terça-feira, 28 de agosto de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 73


No carro até o trajeto de casa Robert e Claudia não trocaram sequer uma palavra. Claudia estava distante e não dava a impressão de querer dar muitas explicações.
- Claudia, precisaremos conversar... 

Aquela hora, estava já quase amanhecendo. O céu azul escuro da noite da  Escócia adquiria, aos poucos, uma tonalidade maravilhosa entre o prata, o lilás e o dourado, fazendo com que Claudia recordasse, com emoção, a primeira vez em que chegara  aquele país que agora lhe pertencia.
Haviam no céu reflexos luminosos, como se fossem cortinas feitas de chamas e raios...Era a primeira vez, que Claudia via uma Aurora Boreal. Aquilo só poderia ser uma divindade...Lágrimas de veneração correram silenciosas pelo seu rosto.

Arthur pendia a cabeça de sono. Claudia procurava monitorá-lo, olhando para o banco de trás, atenta e com ar levemente preocupado.
Queria providenciar logo uma escolinha para Arthur, pois achava que quanto mais demorassem nisso, mais difícil seria a adaptação do filho aquele universo de seu pai e de seus irmãos. Esse, e a procura por um emprego, que começaria a empreender já no dia seguinte, eram o tipo de preocupação que tomava seu pensamento. Ou pelo menos, o tipo de pensamento com que preferia se ocupar.
A sensação de Claudia, desde que saíram da casa de Carol, era a de que um ciclo se rompia, tudo estava tomando uma direção inesperada.
Robert dirigia mas ele não deixava de espiá-la com o canto dos olhos a todo o momento. Não via a hora de chegar em casa. Queria retomar o assunto, queria retomar o controle das coisas.


-...Emprego, Claudia? Não. Não vejo necessidade disso agora...Arthur precisa de você e você agora é minha mulher, posso te dar tudo o que você precisar.

-Robert, você devia ouvir-se falando...em que época você acha que estamos vivendo, Robert?

- Você está vivendo comigo. Está casada comigo, Claudia! Você tem um filho comigo. E ele precisa ter você por perto.

Claudia pensou se Arthur precisava tê-la por perto para  que Robert pudesse se encontrar a vontade com Carol, ou com quer que fosse .

-Eu não acho que nosso casamento seja uma prisão, Robert. Pelo menos parece que para você ele não é.

Robert flagrou a franca ironia de Claudia. Ela encarou-o firmemente, sem pestanejar. Claudia nunca o enfrentava e ele quase não soube como reagir frente aquele olhar contundente e digno.
Mas retomou a postura segura de sempre.
-Claudia, você estava encontrando-se com Carol. Me diga o que isso significa.


- Não é o que significa mas o que significou...e isso realmente não importa agora. Você escolhe os seus silêncios, e eu escolho os meus...



Claudia virou de costas para ele, apoiando-se e desabando em um dos sofás da gigantesca sala de estar da mansão. Estava exausta. Ao  olhar para a amplidão daquilo tudo, Claudia sentia-se uma formiguinha. Jamais se acostumaria com tanta falta de aconchego. Precisava urgentemente de um gole de café.
Robert sentou-se ao lado dela, ficando em silencio. Aproximou-se, colando seu corpo masculino bem juntinho ao dela. Começou a acariciá-la no rosto. Ela deitou a cabeça em seu peito. Ele apertou-a contra seu corpo e ela sentiu-se bem. Acalmada, protegida.

-Vamos passar o dia de hoje juntos, querida? Vou cancelar minha agenda e tirar uma folga...
Claudia quase havia dormido nos braços dele...Não havia escutado direito. Olhou para ele com os olhos turvados pelo sono.

-O...que?
Robert sorriu e beijou-a suavemente na testa.

Aquela família, apesar da configuração inusitada, conseguiu adaptar-se a uma maneira de convívio, pode-se dizer, harmônico.
Claudia manteve a amizade com Carol, e assistiu a linda aproximação entre Arthur e seus irmãos.
Tinha o amor e a proteção de Robert e ele estava sempre a seu lado.
 Com o passar do tempo, pacientemente, sem gerar conflito, Claudia  conseguiu convencê-lo a deixá-La  voltar a trabalhar. Conseguiu convencê-lo a mudar para uma casa menor, próxima ao mar. Conseguiu convencê-lo a deixá-la usar sozinha o transporte público, quando precisasse ir para a universidade. E conseguiu convencê-lo à expor numa mostra inter municipal, as fotos que ele produzia havia tantos anos.
Ele adorou a experiência, e vendeu vários trabalhos. O dinheiro, doou para obras assistenciais.
Claudia e Robert freqüentaram juntos um curso de fotografia artesanal, o que os aproximou ainda mais. Pois ficavam horas, em meio a taças de vinho, trocando idéias sobre técnicas antigas perdidas, composições de luz, buscando publicações raras sobre expressionismo alemão e diretores esquecidos...assistindo a velhos filmes da Babelsberg. Trocando carícias, fazendo amor...

Murilo veio visitá-los na Escócia e ficou por uma longa temporada. Robert saia com ele para pescar demorando bastante.

Os natais eram todos na bela propriedade de Carol e nessas ocasiões a casa ficava lindamente iluminada, todos se reuniam cantando velhas canções escocesas e com Ewan e Robert treinando, desajeitados, passos de samba.
Dóris, a irmã de Carol ,comparecia nesses encontros e era como se nada no passado tivesse perturbado seu espírito bem humorado e festivo. Contava piadas que encenava comicamente, arrancando gargalhadas de todos os adultos e crianças. Dava baforadas no cachimbo, sua mais recente mania.
Assumira o comando de um posto médico humanitário em Singapura e confidenciava a Carol sobre sua aventuras amorosas, nada recatadas, com um residente singapurense.

Helena tinha um namorado e colocara um piercing.
Robert, indignado, ficava vigilante e com um indisfarçável ciúme da filha; então Claudia tinha um grande trabalho para impedi-lo de ser rude com o rapaz,  tentando convencer Robert a demonstrar amizade e compreensão, pois se Helena temesse o pai, se afastaria, o que seria bem pior.
Robert, contrafeito, acabava se acalmando. Mas mantinha os olhos cravados em Helena. E havia mandado, sem que Claudia e Carol soubessem, Mike Rolland vigiá-la secretamente.

Carol ensinava Arthur a tocar piano e lhe contava histórias sobre antigas lendas celtas. Afagava com suavidade os cachos delicados e loiros do cabelo do menino, cobria-o de beijos e lhe fazia cócegas. Seu amor por ele não cabia no peito de tão vasto e profundo. Robert notava isso comovido e em silencio...Claudia, a seu lado, pressionava sua mão.

Mike Rolland sofreu uma devassa fiscal em suas finanças particulares;  interdição de contas no exterior; processado por sonegação; além de receber uma queixa formalizada por Genebra por cooptação pelo tráfico internacional de armas. Mas seu primo Julio Castellano, também indiciado, isentou o nome de Rolland no interrogatóri,o  assumindo a participação na história. Porém,  não teve o devido cuidado em preservar outros nomes. Acabou executado dentro da prisão.

Certa vez Robert estava numa reunião com o pessoal da direção de arte da emissora e após receber um telefonema , Rolland notou, o rosto dele se transfigurou .
Seu dia não foi mais o mesmo.
Horas mais tarde, Rolland encontrou-o de pé, encostado a parede de um dos velhos camarins da parte antiga do prédio que fora isolado para reformas.

-O que o perturba, hermano Robert?

Robert nada respondeu. Olhou para o rosto do amigo e baixou a cabeça.

- Onde está indo,  hermano?

Rolland seguiu-o de perto.

- Eu vou encontrar com uma pessoa, Casca...

-Ok, não quer dizer que pessoa é, não é mesmo?
Foi o que imaginei...

Mike Rolland não conformou-se quando assistiu o amigo entrando no carro e saindo desabalado do estacionamento da emissora. Havia alguma coisa. Resolveu segui-lo em seu próprio carro.

Robert entrou em um dos restaurantes mais tradicionais da cidade. Aquela hora da tarde haviam poucas pessoas. Caminhou até uma das mesas discretas ao fundo:

-Eu...eu, sinceramente... pensei que você não viesse...mcKennan.

Robert custava em lidar com a emoção aguda que o açoitava ao defrontar-se com aquela pessoa. Não sabia o que pensar. Estava diante de uma lembrança embaçada, de um fantasma corporificado. De um homem.
Noah Greensberg sorriu tremulamente. Não aparentava sinal  de arrogância apenas sorria tremulamente. Robert empacou.

-Sente-se mcKennan...se achar que sou digno de sua companhia...mas como veio até aqui...bem, parece que pelo menos tenho sua atenção...
Aquele era um momento embaraçoso, inusitado e sobretudo irreal. Robert sentia-se como se estivesse em um episódio de Twighlight Zone.
Permanecia sem vontade ou condições normais de falar. Noah proferiu:

-Bem, pelo jeito eu devo em algum momento começar a falar...

De repente uma amargura  raivosa desprendeu-se das lembranças de Robert.  Aquele homem diante dele havia ameaçado a vida de seu filho e de sua mulher. E aquele sentimento adormecido de indignação sob a forma de um fúria surda voltava com toda sua força. Mas o que poderia fazer...surrar aquele velho?
Isso parecia estar além de sua capacidade. Só o que poderia fazer era sentar e ouvi-lo, era apenas isso o que restava fazer.

-Eu subornei, sabe...subornei os capangas de Mike Rolland..fui esperto de certa maneira, fui esperto...

Robert estranhamente achou graça. Lhe pareceu que Noah esperava ser elogiado ou coisa parecida.
O garçom aproximou-se prestativo. Desculpou-se por não ter sido mais diligente. Perguntou se Robert gostaria de olhar a carta de vinhos, mas Robert a recusou pedindo que apenas lhe trouxesse uma cerveja Guinness.
Noah encolhido diante dele parecia uma figura esmaecida, quase transparente. Robert cruzou os braços encostou-se no espaldar e avaliou-o detidamente.

-Que você subornou,  isso está muito claro prá mim nesse momento. Apenas não entendo como teve coragem de me chamar e sobretudo de se mostrar  assim frente a mim e de peito aberto.

O olhar azul de Noah tornou-se intenso; tingido pelas lembranças.

-Eu estou aqui mcKennan e estou diante de você porque acho que é o único lugar em todo o mundo em que devo estar.

Noah, tocou as bordas ornamentadas em ouro de um copo que tinha a sua frente. Suas mãos tinha os dedos gretados.

-Pessoas como eu, mcKennan, são pessoas que o mundo de hoje já não conhece mais. São pessoas devotadas...apaixonadas ao extremo, mas sem no entanto explicitar o amor que sentem...

-Do que está falando?

-Da grandiosidade a que você chegou e que eu consegui para você. Eu consegui porque lhe abri as portas, mcKennan...Porque eu tive a sensibilidade em reconhecer sua estrela, mcKennan...Porque eu pisei naquele lugar esquecido em que você estava...sabe porque, mckennan? Por pura devoção a você, a você e a esse fragmento único que carrega junto com você...

À metade das palavras emitidas naquele  discurso, Robert deixara de prestar atenção, porque aquela ladainha era sua velha conhecida.  Ela lhe pareceu uma canção muito velha, das que costumam dar sono. O garçom serviu-lhe sua Guinness cerimoniosamente, como tinha de ser.
 Robert observava a cor caramelo e a espuma suavemente dourada se formando. Depois desse interlúdio e de  alguns goles parcimoniosos as palavras de Robert fluíram. Interrompeu a cantilena de Noah impondo sua voz metálica vibrante.

- Você achava que eu não sabia do seu amor por mim Noah? Achava que eu não percebia...acha que  eu seria o ator que sou se não escutasse as palavras que não são ditas?

Verteu mais um gole enquanto, assistia a reação de Noah. Retomou, calmamente:

- A vez em que você quase caiu prá trás quando me viu entrar no administrativo do teatro velho...a sua fala trancou, e você não sabia onde colocar as mãos...você tremeu todo quando eu te abracei lembra? Olhava sempre que podia pro do meu negócio , do mesmo jeito disfarçado das garotas quando tão a fim. Pensa que não percebi?

Noah desconcertou-se. Remexeu-se na cadeira.
Robert:

-Sabe, Noah, eu até que poderia ter ficado algumas vezes com você, poderia sim...você até que tinha uma beleza soturna, misteriosa interessante que me agradou. Mas... você me pareceu muito careta com aqueles papos de alma shakespeariana e comida vegetariana, sobrenomes de origem nobre e linhagem de sangue azul... logo me cansei. 
Noah estava estupefato. Seus olhos de diâmetro incomum, pareciam querer saltar. Jamais poderia imaginar que algum dia...

-Você sempre foi um careta, não é Noah? O encontro meu e de Carol com a Claudia, por exemplo, porque você achava que tinha que se meter? Que tinha que vir pregar moral? Quem te chamou, cara? 

Robert passou a elevar a voz, num tom de discurso:

-Se eu me deitava com uma brasileira de sangue ameríndio, negro e português cheirando a selva e a sexo era porque isso fazia parte de algo especial e verdadeiro. 
Algo maior porque envolve a natureza com sua espiritualidade simples, que está em todas as coisas Noah, mas que você como rançoso representante da amargura ressentida de uma Europa cheia de medo, cristianizada, egoísta e preconceituosa até hoje não respeita. 
Sabe, esse  aí de agora é o seu verdadeiro retrato, Noah e o retrato de todos os que pensam como você. Um velho rancoroso ultrapassado acreditando que alguém está ligando para o que tem a dizer.

Robert virou o último gole do copo num só golpe. Arqueou as pernas e levantou-se.
Deu um último olhar para Noah, virou as costas e se pôs em movimento.
O gelo na alma, que Noah experimentou era de um gênero tal que o fez cair num choro incontido.
Debaixo da mesa, em meio as suas pernas segurava um revólver pela coronha. Sua dor maior era por não ter tido a coragem de fazer o disparo que pretendia.

Fim.


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 72





Arthur estava incrivelmente fascinado com aquela casa. Em seu coraçãozinho sentia uma satisfação que queria muito compartilhar com seu pai. Papai parecia tão preocupado, sentado do seu lado naquele sofá gigante parecido com uma nave...mas papai também era gigante...tinha o nariz grande, a barba toda feita de ouro...e dura! Pegava a mão de papai com as duas mãozinhas, mas aos poucos foi se sentindo cansado com o peso dela. Aconchegou-se aos poucos contra o corpo de seu papai, que o abraçou, que nem um leão.

Era muito engraçado que dois passarinhos estivessem voando dentro de casa, e era maravilhoso que pudesse olhar para cima e não ver o teto e sim o céu da cor dos olhos de papai e do Ewan! Olhou para papai, mas ele não estava mais...Resolveu procurá-lo. Desceu do sofá e correu por um corredor redondo que não terminava...mas havia uma porta, e correu para ela. Antes de abri-La, ficou examinando, maravilhado, a quantidade de figuras que nela haviam: Haviam grous, sapos, peixinhos iguais a chuchu e cobrinhas verdes, vermelhas e lilás ao redor de uma lagoa e todos se mexiam! Do alto bem lá do alto, vinha uma cascata barulhenta.

Arthur estendeu a mão para tocar tudo aquilo e sentiu uma brisa morninha, que vinha dali de dentro. Foi espiando cada vez mais de perto e sentiu que seus pesinhos tocavam poças de água que a lagoa formava na margem.

Viu aqueles bichos e viu pequeníssimas borboletas brancas, e elas voaram ao seu redor. O grou bateu as asas e levantou vôo também, dando uma revoada bem acima da sua cabeça. Arthur teve vontade rir, e riu sem parar.
Sentado numa pedra chamou pela mamãe, queria muito que ela visse tudo aquilo. Mas ela não iria gostar de ver que havia molhado os sapatos e iria querer tira-lo dali, então resolveu ficar quieto. Pegou na mãozinha conchinhas de vidro colorido que estavam espalhadas na areia. Decidiu que as daria de presente à mamãe. Colocou-as dentro de uma malinha amarela que achou...mas aquela malinha...era igual a malinha de remédios da tia Juju. Tinha umas fivelas de metal cheias de pontinhos marrom cascudos e umas figurinhas coladas. Sentiu o perfume de tia Juju. Seu coraçãozinho palpitou...ela havia voltado!
Olhou ao redor procurando-a e lá longe, embaixo de uma árvore viu umas pessoas. Uma delas era uma criança que lhe acenou.

Arthur sentiu um afago em seus cabelos. Olhou para cima, para ver quem era, mas a luz do solzinho não deixava...ou parecia que era a pessoa que brilhava! A pessoa feita de brisa pegou-o no colo e carregou-o atravessando as águas da lagoa. Arthur ia sentindo um frio na barriga igual aquele de quando se desce uma ladeira de carro...era tão engraçado.


-Quem é você?
-Sou sua mãe.
-Mas minha mamãe não brilha.
-Sou mãe de tudo, Arthur. Sou mãe de sua mamãe também e da mãe dela...
-Tou com medo. Quero ir embora. Cadê meu papai?
-Lá.
-Onde?
-Está na luz...

Um raio coroou o céu e emitiu uma luz muito forte junto com um zunido. O menino perto da árvore sorriu. Arthur encolheu-se e fechou os olhos, mas aos poucos os foi abrindo, pois deixara de sentir medo. Queria falar com aquele menino. Ele era tão parecido com seu amiguinho que  o abandonou no campinho...
Atirou para ele algumas conchinhas de vidro colorido para que as pegasse mas elas saíram voando, pois viraram passarinhos!

-Arthur! Arthur, vamos pra casa. Vem vou te pegar no colo.
Arthur surpreendeu-se por agora estar nos braços de seu papai. Olhou para cima onde estava o céu? Onde estavam os passarinhos? Começou a perguntar, mas os adultos não o ouviam só falavam sem parar.





quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A ópera de robert mcKennan 71










-Me diga o que esses canalhas tem contra você, Casca!

-Foram umas transações com meu primo Julio, aquele dos estaleiros ... desapareceram umas notas fiscais e isso desencadeou mais investigação...

-Transações que envolvem assuntos de exportação?

-Robert, não é nada comigo...ainda. Mas preciso tirar a limpo esse assunto com o Julio. As coisas complicaram...

-Complicaram?

-Contrabando, hermano, Robert! Estão nos acusando...

-Acusando de que exatamente, Casca?

-...de ter fornecido armas pros Al Shabaab da Somália, hermano!
 O sangue de Robert congelou. Se aquilo tudo fosse verdade, se trataria de colaboração com terrorismo. Mike estava sendo investigado pela Interpol! O silencio, pesado como chumbo, tomou o recinto e a voz de Robert quase não queria sair.
Quando falou, o fez um longo tempo depois. Não quis perguntar se o amigo estava realmente envolvido. Apenas murmurou:
-Mas o seu perfil bancário está , ok. Riu nervosamente: -Trafico de armas é dinheiro demais...eles não podem provar...

-Eles estão no meu pé, e podem encontrar “outras coisas”,  hermano...


Durante todo o jantar, Rolland e a esposa Adelle tentaram aparentar normalidade, mas percebia-se no ar a intranqüilidade daquelas pessoas. Robert e Mike Rolland conversaram um bom tempo a portas fechadas no gabinete e Claudia sentiu-se na obrigação de agradar Adelle que pareceu gostar bastante dela e de Arthur, embora quase não tivesse forças para sorrir.

-Você é mais simpática do que a antiga esposa de Robert , Claudia. 
Não pensei que seria assim.
Após falar, Adelle pareceu ter se arrependido, pois viu que não era mesmo de bom tom aquele tipo de comparação.
Claudia sorriu, mas sentiu melancolia ao lembrar-se de Carol.
-Carol é uma mulher que vive em uma realidade diferente da nossa...

-Sempre achei isso “meio estranho“!

-Mas Carol é assim, Adelle, ela é assim...

-Você parece conhecê-la bem, Claudia.
Durante o trajeto para casa, Robert estava silencioso e com o pensamento longe. Não parecia ter muita energia para palavras. Deixou Claudia e Arthur em casa por volta das dez da noite e disse que precisava sair para pensar um pouco. Claudia estranhou, mas nada disse. Não achava que devesse se meter demais nos assuntos dele, apesar de ele ter percebido, claramente seu ar de ciúme.
Logo depois, Robert e Mike Rolland, encontraram-se em um pub bem popular na down town city. Sentiam-se mais próximos e à vontade fora da formalidade de suas casas.
Tomaram algumas Guinness, falaram sobre as jogadas do Celtics, a temporada de rugby e sobre a preparação dos novos  do time.
Duas garotas louquinhas se aproximaram e acabaram fazendo-lhes companhia. Eles lhes pagaram bebidas e  Robert exercitou seu charme falando bastante e fascinando as duas! Sem revelar a própria identidade, brincou, não muito discretamente, com um mamilo do seio da mais ousada.

Mais tarde, os dois amigos treinaram golpes de boxe em um  saco pendurado no fundo secreto do bar e Robert, dando uma tragada num baseado que circulava por ali, teve que conceder autógrafos, como sempre.
Contou algumas piadas picantes, fazendo o povo do pub adorá-lo, prá variar...
 Quando ele e Rolland começaram a cantar, tiveram a ajuda do coro da turma de beberrões.

Era mais de meia noite e a cantoria se estendeu pela rua afora.
 Em certo momento, Robert flagrou a emoção tomando conta do rosto de seu amigo...
Rezou para que a situação de Mike Rolland não se encaminhasse para  o pior desfecho. Mas já sabia que, ileso, seu amigo não sairia. Haviam muitos pontos não esclarecidos envolvendo sua situação financeira, como era esperado. Mas quanto a ter ligações com tráfico de armas; isso estava fora da esfera da realidade!
Robert teve um mau pressentimento e explodiu:

-Casca, me diga que seu nome está limpo nessa enrascada!

-Às vezes você pode acabar numa teia sem perceber, hermano Robert. Mas isso só faz de você uma vítima.

-Fale direito comigo, Casca. Sou seu irmão...Eles tem alguma coisa contra você?

-Eles tem o meu nome ligado ao do Julio, hermano! E isso é suficiente. Se alguém embarcou alguma coisa dessas lá prá Africa, foi com o consentimento dele, não meu. Eu só ficava nos escritórios. Ele supervisionava tudo pessoalmente, como sempre fez.

-Você confiou demais nele...

-Como não confiar? A mãe dele me tirou da rua e me alimentou quando a minha velha se foi. 
A Escócia surgiu por causa da bolsa do futebol. E isso foi uma sorte, por que lá em Sevilha, uns macacos queriam me finalizar...

Sentados no meio fio de uma calçada, pareciam os dois garotos de antigamente.
Rolland terminou de entornar a garrafa de Guinness. Olhou para Robert pondo a mão em seu ombro.

-Talvez eu saia de circulação, hermano.

-O que isso quer dizer?

-Não estou falando em fugir, não. Não posso deixar Adelle...
Estou “prevendo“, que a armadilha é que vai se fechar...

Robert ficou surpreso com aquelas palavras que denotavam tanta derrota na voz de seu amigo super herói.

-Casca!

-O que?

-Isso é absurdo. Não vai acontecer com você.

-Mas isso iria acabar acontecendo sim. É assim que são as coisas. Sempre foram, hermano Robert.

-Do que está falando?

-Eu vim das sombras. E, mais cedo ou mais tarde, teria que voltar... 


Eram altas horas da madrugada e Robert estava quase chegando em casa, quando seu telefone celular tocou. Era Carol e estava chorando ao telefone:

-Bob, eu não agüento mais... Você precisa me ajudar a lidar...com essa...essa menina! Ela recém chegou em casa!

-...espere um pouco...
Robert deixou a chave do carro cair. Teve de abaixar-se para pega-la e acabou deixando cair a carteira. -O que foi, Carol? Calma...Estou indo prá aí!


***


-...essas brigas de vocês duas estão passando dos limites Carol! E onde Helena está?

-No quarto dela! Ainda bem, por que se eu a ver na minha frente hoje...

-Carol, você nunca foi assim.

-Mas se você escutasse o que ela falou...e o que falou de você!

-Eu não quero ouvir o que ela disse sobre mim!

-Mas Robert! 

- É tudo provocação, Carol! Você sabe disso!

-Mas você sabe o teor...

-Que não sou pai dela e que ela poderia casar comigo...blá, blá, blá...Já ouvi essa bobagem circulando lá por casa.

-Mas você...

-Escute. O que ela quer é agredir você, Carol!

-Mas Por que?

-Você elogia demais o Ewan!

-Mas é meu filho!

-Está vendo? É isso que ela está fazendo: Te jogando na cara que; já que não é sua filha, como você insiste em dizer, machucando-a cada vez que fala isso, ela pode então competir com você! 
Não seja tola de levar isso a sério! Ela é só uma menina! Mas por favor, encerre essa ladainha de que Ewan é uma deidade, um presente precioso sagrado! Isso é vida real! São seres humanos! Você não está recitando um canto nórdico do Valha La!

Caroline sorriu:
-Tem razão.
São meninos e tem defeitos...Ewan resolveu virar militar! Quer defeito maior que esse?
Carol começou a rir daquilo e Robert aos poucos também a acompanhou.

-Imagine só isso...Eu um ator, se é que posso ser chamado assim; você uma lingüista, apaixonada por ritos antigos e danças circulares e nosso filho; um militar! É rir para não chorar...
Carol resolveu e começou a preparar um drink:

-Robert, estou pensando em viajar.

-Viajar...

-Ainda não pensei direito, mas você sabe que sempre amei o Japão...
Gostaria de fazer umas pesquisas sobre matrizes lingüísticas asiáticas.

-E você vai...sozinha...? E aquele seu... “amigo“?

Ela alcançou-lhe o drink. Sorriu ao responder:
-Quanto barulho por nada, Robert!
Robert alertou-se para o formato circular protuberante dos seios de Carol, suavemente encobertos, descendo e subindo conforme a respiração dela. Carol começou a falar, mas Robert prestava atenção na suavidade os lábios dela. Aqueles cabelos tingidos de negro...
Caroline Greensberg vestia um robye lilás preso apenas por uma faixa a sua  delgada cintura. A sombras contra sua pele tinham um efeito dramático à luz indireta de um dos abajures. Um forte perfume de essências herbais impregnava o ambiente.
Seu modo de falar era languido e tranqüilo, sem alteração no timbre de sua voz:
-...e  portanto você não viu nada demais, Bob! Sua cabeça está fantasiando ...e afinal porque eu deveria deixar de receber meus amigos em minha casa? Me diga.
 Robert procurava lutar contra estranha uma espécie de sono...Achava que era devido aquele perfume. Robert impôs um tom forte na voz:
-Quem é aquele ...sujeito, Carol?  
O perfume era tão inexplicavelmente agradável...

-Porque não perguntou isso antes, Bob? É Martin, meu personal trainer! E caso interesse... ele é gay! GAY, Robert! 

-Ele...Gay? Robert notou que começava a suar.

-Sim, Robert. Você sabe o que significa a palavra? 

Carol teve vontade de rir pois a expressão de alívio no rosto de Robert foi flagrante. Instantânea. Os músculos de seu rosto passaram abruptamente da máxima tenção para o relaxamento. De seus olhos azuis, Carol viu dissipar-se a velha conhecida tempestade.
Ela continuou num tom como o que se  costuma usar com crianças:
-Martin vive com um advogado britânico. São casados!

Teve a percepção clara do embaraço que tomou conta de Robert. Ele tentou disfarçar virando de costas e caminhando até  a vidraça da janela do gabinete. Ele imaginou tê-la aberto e respirado o ar frio.
-Eu...eu me preocupei com você, foi isso, Carol. Afinal era um cara estranho...

Como ela adorava vê-lo sem jeito!

-Carol, eu lhe devo desculpas, eu...

-Está tudo bem, Robert.

-Mas eu fui grosso. Me perdoe...

-Mas é seu cartão de visitas, querido! Já estou acostumada.
Carol estava replicando? Aquilo era muito raro... Robert sentiu como se sua própria voz ecoasse distante:
-Carol, quero que me perdoe por aquilo...Eu sinto muita, muita vergonha!

Havia com certeza algum efeito narcotizante naquele perfume...
Robert sentou-se em um dos sofás.
Carol lhe respondeu:
-E eu sinto que foi inesperado e doeu fundo, mas que vai cicatrizar...
Ouviu a voz de Carol. Mas não soube exatamente de que direção vinha.
-Está tudo bem agora, Robert. Se você não levar a mau... Preciso acordar cedo amanhã, Bob.

-Tem razão. Já é tarde...O que é isto? Não consigo levantar...O que você fez, Carol?
 A voz dela agora lhe pareceu mais próxima:
- O que eu fiz foi utilizar um pequeno recurso, caso você se “exaltasse demais“, querido.

-Você me drogou...você e seus artifícios!

-Já vai passar...já vai passar. Está sentindo o coração acelerar um pouco? É isso, já está bem. Veja bem, eu agora irei para o nosso quarto....Você pode pedir a Agnello que abra para você sair. Mas aguarde um pouco. Não se levante bruscamente. Boa noite, Bob...
Carol cometeu o erro de aproximar-se demais. Então Robert a agarrou pelo pulso. Agarrou firmemente fazendo-a cair sobre ele. Impediu-a de levantar com um abraço de puro aço.
-Que tipo de jogo você anda fazendo hein, Carol?
Ela não queria gritar devido a presença de Helena na casa.
Mas não tinha a intenção de gritar de modo nenhum.
-Essa sensação que estou tendo agora, também tem algo a ver com  o efeito de seus incensos?


Ela sorriu fingindo não entender mas adorando a situação:
-Que sensação, Robert?


-Essa!

Robert jogou-a contra as almofadas e acavalado sobre ela, meteu as mãos dentro de seu roupão, afastando-o e expondo o belo corpo nu da mulher diante dele. Sem pensar duas vezes, mergulhou a boca vorazmente de encontro àqueles seios marmóreos.
Achou os lábios dela tão vermelhos e intumescidos que simplesmente não conseguiu parar de beijá-los. A penetração foi bruta, mas Carol gostou. Abriu-se para ele como se fosse a única coisa em sua vida.
-Você me queria! Não queria, Carol? Você me queria! Me diz...

-Eu queria...você...dentro de mim...dentro, dentro...







Aquilo tudo nada teve a ver com eflúvios de substancias desconhecidas.  Aqueles cabelos pintados de negro tinham a culpa. Reascenderam o desejo nele desde a primeira vez.
Enquanto a amava, ele a olhava nos olhos e sua respiração vinha forte, um resfolegar contra o rosto dela. Ele saíra totalmente do controle e a beijava na boca com toda sua intensidade típica. Homem algum se comparava a ele, Carol sabia...
Sabia também que sempre dependeria dele, para o bem ou para o mal!
A barba dele, rala, raspando seu rosto, seu pescoço, desceu ousadamente até seus seios e ela os sentia  arrepiarem-se, então ele os sugou deliciosamente...
Robert inundou-a mais de uma vez.
Depois de tudo, os dois corpos permaneceram nus e entrelaçados numa cumplicidade silenciosa.
Carol não queria falar. Não queria quebrar o momento. Robert dormiu e ela ficou aspirando sonhadoramente o perfume dos cabelos dele, amassando com suavidade o lóbulo de sua orelha como sempre costumava fazer depois de se amarem...
Aos poucos ela também dormiu. Despertou minutos depois.
 Robert estava de costas em pé, e já vestido.
Virou-se para ela. Portava um objeto em sua mão esquerda. Mantinha-o a altura dos olhos.

-O que está fazendo com você, Carol?
Ela custou a compreender do que ele falava. Então ele aproximou o pequeno anel madrepérolas diante dela. As pupilas dos olhos lilás de Carol agigantaram:

- Isso... é meu. Se não se importa...

-ESSE ANEL PERTENCE A CLAUDIA!







Carol por um breve momento não soube o que responder. Sentiu o próprio queixo tremer. Baixou a cabeça. Mas pouco depois encheu-se de coragem:
-Bem. Você se deu conta. Não é tão desatento quanto pensei.
 O rosto de Robert petrificou-se.

-O que significa, Carol?
Carol suspirou indecisa mas viu que  não haviam motivos para não falar o que pensava:
-Significa que Claudia tem a mim como amiga...é isso o que significa. Significa que sou importante. Pelo menos para ela.
 Idêntico a um tigre enjaulado, Robert caminhou de um lado para o outro. Estacou com as mãos à altura dos quadris:

-Não estou entendendo...Você quer dizer que “vocês duas” tem se encontrado?
Carol resolveu então que não esconderia o jogo. Inclinou a cabeça e lançou-lhe um olhar condescendente:

- O que você quer que eu diga, Robert?
A atitude franca e calma dela o tirou do sério:
-Vocês duas...O que as duas fazem? Falam de mim pelas costas?

-Isso não tem nada a ver com você, Robert. Nada. A verdade é que Claudia está desesperada.

-Desesperada? De onde você tirou essa bobagem? Robert estava a ponto de ficar possesso. Não parava de caminhar de um lado a outro do pequeno gabinete. Estava perdendo a paciência em ouvir as explicações de Carol.


 -Ela sente-se exilada, Robert. E não é bobagem! Claudia tem receio de falar certas coisas com você, então...Nossa ligação é forte, Robert. É única. Todos esses seis anos não fizeram a mínima diferença. Não há nada errado nisso.

-Receio de falar comigo? Robert inspirou fundo.-Você é impagável, Carol. Vocês duas...vocês duas estão...

-Não seja deselegante, Robert. Mas entenda...
Robert riu um riso desalentado. Sentou em uma poltrona. A cabeça abaixada. Quando a ergueu novamente para encarar Carol, seus olhos pareciam mais azuis do que nunca. O rosto muito corado. Carol achou, subitamente, ele e Ewan, idênticos!

-Como você espera que eu entenda isso, Caroline?

-Que você entenda do modo como sempre foi; Eu a amei desde a primeira vez em que a vi. Não pude resistir à ela e você também não. 
Ele reagiu. Encarou-a arregalando os olhos. Estava pasmo:
-Você está querendo disputá-la comigo, Carol? 

-Eu não preciso disputá-la com você. Está sendo criança de novo, Robert.

-  Não me chame de criança! As duas estão se aliando contra mim? Claudia aliou-se à você?

-Você fala em aliados, um termo usado na guerra. Pare com isso! Não existe guerra entre nós, Robert. 





Ele foi aproximando-se e a encarou muito de perto para falar:
-Existe. Existe uma guerra e foi você quem deflagrou, Carol! Vocês vieram contra Claudia e contra meu filho! Acha que isso é pouco? Você até mentiu que Claudia queria nos subornar! Lembra-se das acusações mentirosas que você fez? EU LEMBRO.
Carol recuou, sentindo o rosto em chamas. Então Robert aproximou-se mais, apontando o dedo contra o rosto da mulher:

-Eu sei muito bem o que está acontecendo aqui, Carol: Você está se aproveitando do isolamento de Claudia, do sentimento de culpa que ela sempre teve, do fato de estar longe de seu  país, sem amigos, para se aproximar dela e envenená-la contra mim!
É por sua causa que ela anda falando coisas sem nexo! Tem o seu dedo nisso também!
Carol estava acuada contra uma das paredes do gabinete. Foi naquele momento que saiu completamente de si. Desesperou-se e empurrou Robert, desferindo-lhe socos contra o peito e ombros. Mas ele não se moveu. Carol esgotou-se baixando a cabeça. Quando à ergueu foi para olhá-lo diretamente nos olhos:

 - O que eu quero é você de volta, Robert! O que eu quero é você comigo! Eu só posso ser sua. Minha vida se esgota sem a sua, sem o que provém de você! Você sabe o que é o amor, Robert? Você sabe o que eu sinto? Estou enlouquecendo, Robert! Enlouqueço cada vez que finjo não me importar que você saia por aquela porta!

A medida que falava tinha consciência da própria humilhação. Mas agora, daquele ponto em que estava, sabia que não havia como voltar:
-O que eu queria era te dar mais um filho! Era tudo o que eu queria! Tudo porque eu sempre soube que não era a mulher que te faria virar a cabeça...

Ele afastou-se. De costas e depois de algum tempo, simplesmente falou:
- Se afaste de Claudia e se afaste do meu filho. Pare de rondar minha família!
Virou-se então de frente falando de modo implacável:
-Se for preciso dou um jeito pra que você não chegue nem mesmo perto de Ewan!
Carol tornou-se lívida:
-Seu boçal idiota!
Teve ganas de arremessar algum objeto contra ele.

-Pai!
Foram surpreendidos por Helena abrindo a porta e parando à soleira.
-Ouvi vocês! O que está acontecendo?

Robert desconcertou-se. Respondeu num tom mais agressivo do que pretendia:
-Você não deveria entrar sem bater, Helena!

-Mas Claudia está aqui, pai...Está lá embaixo, e... com o Arthur...





Robert desceu as escadas com preocupação e rapidez. Avistou Claudia e Arthur. Porque estavam ali?

-Claudia! Robert estava perplexo. Precipitou-se pegando-a pelo braço. Falou num tom em que apenas ela podia ouvir:
-Vamos prá casa. Você não tem que estar aqui...e ainda por cima trouxe Arthur. Está frio! É madrugada à essa hora!
Claudia não parecia estar com a mínima vontade de obedecer. Encarou-o duramente e respondeu-lhe de maneira seca:
-Seu filho, não queria dormir porque sentia falta de você.
Seu filho sente falta de você e tem medo, muito medo de que alguma coisa aconteça e você desapareça da vida dele; assim como os tios desapareceram.
Seu filho é uma criança que foi exposta a um grande trauma; um trauma muito grande e extenso, Robert.
Espero que você não esqueça isso...espero que você reconsidere suas ausências, pois saiba: Elas são irreparáveis...
Trate seu filho com amor...ou pelo menos finja! Você é bom em atuação! Tente se esforçar um pouco mais!

-Claudia, porque está me dizendo essas barbaridades? Não permito e não lhe dei esse direito!Vamos para casa agora.Você não tem que  vir atrás de mim...

- Não vim. A frieza com que Claudia falava e a segurança em sua voz provocavam Robert.

-O que...

- Vim falar com Carol. Apesar de já saber que você estava aqui.
Desvencilhou-se de Robert, pegando Arthur pela mão. Abaixou-se com dificuldade até ele, apoiando-se, e lhe pediu que ficasse com papai.
Apoiando um dos braços à uma  muleta, Claudia ordenou que Agnelo a ajudasse a subir as escadas. Robert não soube como reagir.
Arthur abraçou-se à ele.
-Mamãe tá braba né, papai?




Claudia encontrou Carol ainda no gabinete. Após entrar, Claudia, bastante arfante, mandou que Agnello saísse, fechasse a porta e a esperasse chamar.
Para Claudia, Carol pareceu abatida, mas mesmo assim resolveu ser direta com ela:

-À partir de agora, as coisas mudam na gestão dessa família,Carol.
Carol estava surpresa com a chegada inesperada dela em seu gabinete e com aquele tom. Claudia não parecia ela. Estava imbuída de uma força diferente. Claudia continuou:
-Minha prioridade é o bem estar de meu filho. Se você e Robert querem dormir juntos, pelo jeito não posso impedir. Mas é bom que o pai de meu filho esteja em casa e cedo. Já está mais do que na hora de parar-mos com nossos joguinhos e assumir-mos nossas vidas de maneira adulta.
O olhar de Claudia para ela era de calma soberania. Carol tentou falar:
-O que você está dizendo...
Claudia apenas apoiou seu corpo com mais segurança à muleta, encarou-a, olhando de baixo para cima, e cresceu de forma extraordinária:
-Estou dizendo que a única coisa que me importa em minha vida é o bem de Arthur. Não preciso mais do seu consolo e quero que você pare de arrumar subterfúgios para se meter na minha vida. Não me chame mais. Cansei de bancar o joguete.
Carol congelou. Claudia sentou-se. Apoiou a cabeça em uma das mãos e olhou Carol diretamente nos olhos. Continuou a falar:
-Sabe, Carol? Eu nunca quis que Robert se separasse de você e casasse comigo. Mas agora já não me culpo por isso. Bem ou mau, esse acabou sendo um meio de eu obter  a cidadania nesse país e poder proteger meu filho.


Carol analisou aquela diminuta mulher diante dela. Aquela era a mulher por quem Robert e ela haviam se encantado anos atrás mas que agora mudara tanto. Nem mais um traço da beleza sedutora, da estultice de menina. Diante de Carol estava uma mulher. Uma com espírito e corpo alquebrados mas, sem dúvida, uma mulher. O pior de tudo para Carol naquele momento foi ter a consciência de que a invejava.
Claudia modificou o tom. Olhou demoradamente para o teto e acabou suspirando, como quem depõe armas:

-Helena e Arthur  estão lá embaixo. Agora preste atenção: São nossos filhos. São nossa família. E, de verdade, são tudo o que temos.

-E o que você quer dizer com isso, Claudia?

-Quero dizer que de minha parte, sinceramente, Carol, farei com que Arthur conviva com seus irmãos e que tenha em você uma espécie de segunda mãe.

Carol inquietou-se com aquela fala de Claudia. No fundo sabia o quanto amava aquele menino. Amava a ele e amava a Ewan. Os amava, simplesmente porque os dois eram filhos de Robert. Amava tudo o que proviesse daquele homem.
Claudia pareceu adivinhar o que ela pensava:
-Eu sei que você o ama , Carol. E afinal ele é seu filho também, de algum modo.
Carol sentiu um frêmito no peito. Recordou-se dos beijos trocados a três, de sua intimidade compartilhada...da lassidão satisfeita de seus corpos femininos tão distintos, enlaçados ao corpo de Robert. As mãos unidas, os sussurros em meio as carícias...teve vontade de poder fazer voltar o tempo. Sentiu os olhos embotarem-se. Não queria afastar tudo o que viveu com Claudia  e com Robert. Não queria que tudo houvesse acabado em uma disputa que levou a nada. Queria amar. Queria ser tocada daquela maneira única de novo e novamente. Queria afagar e sentir o perfume dos cabelos negros de Claudia, queria os beijos ardorosos de Robert, seu desejo, sua fúria apaixonada....mas naquele momento percebeu que jamais teria aquilo tudo de volta...
 -Eu não sei quem é você, Claudia...

A voz de Carol estava tremula:
-Você me amedrontou e fascinou a primeira vez em que te vi. 

Seus olhos lilás embotaram-se
-Aquilo que você trazia era só de você...mas sempre foi um mistério prá mim...não era só a beleza descuidada...era aquele olhar, que implorava carinho...como o olhar de um pet, de um animalzinho bobo...Mas os seus olhos também dardejavam uma soberania. Uma força escondida...É isso sim: Você sempre foi forte; mais forte do que qualquer um de nós! E no final...as nossas vidas ficaram girando em torno de você...
Se você quisesse manter o menino fora do nosso conhecimento, poderia fazer isso, estava só em suas mãos! Desde de o começo, poderia ter tirado Bob de mim...Ele te amava de um jeito que tentava, mas que não conseguia, esconder...
Sorriu com desamparo e leveza:

-Você não fez ele te dar a vida dele, por que não quis, apenas por isso...E o pior de tudo ...é que você nem tem consciência disso, não é, Claudia?
Sorriu, baixando a cabeça. Falou num tom em que só ela própria podia ouvir:
-Claudia, você é Afrodite... 

Carol girou o corpo, foi até ela e subitamente parou. Claudia não se perturbou frente o olhar desconcertado de Carol, e frente a proximidade de suas mãos tremulas que se colaram a seu rosto. Não temia maia a deusa Khali...
Carol, aos poucos, afastou-se sentido as lágrimas fugindo do controle:
-Eu não queria te amar...não queria...

Claudia, apoiou-se àquela muleta que agora era seu estranho e novo elemento cênico. Aproximou-se de Carol:
-Me beije, Carol.

-O que?

-Faça isso. Essa vai ser prá sempre a última vez.

Diante da indecisa inércia de Carol, Claudia resolveu por si mesma tomar o comando. Puxou Carol contra si. Mirou em seus olhos chorosos. Com uma das mãos limpou-lhe as lágrimas. Sorriu-lhe. Carol também sorriu. Abraçaram-se encostando as testas, os rostos. O beijo ocorreu em meio a sorrisos e lágrimas.
-...Faremos o Natal sempre aqui nessa casa... E ...eu gosto muito de você.






Claudia decidiu naquele momento: Conseguiria uma trabalho. Não mais dependeria de um homem.
Virou-se, bateu na porta e em seguida saiu, ajudada por Agnello.








segunda-feira, 4 de junho de 2012

A Ópera de Robert mcKennan. 70.






-Pai, esse relógio tem um negócio... um dispositivo... que avisa em nano segundos sua localização por satélite em alto mar! 

-Prá Marinha, filho?

- Prá qualquer navio de esquadra britânico mais próximo, pai! E ele tem uma blindagem com camadas em ouro, tungstênio e titânio! É a mesma tecnologia das caixas pretas das aero naves...

-Vou querer um desses!

-É! mas não estão a venda, pai!

-Ok. Isso até o dia em que alguns chineses resolvam o projeto e comecem a fabricá-lo as dúzias no galpões de casa!

Robert ria com seu filho Ewan enquanto aproximava o carro da entrada  de sua antiga residência. Era o período das tão aguardadas férias para Ewan.
Ele passara um longo período longe de casa freqüentando a escola preparatória de cadetes da Marinha. Um sonho que sempre acalentara. Diferente do pai artista, Ewan pensava em cursar engenharia naval e seguir a carreira militar. Mas Robert não acreditava em nada disso. Achava que o filho só estava gostando de “brincar de soldado“. Porém não criticava.
Quando Ewan amadurecesse e confrontasse o desafio verdadeiro das próprias escolhas, seria obrigado a rever muitas de suas certezas.
Ao estacionar no calçamento de pedras que dava acesso a entrada principal, pai e filho passaram a descarregar a bagagem.
O mordomo correu para auxiliá-los.

-Mestre mcKennan, mestre Ewan, sejam muito bem vindos!

-E a senhora G? Não vem nos receber, Agnello?

Robert flagrou um meio sorriso abatido no rosto do amigável mordomo:

- A senhora...Já vou avisá-la, mestre mcKennan.

-Como assim, “vai” avisá-la? Ela já estava perfeitamente bem avisada de que Ewan estaria chegando! 

O mordomo chegava a contorcer-se de tão sem jeito.
O seu rosto incendiou-se e ele tratou de baixar a cabeça  recolhendo a maior quantidade de bagagens que conseguia. Tratou logo de se encaminhar para a casa. Robert achou estranho...

-O que está... se passando, Agnello... 

Um  som de vozes que vinha da parte mais alta da esplanada, chamou a atenção dele. Teve de subir um estreito lance de degraus para transpor o jardim que a cercava. A medida que as arbustivas deixavam de encobrir sua visão, Robert foi deparando-se com uma cena.
Carol sorria sedutoramente tomada por uma espécie de bobeira. Ela trocava confidencias em meio a sorrisos com um homem. Um desconhecido. Um negro atlético de dentes e sorriso perfeitos! Ela o beijou em uma das faces e ele, em retribuição, beijou suas mãos com um olhar que demonstrava franca devoção. Depois disso o homem entrou no próprio carro, um magnífico Mercedes. Manobrou em direção a saída. Carol ia lhe acenando enquanto ele se afastava.
Robert estava paralisado com os olhos cravados nela. Sua respiração por instantes parou. O que, em nome de algum deus, significava aquilo?
Então ela veio distraída em sua direção sorrindo, dessa vez consigo mesma. Ainda não se dera conta de que havia a presença de um espectador em especial.

-Não se envergonha, Carol?

-Robert? 

Robert bloqueou-a com o corpo. Por um momento impediu-a de passar.

-Você não tem respeito pela sua casa, pelo seu filho? 
FICOU LOUCA?

Ela desviou de seu caminho, rumando para a entrada da casa. Robert a seguiu de perto.
Puxou-a:

-O que tem a dizer, Carol? O que tem a me dizer?

-Tenho a dizer que: a- Deve soltar meu braço imediatamente!  b- Estou muito bem e que gostaria de abraçar meu filho, estou com muita saudade!

-Tem coragem de abraçar nosso filho depois disso?

Ela fechou os olhos com ar aborrecido e suspirou:

-Robert.

-?

-Me dê um descanso? Não vamos discutir! Ewan está recém chegando em casa. Quero recebê-lo bem. Mandei fazer uma torta de laranja. Tome chá conosco, se achar que deve!

Ewan avistou-a. Mãe e filho aproximaram-se correndo e gargalhando muito. Carol abraçou-se ao filho que, com quase dezesseis anos, já a ultrapassava em altura.

-Filho, que uniforme bonito!Impecável.

Carol e Ewan entraram distraídos e conversando. Robert por alguns minutos ficou do lado de fora claramente possesso. Mas não pretendia que seu filho presenciasse uma briga sua e de Carol. Foi ao encontro deles e se despediu. Alegou ter um compromisso de última hora. Carol aproveitou a oportunidade antes que a perdesse:

-Como está Claudia, Robert? Desferiu, com um ar estudadamente desinteressado.
Robert fulminou-a. Mas manteve a compostura diante de Ewan:

-Claudia...Está bem.

-Deve estar mesmo. Tão jovem... Continua bonita. Você não acha?

Robert não percebeu a armadilha maldosa de Carol. Claudia evidentemente não era mais a mesma mulher cheia de sensualidade com a presença marcante onde chegasse que tinha antes, e Carol sabia disso. Além de tudo, havia o cruel isolamento que estava sofrendo, fora de seu próprio país e afastada dos amigos. Mas Robert, como a maioria dos homens, obviamente não atentava para essas sutilezas que estavam diante de seu nariz.
Ele não queria assunto. E antes que pudesse explodir, resolveu ignorá-la de propósito. Alteou a sobrancelha:

-Ewan, eu te ligo, filho! Vamos marcar aquela partida de rúgbi.

-Demorou, pai! Aprendi uma jogada nova!

-Ótimo. Te vejo mais tarde, então!

Saiu dali à bala. Sabia que não podia naquele momento sequer olhar para Carol ou as conseqüências seriam ruins.
Circulou pela cidade. Estacionou o carro e saiu caminhando em desassossego pela rua.
Estava fora de si. Se Carol achava que iria desrespeitá-lo diante de seu filho; em sua casa; ela teria que nascer de novo! Não admitiria aquilo! Ela pensava que iria dormir...dormir com outro homem? E dentro da casa que era dele? Robert jamais permitiria.
Isso não poderia nunca acontecer! Seu semblante pegou fogo e o coração palpitou descontrolado. Já teria acontecido?
O celular tocou. Era Mike Rolland:

-Até que enfim te achei “hermano“!Onde você está?

-Não estou a fim de ser encontrado, Rolland!

-Mas não sou eu quem está procurando você, hermano. Claudia ligou. Anda atrás de você. Não vai para casa hoje?

-Porque será que ela não ligou prá mim?

- Esse é o jeito dela. Queria saber se você estava pela aqui em minha casa. Diante da negativa, procurou bancar a segura dizendo que estava tudo ok! Ela não quis demonstrar, mas eu sei que está é aflita!

-Já vou ligar prá ela. Fique tranqüilo.

-Pois faça isso! Paz, hermano!

Não ligou para Claudia. Não saberia o que lhe dizer naquele momento.
Que estava perdendo a controle por que sua ex esposa estava com outro homem? Isso poderia magoá-la.
Entrou em um coffee shop. Pagou por um fardo de cervejas e foi sentando em um banco pela rua mesmo. Entornou as primeiras num segundo. Alguns garotos o reconheceram e vieram jogar conversa fora. Ele lhes deu autógrafos e convidou-os para beber com ele. O grupo aumentou, com a chegada de alguns estudantes conhecidos do grupo e que traziam duas ou três garrafas de vodka que generosamente dividiram com todos. A cerveja acabou rápido e um deles se prontificou a buscar mais alguns um fardos. Evaporaram em minutos!
Robert bebeu vodka e bebeu mais cerveja, começou a sentir a cabeça rodar levemente e foi então que percebeu que precisava parar. Não podia beber tanto. Tinha seus filhos... Se tinha um problema deveria resolve-lo. E resolveria.
Veria Carol e tentaria conversar. Despediu-se a muito custo dos garotos que queriam carregá-lo nos ombros e cantar que ele era um” bom camarada “. Deu-lhes a senha para a sala vip de um show que seria gravado na emissora de TV local no dia seguinte e rumou para o carro que logo pôs em movimento. Ligou do celular:

- Carol, quero falar com você!

-É você, Robert? Porque acha que eu quero falar com você? 

-Estou indo para aí agora!

-E eu quero  dar um pouco de atenção a Ewan. Não ouse vir aqui! 

- Carol! Mande Agnello abrir. Estarei aí em quinze minutos!

- Robert...

-Já disse que ESTOU INDO AÍ!

Robert deixou o carro mal estacionado no acesso principal de entrada da casa. Carol decidiu deixá-lo entrar para evitar que ele fizesse uma cena. Recebeu-o com a cara fechada, pois notou que cheirava a bebida.

-Você não deveria vir aqui nesse estado, Robert.

Ele mesmo fechou a porta encurralando-a e indo direto na sua direção:

-Quem era aquele sujeito, Carol? Fale!

Carol sentiu medo mas não queria demonstrar:

-Faça o favor de controlar o seu tom de voz. E eu não preciso que saiba quem são meus amigos.

Ele segurou-a pelo ombro com uma das mãos e com a outra agarrou sua cintura. Colou seu corpo contra o dela, pressionando-a conta a estante de livros. Seus rostos estavam muito próximos e Carol sentia o bafejo alcoólico dele, além da pulsação acelerada do coração. Ele prendeu-a pelos cabelos da nuca:

-Não me provoque ainda mais, Carol!

Carol não lutou para afastá-lo. Apenas sorriu ironicamente olhando em seus olhos:

-Está com ciúmes, Robert?

Ele explodiu:

-Estou! Estou com ciúmes! É isso o que quer ouvir?
Estou com ciúmes! Você é minha mulher e nunca vai deixar de ser!

Ela tentou livrar-se dele mas ele a reteve ainda mais junto dele. Acabou derrubando-a ao desequilibrar-se e instintivamente apoiar-se nela que vergou sob o peso. Não se machucaram, foi mais uma troca de passos mau sucedida. No chão, Carol procurava levantar, afastando-se dele. Ele não sabia se tentava levantar ou se a segurava junto dele. Por fim, Carol conseguiu se desvencilhar, erguendo-se do chão. Ele ergueu-se com certa dificuldade, pois sentia-se tonteado. Carol procurou se afastar e ele começou a persegui-la.

-Você acha que é livre e que pode trazer um homem prá cá? Prá dentro da minha casa? Acha que pode...acha que pode dormir com... A voz dele estrangulou na garganta. Não podia sequer imaginar a situação de Carol fazendo amor com outro homem.

-Olhe o que está dizendo...

A campainha tocou e Agnello anunciou Mike Rolland. Carol já havia ligado para ele assim que recebeu o telefonema de Robert. Mike fez sua entrada maciça silenciosamente.

-Hermano, hora de ir prá sua casa.



 ***

-Arthur deixa mamãe passar xampu no seu cabelo, filho!

-Eu tomo banho sozinho!

-Arthur...então quer que eu chame o papai?

-Eu tomo banho sozinho!

Claudia sentiu uma fibra de seu peito romper. Uma simples recusa infantil a magoou mais profundamente do que poderia esperar. Sentiu lágrimas embotarem em seus olhos e procurou disfarçar. Não era a primeira vez que se sentia desse jeito. Amargurada, mas tentando fazer parecer que tudo estava bem. Seu teatro diário, desde que as coisas começaram a piorar... 
O coração de uma criança, aos poucos tornando-se duro diante de uma mãe, era uma tristeza, sem qualquer dúvida. Queria poder retirar as experiências maléficas que fizeram parte da vida de seu pequeno filho, mas isso era impossível. 
Quanto a Robert, constatava a cada dia que ele era uma força com a qual ela não sabia lidar. Nem sempre disposto a sorrir, preocupado em demasia com trabalho. Nem sempre disposto a escutá-la, mas sempre muito insaciável. A tal ponto, que algumas vezes sentia-se usada por ele. Um mero objeto para seu prazer sexual. Ainda por cima, desconfiava que ele não fosse totalmente fiel. De modo algum seria. Nunca fora o seu estilo. Levando em conta a maneira como se conheceram, esperar outra postura dele, talvez fosse pedir demais...
Os filhos do primeiro casamento de Robert a odiavam. Carol tratava de caprichar no veneno. 
Helena vinha visitá-los em fins de semanas alternados; Ewan, só raramente, quando tirava férias. Helena fazia questão de espezinhá-La, obviamente quando Robert não estava por perto. Certa vez, disse que não compreendia como mulheres feias e aleijadas não cometiam suicídio! Que, se ela, Helena , não pudesse dançar e tivesse uma aparência permanente e repulsiva de doença, simplesmente renunciaria a vida! Mas que era compreensiva, pois as prostitutas deveriam ter medo de ir para o inferno. Nesse dia Claudia desferiu-lhe uma réplica bem amarga;

 -Você está contra mim e a favor de Carol, não está Helena? Mas não pude deixar de notar, ao longo desses anos em que conheço vocês, que Carol nunca esteve muito a favor de você, não é mesmo?

-O que isso significa? Seja objetiva!

-O significado na cabeça de sua mãe, só ela pode dizer. Mas para mim, parece evidente que ela nunca lhe estimou muito!

A menina assumiu um ar contrariado repleto de fúria, dando clara mostra de que entendera perfeitamente bem o ponto em que Claudia queria chegar. Sempre fora preterida por Carol em comparação a Ewan, “o filho legítimo”. Claudia achou que foi longe demais, mas não aceitaria que aquela menina a xingasse de prostituta dentro de sua própria casa.

-Sabe, Helena. Essa casa é bastante grande. Quando você vier aqui é melhor se manter afastada de mim.

-De você sim, e com todo o prazer! 

Claudia sentiu melancolia na própria voz:
-Quanto a Arthur, sei que gosta de você.

Helena bufou. Os olhos marejados, mas sem querer entregar-se ao choro diante de uma mulher que considerava desprezível:
-Eu também gosto dele.

-Que bom. Murmurou Claudia.

Helena prosseguiu:
-Não posso garantir me manter afastada de outra pessoa.

-Não quero que se afaste de seu pai.

Helena falou num tom melífluo:
-Ele não é meu pai, Claudia.
O silencio pesou na sala entre as duas. Haviam terminado as sobremesas. Arthur estava com a babá no jardim começando a cochilar e Robert no escritório, no nível de cima, atendendo a mais um interminável telefonema de um anunciante. Claudia tentara ler um livro e a empregada trouxera café. Aguardava pacientemente na copa a ordem para remover a louça da mesa. Na vastidão daquela sala, nem um único som. 
O olhar da menina, fixo em Claudia era venenoso, totalmente isento de inocência!
Claudia procurou responder com calma:
-Seu pai morreu, mas Robert te ama como filha, Helena.

Helena riu irônica, apoiando os pés sobre a mesa; decerto aprendera com o pai a arte de carregar no drama.

-Tire seus pés da mesa, Helena!
Ordenou Claudia com dureza. Helena obedeceu e seguiu encarando-a.

-Não é meu pai.  Levantou mantendo a postura de desfio: -Acorde para essa, Claudia: Prometo a você que logo eu e Robert estaremos juntos  na mesma cama! Transando!

Claudia ficou perplexa. Helena saiu silenciosa como uma cobra:
-Que coisa vergonhosa e suja,  Helena! Gritou Claudia.
Helena virou-se com um sorriso aberto:
-Tão vergonhosa quanto você traindo minha mãe com ele!

-Cale a boca, Helena! Você não sabe de nada...

-E nem quero saber! Vai provar do seu próprio veneno, madrastazinha!

Não comentou aquele assunto com Robert. Não duvidava de que aquilo fosse um ardil de Carol, instruindo Helena a dizer aquele tipo de bobagem, mas...não! Sabia que seria demais. A garota já não era mais uma garota e tinha decidido, por conta própria, acabar a com a paz de Claudia. E pelo jeito tinha o dom se meter a para jogar jogos pesados. Não acreditava no que ela havia dito, mas só o fato de haver dito era horrível.
Arthur pediu que saísse de perto dele, pois já queria sair da banheira. 

-Mas, querido. Deixa mamãe te secar! 

-Tu é doente. Não pode secar eu.

-Mas quem disse isso Arthur? Quem falou que a mamãe é doente?

-Eu mesmo. 




O corpo de Robert completamente despido. Mesmo relaxado, mostrava a perfeição cinzelada dos músculos de seu peito e abdômen; lembrando, sem qualquer prejuízo, as formas do exemplar de Belvedere. Sinalizava, através do leve movimento modulado da respiração, todo o seu vivo calor. Os braços dobrados, adornados por um latente desenho de absoluta potência, eram  irresistivelmente másculos. Apoiavam, de maneira preguiçosa, seu pescoço e cabeça contra o espaldar da cama. Movia devagar e prazerosamente toda sua nudez sobre a maciez de uma falsa pele de zibelina prateada que, naquele dia, revestia a cama do casal.
Claudia ficava fascinada ao contemplá-lo. Nem podia acreditar que a natureza fosse capaz de manifestar tanta ordem, harmonia e beleza no corpo de um homem. Ele lhe parecia idealizado.
Robert não resistia em afagar os cabelos dela, trazendo-a para mais perto  dele. Então provocava outro round de beijos, mordiscos, palavras sussurradas, carícias e orgasmo que carregavam-na para fora de si mesma. Em contraste com ele, o corpo dela era frágil e pequeno. Sobre tudo as pernas, que haviam perdido boa parte da quantidade de músculos e apresentavam uma magreza desproporcional com o restante.

Houve certa vez uma sereia, que para obter o amor de um príncipe, renunciou a vida no mar e abdicou das próprias barbatanas...

-Está pensativa, querida. Por que?

Robert pegava a mão de Claudia, fazendo-a passear pela sua barba loira e macia muito devagar e calmamente; mas tinha os olhos azuis oceânicos cravados nela.

- Um pouco preocupada com Arthur. Ele está ficando tão diferente...

Robert espreguiçou-se:
-Percebi que ele está mudando. Está crescendo, Claudia! É normal que os meninos se desapeguem de suas mães.

Falara com uma entonação marcial, tão pouco solidaria a ela, que provocou no peito de Claudia uma pequena dor. Em seguida, levantou-se agilmente da cama e foi catando as próprias roupas que estavam jogadas. Começando a vestir-se, foi falando outro assunto:
- Vamos para a casa de Rolland mais tarde, Claudia. Adelle nos convidou para jantar.

Claudia embasbacou: :
-Jantar? Estou esperando pela fisioterapeuta, Robert! Esqueceu disso? Ela vem hoje as dezenove horas!

Com um sorriso flamejante e dando-lhe um beijo na testa, Robert respondeu:
-Não se preocupe, amor! Mandei desmarcá-la hoje cedo da tarde.

-Mas...

-Quer que eu ajude você a se arrumar?

-Eu...

-O que houve, querida? 

-Não gosto de deixar de fazer a terapia, Robert.

-Amor...

-Você remarcou para quando?

-Não remarquei. Ela disse que vai estar em um Congresso a partir da próxima semana. Vai ficar fora por um mês.

A garganta de Claudia fechou-se, contendo um soluço de dor. Tinha vontade de chorar.
 -Porque você está fazendo isso?

-“Isso“? O que estou fazendo, a você, Claudia? O que está querendo dizer?

Claudia não queria, não podia chorar. Se chorasse o mundo desabaria...

-O que houve, Claudia?

Engoliu um soluço de choro e lutou por encará-lo com um pouco de altivez:
-É a terceira vez... que você interfere no meu agendamento, Bob! Não parece querer ...

-Querer o que?

Se ela falasse os diques romperiam...Olhou para as próprias mãos em resposta a ele, parado, em guarda, a seu lado.

Os oceanos fervilharam:
-Quer me fazer algum tipo de acusação, querida?

-Eu...

-Sim.Você?

-Preciso da terapia...

-E alguém a está impedindo de fazê-la. E esse alguém impiedosamente mau e desumano sou eu, não sou, querida?

Claudia achava que não conseguiria mais engolir  o choro, e não conseguiu...a dor trespassou-a numa onda violenta através do estomago. Odiava se sentir tão pequena diante de Robert. Ainda mais tendo-o de pé, diante dela, dono de uma soberania invulnerável.

-Você acha que quero prejudicá-la intencionalmente não é mesmo, Claudia? É o que anda pensando de mim!

-Bob...eu não quero brigar...

-É muito fácil fazer insinuações e depois se cobrir de lágrimas. Não é mesmo, querida?

Claudia apenas encolheu-se deitada a beira da cama. Sentindo uma dor infinita.
Robert bateu a porta, encerrando-se no banheiro.

Ela sentia-se arrasada pela reação dele. Aquilo se somava a todos os desgostos que Claudia estava enfrentando; e Robert parecia não compreender todo o esforço que ela estava fazendo para ter de volta uma vida normal. Queria voltar a lecionar, sentir-se útil, ser respeitada.
Robert retornou para o quarto, estava com os cabelos encharcados. Trazia a toalha jogada sobre os ombros. Sentou-se ao lado dela na beirada da cama. Ela começou a buscar apoio para levantar-se enxugando as lágrimas e tentando esconder os olhos inchados. Robert segurou-a pela nuca, como gostava de fazer, enrolou a mão em seus cabelos obrigando-a a olhá-lo de frente.

- Eu AMO VOCÊ, Claudia.
Ele a impedia de desviar o rosto do dele:
-Amo você, e não aceito que duvide disso. Amo,  mas isso não te dá o direito de me machucar.
Puxou-a de modo muito dinâmico, trazendo-a para seu colo; assim os olhos de ambos ficaram no mesmo nível.
-Você sofreu muito, sei disso. Mas como pode imaginar que eu esteja sabotando você? Eu, Claudia?
Ele não a deixava sequer tentar responder:
- Você acaso tem idéia do pavor que tive em perder você e Arthur? 

-Robert...

-Você faz idéia da importância que você tem na minha vida, mulher?
O coração dele palpitava tão acelerado que ela o sentia contra seu próprio corpo.
Ele sussurrou:
- Mas minha vida agora é sua. Também preciso do seu apoio! 
Pela primeira vez, Claudia se deu conta do quanto o rosto dele estava marcado...
- Você me acusa de ter desmarcado três sessões suas como se isso fosse por perversidade; mas me diga, acaso minha esposa não deve me acompanhar? Você esqueceu com quem está casada? 
Como o tempo era invejoso! Ousar tocar aquele rosto! Fazer com que um deus se parecesse com qualquer mortal...
-Tenho sócios e clientes que me cobram vinte e quatro horas; tenho inimigos, no meu pé que adorariam me ver caindo no descrédito e no esquecimento total. E tenho pesadelos, imaginando que você possa cair doente novamente e o pior vir a acontecer...
Baixou o olhar de modo perdido. Segurou a mão dela com força e a dele estava tremula:
 -...tenho pânico de perder o contato com meus filhos, Claudia. E muito medo de deixar vocês todos desamparados.
A voz dele passou a emitir uma nota de desespero:
-Rolland é e sempre foi meu único amigo de uma vida e agora estão querendo metê-lo numa jaula...está sendo investigado...Adelle está sofrendo; ambos estão...
Será que peço demais quando peço seu apoio?

De repente era como se Robert se tornasse menor do que ela que estava sentada em seu colo. Um carvalho altivo soberano poderia desabar?
Sentia que pedir desculpas seria pouco para conter a impetuosidade das ondas que açoitavam o espírito de Robert naquele momento.
-Robert...
Beijou-o e ele se deixou beijar. Enquanto se beijavam, ele a afagava incontrolavelmente como se quisesse mergulhar para sempre dentro dela e deixar de ser ele mesmo...





sábado, 2 de junho de 2012

A ópera de Robert mcKennan. 69.






Carol não compreendia.
Se Robert queria afastar-se dela, como lhe dizia agora, do alto de uma postura grave e soturnamente solene, porque então viera pessoalmente? Porque estava ali ? O que queria dela?
A sua intuição nunca a deixava mesmo na mão...imaginou que Robert se descontrolaria ao encontrar-se com aquela mulher novamente... Sabia disso. Havia o menino... Quem resistiria ao amor de uma criança enviada pela Deusa? Que homem? Ainda mais se tratando de um cujo sentido da existência era proteger. Robert sempre se encantaria com qualquer bobagem vinda de um filho. Aquele filho que deveria ser dela e não de Claudia!
Robert a queria fora de sua vida. Robert queria descartá-la... E ele simplesmente a estava descartando.
Vê-lo ali, pouco a vontade, com as mãos postadas nos bolsos da calça do paletó lhe trazia um sentimento de algo colossal sendo fragmentado. Toda sua história juntos. Era como se tudo o que pautara sua vida; seus projetos, lembranças; tudo fosse dragado e naquele único momento se esvaziasse diante dela.
Carol teve a repentina sensação de que poderia cair e então respirou com força. Robert notou:

-...E  você tem algo a dizer, Carol? Quero escutá-la....

Escutar para quê, se ele já havia dito tudo? Queria de alguma maneira aliviar a própria consciência? Se é que alguma vez ele teve alguma.
Ou queria que ela se jogasse aos pés dele numa cena de drama?
Não. Ela não faria isso. Ele não teria isso também!
Lutou contra si mesma:

-Sabe, Bob. Você fez sua escolha. Mas quanto a mim...

-Quanto a você...

-...Gostaria de poder ficar nessa  mesma casa.

Ele não esperava aquela resposta e muito menos aquele tom de calma em sua voz.
Esperava por lágrimas. Por uma explosão de raiva.
Dava-se conta de que esperava até mesmo por um ataque físico da parte dela  contra ele.
Alguma reação mais razoável da parte de uma mulher num momento como aquele, mas nunca tanta calma. Nunca um tom de voz tão controlado. Nunca aquela serenidade. Aquilo lhe pareceu funesto.
Ficou desconcertado...

- Você... tem todo o direito de ficar nessa casa, Carol. Eu lhe asseguro isso, você...
Ela o interrompeu seca:

-Então nada mais temos a falar, não é mesmo, Bob? Assuntos de ordem judicial podem ser resolvidos por quem entende disso, não é mesmo? E certamente não somos nem eu e nem você...

Ela ficou perguntando a si mesma de que lugar teria tirado forças para conseguir falar tão naturalmente e ainda por cima... sorrir!
Aproximou-se dele dando-lhe um imperceptível toque com os lábios no rosto. Uma representação distante e amargurada de um beijo.
Robert sentiu o coração apertar quando a viu repentinamente subindo as escadas sem nem mesmo voltar o olhar para trás.
O nome dela morreu em uma inspiração sua.

Saiu de lá bastante perturbado. Pensativo. Mas aos poucos retornou as suas atribuições cotidianas. Além delas, tinha de ocupar-se da escolha de uma nova casa que Mike Rolland se encarregara de negociar.
Robert, Claudia e Arthur haviam ficado hospedados  na suíte de um dos hotéis da rede até fechar a compra da nova casa.
Soube depois, através de Mike Rolland, que Carol não desejava dividir o patrimônio e  justificava isso por temer prejudicar Ewan. As aplicações da família eram conjuntas e poderiam descapitalizar-se.
Ela deixou claro que não ligava para o dinheiro desde que mantivesse a casa, os empregados e recebesse uma boa pensão.
Rolland viu que alguém obviamente a havia instruído e que  isso daria pano prá manga. Tratou de começar logo a pré negociar essa e outras questões com os advogados dela.

Carol fora suave, colaborativa, e até mesmo absurdamente gentil. Mas isso, ao invés de trazer paz definitiva ao coração de Robert, de um modo estranho, só lhe trouxe insegurança.
Carol, sozinha naquela casa...
Helena passava o dia na escola, tinha os ensaios do grupo de dança, suas próprias amigas...mas e quanto a Carol?
O que ela tinha? O que faria? Ficaria sozinha por muito tempo? Uma mulher como ela?
Quando deu por si, Robert  dava a desculpa diária a Claudia, de que precisava ir até os estúdios, ou de que precisava encontrar seus advogados, o que  não deixava de ser verdade, para sempre acabar aproximando seu carro da antiga vizinhança. Estacionava perto da casa. Observava as janelas. Dava voltas de carro, lentamente no quarteirão.

Numa bela manhã resolveu, sem mais nem menos, fazer uma visita.
Carol em pessoa o recebeu na porta, e por alguns momentos Robert perdeu a fala. Quase deixou de reconhecê-la. Ela estava arfante e
seus cabelos estavam escuros.
Pintados de negro!
Carol nunca antes em sua vida havia pintado os cabelos.
Robert a conhecera ruiva, fato que sempre o fez, inconfessadamente, recordar-se de Lindsay e que lhe dera sempre uma espécie de sensação confortadora, familiar...mas agora, Carol havia subvertido isso. Era chocante!
Para ele, era como se ela tivesse profanado uma imagem consagrada!
Porque ela estava arfante?

-Porque alterou a cor de seus cabelos, Carol? Perguntou ele bobamente. Carol pareceu não entender a pergunta imediatamente, pois  estava totalmente surpresa com a visita.
Levou alguns segundos:

-Ah! Os cabelos? Mas... Meus cabelos sempre foram escuros, Robert!
Ela estava dizendo uma loucura. Sempre fora ruiva. Em suas fotos de infância aparecia ruiva. Sua irmã Dóris era ruiva! O que Carol estava dizendo?
Ficaram alguns segundos em silencio, encarando-se. Ela por fim pareceu alertar-se e resolveu falar:

-Entre, Robert. Sinta-se em sua casa... 

Ela sorriu. Escancarou a porta para ele de maneira teatral. A casa rescendia ao perfume de jacintos. Era um perfume forte, estranho...
Ele assistiu, ainda em silencio, ela servir-lhe, delicada, o whisky com o modo de preparo que ele sempre apreciou.

-Sente-se, Robert! Me conte como você tem estado? 

Robert teve vontade de rir com a entonação da pergunta.

-Como “eu tenho estado“? E quanto a você, Carol?

-Eu? O que tem eu?

-Olhe prá você! Eu vim conversar e encontro você desse jeito!

Carol atentou para uma única palavra:

- Conversar? O que temos para conversar?

Robert permanecia boquiaberto:

-...O que temos...Muito bem. E o que não temos? Você fez algumas exigências complexas...

-Você se refere?

-As condições do nosso...divórcio.

-Robert, isso é assunto para os chatos dos advogados, não quero me ocupar disso.  Aliás...você está muito bem...gosto quando coloca essa camisa escura...

Robert ainda não conseguia acreditar na mulher que estava diante dele. Aqueles cabelos!
Era incomodo de certo modo. Sentia-se falando com uma mulher totalmente estranha!

-Sabe, Robert. Estou impressionada com Helena. Suas notas são muito boas. E ela é uma artista! Precisa ver como evoluiu tecnicamente, fico até boba...E Ewan está adorando a escola náutica...

-Naval.

-Sim, naval. E ele está quase saindo de férias!

-Sim, eu sei. Nos falamos ontem. 

O silencio pesou sobre os dois.

-Nossos filhos. Disse Robert.

-Ewan é nosso filho.

-Sim. Mas eu amo Helena como filha. Você não, Carol?

Carol sentou-se. Colocou os pés sobre o sofá, dobrando as pernas. Seus joelhos muito alvos ficaram a mostra. Robert sentiu um calor interno.

- Eu acho que...

-Você acha o que, Carol?

Carol remexeu-se, alisou o pescoço distraidamente e olhou ao longe.

-Acho que tenho um pouco de...um pouco de ciúme.

-Ciúme? De Helena?

-Não é ciúme...é que...é difícil admitir, mas...ela é irmã de sua adorada Lindsay.

Robert remexeu-se pouco a vontade no sofá.

-Isso é bobagem. Vamos mudar de assunto.

-Mas ela deve parecer com a irmã...

-Não, não se parecem, Carol! Isso é bobagem. Helena precisa de mim, mas precisa também e muito  de você. Agora que o pai também faleceu...

Robert começava a sentir o sangue ferver, sem saber precisamente o pôr que.

-Eu quero saber o que está acontecendo, Carol? Você...você estava com alguma visita? “Porque estava arfando quando me recebeu?” Porque pintou o cabelo desse jeito?

Ela fingiu não ouvi-lo, analisando os diáfanos reflexos de uma taça de cristal, sem dar-lhe atenção. Então ele repetiu a sentença num tom mais forte:

-Está me ouvindo, Carol? O que está acontecendo com você? Responda! Dê  ponto final nessa  coisa...nessa maluquice!

Carol pareceu despertar de repente. Olhou-o diretamente e falou com ar de franca indignação:

-Robert, querido. Sou eu quem lhe pergunto: O que “você” está fazendo aqui? Não que eu desgoste de sua visita mas...não lhe devo mais nenhuma satisfação, querido. 

A veia da testa de Robert saltou:

-Como...como assim, “Não me deve nenhuma satisfação”? Essa casa é MINHA! E você deve  manter a dignidade diante de nossos filhos!

Carol bufou de raiva. Suas bochechas fervilharam.

-Acho melhor que vá embora agora. Não acha melhor, Bob? Você conhece a saída...

Aquele “você conhece a saída” quase o fez precipitar-se em cima de Carol. A veia de sua testa latejou ainda mais. Com quem ela estava pensando que falava?
Ela fingiu não lhe dar importância e atirou-se, deitando no sofá. Passou em seguida a verificar mensagens do celular. Parecia virtualmente uma... adolescente!
Ele teve o ímpeto de arrancar aquele celular das mãos dela! Quando o dele tocou. Era Claudia:

-Oi Querido! Quase esqueci de te pedir: Quero ligar para Helena e convidar para passar o fim de semana aqui conosco. Arthur não para de perguntar por ela desde que a conheceu. O que você acha? 

Claudia falava e falava, mas Robert só conseguia prestar atenção nas pernas bem torneadas de Carol jogadas para cima no espaldar do sofá. Que mulher era aquela? Ela o estava sim provocando de propósito!

-...Não é  uma boa idéia? Ah! E queria pedir também que você me ajudasse a fazer a sobremesa preferida dela...você sabe qual é? Eu e Arthur queremos sair com você para comprar os ingredientes...
O que houve, amor? Está ouvindo? Robert...

-Estou. Estou ouvindo, querida...Podemos falar depois? Já estou indo para casa. 

Claudia respondeu alguma coisa gentil, dando fim a ligação.
Robert, pela primeira vez em sua vida, sentiu-se sem ação diante de Carol. E foi ela quem falou:

-Robert, estou esperando uma visita...será que se importa?

Ele custou a acreditar no que acabara de ouvir “uma visita“? Respirou fundo:

-Ousando me mandar embora da minha casa, Caroline?

Carol levantou-se falando com ar aborrecido:

-Não banque a criança, Robert. Já está mais do que na sua hora sim! E tenho um compromisso daqui a pouco. E você faça o favor de parar de dizer que essa casa essa sua.Você não mora mais aqui!

Ele encarou-a com ferocidade. A voz saiu como um rugido:

-Meus filhos MORAM AQUI. E eu e você “ainda” não estamos separados.

Ela ignorou os olhos ejetados de raiva dele e foi levantando. Atirou-lhe o paletó e caminhou em direção à porta para que ele saísse.
Que visita seria aquela, que fez com que ela se parecesse completamente com outra pessoa? Tão grossa e indiferente... com ele?
Em que tipo de mulher Carol havia se transformado?

-Nós ainda não terminamos nossa conversa, Carol!

Sem dar por si, Robert agora a detinha pelo braço. Estava em vias de perder o controle. Mas Carol calmamente:

-Se você nesse momento não tirar as mãos de cima de mim, vou chamar a polícia, querido.

Robert a encarou bem perto:

-Nunca em sua vida você me viu ter medo de ameaças, mulher. Mas reze para que eu não faça nenhuma.

-O que você quer Robert? O que quer aqui? Porque não vai embora agora?

-Eu ainda sou pai de Ewan e de Helena e você, caso se recorde, ainda é a mãe! Porte-se como tal!

-CHEGA! Você não é mais bem vindo aqui! E eu não tenho mais medo de você! Volte logo prá aquela sua aleijada fracassada e me deixe em paz!

Um torvelinho de cor rubra cegou por instantes a visão de Robert. Quando deu por si, Carol estava caída no chão e a seus pés. Ele a havia esbofeteado! Ele não podia ter feito aquilo! Não podia acreditar no que havia feito! Recolheu-a do chão num movimento rápido e ergueu-a nos braços levando-a até o sofá. Estava louco? Como havia feito aquilo?

-Me perdoa! Me perdoa, querida! Me perdoa!

Tentava fazer com que ela o olhasse, mas ela virava-lhe o rosto inundado pelo choro.

-Me perdoa, querida! Me perdoa, eu não queria ter feito...eu  não queria...

-Não me... não me chame... querida... 

Ele jogou o casaco paletó  sobre o sofá virando nele o conteúdo do balde de gelo. Enrolou-o transformando-o numa pretensa bolsa térmica que encostou, mesmo contra vontade dela, em seu rosto delicado. Mantinha o rosto dela seguro com a outra mão e beijava sua testa, olhos e boca.

-Me solte! 

-Perdão, Carol! Perdão!

Ela de encarou-o com um ressentimento tão amargo nos olhos que o machucou fundo.

-Vá embora, Robert! 

Mas ele sabia que não poderia ir. Não sem que ela aceitasse perdoá-lo. Mas o que acabara de fazer havia sido inominável!

-Você me bateu, Robert Você me bateu porque não me ajoelhei diante de você quando chegou aqui! Porque tenho amigos e continuo bonita!  Porque tenho uma vida agora da qual você não faz mais parte, não é, Robert?

Robert sabia que ela tinha razão. A cabeça dele com seus cabelos muito claros pendeu naquele momento e suas belas mãos renderam-se sob os joelhos. Sentiu-se envergonhado e sem coragem de encará-la. Pela primeira vez, Carol o fazia perder o domínio da situação. Ela era mais forte do que ele.
Era sim. Pois ela pode suportar o gênio difícil dele durante todos aqueles anos, vencer uma enfermidade mortal, ser abandonada por ele e ainda renovar-se e enfrentá-lo de um modo corajoso, como nunca havia feito! E ele? Ele ao menor sinal de ameaça a seu orgulho, perdia o controle agindo feito um animal!

-Eu não chamo a polícia, Robert, em consideração a Ewan e Helena. Nossos filhos, como você diz! Mas eu quero que você vá embora agora.

Robert ergueu os olhos para ela e seus olhos estavam turvados.

-Carol, Carol! Você nunca me viu implorar, mas por favor me perdoa...me perdoa, amor...

-Amor?

-Carol...

-Você me chama de amor?

-Carol...

-Você sabe o que é isso? Sabe o que é amor, ou só o que sabe é colecionar pessoas e reger suas vidas?

Ele travou e seu rosto adquiriu uma expressão perturbada. Ergueu a sobrancelha:

-Reger a vida das pessoas?

-Se cerca de todos os que se rendem a você. De todos os que pode comandar. Rolland, Helena, seu pai, sua mãe, os puxa sacos do patronato, os puxa sacos dos seus sócios e até mesmo Claudia! Agora controla a vida dela também!

O rosto dele foi assumindo um ar ainda mais grave. Se pôs de pé e pôs as mãos nos bolsos, encarando-a seriamente:

-Não aceito que fale de minha vida e das pessoas de quem gosto do modo que falou e não aceito que fale nada sobre  Claudia. Você deve estar precisando de alguma coisa prá se ocupar...
Pegou o paletó embolado, virou-lhe as costas e foi em direção a saída.

-Você é um machista podre nojento, Robert! E ainda por cima bate em mulheres!

Ele bateu a porta fortemente ao sair.

Ao final da tarde jantavam ele Arthur e Claudia. Claudia lhe falava entusiasmada sobre a metodologia de ensino de cada uma das escolas em que pensava matricular Arthur, mas Robert pouco prestava atenção.
Tomou uma ducha fria muito demorada e Claudia percebeu que havia alguma coisa errada. Mas se havia uma coisa que não pretendia, era bancar a esposinha pentelha. Se ele quisesse falar ele que falasse. Ela não o atormentaria, não o tiraria de suas reflexões.
A receita para um bom convívio a dois: Respeitar o espaço mental do outro. No final das contas ela, não deixava de se sentir como uma convidada naquela casa que ele fazia questão de dizer ser dela.
Ela não a sentia assim. Apesar do esforço que fazia para torná-la um ambiente descontraído para ele e para Arthur, sentia o peso daquelas paredes daquela decoração milionária, daquele amplo espaço de requinte como algo totalmente distanciado dela e de sua própria história. Os vizinhos esnobes!
Ah! A antiga e pequena casinha de seu irmão ...A presença querida de Juju... suas bochechas coradas, o sorriso querido, a comida simples e caseira que preparava...Claudia sentiu o coração despedaçar de saudade!

-Amor... Era Robert. Estava parado diante dela e naquele mesmo instante a abraçou.
Como ela sentiu-se pequena dentro daquele abraço. Precisava tanto daquilo. Mas não queria saber que Robert estivesse ligado a ela por um sentimento de reparação. Não queria isso de modo algum.
Não queria que ele tivesse abandonado Carol, não queria sentir-se culpada por isso. Mas sentia.
Além de tudo, enfrentava diariamente a batalha contra as limitações de seu próprio corpo e percebia estar encaminhando-se para o esgotamento.
Sua cabeça a torturava:
O que iria fazer de sua própria vida? Em que iria trabalhar? Conseguiria corresponder a expectativa de um marido tão brilhante, tão aclamado...

-Claudia! Amor, estou aqui...olha prá mim! Estamos juntos, não quero vê-la assim triste.

Robert a retinha diante dele ajoelhado a sua frente. Obrigava-a  à encará-lo.

-Triste?Não...não estou. Não tenho motivos para isso... As coisas estão se ajeitando aos poucos, não estão? Está tudo bem.  

Robert olhava para aquela mulher. Sabia que não poderia sequer pensar em viver sem ela. O amor que sentia era tão pleno que nos momentos mais inesperados chegava a comovê-lo: Ao vê-la dormindo a seu lado, quando ela desabotoava os botões da blusa, quando afagava os cabelos dele em seu colo. A melancolia latente do sorriso que ela sempre lhe ofertava...
E ela agora lhe pertencia, não poderia mais fugir. Sentia um fortalecimento pessoal diante disso.
Ela dependia de sua força em todos os sentidos. Ele carregava seu frágil corpo nos braços muitas vezes. A ajudava no banho. Massageava suas costas, sua nuca. Segurava-a firmemente para ajudá-la a treinar o caminhar. E isso o fazia sentir-se tão vitalizado, tão absolutamente importante em sua vida. Havia uma satisfação em, aos poucos, junto com Arthur, tornar-se o centro da existência dela. Ela era sua. Isso não seria alterado.
O que estava faltando então? Por que sentia que seu ciclo de soberania pessoal e orgulho masculino estava ameaçado?