquanto  Robert parecia estar em seu “processo”.
 Encarnava um personagem para as fotografias e esse personagem era o próprio Robert desnudado de seu ar cavalheiro para uma identidade pura, essencial. Naturalmente sedutora.
 Sua esposa Carol acompanhava, um pouco distanciada, mas sinceramente satisfeita com os frames que eu lhe mostrava na tela.
 Ambas concordávamos de que não precisariam haver retoques.
 Aquelas fotografias estavam ficando perfeitamente testemunhais da maturidade e da identidade absolutamente escocesa do ator.
 Graham, havia me telefonado em um dos intervalos, mas como tinha plena certeza de que tudo estava sob controle queria apenas se certificar de que eu não precisava de alguma coisa.Traduzindo: Queria bisbilhotar.

-Não precisa se preocupar comigo, Graham, eu “inclusive” almocei!

Procurei falar baixo e longe de Robert para que esse não ouvisse o nome de Gordon Graham, perdesse a concentração e acabasse saindo do personagem magnífico que manifestava. Não o queria voltando ao estado de contrariedade que eu conhecera há poucas horas atrás.
Isso seria um perigo. Estava tudo correndo tão perfeitamente! Achei melhor desligar o celular.
 Graham não faria a besteira de ligar para Robert. Mas com certeza já deveria estar ligando para Rolland, agente do ator.
 As coisas estavam andando e no prazo. Isso era o que importava. Aquela situação era um tanto onírica para mim; algo com que sonhara tantas vezes e que agora vivia.
 No início do ensaio controlei o nervosismo mas agora me soltara tanto, que tinha que controlar o excesso de euforia.
 Esperava apenas que Graham não desse uma de invejoso e se detivesse a acompanhar as coisas a distância.

 No dia seguinte eu partiria cedo e a revista já teria recebido a arte das fotografias para publicação.

 Havia sido um dia extremamente cansativo, e mesmo depois de todo o trabalho concluído, de todo o aparato desmontado, conferido e embalado, eu e os de nossa equipe fomos convocados à comparecer em uma recepção que a revista e o prefeito iriam dar em homenagem a Robert.
 Imaginei se Graham teria juízo em não comparecer.
Eu estava sentindo minhas pernas fraquejando. Provavelmente isso se devia, além do cansaço, também à altitude.
 Tudo de que eu precisava era de um banho relaxante e umas sete horas de sono. Mas o dever chamava.
 Ao  chegar ao hotel  tomei uma ducha rápida.
 Um café seria uma boa pedida mas me decidi por um chocolate quente que me aqueceria um pouco e daria energia.
 Pedi também um hambúrguer de soja para a cozinha pois geralmente essas recepções compoem-se de uma indecência de bebidas alcoólicas, baforadas de cigarro no seu rosto, conversas redundantes e só...
Mas eu tinha que melhorar meu animo. Afinal havíamos feito um bom trabalho e eu deveria saber comemorar.
 Estávamos na Escócia! E, brincadeiras a parte; isso era bárbaro.

 Chegamos à recepção um pouco antes das oito da noite.
Robert Wolk e esposa chegaram logo em seguida, sendo imediatamente cercados por uma seleta multidão de convidados.
 Ele estava radiante, com um terno escuro e uma gravata cinza metálico que lhe caiam muito bem. Era caloroso com todos os que vinham cumprimentá-lo, dedicando a cada uma das pessoas presentes um comentário especial ou uma resposta bem humorada o que realmente os realizava fazendo-os cair pelo seu charme.
 Eu jamais conseguiria ter aquele ar renovado dele, depois de toda a maratona pela qual passara desde cedo. Era, sem dúvida, um grande profissional e nascera para o que sabia fazer tão bem: Inebriar os seres humanos.
 Resolvi não aproximar-me, mantendo-me junto ao pequeno grupo formado por três colegas.
 Fingia beber.
 Os sapatos de salto eram um tanto martirizantes e as piadas requentadas, mas a música era ótima:  Kenny West, Jamiroquai...e obviamente: Ammy!
 Ah... A música! Isso sim me levava para um outro mundo!
 Se me fosse permitido e se pegasse bem eu tiraria aqueles sapatos e dançaria como louca aquela noite. Mas a noite definitivamente não era minha.
 Olhei na direção de Robert. O casal, acompanhado de um pequeno grupo, tomava seus lugares na melhor mesa. Daquele ponto eles tinham uma visão privilegiada de todo o lugar.
 Os olhos dele logo me detectaram com a eficiência de um farol de presídio. E não sei porque mas isso meio que paralisou minha respiração.
 Acenei discretamente e lhe sorri.
 Ele sinalizou incisivo para que me juntasse a sua mesa.

 Se eu não obedecesse, seria descortesia de minha parte; ele havia sido generoso comigo. Não apenas me dando uma oportunidade de destaque para o trabalho, como também estimulando minha própria confiança.
 Ele já estava impaciente e começando a levantar para vir me pegar. Aquele cara era impetuoso de gênio!

-“Está bem , está bem já estou indo, NÃO SE LEVANTE!” Articulei silenciosamente com os lábios .
Dei uma desculpa gentil a meus colegas e me encaminhei.

- Está muito bonita, senhorita Drury! Disse ele alcançando-me com sua mão e impedindo-me de cair; eu tropeçara em uma cadeira ao chegar.
( Aqueles sapatos...)
 Ele me apresentou para todos da mesa como “uma jovem artista de enorme talento”.
 Minhas bochechas pegavam fogo.
 Eu fiz menção de sentar ao lado de Carol, assim ela ficaria entre nós dois, mas ele obrigou-me a sentar a seu lado, tendo a esposa à sua direita.
 Alegou que ‘tínhamos que conversar“.
 Não sei de que maneira aquele homem conseguia me dominar deixando-me tão sem ação.
 Eu poderia ter alegado qualquer coisa para ficar ao lado de Carol, dizendo simplesmente que eu e ela “tínhamos assuntos de meninas para tratar também”, mas na hora não consegui contrariá-lo.
 E essa dificuldade em contrariá-lo estava começando a me preocupar.
Carol usava um vestido num tom de azul luminoso, com detalhes em ouro antigo. Os ombros a mostra e o cabelo arranjado alto, expondo seu elegante pescoço lhe davam uma aparência encantadora.

-Carol, como é agradável olhar para você! Falei de forma espontânea.

-Obrigada, Claudia! Que mais elogio simpático! Surpreendeu-se ela.
Robert riu e então completou:
- Eu também agradeço, Claudia, por elogiar minha esposa! Percebi que foi sincera. Gostei disso. 

Em seguida, segurou minha mão e a beijou. Puxou Carol para junto de si e a beijou também. Mas notei que não soltava minha mão com facilidade. Até que num certo momento, acariciou minha palma com seu polegar áspero. Virei uma fornalha e o constrangimento me pegou! Olhei na direção dele sobressaltada, mas ele permaneceu rindo e conversando com os amigos tranqüilamente e sem me soltar. Então subiu até meu pulso e, com ousada intimidade, seu dedo circulou-o também.
Diante de nós, na mesa, havia um casal e junto deles, um bonito senhor grisalho além de um homem, mais ou menos  da idade de Robert e, com olhar maroto, fez a ele um comentário em idioma escocês.
O comentário, levou Robert a rir sua gargalhada sonora, pondo em seguida a mão em minha cintura, apertando-me suavemente contra si fazendo o mesmo com Carol. Respondeu ao homem  no mesmo idioma hermético, mas eu consegui entender os termos “mulheres” e “beleza”. Todos na mesa riram. Eu me senti idiota sem entender a piada.

-Do que se trata, Robert?

Robert, ainda sob o efeito do riso, acenou para o garçom e pegou  taças de Champagne para mim e para Carol. Aos poucos conteve o riso:
-O danado do Liam disse para eu não beber demais e acabar confundindo belezas ruivas com morenas! E eu respondi que o seu pai é um cavalheiro amistoso  que usa uma cinta de couro bem larga! 
E ele arrematou:
-Prometo me comportar, Liam! Ainda sóbrio! Eles se dobravam. Não achei a piada muito politicamente correta, mas aceitei a taça de Champagne.
Notei que Carol não falava muito. Todas as atenções convergiam para Robert. Caroline apenas sorria. Brindava a todos com sua beleza e maneiras refinadas em contraste com ele, tão a vontade e indisciplinado que parecia criança. As risadas sonoras incontidas dele ressoavam em todo o ambiente. Ele, por diversas vezes, pegava a mão da mulher e a beijava, e isso foi ficando mais freqüente a medida que bebia mais. Até que, em certo ponto, passei a ser alvo desse mesmo tipo de demonstração também. E sua mão também começou a passear suave e insistente pela minha nuca, com os dedos se infiltrando, sorrateiros, pelos meus cabelos! Já estava chegando hora de eu fugir para o toalete!

-Onde pensa que vai, Claudia?
Perguntou ele ao me ver começar a levantar.

-Assuntos de menina... Sorri em resposta.
Levantou-se também, e eu temi pelo que pudesse vir a seguir.

-Não pode sair agora que nosso Möet & Shandon finalmente aterrissou! 
Ele assumiu um ar grave olhando em volta, pôs a mão no meu ombro me fazendo sentar novamente; o garçom terminara de servir as taças.
-Quero propor um brinde!

Todos na mesa elevaram as taças, inclusive eu.
-Que possamos ter sempre o amor caloroso de nossas mulheres e a visão colorida do sorriso de nossas crianças!
Todos brindamos juntos. Robert virou a taça de Champagne num só gole em meio aos risos perolados de todos. Sorridente, saudou erguendo a taça vazia no ar.
Sentou-se esparramado e virou-se para mim:
-Claudia. - Começou ele com seu charmoso sotaque. -As fotografias que fizemos com a velha máquina deram um material incrível! 
Já as tirei do forno e quero que amanhã mesmo você dê uma olhada. Quero ver só a sua cara!

-  Robert, é uma pena. Lamento. Amanhã não estarei mais por aqui. 

-Que conversa é essa?

-A equipe parte amanhã cedo. O vôo é às nove. Precisarei sair cedo para chegar ao Aeroporto. 

Ele deu mostras claras de não ter gostado muito do que acabara de ouvir.
 Reposicionou-se na cadeira. Recostou-se no espaldar.
 Olhou em torno do ambiente com o rosto de mármore. Falou, depois de um breve momento:
-Eu não sabia que você pretendia partir tão cedo e... amanhã... 
 Tamborilou os dedos no tampo da mesa pensativo. Arqueou a famosa sobrancelha:

-Mas você precisa mesmo?

-É meu trabalho... E você, mais do que ninguém, sabe como é! 
  Ele pregou os olhos em mim como se eu tivesse falado uma heresia.
  Eu não sabia qual seria sua reação e já estava ficando com medo.

 Resolvi distraí-lo perguntando a Carol se ela havia gostado das fotos feitas com a Nikon, ela respondeu-me que as adorara, que era uma apaixonada por fotografia e que gostaria de falar comigo sobre o suporte para expô-las.

-Você é a autora da obra , Claudia! Não pode abandonar assim uma criação sua. Disse ela com seu amável sorriso.

-Bem que eu gostaria de poder ficar, Carol mas... 

-Então “porque” não fica? 
 Interrompeu Robert com tom impaciente. E antes que eu pudesse abrir a boca prosseguiu:

-Tire ao menos uma semana de folga, Claudia! Você merece pelo trabalho bom que fez.

-Adoraríamos tê-la como nossa hóspede. Completou Carol.

Robert bufou:
-Eu me darei o trabalho de acertar isso com Graham através do escritório, é o mínimo que ele pode fazer depois de tê-la tratado daquele modo. Ao citar o nome de Graham  suas mãos crisparam.

-Sabem , é que eu também tenho outros assuntos que...

-Você tem é um assunto não terminado comigo, Claudia. Voltou-se Robert encarando-me.

-Robert, o que isso quer dizer? Me assustei, constrangida pela maneira ousada com que falara. Poderia dar uma impressão errada... Queria sair dali.
 Ele parecia se divertir intimamente com minha cara assustada, fazia eu me sentir como criança:

-Você precisa tomar conta e dar um acabamento nas fotografias que fez, senhorita.”É o que... estou querendo dizer.” Disse isso e tomou um gole do seu Whisky.
Voltou-me seu olhar intimidador.
 Naquele exato momento as luzes principais foram abençoadamente desligadas.
 As vozes de todos os presentes cessaram aos poucos.
 A música sumiu. Ouviu-se apenas o som contínuo e hipnótico de uma única gaita Bagpipe escocesa adentrando cerimoniosamente  acompanhada por um séquito de homens orgulhosos lindamente uniformizados trajando kilts.
 Em seguida, mais cinco entraram transportando lanças e um estandarte com brasão. Guarneciam outros quatro que transportavam um grande artefato juntos e a altura de seus ombros. Era o prato principal de um banquete!
 A cena era inusitada para mim e para muitos dos presentes.
Havia um tom de grandiosidade naquilo que provocava em qualquer um arrepio!
 O som da gaita agregou-se ao de um ritmado tamborete e um grupo maior adentrou solenemente até posicionar-se no centro do salão.

Um dos homens pesado e de cabelos totalmente brancos que chegavam a reluzir, ergueu a voz que parecia um estrondo e dirigiu-se a todos e especialmente a Robert:

-Nossa amada ordem dos veteranos fuzileiros reais das Highlands de sua majestade possui a honra de ter como filho da Escócia e homem das artes que promove e engrandece o nome desta terra para além de nosso reino. Robert Wolk mcKennan! 
 Uma menina com a idade por volta de uns cinco, trajando também um kilt, saiu do meio do grupo levando as mãos um arranjo com uma flor de cardo selvagem e subiu até nós entregando-o a Robert. Ele a beijou emocionado.
 Carol abraçou-a.
 A menina era Helena, a filha menor do casal.
 Todos aplaudiram a homenagem verdadeiramente tocados com a atmosfera humana que se criara, enquanto a música recomeçava, desta vez mais alta e em uníssono, pois mais algumas gaitas se somaram a primeira.
 Robert foi saudado com o grito dos fuzileiros reais:

”Ninguém me fere impunemente!”

 Eu estava maravilhada com o reconhecimento e o amor que aquele país dedicava a um artista seu. Era certamente algo mais profundo do que glamour, havia uma cultura consolidada em dignificar o trabalho artístico.
 Uma postura como essa, infelizmente, raras vezes se via em meu país.
 Depois de iniciado o serviço do banquete eu e os outros da mesa fomos apresentados ao mais velho daqueles senhores engalanados: um ser humano adorável!
 Ele era um veterano que conhecera o avô de Robert e em meio a baforadas de cachimbo, contou ótimas histórias da época em que ambos eram moços e saiam para a pescarias no interior da cidade.
Me dava vontade de poder ter tido um avô como aquele senhor; com sua gargalhada muito alta e simpática, sabendo manter a atenção de todos a volta com as pausas perfeitas em suas piadas e  com a narrativa de acontecimentos passados da cidade.
 Suas mãos eram belas e firmes transmitindo-nos uma segurança e calma digna dos antigos reis de Tolkien.
 Robert amava sinceramente aquele senhor e tudo o que ele representava.
 E com um sufoco mudo na garganta eu soube que também o amava embora sem entender o porque.
 São os homens quem fazem verdadeiramente o espírito de uma nação, e um dos melhores deles certamente estava ali em nossa presença, com seus cabelos totalmente brancos, baforadas de cachimbo e aquele olhar vivo, repleto de lembranças.

 Depois de uma maravilhosa variedade de sobremesas e mais histórias, inclusive sobre a infância dos pais de Robert que renderam mais meia hora de agradáveis anedotas e gargalhadas em tom alto, algumas pessoas começaram a se despedir dele que naquele momento estava mais caloroso ainda.
 Estava tão a vontade que arrastou Carol para dançar juntinhos.
 Achei que a presença do velho senhor e também de sua pequena filhinha vestindo kilt e lambuzada de mousse de chocolate, só fizera aquecer seu coração.
 Ele parecia um pouquinho alto.
-Carol, Robert veio dirigindo?Perguntei a ela, rindo num cochicho, quando todos nos preparávamos para sair .
 Carol sorriu entendendo minha preocupação.
- Não se preocupe, Claudia. Eu sei manter esse moço na rédea curta. O motorista está  nos esperando lá fora.

- E seu filho mais velho, não pode vir?

-Ewan, está com a garganta ruim. Infelizmente tivemos que aceitar dar-lhe antibiótico. A febre hoje, no final da tarde, chegou a trinta- e -nove- e- meio!

-Bastante alta! Mas é uma pena ele não ter visto essa homenagem a seu pai, é o tipo de coisa que fica marcada nas nossas memórias de infância.

-E ele queria tanto participar da homenagem junto com Helena...

-É. Isso é mesmo chato, Carol.

-Claudia! Irrompeu Robert, trazendo Helena cheia de sono  pela mão. Já passava da hora para ela, e eu também estava exausta.
-Vem com a gente, te daremos  uma carona até seu hotel! 

-Eu estou com uns colegas, mas obrigada Robert.

-Obrigada? É assim? Perguntou ele num tom amarguradamente baixo, próximo a mim. Ele queria de todo o jeito me fazer sentir ingrata e culpada.
 Ambos, Carol e Robert, queriam me fazer sentir ingrata e culpada.
 E me olhavam como se esperassem uma resposta.
-Bob, quer saber? Vocês teem toda a razão. Graham me deve uma... Vou pirar com nossas fotos! Posso muito bem tirar uma folga.

-Bravo, Cláudia!
Festejou Carol.

-E aceito sim sua carona!