sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

polentinha frita


O enlevo secreto que senti quando te vi sentar com tanto prazer e parcimônia ao degustares a polentinha frita. 
A tua calma fala, o teu casaquinho branco, as unhas pintadinhas esmeradamente de vermelho. 
Falavas da tua casa, de teus costumes, das coisas de que gostavas e me encantastes.

Degustei a água fria com lenta percepção. Tornei a água um prazer, um enlevo secreto. Degustei sua transparência gélida e imaginei quem tu serias. O que te construiu.

A janela absurda invasiva mostra formas, todas elas, do desespero e tu aqui. Com tua voz fraca, com tuas cores diluídas pelo oceano do tempo.
Tu para mim, representas coisas tão próximas de mim. Da vida que tive. Dos momentos diluídos em acido esquecimento.
O enlevo que senti. O enlevo secreto que senti.

o Amor que senti por ti

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O Negro Rei 8



Ideruba, volta ao alojamento na ala masculina do palácio.
Estava frio como nunca, naquele recinto de paredes de pedra com um pé direito de dez metros.
A umidade se fazia presente com suas linhas liquidas marcando as paredes. O ar quente de duas lareiras subia para o teto, formando um suave e invisível colchão de calor. Estendeu seu corpo, prazerosamente cansado, sobre uma manta; completamente incógnito, inserido sob o forro do teto! Ele mesmo é quem removera algumas tábuas, ao acessar o mezanino, seu ponto preferido, para resguardar-se da companhia dos outros.
Trazia consigo aceso um pequeno lampião a querosene e nesse momento dedicava-se a pensar. Pensava na duquesa. Rabiscava com a ponta de seu canivete eróticas representações. Ria-se sozinho da impressão que lhe davam depois de concluídas e ao imaginar o que diriam os outros se, algum dia, pudessem vê-las.
Pouco importava, na verdade.
Aqueles, se fingindo de santos; só o que lhes apetecia era o fazer troça da nobreza velha e encarquilhada às escondidas. De sua senilidade e da vergonhosa incontinência de bexiga; assim como frequentar lupanares, esvaziar botelhas e mais botelhas de vinho ou absinto, sempre acompanhadas de fumos intoxicantes, vindos do lascivo Oriente.
Geração de vadios! Sua inspiração para isso era sem dúvida o próprio Rei Frederico.

Com sua hipocrisia épica; dava discursos em louvores à honra do povo dinamarquês comparada à devassidão da Suécia e Europa! Mas muitos sabiam de seus gostos libertinos; das noitadas desfrutadas nas camas de prostitutas muito bem pagas. O próprio menino testemunhara vários desses compromissos reais.

Desde que se juntara a côrte de Frederico, Iderubah passara a ocupar a ala destinada as crianças.
A principio seu papel era o de um curioso e bonitinho bicho de estimação para as amas e para os fedelhos das mais variadas idades. Junto aos filhos de Frederico, na ala das crianças, haviam filhos de diplomatas em visita ao país, princesas infantes de outros reinos comprometidas em casamento desde tenra idade; parecendo mais em caráter de reféns ou apólices de seguro do que noivas, como costumava debochar a nobreza.
Ele não ousava tocar ou se dirigir a nenhuma daquelas crianças. Mantinha sempre um semblante sério e inexpressivo; o que só aumentava o interesse e a compaixão daqueles que o adivinhavam órfão, desgarrado de uma terra longínqua. Encantados pela beleza de seus olhos gigantes de cílios espessos, não imaginavam o ódio puro que o corroía.
Detestava aquelas bochechas gordas pálidas mastigando mingaus barulhentamente; os narizes diminutos escorrendo ranho; o cheiro das fraldas; a fala manhosa enjoada daquelas velhas babás.
Preferia sim era passar o tempo na companhia dos cães ou no galpão de caça, bisbilhotando artefatos de falcoaria, ganchos e punhais junto ao arsenal. Recebeu preciosas lições de cutelaria e esgrima. Suas mãos viviam calejadas e com cortes que ele nem ligava.
Também aprendeu a encilhar e a montar.
Jurava, secretamente, que um dia fugiria levando o puro sangue mais amado do grande merdão Frederico IV!
Imaginava-se numa colina, com os gigantes intocáveis encobrindo-o e enfrentando, ao lado deles, toda a armada de guerra e soldados de Frederico. Os esperaria com uma espada em punho e com uma garrucha explosiva bem carregada, uma de prata ou daquelas niqueladas do arsenal.
Mataria todos os fantasmas; incendiaria toda a Dinamarca; roubaria uma daquelas Naus e voltaria para a terra de suas mães.
Contaria sua história e seria reverenciado como um valoroso pai.
Ensinaria aos pequenos a nunca se afastar sozinhos quando brincassem de imitar o “jaguar sem medo”. Ensinaria aos pequenos a não pisar a terra fresca recém-remexida, sem olhar antes e muito atentamente para o alto. Ensinaria a prestar atenção e afastar-se do cheiro de fumo estranho misturado a sujeira e suor.
Golpearia todos aqueles fantasmas medonhos que maltrataram meninas e arrancaram os bebês dos braços de suas mães. Nunca mais choraria contra travesseiros mofados, arrebentando o próprio peito para esconder os sons de seus vergonhosos soluços. Nunca mais choraria na vida.
Quando foi considerado grande demais para a ala infantil, passou a ocupar a ala masculina e por bem, teve de se submeter as suas normas rígidas, além de aturar as brincadeiras maldosas dos outros; como a vez em que sua coberta de penas ficou encharcada, ou quando rasgaram todos os seus desenhos.
Não tinha amigos ali; sabia disso. A inveja por sua proximidade com o Rei era notória. Quem ele pensava que era? Um bastardo de pele retinta ter mais privilégios do que os filhos de presbíteros e de militares? Onde já se viu?
E claro que precisava pagar um preço por tal ousadia. 
No início, quando seu corpo ainda era franzino, vivia com inchaços, hematomas e arranhões em regiões do seu corpo que não ficavam à mostra. Ombros, peito, abdome. Seu corpo era um mapa de cicatrizes de mordidas, de chutes, de golpes. Todos recebidos sem que emitisse um único pio. Parecia até que tudo aquilo o fortalecia. Ao menos a sua convicção de que em ninguém deveria confiar e de que algum dia teria sua vingança, apenas recrudescia com aquele tratamento tão especial. Não se amedrontava, pois assistira atrocidades centenas de vezes piores. Sobrevivera e seguiria sobrevivendo. A medida em que crescia, seu corpo adquiria mais músculos e seu contra-ataque tornava-se respeitavelmente duro. Depois de alguns braços torcidos e dentes partidos, seus amigos resolveram deixá-lo sossegado. Nada como um bom dialogo...
Claro que todos já notavam sua proximidade com a duquesa. As fofocas eram o prato preferido na corte; mesmo entre os que se diziam gentis homens e Iderubah era alvo de vigilância, assim como qualquer um que estivesse próximo a Frederico. Como não seria, se a maioria das damas suspirava ao vê-lo passar com seu porte adorável e voltar-se afavelmente, sempre com um comentário atencioso? Desdobrava-se de modo cada vez mais charmoso e seguro, a medida em que adquiria traquejo e autoconfiança.
E sua autoconfiança, além de prestígio, foram aumentados no exato dia em que se interpôs entre Frederico e o ataque de um javali!
A madrugada era estranhamente abafada.
A comitiva do Rei embrenhava-se na densidade da floresta, rastreando incansavelmente o animal por várias horas. Ele surgiu de repente de trás de uma linha de arbustos altos num galope decidido. Frederico havia cometido o erro de desmontar, na intenção de agachar-se e apalpar as pegadas deixadas numa trilha fresca com vestígios de pelos do animal e foi nesse momento que sua guarda esteve desastrosamente vulnerável.
Não fosse a coragem absurda do jovem africano atirando-se de sua montaria com a lança empunhada em direção a goela do bicho, Frederico teria sido feito em pedaços, já que o animal, mesmo trespassado, prosseguia em sua trajetória de ataque sendo detido somente pelo aparato de bloqueio disposto na própria lança.
Em sua fúria sobrenatural, prosseguia guinchando e mastigando a esmo com sua boca descomunal trituradora de ossos.
Tinha por volta de duzentos quilos e uma pelagem azulada que brilhava contra os últimos raios de sol daquela tarde em sincronia com a frequência acelerada de seu resfolegar.
Frederico apresentava um aspecto apático. As roupas e botas enlameadas; caído no solo de pernas abertas, tratou logo de recompôr-se e assumir sua fleuma real típica.
Com agilidade ergueu-se de pé num salto e tratou de aproximar-se do animal moribundo que, por pouco, não o fatiara com suas mandíbulas.
Sua mão tremiam. Examinou cauteloso aquele animal incrível e considerou-o tão temível quanto um leão africano ou até mesmo pior: Recordou-se dos relatos perturbadores na imprensa aquela época sobre a misteriosa e horrenda besta que atemorizava os moradores de Avignon, na França. Circulando os vilarejos e devorando suas vítimas. Famílias inteiras! Desaparecendo de modo sobrenatural. Escapando incólume de todas as armadilhas e tentativas de captura.
Se ao menos os franceses tivessem a seu lado um bravo como Iderubah!
O feito do jovem espalhou-se como rastilho e encantou a corte por meses. Frederico resolveu lhe dar um título de marquês como reconhecimento. Uma substancial fortuna em ouro e prata, advinda do patrimônio pessoal do próprio Frederico. Além de terras e propriedades que passariam para sua jurisdição. Mas antes que se estabelecesse nas terras e assumisse suas obrigações como marquês, foi decidido que deveria estudar Direito Canônico e Tributário na Universidade.
Frederico resolveu torná-lo um presbítero.




terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O Negro Rei (7).

Perfume de alfazema! Ideribah teve a visão de sua vida.
Ela vinha até ele com os cabelos encobertos pelo reflexo da luz do sol e causou em seu peito um calor impossível de explicar.
Duquesa Caroline Elouise Grimaldi.
A mais nova dama de companhia da rainha, possuía olhos de um negror condensado em mistério. Seu sorriso discreto e sua risada agradável provocavam. Davam delícia e sentido à vida.
De um momento para o outro, o jovem passou a gaguejar e a esquecer seus talheres suspensos no ar, sua comida intocada no prato e a ter seus ouvidos surdos a maioria das pessoas.
Ela chegara da França e trazia em sua bagagem, não só o vestuário decotado à moda parisiense, que foi instada a tornar mais discreto, como também uma maneira de lidar com todos, que os fazia ficar quase sem jeito. Embevecidos!
Acompanhava a rainha em seus retiros no campo e em suas longas caminhadas pelos jardins palacianos. Passou a estar presente quando Ideribah recebia lições de sua majestade. Latim, música, Língua inglesa.

Caroline Elouise aproximava-se.
Recitava poemas que saiam de sua delicada boca ritmadamente como conjurações mágicas; sempre acompanhados de um brilho especial em seu olhar.
Seu olhos capturavam o olhar dele, quando a rainha não podia flagrá-la. Damas de companhia da realeza deveriam ter compostura. E Caroline Eloise estava na corte de Frederico representando um protocolo de requinte e boa vontade entre a França e a Dinamarca. Qualquer maledicência, ou fofoca arranharia a imagem do próprio Rei Loui.
Ideribah sentia as orelhas pegar fogo com aqueles flertes. As calças comprimiam...
Caroline Eloise aproximava-se.

Seu perfume invadia os sonhos do jovem de quinze anos.
  Aproximava-se...
Em um recanto de uma das esplanadas, após mais um dos protocolados e longos jantares da corte, Caroline Eloise finalmente chegou-se, surpreendendo o arredio rapaz. O som de sua rouca voz, fez com que o coração dele disparasse frenético:
-Há um personagem marcante na obra de um autor de nome Shakespeare, monsieur Kriger. Faz-me lembrar de ti. Ele é o fascinante e atormentado Othelo.

Ideribah simplesmente paralisou. Sua voz não saia.
Camile Eloise chegou-se mais:
-Tu já conheces? Um general mouro... -Um sorriso insistente perdurou no rosto da duquesa Grimaldi, sem que isso fizesse com que Ideribah movesse um único músculo.

Diante da súbita afazia do menino, ela, delicadamente, continuou:
-Sua Majestade, o Rei Loui apresentou-nos versos dessa peça. Vossa Alteza é um homem afeito à dramaturgia; isso cá entre nós. -Ela sorriu lindamente, com ar de cumplicidade jovial. -De fato; Loui conhece de cor a maioria da obra desse Shakespeare. Chamam-no de “O bardo”. Tão típico dos ingleses... Oh! Pardon... Eu o aborreço monsieur Kriger?

Tudo o que o jovem conseguiu dar como resposta foi:
-Não, não! De modo algum, querida amiga... -E numa pronta e urgente reverência diante da duquesa... -Não... não me queira mal. Sou um terrível mal-educado. Perdão!
Um leve sorriso marcou-se em um canto dos lábios de Caroline Eloise; a qual estava perfeitamente ciente, do efeito que causava em seu interlocutor:
-Será perdoado, se me acompanhar num breve passeio pelo jardim das fontes. É sempre tão agradável....

Sempre sorrindo, ela ofereceu a mão ao encontro do braço de seu nervoso acompanhante.
Ideribah custava a acreditar naquela proximidade e estava fascinado pelo brilho daqueles olhos tão negros. Rios caudalosos de suor deslizavam pelas suas costas.
Sentia uma agudeza no estômago, devido o temor de que aquilo se tratasse de um sonho e, ao mesmo tempo, por sentir uma estranha ânsia em ver-se livre.
Livre de ter de manter conversação num nível condizente com tão versada mulher. De ter de mantê-la entretida com sua pueril e pouco traquejada companhia.
Mas Caroline Eloise era, inegavelmente, adorável.
Mantinha-se falando de assuntos amenos num tom jovial envolvente que, aos poucos, faziam-no sentir-se na companhia de uma inofensiva e delicada corsa.
-Oh, monsieur Kriger. Devo confessar: Sinto tantas saudades do meu pequeno viveiro de pássaros...
-De Paris, cara duquesa?
-Oui.
-Suas majestades não permitiram que os trouxesse consigo?
-Deixei-os sob os cuidados de minhas irmãs. De fato; eu temi pelas vidas dos meus amados emplumados, monsieur Kriger. O frio daqui parece que adoece qualquer espécie mais delicada.
-Perdão. Não se sente bem na Dinamarca?
-Estou em perfeita saúde, pela boa graça. Amo a Dinamarca. É meu segundo lar. Todos são amáveis e suas majestades são meus pais agora. Mas deixei em minha terra pessoas e coisas das quais sinto saudade.
  Eloise sentia saudades da vida em Versailles. Nada na face da terra se comparava a seus extensos jardins ornamentais com suas fontes de genial gosto e engenharia; aos salões magnificamente espelhados em que Loui dava seus bailes históricos; à comida, aos doces; à riqueza esfuziante da corte de Loui!
Versailles era o reino da beleza. O paraíso dos deuses na terra. Loui era o próprio Deus Sol...
A condessa sentiu um aperto no peito. Ter de submeter-se aos protocólos diplomáticos de dois governantes e acabar por enterrar-se naquele desditoso Ice- berg chamado Dinamarca! Talvez jamais voltasse a ver os salões de Versailles!
Ideribah nota-lhe o leve tremor na fala. Volta o olhar para seu rosto. A luz, aquela hora esmaecia, mas campanulas a óleo eram acesas por valetes portando longos bastões incandescentes nas pontas que passavam a clarear a lenta passagem de ambos.
Ele hesitou, porém falou:
-Seus olhos não conseguem de nenhum modo esconder que sofre, querida duquesa.
-Oh. Sou uma boba... Chorar diante de voz é embaraçoso. Perdoe mais uma vez...

Ele, entregando-lhe o próprio lenço:
-Eu devo pedir perdão por fazê-la sentir-se triste, duquesa.
-Oh não, não. Sua presença é uma das coisas boas de estar nesta província, monsieur Kriger. Embora conversemos pouco, gosto quando está por perto. Me sinto muito estimada.
-E faz bem. Faz muito bem. Anseio por ser seu admirador mais devotado.

Levado pelo protocolo, mas sobretudo pelo sentimento que abrasava em seu peito, Ideribah toma-lhe a pequena mão entre as suas e a beija.
O toque acetinado daquela pequena mão envolta por sua fina luva é algo que ele sabe, naquele momento, que não deseja nunca mais deixar de sentir.
Permanecem em silencio e o olhar mantido entre eles, traduz um poderoso átimo de sensualidade, impossível de ser negado.
A diferença de idade entre ele e a duquesa, ela com vinte e um e ela com apenas quinze, parece acentuar a força de atração.
De sua diminuta altura, ela puxa-lhe gentilmente a cabeça até alcançá-lo.
A boca, com o formato perfeito e pequeno, preenchida com sua coloração rubra, aproxima-se dele e o toca no canto dos lábios.
Ele sente, a princípio aturdido, a umidade do toque da língua da duquesa inserindo-se no inicio da fenda de seus lábios; no diminuto espaço entre seu rosto e boca.
-Por favor, monsieur Kriger... meu braço ficará com marcas...
Ele não se dera conta da pressão que sua mão exercia fechada contra o antebraço da duquesa.
Sua voz sai arfante:
-Perdão, minha querida.
-Nesse momento devo voltar, monsieur Krigger. Sua majestade me aguarda com as outras damas para as orações noturnas... nos vemos mais tarde?
-Mais tarde?
-Venha a meus aposentos entre a primeira e a segunda ronda.
Ela tocou-o no rosto e afastou-se dando-lhe um último e significativo olhar.

Madrugadas de prazer. Noites de sussurros, acompanhadas de inesquecíveis lições de ousadia... Ousadia nos toques, nas modalidades de beijos; na variedade de posturas...
Corpos roçando; aromas se misturando.
A pequena e delicada duquesa era experiente e soberana na arte da sedução. Suas pequenas mãos guardavam o segredo de inflamar de desejo o corpo de seu amante, mesmo nas horas do dia em que se quer estava presente junto dele.
A imagem persistente de seus pequenos e redondos seios alucinava fazendo com que
os compromissos do dia, com seus protocolos repetitivos, virassem poeira ao vento.
Os dias fluíam sem ser notados, ante a expectativa ansiosa das madrugadas em brasa, com seus carinhos deliciosos e fascínio mais puro.
E esse era cada vez mais o mesmo tipo de dança perigosa que se coreografava nos aposentos da própria rainha de Dinamarca e Noruega.
Embora o parceiro de dança da rainha não se tratasse do rei!
Frederico, mergulhado em seu gabinete, entre pilhas de extensos mapas traçados na companhia de seus marechais, se preparava mais uma vez para a guerra. Fora as leituras de cunho iluminista com os consequentes debates acalorados, que iam até tarde junto a seus conselheiros; dedicava-se também as suas famosas visitas aos lupanares de Copenhagen.
Sobrava, evidentemente, pouco tempo ou energia para dedicar atenções a sua real esposa que, de qualquer modo, apresentava-se sempre enfastiada de sua companhia, dando desculpas sistemáticas para não ter de aceitá-lo em seus aposentos.
O que nunca, jamais era comentado entre a camareira da rainha e uma ou duas de suas servidoras pessoais mais atentas; é que o médico real, doutor Alleph Witellsbach era quem passara a receber séria devoção da soberana.
O belo doutor comparecia todas as noites, há mais de mês, tomando a trilha de caminhos secretos designados à realeza, em caso de cerco e ingressando com uma cópia de chave dos aposentos que davam direto para a alcova em que se encontrava sua amada.
Imersa nesse afair envolvente com seu apreciado lado plácido hedonista e com todo o seu trabalhoso jogo de disfarçar e prevenir-se de algum indesejado flagrante, a rainha já dava pouco interesse à tarefa de vigiar suas crescidinhas damas de companhia. Desse modo, a vida da duquesa Grimaldi, no quesito “encontros travessos” ficava um pouco mais livre.
Os céus verdadeiramente cairiam se qualquer filete daquilo vazasse pela côrte...
Um reino eminentemente puritano como o da Dinamarca frente a uma Europa fascinada por delírios orientalistas, busca por ideias políticas controversas e entre choques religiosos que levavam à morte e ao campo de batalha centenas de milhares, certamente exigiria o confinamento sob tortura e finalmente o enforcamento de quem maculasse o piedoso pendão daquele reino!
Quando os sinais que poderiam indicar uma gestação em estado inicial se fizeram claros, a jovem rainha teve de se render á repugnante tarefa de atrair seu legítimo cônjuge até o leito. Isso para justificar o que precisasse ser justificado.
Um suplício!
Ter seu corpo despertado pelas delícias do toque e calor de seu amado Alleph, dominado como o de uma novilha no curral; a fez desejar estar morta na ocasião. De uma forma maligna aquela submissão forçada fraturou seu espírito... Porém, nove meses depois, o mais novo herdeiro da casa real nasceu e, para a aprovação de todos, era do sexo masculino. E embora, a medida em que crescesse, cada vez mais desse os ares de seu verdadeiro pai; quando se fazia a rara oportunidade, recebia algum afago desinteressado de Frederico.
O Rei não tinha muita paciência com rebentos recém-nascidos, mesmo com os seus próprios filhos. Tanto legítimos quanto bastardos!
Esperaria, como sempre, que aquele indivíduo se desenvolvesse a ponto de poder avaliar se suas ideias possuíam tino e originalidade e se assim valeria a pena dedicar-lhe sua atenção.

Ai, ai... A vida na côrte mais puritana da Europa! Tudo encenado à perfeição. Exatamente como nas demais...


terça-feira, 18 de novembro de 2014

O Negro Rei (6)

Naquele mundo, que pouco fazia sentido. Feito de rapé; de convites disputados para bailes dourados e jantares absurdamente encenados; alguma coisa diferente começava a enervar as pessoas.
Os carrancudos, vestindo roupa escura e que, apesar da feia mascara de antipatia, costumavam ao menos ter compostura; passaram a agir de modo estranho. Da noite para o dia.
As perucas alvíssimas, antes alinhadas e respeitáveis, eram agora frequentemente flagradas retorcidas em algumas cabeças. Os pulsos trêmulos, deixavam respingar o conteúdo das xícaras. E muitas vezes seu conteúdo era esquecido. Os sequilhos ficavam intocados também. E não apenas isso:
Vozes se alteavam frequentemente. Se caminhava rápido e nervosamente pelos corredores, tropeçando nas pontas de tapetes. Suando testas. Reforçando o cuidado sussurrado com o que era dito e com o que era comentado...

-Tu já ouviste sobre o ideário iluminista, jovem Ideribah?
en pasan, meu Rei.
-E o que sabes deles?

Os olhos do jovem emitem uma discreta malícia.
  Mede as palavras sabendo, perfeitamente bem, tratar-se de um tema espinhoso para se debater com um rei.
Estão no gabinete acoplado aos aposentos reais de onde, há pouco, se retirara um dos ministros. Apenas o rei sabia da presença do jovem Ideribah, por trás da colunata de um arquivo nas sombras.
Ideribah suspende a leitura enjoada da genealogia dos nobres do Sacro Império Romano-Germânico. Procura acessar, de memória, o que guardou de um jornal de agitação, que lhe caíra em mãos, em uma expedição pela Noruega. Fala, pausadamente:
-Alguns pensadores de França e mesmo da casa real de tua esposa, apregoam igualdade entre todos os homens. -Nesse ponto suspende a fala, aguardando alguma reação do rei. Este permanece impassível, com ar de diversão no fundo azul-escuro de seus olhos. O jovem decide não aparentar ser covarde e termina a sentença com ar de ferino desprezo: -O mais devotado destes parece chamar-se Locke, meu nobre Senhor.

Frederico contém um sorriso de admiração.
Aquele menino não deveria contar com mais do que 12 ou 13 anos e, mesmo assim, não se deixava distrair como seus filhos que regulavam com ele de idade!
Aquele jovem tinha ímpeto e uma formidável inteligência! O que, por vezes, intrigava os pensamentos reais era; qual encargo daria aquele mancebo, que crescia tão rapidamente em argúcia e em talento?
  Ele desenhava como um anjo e possuía uma notável sensibilidade para a música. Era inigualavelmente belo e, embora meio tímido; causava alvoroço entre as donzelas. Porém, ele era um estranho.
Carregava em sua retinta pele o estigma sarraceno. Mas sobre tudo; algo dolorosamente secreto o consumia. Frederico sabia disso. Algo de que o jovem nunca ousara falar e que, nem mesmo o rei, ousara perguntar.
Mas, esse mistério, lhe acentuava o caráter nobre, dando um tom de autoridade as coisas que dizia; um tom de ritual a seus gestos e de encanto permanente a sua calma presença.
O rei ascende um pito com aroma de café, pisca o olho e fala em seguida:
 
-Locke! Sabes o significado da palavra “loque”?
-Lamento. Não sei se lembro, meu Rei. -Na verdade, o jovem Ideribah sabia; mas não queria se dar ares de sabichão diante do rei.

Deixasse que sua majestade pensasse que podia lhe ensinar alguma coisa!
O rei pareceu satisfeito por isso e sorriu:
-Pois eu te digo: Loque é, nada mais, nada menos, do que “louco”; na fala de Loui, jovem Ideribah! Deu uma longa tragada, que o levou a tossir. -Não te parece curioso?
-Parece bastante “constrangedor” para os seguidores desse, meu Rei. -Concluiu o jovem.
-Certamente o nome não lhe confere a justa homenagem. -O rei sinalizou para que sentasse diante dele, prosseguindo: -Porém, as “ideias” são... eu diria: Criativas.
Ideribah trancou a respiração, refletindo instantes antes de comentar:
-Se permite que eu diga; podem representar um “rastilho”; como costumam dizer os da bombarda, meu Rei.

O rei refletiu nas palavras do jovem, alteando a sobrancelha:
-São ideias de caráter completamente novo, jovem guerreiro. Não totalmente, mas, ainda assim; novo.
Frederico pareceu, de repente, prestes a mergulhar em uma longa trilha de pensamentos.
Ideribah achou importante, naquele momento, incentivar o rei a falar mais:
-Deveis preocupar-vos com elas, meu valoroso Rei?
O rei despertou e subitamente sorriu para além da presença do jovem:
-Por que não perguntamos isso a meu estimado esculápio? Se bem- vindo, lorde Alleph!
Ideribah vira-se na direção da mirada do rei.
Acabava de juntar-se a eles, no gabinete, o primeiro médico real.

O homem de meia idade caminhava firmemente. Com a proximidade, seus movimentos exalaram um perfume de fumos amadeirados.
Tinha um belo porte. Vestia um traje preto, em lã, bastante discreto, mas que não escondia suas linhas vigorosamente atléticas.
Seus cabelos longos e grisalhos, presos em um rabo de cavalo, estavam gotejados por água da chuva.
-Majestade. -O homem faz uma rápida mesura ao rei e curva levemente a cabeça em direção ao jovem. -Lorde Ideribah Ibenholtz Kriger.

A voz era aveludada com um toque de leve cansaço.
Ideribah corresponde à saudação e faz menção de retirar-se, mas é impedido; através de um leve gesto do Rei:
-Alleph Patrício Wittelsbach! Chegou na hora mais perfeita! Fala ao menino guerreiro sobre as “novas ideias”. Aquelas pelas quais tu te apaixonastes ao visitar a terra de meu primo. Não o palácio de Versalhes, certamente. Mas as incomparáveis tavernas de Paris! -O rei e o médico compartilham o riso, diante da menção ao tipo de local apreciadíssimo pelo rei.
Este estica o pé direito sobre um banquinho ornado, dando uma piscadela em direção ao amigo: -Vamos! Diga lá.O que tira o sono de nossa nobreza, meu querido?
Apesar do riso do homem, Ideribah nota-lhe o olhar melancólico, emoldurado pelo rosto grave. A face marcada por uma nítida e longa cicatriz, testemunha seu espírito.
O médico aceita o pito oferecido. Dá nele uma tragada lenta; medita distante e passa, em seguida, um olhar ascético no jovem sentado a seu lado diante do Rei.
Sentencia:
-Não tenho dúvidas de que Lorde Ideribah, com a inteligência que lhe é nata, já tomou conhecimento de tais ideias e conseguiu calcular, por si mesmo, os possíveis resultados, meu Senhor Frederico.

Frederico muda a postura. Agora parece mais sério e interessado, remexendo diante de si papéis com o timbre real:
-E tu acreditas em sérias consequenciais, meu caro?

Alleph percebe o tom de voz levemente tenso do Rei.
Cruza os braços, deixando cair as cinzas do pito no tapete e escapar uma profunda inspiração:
-Agora, com o fenômeno dos tipos móveis, eu diria que as novas ideias “ganham asas” com maior rapidez, meu Senhor. Porém, em minha visão; os que devem temer são os homens injustos. Aqueles que não amam verdadeiramente o vosso povo, majestade. Os barões que maltratam camponeses, além de explorar seu trabalho e sua ignorância.
  O Rei tamborila o mogno. As pupilas levemente aumentadas:
-Muitos de minha corte rangeriam os dentes se te escutassem, meu estimado Alleph!

O médico depõe o pito sobre um dos cinzeiros cristalinos. Olha para o rei com ar de pirraça:
-É o temor pelo desconhecido, meu amado Senhor. Ou talvez; o temor por aquilo que teimam em não ver. O mundo se modifica com o avanço das conquistas e das ideias. É assim como um cometa, meu senhor. Ninguém consegue aplacar.

O Rei compreende perfeitamente o sentido latente das palavras do medico. Mas não as rebate e nem mesmo as questiona. Retoma o assunto por um caminho neutro:
-Somos a realeza. -Frederico ergue-se, dando alguns passos, com as mãos entrelaçadas as costas. Olha por uma das vidraças. -Nossos modos e perfeição devem ser esmerados. Pois o povo deve, além de nos temer, sobretudo, nos amar.
O que deflagrava nas pessoas da nobreza aquela ridícula mania de fazer discursos afetados como aquele, era uma questão irritante para Alleph. O rei se empertiga mais ainda:
-Também sei dos que se aproveitam dessas prerrogativas para impor seus abusos. A frivolidade de minha côrte não se compara à de Loui Sol. Não. Certamente que não! Ainda assim é preciso combater excessos...

Alleph procurou responder na mesma linha de tom de discurso:
-Es um Rei benevolente, majestade. E teu governo tem sido justo. Mas é preciso olhos de águia a todo o momento. Vigiar o ninho.
-Te referes aos nobres todos.
-Muitos pisam os seus servos, meu Rei. Impõem taxas; expropriam safras; se apossam de esposas... matam filhos... maridos. Sequestram e torturam! Há ainda a brutalidade dos burgueses que tomaram as novas terras, flagelando povos inocentes e promovendo o mau da escravidão...

Nesse preciso ponto da conversa o coração de Ideribah contraiu e seu corpo estremeceu completamente.
  Passou a respirar com muita rapidez, apoiando a própria cabeça. Esse episódio durou esparsos segundos e passou totalmente despercebido pelos dois interlocutores.
-O mau da escravidão a que te referes é irrefreável, caro Alleph. Quem cultivaria o açúcar nas novas terras, repletas de mosquitos maléficos e de cobras peçonhentas? Quem extrairia os ricos minérios? Há uma grande demanda pelos minérios, meu caro!

O rosto do médico convulsiona-se e Ideribah percebe sua luta interna para não se exaltar e proferir algo inapropriado.
Ele olha para o médico com desespero. Tem esperança de que se lance um argumento que finalize com tudo. Que demonstre o quanto a escravidão a que são submetidos os de seu povo é sórdida e desumana.
Haverá um modo de parar aqueles navios túmulos? Haveria nas ideias iluministas uma saída que acabasse com aquela máquina de destruição humana?
O Rei prosseguia falando, enquanto o médico suspirava, conseguindo bravamente controlar seu próprio estado:
-De qualquer modo há escravidão na Europa, também, meu Rei. Há escravidão e iniquidade onde se tortura, mutila e mata por conta de religião. Onde é negado o pão aos famintos na penúria do Inverno! Enquanto banquetes apodrecem nos palácios. -Já que Frederico apreciava o tom laudatório, Alleph decidiu que não se daria por rogado: -Tu és um líder importante, Frederico! Podes fazer reformas grandiosas que darão ao mundo a dimensão de tua justiça e fraternidade!
-Falas de impor decretos, Alleph. Isto sim! Meus ministros têm calafrios só de pensar!

Os olhos do médico se iluminam. Sua voz sai quase trêmula, pela força daquilo que diz a seguir:
-Decretos que tua abençoada pena pode assinar e ficar na história como baluartes da Justiça e da defesa do nosso povo! Ninguém ousaria desrespeitar tua vontade.

Naquele ponto, o rei nem sequer piscava, escutando as declarações entusiásticas de Alleph Wittelsbach. A vaidade real frente a elogios era constrangedoramente flagrante.
Aos poucos, com sua fala diplomática educada; porém apaixonada, o médico seduzia o monarca com os ideais de Voltaire, Montesquieu, John Locke.
Ideribah compreendeu, que aquilo se passava há mais tempo.
Frederico se aprofundava em leituras, buscava inteirar-se sobre os debates das escolas de filosofia da França, Alemanha, da Academia Real.
  
Embora o pensamento iluminista rejeitasse qualquer religião, aí incluída a fé cristã, e ele próprio fosse um rei protestante; via nos ideais iluministas um viés piedoso e eminentemente fraterno; condizentes com preceitos cristãos.
Naquele vasto estúdio, o silêncio parecia impor a razão as últimas palavras ditas pelo médico.
Ainda tomado pelo furor, doutor Alleph Wittelsbach, com expressão grave, depõe as mãos, cruzadas sobre seu enxuto abdome; respira profundamente e desabafa, com olhar pesaroso:
-Na vinda para cá, ouvi relato de um episódio repugnante, querido Frederico. Um jovem camponês açoitado brutalmente.
-Isso por quê?
-Porque o filho de seu mestre havia cometido alguma gafe durante a ceia. O jovem servo foi açoitado até desfalecer, majestade.
-Sacre bleu!
-Um menino de pouco mais de oito! -O médico gira a única joia aparente que porta consigo, um anel em esmeralda no dedo médio da mão esquerda. -Como se sabe; não é permitido punir fisicamente o filho de um nobre, portanto há esse tipo de injúria contra os pobres; a fim de expiar a culpa dos filhos dos ricos! Obscenidade, majestade! Maldade! Porque se pudessem punir o filho do nobre, tudo o que dariam era uma meia dúzia de palmadas invés de chibatadas!

Sabia-se que Frederico não interviria nesse tipo de assunto diretamente. Envolvia questões de direito nobiliárquico e a nobreza representava sua base de sustentação política. As leis deveriam ser modificadas; porém esse era o tipo de questão que representaria uma queda de braço desgastante para seu governo. E fatalmente teria desdobramentos.
-É uma prática arcaica da nobreza, caro Alleph. E não me parece justa de modo nenhum. O Cristo dizia que “Aquilo que fazeis ao menor de mim é a mim que o fazes”. Essa conduta é caduca e absurda, sem sombra de dúvida, meu caro.
-Perfeitamente, Frederico. Ouso prever que se esse absurdo de coisas persistir, regressaremos ao período dos Cesares de Roma; quando se crucificavam inocentes!

Ideribah percebe a relação precisa, inserida na inteligente resposta do medico.
Nesse ponto são interrompidos pela presença silenciosa de dois mordomos que se põem a sua volta. Oferecem-lhes torta de vitelo; pastéis adocicados polvilhados com canela; morangos sumurosos; croissant recém-saídos do forno e as mais delicadas tortas de amêndoa, avelã e chocolate.
As preferidas de Frederico.
Entretanto; este busca se contentar com apenas uma pequena fatia.
-O que te povoa os pensamentos, caro Ideribah? -Pergunta o rei, com ar pesaroso. Ideribah suspeita que seja por ter de resistir a tentação de uma nova fatia de torta. -O teu rosto, apesar de tão imberbe, é quase sempre enigmático. Mas gora, no presente, pareces arrebatado...

O jovem, com seu ar de mouro circunspecto, perturbadoramente adulto:
-Me pergunto de que forma um decreto obrigaria as pessoas a ser sensatas, majestade. No caso desse costume de se espancar o filho de um servo para expiar a culpa de um nobre; me parece uma prática que somente a educação teria o poder de modificar.
-Explica.
-Os homens são arraigados a seus costumes. No caso dos mais ricos, acostumaram-se a ideia de submeter os pobres. E, no caso dos pobres; estes aceitam o tratamento; pois aprenderam a temer a reação dos mais ricos!
-E em que ponto tu achas que entra a educação?
-Se, a exemplo dos evangelizadores que levam a palavra, conseguirmos mostrar aos homens que seu valor diante de Deus e diante dos outros homens não é medido por sua origem ou por sua quantia de dinheiro, penso que o entendimento se dará entre eles.
Alleph sorri, quase em triunfo, após ter escutado as palavras do menino:
-Um sistema de ensino, querido Frederico! Um lugar em comum em que tanto pobres, quanto ricos aprendam sobre respeito aos direitos e à dignidade humana! -Bradou o médico emocionado.
Frederico compreende de antemão aonde Alleph pretende chegar.
Conhece de cor o teor de seus pensamentos e projetos.
Conhece seus escritos revolucionários sob o pseudônimo de “Spartacus” nos fascículos subversivos que inundavam a Europa.
Seu próprio medico se convertera à aquela febre do ideário iluminista!
Sabe Deus a força que essas ideias estavam tomando entre os jovens, exatamente naquele momento. Entre os camponeses, entre os soldados rasos... entre os noruegueses...
-Um sistema de ensino, Alleph, meu caro?
-E público, meu Rei!
O rei sorri com leveza. Em sua gaveta já esboçava um decreto que causaria reboliço suficiente:
A extinção da servidão camponesa!
Sacre bleu, se aquilo não seria sarna suficiente! Que diria um sistema de ensino e público!

  

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O Negro Rei (5)

-Tu pareces um bicho do mato. Um gnomo! Será que não aprende a nossa fala? Escuta bem: Ninguém aqui é inimigo teu. Todos querem ser teus comparsas e camaradas. Poder se aproximar de ti. Por que tu os repele desse modo injusto?
A mulher falava e falava e sua papada branca, sob o pescoço, balançava o tempo todo. Esse fenômeno e o fato de ela se atrapalhar toda, tentando correr na tentativa de lhe dar um abraço e não conseguir alcançá-lo, o fez ter um ataque de riso.
A mulher:
-Veja só! Tu aí estas rindo! Até que um dia, soldadinho mouro! Até que um dia!

Viver no âmbito das cozinhas, impregnado de cheiros de temperos e cercado de conversas acaloradas e expansivas, deu ao menino uma dimensão falseada da verdadeira vida, ou pelo menos da vida oficial da corte de Frederico IV.
A política, os acordos, as invejas, as intrigas e a traição; encobertas por protocolos pomposos e exaustivos, não faziam parte de sua realidade. Ainda.
Foi numa tarde inesperada de acontecimentos inesperados, com um susto inesperado que se deu o encontro entre o menino e o rei da Dinamarca e Noruega.

E este dia, para o bem de uns e para o mau de alguns, ficaria gravado para sempre na história dos momentos espetaculares e únicos, como o alinhamento perfeito dos astros e planetas...

Aconteceu certa manhã que um reboliço louco colocou todos em polvorosa. O puro sangue magnífico do Rei, entrou desabalado cozinha a dentro; escoiceando bancadas, tonéis, mesas e todos os utensílios pela frente.
A sela estava vazia e mal encilhada; mas isso não foi percebido por ninguém naquele momento. Todos trataram de se afastar da loucura equina e buscar proteção onde mais lhes conviesse.
-Saladino! Saladino, te contém! Es mesmo um bárbaro como se conta dos de tua terra!- Berrou um homem em trajes de caça, que esbaforido e quase caindo, tentava capturar o animal.

Aquele bicho parecia um ser fantástico. Suas patas mal e mal tocavam o chão. Elevava a cabeça nas alturas, relinchando com uma fúria maravilhosa.
Diante daquele turbilhão de músculos e escoiceio, apenas um pequeno menino. Um menino negro estático e hipnotizado a uma curta distancia, e que de repente começava a entoar uma triste melodia.
Aquele menino era também um ser sobrenatural. Não era desse mundo. Como poderia estar ali? Era belo e inacreditável. De onde emergira aquela criança etíope que só se vira igual em livros de iluminuras? Iluminuras feitas a mão, bordadas com filigranas em ouro; representando homens moradores das áureas pirâmides...

A melodia estranha causava arrepio; frio no estômago. Levava as lágrimas. Tocava a fundo a emoção dos que se achavam invencíveis e insensíveis a sua própria humanidade. Cortava com profundidade e lamúria a alma do homem mais nobre e do mais cafajeste. Inundava todo o ambiente como uma correnteza calma e contínua; um mantra puro que invadia a cabeça, que mexia com a frequência cardiorrespiratória. Fazia recordar sonhos...
O contraste entre os corpos do garoto e do animal era apenas chocante. O pequeno fedelho poderia ser convertido em uma substância amorfa lamentável, em qualquer movimento mais ou menos brusco das patas dianteiras do animal gigantesco diante dele. Mas heis que a respiração de todos os presentes cessou: O cavalo de batalha, antes abduzido pelo espírito de um vendaval, se deixou seduzir pelo encanto mágico daquele pequenino. Resfólegou mais algumas vezes, apenas para demonstrar orgulho e se deixou finalmente tocar, calmamente, pelas mãos finas e jovens que o acariciaram as ventas e a fronte.
-Quem é esse?
A pergunta repentina, aos poucos, foi rompendo o ar estupefacto de todos os presentes. Mas ninguém se resolveu a responder. A pergunta foi proferida novamente:
-Quem é esse mancebo retinto?
Até então os presentes não haviam notado que quem fizera a pergunta era o Rei em pessoa, mas quando finalmente deram por isso, o susto só foi superado, ao escutarem claramente o menino responder e sem titubear: “Eu sou Ide... qualquer coisa!”
-EU SOU IDERIBAH!
O moleque entendia o que era falado e, o mais surpreendente; sabia falar sua língua!
-Coloquem-se todos de joelhos, diante do Rei! -Exigiu o valete que se recuperava de todo aquele susto, pressionando rosto e pescoço com seu lencinho aromático.
Ideribah mantinha-se no centro do recinto; estático e olhando no fundo dos olhos do animal dominado por ele.
Frederico aproximou-se e tomou as rédeas do animal nas mãos.
Fez um ou dois gestos carinhosos no cavalo, beijando sua fronte e falando baixo:
-Saladino, menino astuto! Quem é esse que vem até nós e com tantos dons? Quem é ele? De onde será que veio? -E olhando diretamente para Ideribah: -Possuis um raro talento, guerreiro. Sim um raro talento... Saladino parece gostar de ti. Que tal se me ajudares um pouco com ele?
-Ajudar...
-Podemos começar por revisar esta cela... Não me parece muito segura e acho que ele se irrita com essa presilha...
Ideribah focou pela primeira vez os olhos daquele homem e viu imediatamente que ele era distinto de todos os outros fantasmas que conhecera.
Sua postura era alinhada, os movimentos contidos e seguros. Sua voz tinha uma fluidez agradável e calma. Não precisava elevá-la para que no instante em que começasse a falar, todos a sua volta lhe dessem atenção devotada. Apesar da simplicidade das roupas de couro, percebeu a limpeza extrema das unhas e o quanto eram polidas. Assim como os cascos do animal fúria.
Ideribah não sentiu medo daquele homem, mas um estranho fio de admiração misturada à... inveja.

O convite informal do homem notável para que Ideribah o acompanhasse em sua comitiva, surpreendeu a todos, menos ao menino; que caminhou ao lado do Rei, sem sentir-se intimidado.
Fogos e chamas incandescentes reviraram olhos e fizeram estremecer os alicerces da terra sob os pés dos outros que acompanhavam o desenrolar da cena: O pequeno desconhecido sendo guindado ao status de acompanhante real!
Muitos procuraram se conformar, repetindo para si mesmos, que aquele garoto seria um passa tempo temporário para sua majestade.
Ledo engano.

Com o passar dos dias e das temporadas, o jovem adquiria pequenos; porém, continuados privilégios, junto ao Rei.
Passou a acompanhar nas caçadas, a acompanhar nas visitas à velha mãe do Rei; até mesmo ganhando de presente uma bola de croché, que ela mesma havia urdido. Com o tempo, passou a comer nos aposentos reais e aprendeu com o próprio Rei a manobrar, com segurança, o intrincado jogo de talheres e copos de cristal delicadíssimo. Assistia aos recitais reais, com a presença da jovem rainha; que o olhava com curiosidade, através de seus gigantescos olhos de ébano; apenas sorrindo para ele, as vezes e discretamente.
Acompanhava o setter real nos passeios matinais pelo jardim particular de sua majestade.

Pouco falava. Muito observava. Sabia que era odiado pela maioria daqueles fantasmas velhos e frios, vestidos em roupagem escura e carregando consigo sempre algum documento para assinatura do Rei. Sabia que era vigiado em tempo integral e, apesar de sua pouca experiência, naquele mundo fabricado de cristal, seda, essências aromáticas e espelhos bisotê; sabia que era invejado. Invejado por cada presente aceito e por cada olhar de aprovação que recebia da jovem rainha. Por ser alfabetizado por ela e aprender rapidamente. Por crescer saudavelmente e por se tornar um jovem assombrosamente bonito.


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O Negro Rei 4

Aquele fantasma feio e magricelas sempre se aproximava. Aquilo era insuportável. Seus olhos tinham uma cor enjoada, como cocô de bebê novo.
Sempre vinha com um sorriso boboca e oferecia alguma carne, acompanhada de uma espécie de raiz aferventada.
Aquele idiota soprava um instrumento perfurado, uma imitação pavorosa de um objeto de seu próprio povo. Muitos dos fantasmas gostavam de soprar e percurtir instrumentos, enquanto bebiam daquela água de gosto amargo e forte, além de cantar uns juntos com os outros.

Ele veio, certa vez; quando a noite ia alta. Importunando, chegando-se perto demais, querendo deitar-se junto. Quando aquele demônio fantasma tentou acariciar seu rosto o menino negro mordeu-o fortemente no nariz, até sentir o gosto metálico do sangue entre os próprios dentes.
Isso fez o boboca gritar como um macaco.
Nisso, o outro garoto fantasma, que odiava o menino preto com o olhar, veio para ver o que ocorria. Começou a praguejar e a chorar como uma menina pequena.

Quanta estupidez inútil e sem explicação!
Abraçou o magricelas como se aquilo importasse muito.
Por que um homem choraria pelo ferimento de outro homem? Ele não era mãe daquele ali!

Ambos o olharam com ar de fúria e o menor tentou atingi-lo com um golpe de sua mão fechada. Perdeu a chance e caiu de cara sobre a serpente de metal gigante enferrujada, com a qual prendiam o grande túmulo na água infinita.
O de nariz sangrento veio também e era mais rápido que o outro. Se atracou com o garoto preto, empurrando-o contra a amurada.
O outro garoto, que havia caído, estava agora de pé e tinha uma daquelas facas explosivas na mão, o que assustou o boboca de olhos de cocô.
-Não!
A explosão fez doer muito os ouvidos e fez sentir desnorteio. Sentiu-se cair. Havia sido empurrado pela amurada, caindo na água infinita!
De fato foi o garoto de olhos feios, que colocou o próprio corpo diante do seu e ao ter o peito atingido, ambos perderam o equilíbrio.
Só se recordava de ter engolido imensas quantidades de água salgada e de perder os sentidos.

Sons estranhos e um cheiro forte de maresia o fizeram acordar.
Estava em terra, quase que completamente nu e com o restante de seus estranhos trajes, suspensos em um arbusto. Próximo de onde estava, havia uma fogueira.
Alguém o havia resgatado.
Os gigantes intocáveis! Sua provação estaria terminada, diante dos deuses?
Olhou em volta; não sabia se o sol morria ou se nascia. Aquela maldita confusão permanecia? As estrelas estariam todas trocadas ainda?
Caminhou para o outro lado e chegou até uma elevação. Havia uma escada que dava para um piso que parecia de madeira. Idêntico ao piso do túmulo que tinha de molhar com aquela odiosa vasilha.

-Você acordou!

Teve um sobressalto quando escutou aquela voz áspera e desgastada a seu lado.
Não entendeu as palavras que um fantasma velho, surgido, sabe-se lá de onde, lhe dirigia.
Aquele homem parecia possuir mil idades... Era trêmulo e murcho como, uma folha ressequida. Ele não parecia enxergar, pois seus olhos eram estranhos, como se tivessem derretido.
-Você não fala? É mudo? Bem, eu sou cego... Formamos um a boa dupla, não é criança?
O velho trazia nas mãos um pote, que lhe ofereceu. Haviam lentilhas dentro. Aquele gesto do velho o fez recordar-se do garoto de olhos cor de cocô.
Olhou em torno. Queria poder perguntar ao velho como havia vindo parar ali. Mas não saberia falar aquela língua. Ou até saberia, mas não queria, de modo nenhum, experimentar.
-Louvado seja o Nosso Senhor Jesus Cristo! -Balbuciou o velho.
De quando em vez aqueles fantasmas diziam aquilo... Palavras sem sentido.
O menino comeu as lentilhas com avidez, enquanto olhava para os lados, sem parar. Não queria ser pego desprevenido em alguma armadilha.
Fugir. Só o que pensava era em fugir dali, na melhor oportunidade que tivesse. Mas fugir para onde? Que lugar estranho era aquele?
Suas mãos estavam com as palmas enrugadas e frias. Compreendeu que deveria descansar para se comunicar com os guias sagrados dos sonhos. E a fala monótona e incompreensível do velho, hora tossindo, hora rindo sozinho e assoando o próprio nariz numa zoeira sincopada, acabou lhe servindo como um poderoso sonífero.
  Quando despertou, não viu sinal do velhote. Ele havia desaparecido. Mas o menino estava novamente com suas estranhas roupas colocadas no corpo. Como era possível?
Tratou de caminhar para fora daquele território. Andou cuidadoso, esgueirando-se por locais em que não poderia ser visto.
Num certo ponto avistou um entreposto comercial apinhado de pessoas. Muitos eram parecidos com os fantasmas embonecados cobertos de pedras de todas as cores que visitavam o grande túmulo. Mas ali não havia ninguém de seu povo.
Havia imensa quantidade de caixotes sendo transportados de outros túmulos para a terra. Alguns eram colocados em carroças puxadas por bestas, outros eram abertos e tinham seu conteúdo exposto: Tecidos de trama colorida e brilhante, facas explosivas de diversos tamanhos, coisas e mais coisas, gente e mais gente. Gente feia, barulhenta e falando sem parar.
Olhou para várias direções; animais esquisitos, cantoria, mulheres ou o que fosse aquilo, com a cara pintada. Garrafas rolando, homens se atracando, sangue se espalhando. Guerreiros imponentes, montados em bestas, espancando aquela gente com seus rebenques muito finos e frenéticos.
Prosseguiu esgueirando-se e se mantendo a salvo em pequenas cavernas com cheiro ruim, que ficavam abaixo do local por onde trotavam as pessoas e as carroças.
Viu meia dúzia de famílias fantasma com mães e filhos parados no meio do nada e com as mãos estendidas para homens e mulheres que passavam. Sentiu uma dor funda ao ver aquelas pessoas.

Seu olhar era parecido com o olhar de agonia de seu povo dentro do grande túmulo...
Olhou para o alto e viu a coisa mais inacreditável e estranha de toda a sua vida. Uma torre infinita que se erguia como os gigantes intocáveis que o visitavam em sonhos. Tão altas e espetaculares que chegou a sentir tontura ao olhar para cima. Mas quando o ar ficou mais limpo e transparente, quase chorou ao constatar que aquelas torres estavam por toda a parte. Não apenas compridas e magras, mas também arredondadas, gemuladas, douradas e brancas; de marfim como as presas do maior animal sagrado. E no alto, flâmulas da cor do céu com desenhos cintilantes davam ainda mais encanto aquele mundo tão estranho.
Quando ficou mais escuro, sentiu o estômago apertar de vazio.
Não se atrevera a sair de seu esconderijo para caçar, durante a luz do dia e agora vinha até ele um aroma parecido com o da sopa e da carne, que era servido no grande túmulo.
Num local não muito afastado, fardos e mais fardos eram colocados em carroções, junto à carne salgada e a botelhas da bebida amarga; aquela da qual os fantasmas costumavam gostar...
Aproveitou o descuido de um dos homens, que voltara a outra direção, para buscar mais mantimentos e arrancou um naco da carne. Mastigou raízes e também frutas. Olhou uma das botelhas e com a sede que sentia, devido o sal da carne, virou na própria garganta goles generosos da bebida amarga do conteúdo.
Alguém se aproximava e ele já não tinha tempo de correr de volta para sua caverninha secreta. Sobre os mantimentos da carroça havia uma couraça de animal encobrindo tudo. Pensou rápido. Esgueirou-se por baixo da cobertura, mantendo-se incógnito. Mas quando alguém subiu próximo a seu lado e o veículo começou a se mover, sentiu verdadeiro pânico...



quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O Negro Rei (3)

De fato o que ocorreu foi que o tempo se estendia, enquanto o menino se transformava de exótica curiosidade em mais um agregado, praticamente comum como qualquer outro.
Era arredio à aproximação e não emitia um único som em sua fala; nem mesmo chorou ao ferir-se acidentalmente com as brasas de um dos fogões.
Escondeu o ferimento até que cicatrizasse sozinho. Mais uma cicatriz das tantas que havia recebido em seu pequeno corpo imberbe e das quais a maioria desconhecia.

De quanto ódio os homens fantasma são capazes!

 Quanta tortura e morte eram capazes contra crianças e contra meninas.  
Parte do horror que vivera e testemunhara, se apagava no breu de sua memória. Defesa de sua sanidade. O que permanecia era o cheiro de suor humano; contato de corpos trêmulos contra o seu, pequeno e sufocado; sol e noite com os mesmos solavancos que o tonteavam e as palavras murmuradas em falas diferentes que, ele sabia, buscavam pela mágica salvadora dos gigantes intocáveis.
Mas não havia ali, naquela prisão, a raiz azeda e nem a pedra azulada que o grande sábio usava, não havia a canção secreta e nem o leite da mãe do jaguar que faria com que todos dançassem. Não havia como se comunicar com os sagrados gigantes intocáveis...
Ali, naquele sepulcro ruidoso, seu pequeno coração de menino esbordoava seu peito como se quisesse rompê-lo e fazê-lo em pedaços... Ali, os pesadelos que tinha, quando seu corpo extenuado e dolorido desligava-se, se fundiam com a realidade. E isso era tudo o que havia. Estava condenado. Não veria mais suas queridas mães, sabia que nunca mais as abraçaria...
Se aquele suplício serviria para engrandecê-lo diante dos gigantes intocáveis, preferia morrer. Pediria a eles que retomassem dele o sopro e que entregassem suas cinzas a mais velha das mães. Era a ela que pertencia; pois ela era a terra. O princípio de tudo. Queria tornar-se o silêncio das montanhas...

  As falas daqueles monstros! Suas caras feias, fétidas e de dentes podres! Os olhos sem cor! O pavor do látego com que ameaçavam meninas.
Meninas foram maltratadas por aqueles demônios e levadas para não mais voltar. Agora ele sabia; foram lançadas na água infinita! Sem que seus espíritos recebessem os rituais sagrados devidos, que as conduziria para junto dos seus no Orum.
Desespero. Seus antepassados ficariam sem encontrar suas filhas; seus corpos seriam devorados por bestas amaldiçoadas da água infinita. Destino apenas dado a criminosos! E isso por culpa dos imundos homens fantasma...

No dia em que o retiraram do porão da embarcação, seus olhos doeram pelo brilho.
Custou para acostumar-se à claridade e sua cabeça também não parava de doer, enquanto um dos fantasmas, o mais medonho e fedorento de todos, gritava e o derrubava com sopapos.
Sentia o corpo fatigado demais e acreditava que nunca mais conseguiria voltar a andar.
Deram-lhe então uma sopa de gosto forte que, aos poucos, lhe devolveu as forças.
Aquela língua horrível de sons guturais, chiado indecente e feioso, lhe parecia maldita. Uma sujidade espúria dos mundos solitários dos caminhantes sem espírito. Demorou até compreender o que queriam que fizesse.
Por fim, compreendeu que deveria descer um vasilhame até a água infinita e enchê-lo para depois molhar o madeirame em que pisavam. Aquela parecia uma medida importante que devia cumprir várias vezes e a intervalos curtos.
Não saberia contar quantas vezes repetia a tarefa e em alguns momentos tinha a companhia de um jovem que lhe dardejava um olhar de verdadeiro ódio. 
Não sabia, mas o jovem em questão era um grumete, uma espécie de marinheiro aprendiz que tinha tarefas demais a cumprir não conseguindo dar conta de todas elas. A decisão por colocarem um menino escravo par ajudá-lo lhe pareceu humilhante. Queria provar a todos que era bom o suficiente e que não precisava da ajuda de um fracote daqueles. Mas a decisão havia sido tomada. Era de vital importância manter o convés encharcado adequadamente ou o madeirame todo empenaria. Sabia que era sua última chance naquela embarcação...
A princípio pensaram que não sobreviveria; mas até que era forte para seu tamanho. Não falava, mas era atento; prestava atenção aos detalhes e aprendia depressa. Já sabia, em pouquíssimo tempo, dois ou três tipos de nós de marinheiro. Isso, só observando os mais velhos! E o jovem grumete, aflito, sabia serem esses os mais difíceis, além do que, ele próprio, talvez jamais conseguisse aprender a fazer um único decente!
O menino preto estava sim, aos poucos, caindo nas graças da tripulação. Já subia na gávea com segurança e ao avistar algum cardume, descia e lançava uma tarrafa, feita por ele mesmo e capturava  o próprio almoço. O jovem grumete até o flagrou engolindo uma lagartixa! Não passaria fome aquele ali.
As coisas não iam bem mesmo... E pioraram ainda mais, quando o grumete mor, com os olhos mais verdes que o atol mais bonito, passou a olhar com paixão para aquele fedelho retinto! O coração do jovem grumete despedaçava-se cada vez que percebia seu amado aproximar-se do menino, sorrir-lhe e dividir com ele a própria comida!

O menino odiava todos aqueles demônios, mas com o tempo passou a amar o perfume do mar e o movimento da dança da água infinita. Viu que os fantasmas também cantavam e rezavam a seus intocáveis de alguma maneira estranha. E que precisavam comer e defecar como qualquer animal de sua terra. Seu pelos também se soltavam e algumas vezes viu os menores chorando como bebês... Sentiam fome e sede e ainda por cima, pescavam!
Nas sucessivas terras em que atracavam o grande túmulo, dezenas dos de seu povo eram levados. Com os ossos aflorando de suas peles, tropeçando, por vezes caindo, alguns até agonizando e morrendo, eram a imagem mais triste de toda sua vida. Horripilante e dolorosa demais...
Vinham até o grande túmulo fantasmas com rosto pintado e com gemas brilhantes nas mãos e no peito. Mas nenhum tinha alguma pedra azulada como a do sábio e muito menos um manto de pele de jaguar.
Ao garoto não foi permitido se juntar a seu povo na peregrinação para fora e no destino desconhecido que os aguardava. Deram-lhe uma surra, quando correu para se juntar a eles e ele chorou, mas não pela dor do espancamento.
Chorou por ser tão fraco e por não poder matar todos os fantasmas.
Matá-los, arrancar suas cabeças nojentas, cuspir e mijar em cada uma delas! Estripá-los devagar; e fazê-los sangrar de cabeça para baixo e então puxar suas vísceras lentamente e fazendo-os assistir a sua própria evisceração.
Ah! Como seria glorioso encobrir seus narizes e obrigá-los a engolir brasas vivas. Atirar seus filhotes imundos e brancos aos cachorros... Pisotear os que sobrevivessem ao acaso!
Seu ódio era tanto que mal conseguia respirar. Ficou sem comida um dia inteiro e não obedecia aos chutes e nem ao chicote. Mas algo brilhou em sua mente de uma hora para outra. Tinha que sobreviver. Tinha que crescer. Tinha que juntar forças para um dia esmagar e destruir todos aqueles demônios sujos!

Quando as estrelas mudaram de posição, tudo ficou cinza e azulado. Não havia ar cálido, pois ele agora machucava sua pele e fazia os ossos doer.
Seu corpo tremeu de maneira esquisita, como nunca antes. Era devido aquele ar estranho gélido e cinza. Sentiu medo que aquilo pudesse transformá-lo em fantasma também! Então lhe jogaram por cima um capote pesado.
Nunca vira aquilo.
Parecia com a indumentária dos monstros e ele se recusava a colocar; nem sabia como faria.
Aquilo era confuso e não tinha jeito.
Vestiram-no os próprios fantasmas, mas ele não entendeu como o fizeram. Seus braços foram envolvidos por aquelas coisas que eram como cilindros. Eram molengas e davam coceira.
Respirar feria seu peito; pois o ar congelante cortava por dentro e sua respiração saia em lufadas de fumaça trêmula e branca como as mãos os fantasmas.